Entrevista: Dylan Baldi Cloud Nothings

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Fotos: Sounds Like Us


O Cloud Nothings, quem diria, nasceu de uma experiência de fuga desejada – garanto – por milhares de universitários brasileiros. Dylan Baldi, guitarrista, criador e frontman da banda, só queria matar aula e ficar longe do futuro pré-datado que cerca os jovens de 18 anos. Hoje, o rapaz de Cleveland vive seus 20 e poucos anos fazendo do seu escapismo, a música, o motor profissional de uma carreira que já acumula quatro discos, turnês internacionais e elogios nos mais variados idiomas. O college dropout se ausentou da academia e colheu frutos muito além do que imaginava quando se trancava para fazer música. Por mais que ele diga que está se acostumando com a crescente notoriedade da banda, percebe-se, em seu rosto, um ar de deslumbramento típico de quem não pensou sonhar tão longe. Com jeito e rotina de músico simples (é ele quem dirige a van da banda durante as turnês), Baldi revela, nessa entrevista exclusiva, que não tem disposição alguma para ficar entediado. Essa postura explica a mudança drástica de sonoridade da banda no álbum
Attack on Memory, no qual, em 2012, foi clara a intenção de se separar homens de meninos.

Sounds Like Us: Oi Dylan! Quantos anos você tem e onde vive atualmente?
Dylan Baldi: Tenho 23 anos e estou vivendo a maior parte do tempo em Paris, na França. Ainda tenho um lugar em Cleveland, Ohio.

Sounds: Como você criou o Cloud Nothings? O que pretendia com a banda?
Dylan: Eu queria fazer algo que não fosse a faculdade. Nunca tive nenhuma grande ambição; só queria fazer algo que me permitisse viajar e conhecer o mundo em vez de ficar preso a um campus universitário por quatro anos.

Sounds: Já era amigo de TJ [o baixista] e Jayson [o baterista]? Como se conheceram?
Dylan: Eles eram amigos meus de Cleveland. Eu os conheci de ir aos shows e tocar pela cidade quando ainda estava no colegial.

Sounds: Qual papel a música tem na sua vida, considerada sua infância e também a adolescência? Quando começou a tocar e por quê?
Dylan: Música sempre foi a única coisa na minha vida na qual eu era bom. A sensação que tenho ao tocar não ocorre quando estou fazendo outras coisas… parece que é a coisa certa pra mim. Comecei a tocar piano quando ainda era muito novinho, e daí passei a aprender muitos outros instrumentos.

Sounds: Você largou a faculdade assim que percebeu um futuro no Cloud Nothings. Em que ano isso ocorreu? Foi uma decisão difícil? Pensa em voltar a estudar?
Dylan: Isso aconteceu há mais ou menos cinco anos. Foi uma decisão fácil, pois eu odiava a faculdade! Eu faria qualquer coisa que me livrasse das aulas. Não pretendo voltar à graduação; é muito cara nos Estados Unidos e não tenho nenhum interesse que seria facilitado por um diploma universitário.

Sounds: Foram necessários três discos para que o Cloud Nothings fosse elogiado por público e crítica. Até isso acontecer, chegou a pensar em desistir da música? O que fez com que continuasse e quem o encorajou?
Dylan: Nunca pensei em desistir, pois mesmo quando ninguém vinha aos shows, eu estava me divertindo ao viajar e tocar com meus amigos. Eu realmente não me preocupava com sucesso.


Sounds: Qual é a sua rotina durante as turnês? O que costuma levar para combater o tédio e o cansaço?
Dylan: Eu leio livros na van, o tempo todo. Isso evita que eu fique entediado. Geralmente, acordo antes de todo mundo, tomo café e fico relaxando por um tempo, sozinho. Então, dirijo para a próxima cidade da turnê.

Sounds: O que a banda costuma fazer nas cidades em que toca? Vocês conseguem sair e fazer algum passeio turístico?
Dylan: Tentamos ver pelo menos alguma coisa em todas as cidades onde tocamos, mas geralmente nem temos tempo para isso. Reservo a maior parte dos passeios para minhas viagens fora das turnês.

Sounds: Você é tão novo e já tem quatro discos no currículo, o que me leva a pensar que você passe o tempo todo compondo. Quanto tempo você dedica a escrever e a tocar? Quais outras atividades você faz quando não está na estrada?
Dylan: Na verdade, não componho o tempo inteiro. Quando não estamos em turnê, eu fico mais focado em conhecer coisas novas e viver experiências, em vez de ter a necessidade de criar alguma coisa o tempo todo. As letras vêm depois que eu me sinto satisfeito com uma nova visão de vida, e, portanto, tenho um assunto novo para me inspirar nas composições.

Sounds: As pessoas cantam suas letras durante os shows, as resenhas dos últimos discos foram bem favoráveis e você agora é um músico que pode ser reconhecido na rua. Como lida com isso? É algo natural, ou você ainda se deslumbra com essas situações?
Dylan: Não posso dizer que seja algo natural, mas me acostumei com isso, e tudo é muito empolgante. É realmente muito legal saber que se dedicar a algo por um longo tempo pode, de fato, trazer sucesso. Gosto muito desse reconhecimento da crítica e dos fãs. A situação que vivo hoje é surreal.


Sounds: Você tem algum ídolo musical, que o inspire e te faça desejar ser como ele(a)?

Dylan: Tenho alguns… Neil Young, Greg Sage, Jimmy Page, John Fahey… a lista não tem fim!

Sounds: Suas letras são escritas e cantadas em um contexto agressivo, embora frequentemente você seja descrito como uma pessoa de fala suave. De onde vem essa agressividade e como lida com ela no seu dia a dia? De que maneira a música pode ser um alívio para sentimentos estranhos e situações ruins?
Dylan: Não são uma agressão, na verdade… é mais uma energia eufórica. Não estou necessariamente bravo com alguma coisa, mas essa energia vem quando toco. Música é o grande alívio para mim, pois me ajuda a me manter focado. É bom cantar ou tocar guitarra e não pensar em absolutamente nada por um momento.

Sounds: O que fez com que a banda mudasse dramaticamente de sonoridade do primeiro disco para o Attack on Memory [de 2012]? Se no primeiro tínhamos leveza, otimismo e até doçura, Attack on Memory trouxe velocidade, distorção, fúria e angústia. Essa mudança chegou a ser encarada como um risco?
Dylan: A mudança na sonoridade parecia ser algo que precisava acontecer. Senti como se não conseguisse mais compor músicas mais pop e suaves, então eu precisei fazer algo diferente para me manter interessado musicalmente. Não me pareceu um risco, mas sim, algo excitante. Gosto de desafios.

Sounds: E por que escolheu Steve Albini para fazer a engenharia de som do Attack on Memory? Como foram as sessões de gravação e o que ele acrescentou à sonoridade de vocês?
Dylan: Steve Albini pareceu ser a escolha mais evidente, já que ele só grava bandas ao vivo, e era exatamente isso que queríamos. Ele fez com que o disco soasse como um show, o que na verdade é algo bem raro de um produtor conseguir.

Sounds: Here and Nowhere Else parece seguir a mesma raiva percebida em Attack on Memory. Por que vocês decidiram manter essa sonoridade mais obscura e ruidosa? Além disso, nos dias de hoje, você se identifica com os discos anteriores [o álbum homônimo e Turning On]?
Dylan: Eu só quero que as músicas estejam boas, e aquele tom mais obscuro foi o que me pareceu legal na época. Já não mais me identifico com os discos anteriores, mas tenho orgulho deles. Eles foram um retrato bem fiel do que eu era aos 18, 19 anos, então é divertido tê-los como registro. Tenho certeza de que vou ouvi-los daqui a uns 40 anos e ficar todo nostálgico.

Sounds: Quais pedais de distorção e de efeitos vocês usaram nas gravações de Attack on Memory e Here and Nowhere Else? Pude ver que, ao vivo, as músicas soam praticamente da mesma maneira que nos discos.
Dylan: Eu usei um ’79 MXR Distortion + no Attack on Memory, e no Here and Nowhere Else usei um pedal chamado Pandora. Ao vivo, uso apenas dois pedais de distorção do Walrus Audio, gentilmente enviados pelos correios pra mim. Eles são alguns dos melhores pedais que já usei na vida.


Sounds: Uma característica marcante do Attack on Memory e do Here and Nowhere Else é que você pode ouvir baixo, bateria e guitarra com clareza, como se fossem organismos completamente independentes mas, quando colocados juntos, ressaltam a força de cada um e criam estruturas massivas de barulho. Vocês quiseram provocar essa impressão?
Dylan: Sim. Gosto de quando todas as partes da músicas são fundamentais para que ela seja boa. Sem a guitarra, ou o baixo, ou a bateria, essas canções não funcionariam. Mas o entrelaçamento de tudo isso, ao mesmo tempo, cria um som legal. Acho isso bacana.

Sounds: Como as músicas são compostas? TJ e Jayson se envolvem nesse processo?
Dylan: Eu escrevo a base, e então Jayson e eu a completamos juntos para que fique melhor do que a ideia original. Daí TJ coloca o baixo.


Sounds: Como foi a transição de porões para estúdios, considerando suas gravações caseiras do começo da carreira? Você ficou mais confiante quanto à sua voz e quanto à experimentar arranjos?

Dylan: A mudança foi bem tranquila. Entrar em um estúdio pela primeira vez foi muito empolgante, e é ótimo ter um engenheiro profissional por perto, que realmente sabe como gravar as músicas, em vez de ficarmos sozinhos em um porão, confusos porque nada funciona. Definitivamente experimentei novos arranjos e novas formas de cantar em todos os discos, mas ainda não sei se estou mais confiante hoje. Acho que, hoje em dia, me importo cada vez menos com o que os outros pensam sobre isso.

Sounds: “No Future/No Past”, “Wasted Days” e “Pattern Walks” possuem uma estrutura instrumental bastante pesada, ruidosa e improvisada no meio das músicas. Quais foram suas influências na composição delas e por que são mais longas que a duração média das outras faixas dos discos?
Dylan: Eu apenas sabia que essas músicas precisavam ser longas. Eu já tinha composto todas as partes e, uma vez encaixadas, percebi que tinham ficado bem longas. Gosto de improvisar, e isso não é muito comum de se ouvir em uma banda conhecida por músicas rápidas e melódicas; então, é bacana poder fazer isso. É uma maneira de me proteger do tédio, além de me dar tempo para improvisar durante os shows, algo de que gosto bastante.

Sounds: Quando podemos ver um show do Cloud Nothings no Brasil? Vocês são adorados por aqui.
Dylan: Tomara que logo! Amaria ir pro Brasil. Se não conseguirmos um show, quero pelo menos passar as férias aí.

* Matéria publicada originalmente no site Suppaduppa.