AC/DC – Fly on the Wall "Let There Be Rock", praia e "De Volta para o Futuro"

In Discos

Ramones, Motörhead e AC/DC. Essa é a trinca que muitos amam e poucos outros não gostam. O que é estranho, mas é gosto. A primeira habita algumas vitrines de lojas de departamento e seu logo virou a vestimenta oficial de uma parte da juventude que quer se valer de alguma rebeldia. A segunda marca presença em parte das vitrines das lojas mais descoladas do nosso Brasilsão e o AC/DC não escapa ileso, mas ainda assim mantém aquele cantinho especial nos corações de fãs mais devotos.

A minha relação com o AC/DC começa de um jeito meio bizarro, no bom sentido, precisamente em 85, ano do primeiro Rock in Rio. Ainda lembro da magia que foi ver aqueles shows pela TV e parte dessa mágica foi evocada por esses loucos australianos liderados pelo incansável e talentoso Angus Young. Alguns poucos anos depois, viajei com meus pais para Boiçucanga, litoral norte de São Paulo, e é aí que a história começa a ganhar corpo e alguns bons riffs.


O local era como um desses complexos de chalés e em uma das áreas de lazer em comum, tinha uma sala de projeção. Um mini-cinema, mesmo. Nela eram reproduzidos alguns filmes para quem estivesse hospedado e, como em um golpe de sorte da vida, um dos que estaria em cartaz era um do AC/DC, o Let There Be Rock. Refém da ansiedade acentuada pela pouca idade, duas horas antes eu estava de banho tomado, cabelo penteado e já tinha escolhido uma roupa adequada para o evento. Eu estava pronto para ver o filme de uma banda de rock pesado. É, naquela época era tudo rock pesado. De Venom a Icon, passando por Slayer, Ratt e AC/DC.

Quando me dei conta já estava na porta do mini-cinema. Uma caminhada de 5 minutos parecia ter durado uma hora. Eu era literalmente uma criança que estava recebendo um novo brinquedo, só que esse brinquedo era uma banda heavy metal. Entrei e a sala estava bem vazia, tinha eu e mais cinco ou seis pessoas. Na minha cabeça aquilo era absurdo. Primeiro que, no Brasil, era muito fora da realidade sequer imaginar um filme de rock passando no cinema. Até os shows eram escassos. Segundo que, tendo a chance de assistir a um filme do AC/DC, pra mim não fazia o menor sentido priorizar uma tarde de sol na praia. Pena não haver registros da minha cara nesse dia. Só lembranças de sensações e da grandeza de uma nova descoberta em ver pela primeira vez como aqueles caras tocavam, se mexiam e a confirmação de que eles eram uma banda que existia de fato.


Passado um tempo ganhei dos meus pais o “Fly on the Wall”, meu primeiro LP do AC/DC e que em 2015, completou seus 30 anos de serviços prestados ao rock. Ouvi esse disco à exaustão. É uma lembrança quase tátil da poeira no disco, a leitura do encarte, a cor da parede, a cortina da sala e o sofá onde eu ficava escutando, aprendendo e assemelhando aquela aula de rock por longas e longas horas. Não existia internet pra você procurar outras bandas e conhecer novos nomes. Isso então, fazia com que você escutasse várias vezes o mesmo disco durante o dia criando um elo entre você e a banda.

Talvez esse seja um daqueles casos em que eu posso ter sido traído pela tal memória afetiva, mas pra mim, “Fly on the Wall” é realmente um bom disco subestimado por boa parte do público. É um álbum pesado, com ótimas músicas e aquela vitalidade típica de uma banda forjada na estrada e conservada no álcool y otras cositas más.

Pela crítica, foi um disco mal recebido. Em vendas, fraco. Pudera, já que ele sucede nada mais, nada menos que Back in Black, For Those About to Rock (We Salute You) Flick of the Switch, sem falar nos anteriores, clássicos absolutos sob a voz do gigante dos gigantes, Bon Scott. Mas tá tudo lá. As letras sacanas acompanhada dos riffs rockeirões dos irmãos Young, que aprenderam direitinho o caminho entre os becos e vielas do rock guiados pelo seu irmão mais velho, George, que tocou no Easybeats e deixou uma boa referência para Malcom e Angus Young. Os backing vocals alinhadíssimos também estão presentes somados a uma novidade, a entrada de Simon Wright na bateria que trouxe muito mais peso para essa nova fase da banda.


A energia que explode das caixas já na primeira música que dá nome ao disco é algo inexplicável e até hoje emociona. “Shake your Foundations”, “Stand up”, “Sink the Pink” e a maravilhosa e compassada “Danger” são apenas alguns exemplos, mas o disco todo traz a marca registrada do AC/DC: a atitude genuína que só tem quem respira e transpira rock.

Curiosidade número um. Na época em que esse LP apareceu em casa, existia um álbum de figurinhas, Rock Stamp ou Stamp Color, e colei uma do Angus Young na contracapa do vinil. Coisa de moleque, mas ela tá lá colada até hoje.

Curiosidade número dois. Existia um VHS promocional desse disco que vinha com um mini documentário com uma história que, claro, acontecia em um bar desses bem detonados. Tinha um palco e os caras ficavam lá tocando e as músicas servindo de trilha para o roteiro. A fita tinha cinco músicas: “Fly on the Wall”, “Danger”, “Sink the Pink”, “Stand Up” e “Shake Your Foundations”.

“Eu odeio o Fly On The Wall. heheheh. Na verdade, não gosto daquela situação que o AC/DC e várias outras bandas passaram nos anos 80, com relação aos timbres. Mas, curto muito as canções. Shake Your Foundations, Stand Up e tal. Foi o primeiro disco do AC/DC que eu tive. Ganhei da minha mãe de Natal. Foi meio frustrante, porque eu queria o Jailbreak que, apesar de ser um EP com coisas de 1974, foi lançado no Brasil em 1985, talvez por conta do Rock in Rio. Quando chegou a noite de véspera de Natal, minha mãe apareceu com o Fly On The Wall. E eu sou viúva do Bon Scott, ainda não elaborei esse luto direito. O Brian é super boa praça, gente finíssima, foi extremamente atencioso quando eu o conheci, em 1996. Mas é foda. Ainda não superei a morte do Bon. De qualquer maneira, meu Fly On The Wall continua guardadinho aqui. Me lembro que na época desse disco, saiu aquele video promocional aonde eles dublavam as músicas num barzinho e tinha roteirinho, uma historinha e tal. Já notou uma coisa? O AC/DC não toca nenhuma música desse disco no repertório das turnês. Deve ter alguma razão. Talvez, eu não esteja errado”.
(Daniel Daibem – guitarrista).

“A primeira vez que ouvi algo desse disco foi o clipe de Shake Your Foundations, que passava vez ou outra na MTV. Depois caiu na minha mão aquele VHS do Fly on the Wall que tinha uma historinha com quatro músicas do disco. Eu assistia e achava animal ver a banda tocando num bar sujão, só pra umas 10 pessoas. Me ajudou a formar esse meu pensamento de que a gente deve tocar do mesmo jeito em qualquer lugar, independente de quantas pessoas estejam assistindo e com qualquer equipamento, sem frescuras”.
(Barata – baterista TEST)