Daughters Caos e zero apaziguamento no nosso disco favorito desse quarteto americano

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Em 2010, o Dillinger Escape Plan lançou o excelente Option Paralysis, do qual eu arranquei “Farewell, Mona Lisa” para cantarolar e confirmar meu banimento antecipado de qualquer The Voice da vida. O Melvins trouxe a incrível “Electric Flower” no The Bride Screamed Murder, e o Austerity Program fazia barulho na miúda com o EP Backsliders and Apostates Will Burn. O Superchunk quebrava um hiato de nove anos com o Majesty Shredding, o Arcade Fire reafirmava seu arsenal qualitativo com The Suburbs e o vozeirão bonito da Janelle Monáe já não era mais segredo de Estado depois do The ArchAndroid. Mas um extraordinário feito infelizmente passou bem batido naquele ano: o terceiro (e homônimo) disco do Daughters.

Não foi apenas um caso de álbum subestimado. Foi o fim do quarteto americano sediado em Providence. Sequer houve turnê do disco, lançado pela Hydra Head, a gravadora independente e mineradora de barulho criada por Aaron Turner (Isis/Sumac/Old Man Gloom). E quando houve entrevista de divulgação do Daughters, o vocalista Alexis S.F. Marshall surpreendeu ao dizer o quanto não gostava da obra e o quanto ela mostrava uma mudança que ele não curtia. Pra ele, esse terceiro disco era uma espécie de concessão ao gosto do público.

Como diz o Vina, tá errado isso aí. Mesmo em sua notável diferença perante os álbuns anteriores, mais delirantemente construídos, Daughters é um BAITA disco, com 8 sólidos argumentos em forma de faixas sufocadas em uma panela de pressão prestes a explodir. “The Virgin”, a primeira música, mal começa a supitar e já estoura pouco mais de um minuto depois.


Essa coreografia do descontrole vai se repetir nas músicas seguintes. Mas o conteúdo que vai pelos ares não é randômico ou despropositado; muito pelo contrário: é calculado, preciso na entrada de cada riff, de cada revezamento entre bumbo, caixa e prato. Mas essa predeterminação técnica sequer nos deixa preparados pros rumos improváveis e criativos que cada faixa toma. E essa riqueza é do tipo que só mesmo uma audição daria explicação à altura. Dentro da nossa limitação descritiva, a gente apenas diz: vai na fé e se deixe capturar por cada nuance.

E elas são várias. A mais óbvia talvez seja o vocal arredio e de métrica torta de Marshall, que compõe as letras. Ele narra, vocifera e exclama palavras mal ditas (e malditas) que às vezes nem são ouvidas – a primeira estrofe de “The First Supper” que o diga. Por mais que ela insista em pregar a ordem, só colhe desobediência ao longo de seus três minutos. Depois, a levadinha new metal da intro de “The Hit” se desdobra em efeitinhos quase alienígenas, mas que vestem com perfeição a narrativa do homem que propõe renovar os habitantes de uma cidade desiludida.


“The Theatre Goer” mergulha em um desespero emergencial banhado em distorção e rasgos da guitarra de Nicholas Andrew Sadler e sustentada pela bateria furiosa de Jon Syverson. O sufoco só ilude o resgate no começo de “Our Queens (One is Many, Many Are One)”, que se avoluma em agonia e perturbação repassadas num vai e vém exaustivo.

Na sequência vem “The Dead Singer”, em que uma guitarra insistente é acompanhada por uma bateria tribal que ganha propulsão ao acionar um bumbo indócil. Não há sequer suporte ao silêncio nesse disco; em seu lugar, o máximo que temos são alguns segundos prolongados do prato.

“Sweet Georgia Brown”, a sétima música, retoma o clima expansivo e eufórico que também caracteriza o álbum, com a adição de um irônico coro. É a penúltima música e um ótimo encaminhamento para o baixo granulado trazido por Samuel Walker para “The Unattractive, Portable Head”, faixa que empacota toda a disposição criativa do Daughters e deixa evidente o talento da banda para melodias e hinos ritmados. É a melhor música, e definitivamente a síntese de uma gramática sonora de infinitas versões do caos. A desordem e o desconforto, como sabemos, servem bem o cardápio do noise rock.