Deftones 20 anos de Adrenaline

In Discos


Hoje, 03 de outubro, é um dia bem especial para nós, para a música e para o mundo.

Há exatamente 20 anos, chegava ao mundo um disco que alterou as coordenadas da gama de possibilidades em termos de música pesada. E o mais legal disso tudo é que muita gente viu essa banda nascer e acompanhou bem de perto o desenvolvimento desta que, na nossa humilde opinião, é uma das melhores do mundo.

Adrenaline, a estreia do Deftones, trazia uma banda cheia de espinhas no rosto, mas com segurança e postura de veteranos. É um disco explosivo, cativante e ingênuo. Ok, ok, não tem com citá-los sem mencionar o tão fadado new metal. Ou nu metal, para os mais íntimos. Em uma mistura de filhotes de Red Hot Chilli Peppers, Rage Against the Machine, Beastie Boys, Helmet e Faith no More, o mundo da música pesada se viu sucumbido frente à gangue das calças Dickies e letras confessionais sobre abusos e famílias destruídas.

Parecia ser só mais um amontoado de bandas sem muita expressão. Ninguém esperava, mas o resultado foram nomes como Korn, Limp Bizkit, Coal Chamber e Linkin Park, que de shows em lugares pequenos como o nosso finado Black Jack, passaram a dominar multidões e vender muito, mas muito mesmo. Lembro de um amigo que morava nos EUA me enviar um CD promo do Linkin Park dizendo “cara, vi essa banda num lugar minúsculo aqui e isso vai estourar”. Um mês depois, a banda decolou. O nu metal virou mania. Todo mundo queria sua jaqueta Adidas e, com o heavy metal em baixa, a não ser pelo sucesso do Pantera e Sepultura, ficou até fácil para a molecada dominar todo o mercado. Falando nisso, há quem diga que grande parte da influência do Korn e cia vem do álbum Roots, clássico dos nossos conterrâneos. Na boa? Tem muita relação, mesmo que sem a intenção. Mas isso é assunto pra outra pauta.


O Deftones sempre foi diferente. Cansamos de presenciar conversas de bar dizendo ser injusto colocá-los no balaio nu metal. E é mesmo! Mas não tem como fugir, Adrenaline, o disco, é nu metal. Não ortodoxo, mas tem lá seus elementos. Tem os sussurros, as rimas coadjuvantes, os acordes dissonantes e os gritos. Mas tem também aquele “algo a mais”, e talvez por esse motivo, a banda somou, com o passar dos anos, uma base devota de fãs.

A cada disco lançado, a sensação era de uma visita daquele amigo(a) querido(a) que você espera anos para ver e, quando ele(a) chega, é como se vocês tivessem trocado algumas ideias no dia anterior. Chino, Abe, Chi e Stephen são pessoas presentes em nossas casas há 20 anos. E durante todo esse tempo, vieram algumas mudanças de andamento, de visual, nos shows e a evolução que só quem está perto percebe.


Voltamos ao ano de 95. MTV Latina, programa Headbangers. Foi nesse programa, sintonizando a TV no UHF do conversor, que despontou o clipe de “7 Words”. Uma música que chegou e derrubou as estruturas e torceu cada neurônio com aquela mistura de diferentes influências que habitavam um mundo já adepto a misturas dentro da mente dos filhos da ensolarada Califórnia. O resultado era uma massa cheia de energia desenfreada, fruto da influência de bandas como Suicidal Tendencies e Bad Brains, além de nuances climáticas em melodias descendentes da memória afetiva de quem viveu os anos 80 regados a Depeche Mode, Duran Duran e The Smiths.

“7 Words” era tensa. De riff curto, o início era um prelúdio para o refrão explodir em berros de “Suck! Suck! Suck!”. No meio, o groove e a rima solta vinda daquele rap livre cultivado na costa oeste dos EUA.

Ainda no mesmo ano chega o clipe de “Bored”, e aí os caras desmontaram de vez toda e qualquer perspectiva que o público poderia ter sobre o que viria depois de uma música urgentíssima como “7 Words”. “Bored” era mais lenta e hipnótica, simples e objetiva, calma e explosiva.

Um lance pouco citado e perceptível nesse primeiro registro é o jeito Pixies de construir as músicas, conhecido popularmente pelas mãos de Kurt Cobain e o seu Nirvana. O Deftones entendeu direitinho a lição do loud-quiet-loud e soube usar isso muito bem para moldar sua música.

Mesmo fazendo parte de uma época de que muita gente se envergonha, Adrenaline foi o primeiro disparo de um banda que, ainda engatinhando, já tinha muito pra mostrar – embora o reconhecimento comercial tenha vindo somente alguns anos depois, com o terceiro disco, White Pony. O Deftones trouxe um ar etéreo ao peso e mostrou ser possível inserir um pouco de melancolia e dissonância na música.

Adrenaline é daqueles discos que, durante esses 20 anos, ainda fazem com que seja difícil escolher uma música favorita. De tempos em tempos, uma determinada canção é a eleita, e há um bom tempo “Lifter” assumiu o status de predileta da casa. Talvez esse seja o ingrediente que faça com que esse disco seja tão rico.


“Lembro quando ouvi os primeiros acordes abafados de “Bored”, quando tinha 16 anos. Nunca tinha escutado nada parecido. Era simples, mas ao mesmo tempo com uma potência avassaladora. Eis que Chino começa a cantar… e aí minha cabeça não entendeu mais nada. Todos os meus conceitos sobre música pesada foram estraçalhados em poucos segundos. Daí pra frente eu nem sei mais explicar em palavras, só digo que daquele dia até hoje o Deftones continua sendo uma das bandas preferidas da vida.”
Fabrizio Martinelli (guitarra – Maguerbes).

“O próprio nome do álbum diz muito sobre o meu sentimento ao escutá-lo: total liberação de adrenalina. Esse álbum veio como uma renovação de espírito pra mim. A veracidade da sonoridade era revigorante, e o riffs e os vocais sincados me influenciaram pro resto da minha vida”.
Cleber (vocal – EDC).

“Muitas bandas só lançam seus melhores trampos depois de um bom tempo de carreira, mas é inegável que os primeiros discos são especiais. O Adrenaline tem sim toda aquela raiva explodindo e aquela falta de preparo no bom sentido, mas também o lance de já ter uma banda muito entrosada, mostrando um talento destruidor para fazer músicas fodas e que eles tocam até hoje. Por fim, já mostravam à frente de todo mundo – é só ouvir o último som, ‘Fireal’, para comprovar isso”.
Luiz Mazetto (autor do livro Nós Somos A Tempestade / guitarra – Basalt).