Deftones: Adrenaline Os 20 anos do disco de estreia da banda

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Hoje é uma data bem especial para nós, para a música e para o mundo. No dia 03 de outubro de 1995, chegava ao mundo o disco que ajudou a alterar boa parte das coordenadas e possibilidades da música pesada. O mais legal disso tudo é que muita gente viu essa banda nascer e acompanhou bem de perto o desenvolvimento desta que, na nossa humilde opinião, é uma das melhores do nosso tempo.

Adrenaline, a estreia do Deftones, trazia uma banda ainda cheia de espinhas no rosto, mas com segurança e postura de veteranos. Um disco explosivo, cativante e com aquele charme e explosão que só a ingenuidade pode oferecer.

Entre nomes que também inovaram a música daquela época, como Jane’s Addiction, Red Hot Chilli Peppers, Rage Against the Machine, Beastie Boys, Helmet e Faith no More, o mundo da música pesada se viu sucumbido frente à gangue das calças Dickies, e letras confessionais sobre abusos, famílias destruídas e visões pessoais de mundo que conversavam diretamente com a nossa vida comum também tão cheia de risos e sofrimentos.

Foto: Sounds Like Us

Parecia ser só mais uma leva bandas desconhecidas, mas o que ninguém esperava, era que aquela aparente nova onda se transformasse em mu movimento forte, encabeçado por nomes como o próprio Deftones, o Korn e o Limp Bizkit, que de shows em lugares pequenos, passaram a dominar multidões e vender muito, mas muito mesmo.

O nu metal virou mania. Todo mundo queria sua jaqueta Adidas e, com o heavy metal mais tradicional em baixa, a não ser pelo sucesso do Pantera e Sepultura, ficou fácil para aquela molecada dominar todo o mercado. Falando nisso, há quem diga que grande parte da influência do Korn e cia vem do álbum Roots, clássico do nosso Sepultura. Na boa? Tem muita relação, mas isso é assunto para outra pauta.

O Deftones sempre foi diferente. Cansamos de presenciar conversas que rumavam para o não suficiente posto de colocá-los somente no balaio do nu metal. Mas Adrenaline é sim um disco com forte conexão com o nu metal. Não aquele ortodoxo, mas tem lá seus elementos. Os sussurros, as rimas voltadas para o rap, os acordes dissonantes, e os gritos. Mas tem também aquele “algo a mais”, e talvez por esse motivo, a banda somou, com o passar dos anos, uma base devota e larga de fãs. Algo na musicalidade da banda conversava com o pop da década de 80 e o rock alternativo da de 90. E isso encantava.

Deftones ao vivo em San Francisco, em 1994. Foto: Trent Nelson

A cada disco lançado, a sensação era de uma visita de uma pessoa querida, que você espera anos para ver e, quando isso acontece, é como se vocês tivessem trocado algumas ideias no dia anterior. Chino, Abe, Chi e Stephen são pessoas presentes em nossas casas há anos. E durante todo esse tempo, vieram algumas mudanças de andamento, de visual, nos shows e uma evolução perceptível.

Voltamos ao ano de 95. MTV Latina, programa Headbangers. Foi lá, depois da difícil tarefa de sintonizar a TV no conversor UHF – essa era a nossa TV a cabo -, que despontou o clipe de “7 Words”. Uma música que torceu as estruturas e inseriu um sinal de novidade vindo de diferentes influências que habitavam um mundo já adepto a misturas dentro da mente dos filhos da ensolarada Califórnia. O resultado era uma massa cheia de energia desenfreada, fruto da influência de bandas como Suicidal Tendencies e Bad Brains, além de nuances climáticas em melodias descendentes da memória afetiva de quem viveu os anos 80 regados a Depeche Mode, Duran Duran e The Smiths.

“7 Words” era tensa. De riff curto e o início com um prelúdio dissonante que transportava a música para o refrão que explodia em berros rasgados. No meio, o groove e a rima solta tinha que vinha do flow livre cultivado na costa oeste dos EUA.

Foto: Divulgação

Ainda no mesmo ano chega o clipe de “Bored”, e aí os caras desmontaram de vez toda e qualquer perspectiva que o público poderia ter sobre o que viria depois de uma música urgentíssima como “7 Words”. “Bored” era mais cadenciada, hipnótica, mas tinha também sua explosão particular. Ao seu modo, é também intensa.

Um lance pouco citado e perceptível nesse primeiro registro é o jeito Pixies de construir as músicas, que ficou conhecido popularmente pelas mãos de Kurt Cobain, do Nirvana. O Deftones entendeu direitinho a lição do loud-quiet-loud e soube usar isso muito bem e o resultado disso circula o universo do álbum. Mesmo as barulhentas “Root” e “Nosebleed” seguem, a sua maneira, esses ensinamentos. Isso sem falar nas maravilhosas “One Weak” e “Birthmark”.

Adrenaline foi o primeiro disparo de um banda que, ainda engatinhando, já tinha muito pra mostrar – embora o reconhecimento comercial tenha vindo somente alguns anos depois, com o terceiro disco, White Pony.

O Deftones trouxe um ar etéreo ao metal, que pode ser percebido em músicas como “Fireal”, e mostrou ser possível inserir um pouco de melancolia e dissonância na música pesada.

Adrenaline é daqueles discos que, depois de muitos anos, ainda fazem com que seja difícil escolher uma música favorita. De tempos em tempos, uma delas é eleita, mas há um bom tempo “Lifter” assumiu o status de predileta da casa. Talvez esse seja o ingrediente que faça com que esse disco seja tão rico e especial.

“Lembro que ouvi os primeiros acordes abafados de “Bored” quando tinha 16 anos. Nunca tinha escutado nada parecido. Era simples, mas ao mesmo tempo com uma potência avassaladora. Eis que Chino começa a cantar e aí minha cabeça não entendeu mais nada. Todos os meus conceitos sobre música pesada foram estraçalhados em poucos segundos. Daí pra frente eu nem sei mais explicar em palavras, só digo que daquele dia até hoje o Deftones continua sendo uma das bandas preferidas da vida.”
Fabrizio Martinelli (guitarra – Maguerbes).

“O próprio nome do álbum diz muito sobre o meu sentimento ao escutá-lo: total liberação de adrenalina. Esse álbum veio como uma renovação de espírito pra mim. A veracidade da sonoridade era revigorante, os riffs e os vocais sincados me influenciaram pro resto da minha vida”.
Cleber (vocal – EDC).

“Muitas bandas só lançam seus melhores trampos depois de um bom tempo de carreira, mas é inegável que os primeiros discos são especiais. O Adrenaline tem sim toda aquela raiva explodindo e aquela falta de preparo no bom sentido, mas também o lance de já ter uma banda muito entrosada, mostrando um talento destruidor para fazer músicas fodas e que eles tocam até hoje. Por fim, já se mostravam à frente de todo mundo – é só ouvir o último som, ‘Fireal’, para comprovar isso”.
Luiz Mazetto (autor do livro Nós Somos A Tempestade / guitarra – Basalt).