Entrevista: Are You God? Fomos ao ensaio dos caras para ter uma ideia de como será o exclusivo Show da Virada

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Fotos: Sounds Like Us

A expressão música torta começou a fazer sentido dentro da música extrema em 2000, quando o Are You God? veio ao mundo causar uma estranheza necessária a uma cena que andava quatro por quatro demais.

O compasso diferenciado era a arma e a criatividade dessa banda passava longe do normal – vide os shows surpreendentes. Para quem teve a oportunidade de ver ao vivo, a sensação de desconforto com o fim do AYG?, em 2008, era evidente. Para quem não pode fazer parte desse momento, restou cultivar a fé em algum tipo de deus que pudesse um dia trazer esses caras de volta. Depois deles, tudo ficou meio óbvio demais por essas terras, salvo raras exceções.

O anúncio de um único show, que acontecerá no próximo dia 20 de junho, durante a Virada Cultural veio como tábua de salvação para um público que vinha andando muito “na linha”. A gente passou uma tarde no estúdio com os caras, trocando ideia e tendo uma amostra do que vai ser esse show especial. Um papo entre amigos que nos deixa bem felizes por dividir com vocês.

Sounds Like Us: É uma volta da banda?
Carlos: Não, é um show único. A nossa proposta é fazer um show único pra relembrar mesmo momentos de nostalgia, os bons momentos que a gente viveu juntos, principalmente como músicos mesmo. No primeiro ensaio, chegamos aqui [estúdio Fábrica de Sonhos] e de primeira voltou aquele ambiente que a gente tinha de banda né, a mesma vibe musicalmente. Então, isso daí foi muito bom, cara. Pra gente se rever né, porque a gente ficou muito tempo junto. Começamos o João e eu a banda, em 2000? Foi 2000?

Sounds: Era você, o Fabião…
Carlos: É, depois entrou o Fábio. Eu tinha terminado uma primeira banda que a gente teve e “aí, o que a gente vai fazer? A gente gosta muito de fazer isso. Vamos voltar à ativa”. Voltamos com uma banda, o Are You God?, o Bernardo entrou primeiro…
João: Não, o Fábio.
Carlos: O Fábio entrou primeiro né? Chamamos o Fábio, do Sistema Sangria, e depois entrou o Bernardo. Então, essa dinâmica, esses anos aí (Bernardo, João e eu) e depois alguns guitarras parceiros nossos. A banda seguiu até 2008 e foi muito bom, foi muito divertido, foram momentos muito bons, momentos queridos, maravilhosos desse ambiente [ele ri].
João: Ficou só essa lembrança pra ele.
Carlos: É, ficou só essa lembrança [ele ri]. É isso que sobrou [gargalhadas]
João: Eu discordo de falar que voltou ou não voltou… acho que é melhor seguir com o passo de uma lesma. Isso que eu falei antes de acabar a banda, um cara tem tempo, o outro não queria… é melhor continuar igual uma lesma do que realmente afundar. Não precisa fazer o que fazia antes. Se fizer uma coisa a cada quatro anos, tá valendo. Não precisa ser daqui a um mês.

Sounds: Tava rolando cobrança de ensaio?
Carlos: Não, não, é mais cobranças pessoais mesmo. O João tem filho, eu tenho filho.
João: No final, ninguém quis mais continuar com a banda do jeito que era e aí acabou.

Sounds: E pra tirar esses sons?
Carlos: Tá rolando, tá rolando. Tá rápido. Esse é o segundo ensaio.

Sounds: No primeiro vocês já estavam lembrando?
Carlos: Já estalou as músicas né, porque a gente tocou tantas vezes… Eu considero um bom fim [da banda] pela sequência né. O João montou o Test. Se não fosse o fim do Are You God?, o Test talvez não existiria.

Sounds: O Berna já tava no Elma?
João: Eu também toquei no Elma. Ao mesmo tempo do Are You God.

Sounds: Era o último ano do Are You God?
João: Acho que era, viu. Não lembro direito.  Acho que o AYG? acabou e ainda continuei no Elma por uma época.

Sounds: E hoje, em 2015, vocês têm a noção de o quanto o rolê de vocês já era diferenciado? O tanto que era uma puta banda?
João: Então, acho que a gente não tem essa noção [ele ri].
Carlos: É, a gente não tem essa noção porque a gente escolheu um meio de marketing e de movimentação da banda totalmente contra tudo, absolutamente. Quem viveu lá e acompanhou muito a banda viu que a gente fez o anti-marketing, tudo contra o que uma onda segue. E acabou que a banda talvez não tenha sido muito entendida, aquela coisa de “fizemos muita coisa e muita gente não viu”. Mas foi satisfatório, as ideias que vieram…
João: Ele acha o contrário. Ele acha que se fosse uma banda mais tradicional, mais pessoas teriam reparado. Na verdade, não é. Repararam mais por causa das coisas diferentes que a gente fazia.

Sounds: Mas não era uma estratégia. Era um lance de vocês.
Carlos: Era um lance que surgiu, era uma ideia nossa.
João: Era uma estratégia de avacalhar todas as estratégias existentes.

Sounds: Quando vocês faziam aqueles shows diferentes, de colocar o Carlos sozinho no Centro Cultural, era foda. Eu não sei se vocês têm essa visão, mas começou a ficar uma regra, de todo show vocês fazerem alguma coisa diferente. Vocês acham que nesse meio tempo a galera começou a ir nos shows mais pelas coisas que iam acontecer do que pela música?
Carlos: Pode ter acontecido isso.
João: Eu acho que sim porque principalmente aquelas mesmas pessoas que iam… Sim, pra continuar, pra ter saco pra ir no próximo e esperar que vai acontecer alguma coisa.

Sounds: Mas acha que foi em detrimento do som? “Vou lá ver o que os caras vão aprontar lá hoje”. A música em segundo lugar.
Carlos:  Não, não. Até porque tinha muitas bandas na época. Hoje já tem muito mais bandas desse naipe nesse segmento de música.
Bernardo: Acho que se a gente fizesse um som besta e fizesse as mesmas coisas, ia dar o mesmo sucesso. Mas, se você ouvir o som, não foi em detrimento do som. Acho que uma ou outra banda (Defront, Western Day) depois da gente fez um bagulho que foi influenciado pelo que a gente fez.

Sounds: Vocês conseguem nomear isso que vocês fizeram?
Bernardo: Assim, não tem nenhuma banda brasileira que eu escuto que eu diga “isso daqui vai além do que a gente tava fazendo”. Os caras fizeram outras coisas. Eles conseguiram atingir o thrash anos 80, várias coisas assim.
Carlos: Mas uma porcentagem da música também foi atingida pelo som porque você vê muitas pessoas comentando, “porra, puta banda foda”.
Bernardo: A que todo mundo gosta mais é a coisa mais normal que a gente já fez.
Carlos: Ah sim. Por exemplo, o EP [Espelho de Carne]. É engraçado que são quatro, e os quatro têm visões diferentes de várias coisas.
João: Eu acho que gosta mais porque tinha um negócio diferente, que é a intro, e porque foi mais divulgado que os outros. A gente fez uma sequência de shows e conseguiu vender todos os EPs.
Bernardo: Foi muita coisa junta em cima do EP. Se não tivesse as intros no EP, uma boa parte do barulho que ele fez não teria rolado.

Sounds: Eu acho que em questão de musicalidade vocês teriam atingido esse sucesso sim.
Bernardo: Sucesso?
Carlos: O que é sucesso?

Sounds: Sucesso é vocês terem feito o que vocês queriam fazer na hora em que queriam fazer.
Bernardo: Isso, pra mim é isso.

Sounds: O que eu tô querendo saber é se o fato de fazer coisas diferentes no show, o espetáculo, não musicalmente, virou atrativo maior pro público do que a própria música.
João: Acho que não, tinha bastante show diferente, mudando as músicas, tinha gente que queria ver esse lado. Não o lado “fazer uma piada”. Queria ver o jeito que a gente transformou a música.
Bernardo: Eu não consigo entender uma coisa em oposição à outra porque, na verdade, na hora de fazer as músicas a gente faz o bagulho mais louco que a gente conseguir e, na hora do show, inventar o show mais louco também. A melhor coisa que a gente conseguir fazer em cada meio.

Sounds: Vocês chegaram a tocar alguma coisa do split ao vivo?
Bernardo: Não teve nada que a gente não tenha tocado. Quando a banda acabou, as músicas já tinham pelo menos um ano.

Sounds: Tem aí uma memória de os shows do AYG? terem sempre algo surpreendente. Vocês estão preparando alguma coisa especial para o show da Virada?
Bernardo: Se a gente fosse fazer, num ia falar.
Sérgio: Se a gente conseguir tocar as músicas, já vai ser um grande avanço.

Sounds: Vocês estão pensando em compor alguma coisa nova?
Bernardo: A gente não teve nenhuma conversa mais específica do que fazer esse show.


ARE YOU GOD? na Virada Cultural
20 de junho (sábado)
Palco TEST / Palco Lixo
Av. Rio Branco, 275 – Centro
São Paulo – SP
20h50