Assück A estética furiosa que reverberou no underground dos anos 90

In Bandas

De forma rasa e simplória, o grindcore pode ser visto como algo adolescente, birrento, uma simples gritaria, puro barulho. Mas o grind é a ruptura com a estética, as normas, a simetria e com a própria música. A poesia do grind está na anti-música.

Mais que agredir os ouvidos, o grind é também sobre gritar, gritar e gritar até que se faça ouvir. Na marra, sem aviso prévio. Um grito urgente que só faria sentido se fosse conduzido por algo tão veloz quanto o discurso que, no espaço de alguns instantes,  precisa ser entregue sob uma potência de bpm (batidas por minuto) elevada.

Assuck2E lá atrás, dentro daquele então novo enquadramento, algumas bandas surgiram e deixaram sua marca independentemente do seu tempo em atividade. Agathocles (Theatric Symbolisation of Life fez a cabeça dos brasileiros), Fear Of God, Sore Throat, SOB, Terrorizer, Napalm Death, Filthy Christians e o grande Repulsion foram algumas delas. No início de tudo, essa era a nata do grind. Mas um outro nome ajudou a povoar o ruidoso início da criativa década de 90: o Assück, uma banda formada em 1998, na Flórida (EUA).

O Assück durou pouco, de 1987 a 1998. Foi tão meteórico quanto a velocidade com que alastrava seu grind violento. Onze anos de desgraceira, como a gente costumava falar.

Entre oito lançamentos, apenas dois eram álbuns completos. O restante eram EPs, splits, compactos e uma coletânea lançada em 1994.

Assuck33O Assück era uma banda que tinha uma certa dose de magia. Uma força que fazia com que a mensagem, de ângulo esquerdista, e a música andassem juntas. No grindcore, poucas bandas foram capazes de dominar uma fusão de estilos dentro de suas próprias criações. Outros tantos também não conseguiram mostrar essa fusão de forma coerente. O Assück conseguia as duas coisas e um pouco mais. Hardcore, crust, death metal, thrash e grindcore. Tá tudo lá no primeiro e no segundo disco da banda. Anticapital e Misery Index, respectivamente. Duas obras do alto escalão do grind.

O primeiro, em pouco mais de 15 minutos e suas 17 músicas, é nutrido de peso, velocidade e andamentos criativos. Anticapital é a equação perfeita entre o discurso politizado, a fúria do grind e a produção de com a cara das bandas de death metal. Em “World of Confusion”, nossa preferida do disco, os urros finais expurgam um trecho bem representativo dos temas abordados pela banda: In this world we all lose to the politics of lies.

Mas ouça “October Revolution”, “Civilization Comes, Civilization Goes” e você vai entender melhor o que falamos um pouco mais acima sobre a arte de equilibrar as referências. Vale dizer também que, embora seu nome seja pouco mencionado, Rob Proctor é sem dúvida alguma um dos melhores bateristas de metal daquela fase e isso também fica claro em cada uma das músicas de Anticapital.

Misery Index, o segundo disco, foi lançado em 1997 e traz o guitarrista Steve Heritage também nos vocais, já que Paul Pavlovich deixou a banda em 1992. Com Jason Crittendon no baixo e Rob Proctor na bateria, a banda continuava afiada.

Menos cirúrgico que o anterior, Misery Index é um disco que, ao mesmo tempo que abusa mais dos riffs tortos, também soa menos inventivo. Mas não se engane, ele mantém intacta a assinatura de uma das melhores e mais completas bandas de grind que esse mundo já viu e ouviu, só que dessa vez em um resultado mais sujo e próximo do metal.

Misery Index é repleto de músicas muito poderosas, encharcadas de dissonâncias e que depois parecem ter passado por um processo de ressecamento em um turbilhão de fúria desenfreada. Talvez por isso ele soe mais gelado que o primeiro disco da banda, mas igualmente feroz. “Slat Mine”, “Talon of Dominion” e “Wartorn” são alguns exemplos desse conteúdo.

Foto: Coffin Jon
Foto: Coffin Jon

Trazer o Assück para os dias de hoje e oferecer esse registro são uma baita alegria, já que a banda fez e ainda faz parte dos nossos dias e da construção de todo um movimento que reverbera ainda próximo e atuante. O grind tá aí. No submundo, nas garagens, nas esquinas e ele grita, desconstrói e se mantém anti.

Na década de 90 a música realmente precisava ir além. E o grind foi. Rompeu, atormentou e musicou uma inquietude que fervia dentro de quem precisava dar nome àquilo. Uma erupção energética apressada e livre onde o Assück deixou sua assinatura definitiva.