Entrevista: KzR Bölzer

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Algumas bandas transcendem os diferentes estágios de compreensão. De primeira, não soam muito fáceis, mas transmitem aquela sensação de que algo ali é especial e causam algum tipo de espanto, ruptura ou estranheza instigante. 
O Bölzer, formado por KzR (guitarra/vocal) e HzR (bateria), passeia por um universo turvo e de poucas cores. São parte de um mundo onde as dualidades são trazidas até a superfície e submergem em riffs criativos e hipnóticos que traduzem bem a catarse em cada um deles.

Primitivo, denso e amargo. Talvez isso defina por alto o que te espera. O duo, que vem da distante Suíça, pátria de bandas importantíssimas como Celtic Frost, Messiah, Samael e até Krokus, não parece estar muito preocupado com o destino, mas sim com o trajeto de uma viagem fria e obstinada. Roman Acupuncture (demo, 2012), Aura (EP, 2013) e Soma (EP, 2014). Essa foi a trinca responsável por transformá-los em uma de nossas melhores descobertas dos últimos anos.

O Bölzer veio para mostrar que, em cada dimensão, existem diferentes tons dentro de uma escuridão que só você pode reconhecer. Ou renegar. Conheça mais sobre o duo na nossa entrevista exclusiva com o KzR:

Sounds Like Us: A primeira coisa que me veio na cabeça quando escutei a demo de vocês foi “que honestidade visceral”. Depois vieram os dois EPs e passei semanas escutando ambos, todos os dias. Há algum tempo isso não acontecia, porque parece que hoje em dia há um direcionamento em adotar fórmulas. O Bölzer vai contra isso porque respeita sua integridade, mas desrespeita seus próprios limites de criação, o que é bom. Você consegue se lembrar o que fez você querer montar a banda e o queria conquistar com ela?
KzR: Com a idade eu fui tendo consciência de que existe algo primitivo dentro de mim que eu preciso apaziguar ou pelo menos admitir um desejo de dar voz a uma parte do meu interior frequentemente além do meu reconhecimento, mas ainda assim muito familiar para mim. A música tem sido o canal para que eu possa fazer isso.

Curiosamente, depois da formação da banda, HzR e eu tentamos iniciar um projeto que foi claramente contra essas tendências, brincando com ideias mais reminiscentes de gêneros com que realmente tínhamos pouca afinidade. Eu estava buscando uma mudança na expressão criativa ao deixar minha banda de muitos anos na Nova Zelândia e de ter meio que desistido de colocar tanta energia, como eu sempre tinha colocado, na música. Agora eu sei que nunca poderia fazer uma coisa dessas. Mas com o tempo, nossos ensaios começaram a ter um tom mais familiar e uma forma, e eu retornei a um estado inspirado de criatividade. Basicamente percebemos o que estava acontecendo e sempre seguimos nossos instintos na hora de compor e de decidir as coisas.

Sounds: Os dois Eps são criações conceituais, certo? Aura é focado na alma masculina. Já Soma, no lado feminino. Você pode contar mais pra gente sobre essas divisões e por que escolheu esses conceitos? Vocês pretendem seguir com algo conceitual para o próximo disco?
KzR:
Por muito tempo eu venho servindo a dualidade, uma ideia que exerceu um papel durante grande parte da minha adolescência, sem eu ter percebido. Sou guiado por ataques impulsivos e uma potente reverência de vocação atávica, muitas vezes sem saber quais necessidades ou forças são responsáveis até que eu tenha sofrido as cicatrizes.

Falo e vulva, sol e lua, sangue e ferro são como uma tela para que o que não é. Sou nascido de dois, sou o terceiro. Então, nesse sentido, eles são mais uma necessidade do que uma abordagem pretendida. O próximo disco servirá a essa intenção fielmente… uma dançarina de espadas em um entardecer fosforescente.


Sounds: Os dois EPs são semelhantes na sonoridade, e diferentes na construção das músicas. Soma me passa uma sensação mais pungente e desesperadora enquanto o Aura é como o silêncio como prenúncio do desespero. Isso faz com que ambos se sustentem separadamente, mas juntos, parecem dar vida a um terceiro elemento mais forte. Isso é algo planejado? Quando compõem um disco, já imaginam como ele vai se relacionar com a discografia?
KzR: Sim, você tem uma percepção muito precisa do que pretendíamos com eles. Como disse anteriormente, praticamente não houve planejamento para os EPs. O material ficou pronto à sua maneira, embora algumas orientações temáticas e estéticas foram e sempre são honradas dentro do nosso trabalho. O próximo álbum é resultado tanto do AURA como do SOMA, como podemos defini-los.

Sounds: A linha estética da banda é bem forte. Eu acho legal porque em tudo há uma comunicação estreita que fortalece a mensagem final, que é a música. Onde vocês buscaram inspiração ou referências para construir uma marca tão forte quanto a música que vocês fazem? Vocês mesmos que cuidam de toda essa parte?
KzR: Obrigado. Muitos vão dizer que a beleza está no olho de quem vê, mas eu também arriscaria dizer que há certas constantes presentes, como em qualquer categorização sistemática de estímulos, empíricos ou não. Dito isto, eu simplesmente inicio o que eu sinto ser correto ou estimulante, com todos os ajustes necessários, dando um meio para aquilo que vive na minha mente. Consequentemente, nós mesmos conceituamos a maioria dos elementos visuais utilizados, já que os consideramos componentes cruciais da obra na sua totalidade e, portanto, uma extensão direta da nossa visão.

Sounds: É comum no metal extremo as bandas reciclarem suas próprias ideias e abordarem temas repetitivos como satã ou corpos decepados. Até aí tudo bem, é uma opção válida e não cabe a mim julgar, mas acho interessante que vocês foram por outro caminho buscando novas abordagens e assuntos menos óbvios dentro do estilo. Isso é um movimento pensado?
KzR: Eu escrevo o que devo dizer e o que eu sou capaz. Não tenho absolutamente nenhum interesse em restringir-me a temas pré-ordenados, como religião ou política, e nem tenho desejo de escrever minhas fantasias homicidas, por mais tentador que isso possa ser! Sou fascinado pela relevância arquetípica de crenças do passado, bem como pela honestidade visceral (para citar suas belas palavras) da antiguidade. Gosto de ver a expressão lírica como um exercício alegre, porém trabalhoso, no qual eu posso dar à minha imaginação algum espaço para experimentações.


Sounds: Não dá para limitar a música de vocês e dizer que o Bölzer é death metal, black metal ou qualquer outra coisa. Você acredita que exista um mundo só de vocês? Qual o passaporte para que mais e mais pessoas possam fazer parte e conhecer esse mundo de perto?
KzR: Eu realmente nunca vejo minha música a partir dessa perspectiva… acho que estamos no meio dos poucos que querem realizar um chamado interno, em oposição a nos expressar nos confinamentos da expectativa e da imagem, o que é mais frequente em um gênero ou “cena”. Eu toco música porque é o que eu estou impulsionado a fazer. Se as pessoas gostam do que eu faço e sou afortunado o suficiente para pagar um pouco do meu sustento com shows, eu não vou reclamar.
Eu não sei muito bem o que você quer dizer com acesso ao nosso mundo. Eu acho que ou você sente a música ou não.

Sounds: Sendo vocês um duo, creio que seja um desafio maior fazer com que as músicas soem poderosas ao vivo. Como é esse processo? Você usa algum tipo de equipamento diferente nos shows para que as músicas emitam a mesma energia que rola em estúdio?
KzR: Começamos a construir o nosso repertório como um duo desde o início, garantindo que as músicas se sustentassem sonoramente. Estou bem acostumado a escrever como único guitarrista, pois minha banda anterior era um trio e eu sempre gostei de criar “grandes” riffs. Agora compenso a falta de graves com uma POG 2 Octave Generator e alguma compressão. A intenção não é tentar emular um baixo, mas sim dar à minha guitarra a amplitude tonal necessária para que as músicas não sofram. Nossa configuração é mais ou menos a mesma ao vivo e no studio, com exceção da guitarras, que são gravadas separadamente.


Sounds: Onde você nasceu e onde vive atualmente? Como os locais em que viveu te afetaram musicalmente?
KzR: Nasci em Zurique, na Suíça, onde moro atualmente, embora tenha passado a maior parte da minha vida na Nova Zelândia, que certamente desempenhou um papel motivacional na minha música. É um país isolado geográfica e culturalmente, muitas vezes dando aos artistas um pouco mais do que uma tela neutra. Essa é uma mentalidade DIY comum por ter visto a NZ produzir alguns músicos / artistas muito originais ao longo dos anos.
Acho que lá senti um alto senso de independência durante meus anos criativos, já que eu basicamente tinha colegas músicos e suas bandas como um ponto de referência e/ou inspiração, o que era um sentimento muito especial. Isso não quer dizer que eu não tenha prosperado no ambiente europeu, é simplesmente um clima criativo diferente. Dadas as inúmeras bandas ativas dentro das cenas, o critério de qualidade pode facilmente se tornar borrado ou diluído pelos esmagadores e frequentemente deslumbrantes números de abundância.

Sounds: Existe algo que você gostaria que as pessoas vissem na sua música mas que até hoje ninguém percebeu?
KzR: Algumas sutilezas, mas eu não vejo qualquer benefício em serem mencionadas.

Sounds: Como eu disse no início, passei algumas semanas escutando praticamente todos os dias os dois EPs, Aura e Soma. Alguma banda já causou essa sensação em você? Qual?
KzR: Claro! Mas tem sido muitas ao longo dos anos, e mais uma vez eu não acho que seja necessário citá-las. Espero que você entenda meu ponto de vista.