Brutal Truth Os 25 anos de 'Extreme Conditions Demand Extreme Responses'

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A maturidade é realmente uma solução. E se é depois dos 25 anos que ela começa a dar as caras, Extreme Conditions Demand Extreme Responses, o primeiro disco do Brutal Truth – a então nova banda de Dan Lilker – amadureceu muito bem.

Em 1992, nossa visão de grindcore era jovem e preenchida por nomes como Righteous Pigs, Napalm Death, S.O.B, Terrorizer ou Repulsion. Na mesma época, o death metal era um terreno fértil dividido entre o que era feito na Suécia, Inglaterra e Estados Unidos.

Ainda no mesmo ano, uma fita k7 com a gravação de Extreme Conditions… rodou bastante nos velhos toca-fitas.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Tinha aquela produção que indicava para o death da época. Um som de guitarra com gosto da primeira metade da década de 90, próximo do IV Crusade, do Bolt Thrower; do Harmony Corruption, do Napalm Death e do Dreams of the Carrion Kind, do Desincarnate, por exemplo. Mas Extreme Conditions… era extremo demais para ser considerado death metal. Por outro lado, trazia os elementos inflamáveis do grind, mas com pretensões e capacidades que também iam além disso.

Após 25 anos do seu lançamento, é fato: Extreme Conditions… provocou, com a ajuda de outras bandas, claro, uma dilatação nas fronteiras da música extrema. Sem dúvida foi um dos responsáveis por plantar uma semente que pouco tempo depois levaria o grind para níveis ainda mais complexos, abrangentes e até experimentais. Extreme Conditions… preparou o terreno para que outros discos também ajudassem a instituir os pilares do que seria o grind dali em diante.

O que o Brutal Truth iniciou com seu disco de estreia foi reforçado tempos depois com o lançamento de Need To Control, o segundo disco da banda e uma validação da forma rica com que o estilo amadureceu.

Dan LilkerEm uma análise mais aprofundada, dá pra dizer que o Brutal Truth representa o alinhamento de Dan Lilker com todos os pontos da música extrema. Do punk ao grind/noise. O Brutal Truth é a intersecção onde Lilker, uma figura tão importante para o metal, construiu uma liberdade que suas outras bandas não permitiam que existisse. Aqui ele pôde trafegar pelo death metal, doom, crust, hardcore, punk, noise e claro, o grind.

Antes do encontro com Kevin Sharp (vocal), Brent “Gurn” McCarty (guitarra) e Scott Lewis (bateria), Lilker, além de ter vivido bem de perto toda cena punk/hardcore de Nova Iorque, gravou o primeiro disco do Anthrax, uniu forças ao S.O.D e encabeçou uma de nossas bandas preferidas, o Nuclear Assalut. Isso sem falar no Exit 13, Venomous Concept e outras tantas.

Em um paralelo com a atualidade, Extreme Conditions… é praticamente uma declaração do recorte em que nossos dias se encontram. Uma solução inerente a um extremismo sintetizado na frase que batizou um dos melhores discos da música extrema.

Depois da introdução com “P.S.P.I”, “Birth of Ignorance”, em meio a uma levada muito Bolt Thrower, é declarado: A life of hate is useless / You don’t have a cause / Breeding hate with no excuse / Starting racial wars / Religion teaching lies / Hypnosis of the weak / Believing false prophets / Slaughtering the meek. E que riff! Convidativo, forte, marcante. Em seus quase 3:30, “Birth of Ignorance” tem muita velocidade, solos dissonantes, vocais ríspidos e muita energia. Ou seja, um ótimo enunciado.

Depois dela, “Stench of Prophet” entrega a força didática que o Terrorizer exerceu em dez entre dez bandas de grind que vieram depois do estatuto World Downfall.

São inúmeros os destaques. Na verdade todo o disco é incrível. “Collateral Damage” é um dos pontos que confirmam o domínio que o Brutal Truth tem da velocidade. A música ganhou um clipe que entrou para o Guiness Book como o vídeo mais curto da história. Depois dela, “Time” liberta uma porção de death metal  antes de descambarem para um sludge cadenciado e lamacento, mostrando que nem só da velocidade vive o Brutal Truth.

Extreme Conditions… é um posicionamento repleto de mensagens que em 1992 já se mostravam relevante. Seja contra a homofobia, como na literal “Anti – Homophobe”, provocando reflexões sobre a procura por viver e pensar por nós mesmos,  como em “Walking Corpse” ou contra grandes corporações interessadas no lucro, seja qual for o preço a ser pago por isso – é a mensagem trazida em “Monetary Grain”: Corruption of power / Leads into darkness… Monetary gain / Profit from pain.

Extreme Conditions… é sim um disco de grind, e este, como um legítimo descendente do punk, tem um papel que vai além da anti-música como forma de expressão e rompimento com qualquer estética padrão. O grind explora mensagens que precisam ser comunicadas. Vai além de expurgar violentamente nossa condição ou a falta dela, nossos direitos ou a falta deles, nossas revoltas e contestações. O grind diz muito sobre o que a gente é e para onde queremos ir.

Brutal01Talvez por isso, do nome ao conteúdo, Extreme Conditions Demand Extreme Responses faça tanto sentido 25 anos depois. A explosão à velocidade da luz pede uma solução tão urgente quanto a música que ele entrega.

Pra finalizar, é engraçado como em determinadas épocas da nossa vida, algumas bandas representam com fidelidade nosso humor, estado de espírito, crescimento, desafios, imaturidade, maturidade, direcionamentos, crenças, angústias, desejos. Com certeza, lá em 1992, Extreme Conditions Demand Extreme Responses era um bom recorte da nossa urgência adolescente. Hoje, em 2017, ele é o retrato da nossa maturidade. Uma constatação de que as mensagens que estão aí há mais de duas décadas, ainda não deram muito certo e por isso, precisam ser revisitadas.

Foto: Divulgação Earache
Foto: Divulgação Earache