Bolt Thrower Discografia Faixa a Faixa

In Bandas, Discos

O Bolt Thrower é dos inexplicáveis casos de popularidade tardia. Veja bem, popularidade, não reconhecimento, coisa que eles sempre tiveram por quem circula pelo universo da música extrema.

A banda foi formada em um pub inglês, durante um show punk, em 1986, depois de uma conversa entre o guitarrista Barry Thomson e o baixista Gavin Ward. Logo trouxeram Alan West, primeiro vocalista, para a formação inaugural do Bolt Thrower.

Já como quarteto, com a entrada de Andy Whale na bateria, gravaram duas demos, In Battle There Is No Law e Concession of Pain. A segunda foi enviada para John Peel, um DJ inglês, visionário e adepto aos novos barulhos, que ficou mundialmente famoso por registrar as famosas e saudosas Peel Sessions em seu programa de rádio.

Foto de divulgação da Combat/Earache

Depois de um tempo, Alan saiu da banda e foi substituído por Karl Willetts, a voz mais marcante do Bolt Thrower. Nesse mesmo período, a baixista Jo Bench também entrou pra banda, oficializando assim a formação como quinteto.

O Bolt Thrower sempre procurou inspiração em nomes como Sacrilege, Discharge, Candlemass e Slayer. E é realmente sensível o diálogo dessas influências na linguagem que os ingleses construíram para definir sua identidade. A ideia sempre foi compor músicas pesadas, agressivas e, de certa forma, originais.

Mas aí vocês podem pensar: “pera aí… é sério que vocês estão escrevendo que eles buscavam originalidade?”. Pois é, hoje é comum bandas que usam o Bolt Thrower como influência, ou copiam sem qualquer vergonha seus riffs, mas para o cenário daquele início da década de 90, eles eram diferentes, e isso causou alguns anos de desatenção dedicada à banda.

Circularam às margens daquele então novo movimento, o death metal. Enquanto algumas bandas procuravam escancarar a podridão do ser humano usando e abusando da velocidade, da técnica e das alegorias, o Bolt Thrower assumia em seu som uma rispidez lindamente tosca, no melhor sentido que essa palavra pode contextualizar, sob a ética das bases punk, riffs e andamentos altamente pesados e abrasivos, e o contexto palpável das guerras.

Há uma sensação melancólica transmitidas nos riffs. Talvez não oficial ou intencionalmente, mas há. Uma forma eficaz de traduzir o que uma guerra pode causar a quem perde, ganha e luta. Tendo guerra, não há vitoriosos, e o Bolt Thrower consegue contornar as variáveis dessa condição.

No início da década de 90, quando o death metal vivia seus melhores dias, eles eram um sopro de frescor para quem procurava algo que fosse além da rapidez e velocidade do thrash e do speed metal, capitaneado por nomes como Exciter, Slayer, Metallica, ou da sujeira e podridão das bandas que inauguraram o mesmo death metal, como Massacre, Entombed, Death, Morbid Angel e Possessed.

Por onde circulávamos, os comentários eram de que o Bolt Thrower era lento demais. É compreensível. Para o público daquela época, peso se relacionava com extremismo. Quanto mais podre, mais rápido, mais escroto, melhor. Os primeiros discos tinham um blast aqui, outro ali, mas a verdade é que perto da eloquência técnica de um Morbid Angel ou da hecatombe que era o Obituary, por exemplo, o Bolt Thrower realmente tinha uma outra proposta.

Foto: Divulgação

Já na metade dos anos 2000, dezenas de novas bandas de death metal começaram a trazer alguns contornos de Bolt Thrower no seu som e isso parece ter revivido a adoração pelos ingleses, que hoje parece muito maior do que quando a banda estava na ativa.

Não havia muito holofote sobre eles, poucas entrevistas apareciam, e eles eram, entre as grandes, a banda mais dedicada ao subterrâneo do metal.

Como mencionamos antes, alguns de seus contemporâneos mergulharam no mainstream, mas o Bolt Thrower seguiu sua marcha alimentado por um admirável desrespeito pelas tendências. Eles sempre fizeram música para os fãs do metal extremo, e os fãs do metal extremo os adoravam, como nós ainda adoramos.

Ao final, ganhando ou perdendo, a mensagem é que grandes batalhas, assim como as grandes coisas da vida, também chegam ao fim. Mas o Bolt Thrower sobrevive sustentado pelo seu legado.

“World Eater”
Realm OF chaos
(1989)

A beleza de um hino mora em algum canto entre a ingenuidade e um espírito destemido que desconhece, ou simplesmente não considera, qualquer regra estética ou imposição de uma época. É aquela coisa simples, que você ouve e pensa que qualquer um poderia ter feito uma música como aquela. A diferença é que ninguém fez. Aí o Bolt Thrower foi lá e compôs “World Eater”. Tão marcante que, quando pensamos em Realm of Chaos, é a primeira que aparece em nossa memória. Os riffs mais cadenciados giram em torno da estrutura da NWOBHM, e isso é maravilhoso. Realm of Chaos é o primeiro registro oficial da banda, e é também uma grande estréia.

“What Dwells Within”
War Masters
(1991)

Em War Master o Bolt Thrower não fica amarrado aos artefatos arquitetônicos que usou para definir os caminhos de seu disco anterior. Neste segundo registro, a banda buscou, e atingiu, uma maturidade em sua maneira de contornar sua música, o que faz com que a sequência variada de riffs na mesma faixa, faça sentido. Mais ainda, faz com que elas se completem e sejam justificáveis, e “What Dwells Within”, que tem talvez o melhor riff da banda, é um retrato e tanto disso tudo.

War Master foi o disco que nos apresentou a banda e, por isso, é também o nosso predileto. Os timbres são vivos e carregam uma já extensa relação com as nossas lembranças de um tempo em que uma simples fita k7 poderia mudar a nossas vidas. E realmente mudou.

A presença desse disco é uma constante e “What Dwells Within” ainda é dona de um poder incrível sobre nossas preferências, além de representar bem o passo que a banda deu a um terreno imenso de possibilidades. Mesmo sendo algo não tão claro, em War Master, o Bolt Thrower praticamente definiu o seu som. Praticamente porque isso de fato aconteceu somente no disco seguinte.

“The IVth Crusade”
The IVth Crusade
(1993)

Em 1993, quando compramos uma fita k7 com esse disco gravado, The IVth Crusade soava abafado, “pra dentro”. A gravação ruim não fez com que as primeiras impressões fossem das melhores, mas é o que tínhamos, e assim mergulhamos fundo nesse disco.

Não por acaso, hoje, olhando a discografia de banda como um todo, dá pra afirmar que The IVth Crusade é onde o Bolt Thrower realmente encontrou o seu caminho. Mesmo não sendo o melhor disco, está entre os mais queridos por nós e pelos fãs, o que é fácil explicar. Foi onde eles optaram por fazer com que a técnica e maturidade adquiridas até então trabalhassem a favor deles e não o contrário, como é comum acontecer. Com isso, em The IVth Crusade, tanto no disco, como na faixa-título, temos um Bolt Thrower mais cadenciado, registrado sob uma captação mais cheia, grave e concisa.

Recorrendo à história, vale lembrar que a Quarta Cruzada foi uma tentativa dos católicos da Europa Ocidental retomarem o que era então uma Jerusalém controlada pelos muçulmanos. Esta Cruzada, violenta como muitas outras tantas, foi um fracasso, como também tantas outras.

Vanquished in the name of your god, one of the same to whom we all pray / Vanquished in the name of your god, One of the same to whom we onced prayed.

“…For Victory
…For Victory
(1994)

Se no disco anterior eles pareciam ter encontrado seu som, em …For Victory isso se confirmou com altas doses de requinte e em músicas ainda mais épicas e cativantes. Na primeira audição desse disco, a reação foi: “como o Bolt THrower é lindo!”.

Quando foi lançado, revistas gringas como a Raw Magazine, Kerrang, Metal Hammer e outras tantas colocaram este como o melhor trabalho da banda.

Aqui no Brasil não foi diferente. As publicações especializadas abusaram de uma variedade considerável de adjetivos para elogiar a arte gráfica, a gravação, as músicas, o conceito, as letras, tudo. E realmente, …For Victory é um grande disco. Da primeira até a última música. Talvez por isso decidimos ressaltar aqui a faixa-título. Uma narrativa rebuscada do pós-batalha, contada em detalhes por quem, de tantas lutas, entendeu que, em todas elas, todo mundo perde.

“Not sure what has been done / Sorrow creeps throughout my soul / All is lost, none have won… At the going down of the sun / And in the morning / We will remember them…”. E repetimos juntos “We will remember them… We will remember them…”.

“Zeroed”
Mercenary
(1998)

Mercenary foi um disco que demorou pra pegar. A aproximação foi vagarosa e de reconhecimento à prestações, o que não é de todo mal. A ligação veio aos poucos , o que fez com que cada etapa trouxesse novas percepções e valores para cada música. Hoje é um registro que gostamos muito e que talvez seja até subestimado.

Entre todas as faixas, “Zored” é a mais forte e representa muito bem a solidez de Mercenary, trazendo um pouco alguns cacoetes de …For Victory, é verdade, mas nada que invalide sua autenticidade.

Em resumo, Mercenary pode não ser um dos grandes destaques na carreira da banda, mas é um disco que gradativamente cresce e mostra uma beleza escondida na simplicidade que ele reforça.

“Inside the Wire”
Honour Valour Pride
(2001)

Não é algo fácil de se escrever, mas Honour Valour Pride é um disco estranho. É como um compilado dos elementos que denominaram o death metal feito pelo Bolt Thrower. Sempre nos pareceu um disco burocráticos e sem muita inspiração, mas nem por isso é um registro totalmente dispensável.

Depois do lançamento de Mercenary, Karl Willets deixou a banda por um tempo – a princípio, por razões financeiras. Foi trabalhar como vendedor de seguros e também se formou em Estudos Culturais, pela universidade de Birmingham.

Dave Ingram, clássico vocal do Benediction, foi quem substituiu Willets na gravação de Honour Valour Pride, e talvez esse seja um dos pontos que causam estranheza. Ingram é um grande vocalista, mas sua presença no Bolt Thrower parece não ter dado liga, à exceção de alguns momentos, entre eles, em “Inside the Wire”, um dos pontos altos do disco.

“Anti-Tank (Dead Armour)”
Those Once Loyal
(2005)

Em sua resenha para a revista Terrorizer, Ian Finley descreveu Those Once Loyal como um disco “imune à influência corruptora de todas as tendências musicais” que oferece “o resumo do que um álbum de metal deveria ser: pesado, rápido e intransigente”. E esse capítulo final pode ser mesmo comparado ao que a banda sempre pregou.

É um disco que conversa muito com os primeiros álbuns e “Anti-Tank (Dead Armour)” tem algo de revigorante e ao mesmo tempo de despedida. É quase como o final de um filme. As luzes se apagam, os créditos são exibidos, parte das pessoas começam a ir embora, mas você fica ali, até o último nome aparecer, sem desgrudar os olhos da tela, sem querer ir embora.

Em um artigo para a Metal Hammer, Dom Lawson escreveu que “mesmo longe da música, o Bolt Thrower sempre se manteve 100% fiel aos seus valores pessoais, políticos e culturais, e isso era o que os uniam em primeiro lugar”.

O respeito que a banda sempre teve e o foco em manter espírito do it yourself sempre nos pareceu muito natural. Não havia uma grande força em se manter assim. Eles eram assim.

Certa vez tentamos entrevistá-los e a resposta foi “A banda terminou, não temos mais nada para falar”. Pode soar estranho, mas nunca ficamos tão felizes com uma negativa. Um “não” que reafirma todo o “sim” das impressões que sempre tivemos sobre eles. De que a música do Bolt Thrower é a protagonista. Ela fala por si. Transmite a transparência, a entrega e o respeito que eles sempre tiveram por sua obra. E isso é apaixonante e inspirador.

Foto: Divulgação