Entrevista: Ian MacKaye Encontramos o músico na Dischord para um papo sobre o The Evens

In Bandas, Entrevistas

Foto: Jodi

Outra daquelas entrevistas da vida. Daquela em que entramos com muita admiração e curiosidade, e saímos ainda mais fãs – e com novas perguntas. Ian MacKaye ajudou a construir a vivência da música que tanto admiramos. Esteve presente em bandas seminais para o punk, o emo e o alternativo (Teen Idles, Minor Threat, Embrace, Fugazi); criou, junto com Jeff Nelson, a Dischord, uma gravadora que se tornou o berço e o lar do punk americano da costa leste, e uma influência para inúmeras gravadoras e músicos; é um representante ativo e incansável do do it yourself (faça você mesmo), inspirando milhares de pessoas ao redor do mundo; e também memória viva do poder transformador da música, contribuindo com livros, documentários e exposições e tantos outros combustíveis da História.

Com o The Evens, banda formada por ele e por Amy Farina (Ted Leo and The Pharmacists/The Warmers), com quem é casado, Ian continua fiel à sua ética e ao respeito pela música. Nesta entrevista inédita, feita na Dischord House quando o visitamos em Arlington, Virgínia, em 2015, ele demonstra o reflexo de cada escolha, seja de onde tocar, como tocar, como se posicionar no palco, como lidar com a arte e outros aspectos que poderiam parecer automáticos para uma banda, mas que no caso do duo, se tornam uma assinatura. O que ficou mais evidente desta conversa bastante franca, vocês vão ver, é que Ian quer falar sobre música e está completamente aberto – e sendento – para esta discussão. Tudo gira em torno dela, do efeito que ela provoca nas pessoas, da maneira como ela motiva cada nova banda criada por aí.

Sentado na varanda da Dischord House / Foto: Sounds Like Us

Sounds Like Us: É muito bom estar aqui com você. Como está o The Evens hoje?
Ian MacKaye: Nós não fizemos nenhum show nos últimos anos. Estamos trabalhando em algumas ideias bem interessantes no baixo e escrevendo um monte de músicas, mas ainda não descobrimos o que estamos fazendo. Então é como um compasso de espera. Na última turnê que fizemos, do The Odds [lançado em 2012], fiquei realmente impressionado com a sensação de não ter qualquer tipo de conexão com as pessoas por não estar despertando o interesse delas pela música, pensando em quando as pessoas pelo menos ouviam os discos. E isso é um problema para mim. Porque quando Amy e eu estamos trabalhando nos discos ou escrevendo músicas, eu realmente trabalho muito, muito, muito nessas coisas. E penso muito sobre as letras. Nós gastamos uma quantidade incrível de energia criando cada uma delas. Nem há um esforço em tentar escrever música juntos e cantá-las, mas quando nós decidimos mostrar isso para o público, há uma exigência – que vale para todo mundo, claro, mas no nosso caso, é uma exigência de criação de letras que façam algum tipo de sentido com os arranjos e, e fazemos isso justamente porque esse conteúdo vai ser compartilhado com outras pessoas. E há um trabalho enorme nisso. Se as pessoas não estão ouvindo, elas nem percebem o quanto você se dedicou. E acho que elas estão sobrecarregadas. Não acho que não estejam ouvindo porque a banda é ruim mas, honestamente, por ter música pra caramba no mundo.

Nossos shows são bem legais, gostamos de tocar, mas essa interação que falei no início é algo que nunca aconteceu. E essa é uma outra experiência bem esquisita pra mim porque quando você faz um show, você está construindo algo coletivamente, a banda e a plateia. E quem está na plateia não vem mais conversar comigo. E acho que isso tem a ver com o fato de eu não ser mais um “semelhante” para essas pessoas, sabe? Historicamente, fui um semelhante em todas as bandas nas quais toquei. Só que agora tenho 53 anos [isso em 2015] e muitas das bandas com as quais tocamos são 30 anos mais novas que eu, e elas parecem intimidadas com minha presença. “Este é o Ian MacKaye, não é? Não consigo falar com aquele cara!”. Então não tenho conseguido uma troca muito fácil com as pessoas. Para mim isso é fácil, mas não acho que seja para outras pessoas. Então eu tenho algumas coisas para pensar, como o fato de que vou continuar fazendo música – obviamente não há nada que eu queira mais do que isso, sair em turnê no Brasil, fazer um show…. eu amo isso. Mas não quero fazer isso só porque eu tenho condições para isso; não é suficiente para mim. Posso me juntar com quaisquer 3 caras, tocar rock alto e arrumar shows em segundos, mas isso não é suficiente. Eu quero movimentar a porra do lugar. Eu quero desafiar as pessoas. Eu quero intrigá-las, mas quero que elas se sintam intrigadas porque estão pensando, e não porque estão entediadas. Então é por isso que no ano passado [2014] nós trabalhamos tanto em nossas músicas, pois eu queria que as pessoas se sentissem conectadas.

Minor Threat

Sounds: Essa é a primeira vez que você sente essa falta de conexão?
Ian: É difícil dizer porque quando o The Evens começou a tocar, era como estar com o Fugazi, então as pessoas me conheciam muito bem. Quando nós fomos para o Brasil, tivemos uma ótima estadia por lá, mas o disco que nós lançamos há alguns anos [The Odds, de 2012] foi 10 anos depois que o Fugazi fez seu último show, e nós não tínhamos feito nenhuma turnê nos últimos anos, por várias razões. Eu pensei que aquele era um disco bom pra caralho… nós estamos nos reconectando, mas os shows dele foram como abraçar alguém que não estava lá. Rolou um engajamento de novo, mas é como se ninguém estivesse lá.

“Eu acho que estou mais interessado em criar um novo mundo, e este sempre foi meu interesse. Se você pensar, a Dischord e o Fugazi sempre foram sobre criar um novo ambiente.”

Sounds: E o que você sente com o fato de a atenção ser colocada em muitos lugares ao mesmo tempo?
Ian: Acho que está exagerado. Há muitas opções e as pessoas estão agindo como em um estalar de dedos. Elas não conseguem passar por uma música inteira em todo o álbum. E a “coisa estranha” que preparamos para o disco está na última música, sabe? Eu planejei isso, coloquei esse pequeno áudio em que um cara recita sabores diferentes. É um detalhe surreal que coloquei lá justamente para que as pessoas se perguntassem “o que é isso?” Mas ninguém jamais perguntou sobre isso. Nunca! E eu acho isso muito estranho. “Por que eles fariam isso? O que isso significa?” O cara fica falando “morango, mirtilo, abacaxi ….. mirtilo, morango”, uma lista de sabores. E eu pensei que as pessoas reagiriam: “isso é um final tão estranho… certeza de que você quer colocar isso?”. Mas ninguém falou nada. Ninguém nunca me disse uma palavra sobre isso. Mas eu entendo. Está no final do disco, é muito tempo para chegar até o final do disco….

The Odds, de 2012 / Foto: Sounds Like Us

Sounds: Será que isso ocorre porque, além das faixas puladas, os pacotes de mp3 não estarem completos?
Ian: Eu simplesmente não sabia que era assim que as pessoas estavam envolvidas com a música. Elas não as escutam como um disco. Tipo, vocês ainda ouvem músicas como um álbum completo?

Sounds: A gente escuta o disco inteiro.
Ian: De A a Z?

Sounds: Sim, mas às vezes a gente se acha meio esquisito. Aqui mesmo [em Washington, DC], estamos comprando um monte de discos e as pessoas olham para nós e dizem “Meu Deus. Isso tudo? Só um disco não seria suficiente?”. Mas é que a gente está comprando discos que representam nossas vidas!
Ian: Vocês escutam todos eles? Se aprofundam neles?

Sounds: Sim, todos.
Ian: Pergunto isso porque, pra mim, as pessoas não estão se envolvendo com a música por meio dos álbuns. Elas compram LPs, mas os escutam aleatoriamente. Baixam músicas, colocam em seus malditos dispositivos e ouvem no shuffle. Se você tem um disco na sua estante, você o enxerga. Você não o vê nas malditas plataformas digitais.

Ian mostrando o fotolito da capa das primeiras demos do Fugazi / Foto: Sounds Like Us

Sounds: Se não está tocando, não existe.
Ian: Se você olha para um disco, você pensa: “ah, vou ouvir esse”. Se é um livro você diz “vou ler esse”. Mas se isso tudo está no computador… Eu entendo o que está acontecendo, é uma mudança. Mas em relação a fazer shows, é trabalhoso pra mim porque nós não tocamos em clubes de rock e não há mais ninguém fazendo o que nós fazemos. Começamos com nosso próprio PA, microfones, simplesmente fizemos tudo por conta própria. No Brasil, obviamente tivemos ajuda, mas aqui eu mesmo marco nossos shows. Eu ligo para as lojas de discos e marco. Então, quando fazemos turnês assim, eu tenho que fazer todo o trabalho. É muito trabalho. E assim que vamos embora, não é como se começasse uma nova cena musical, porque ela se fecha novamente. Imagina que você tem um facão e está cortando tudo pelo caminho, mas aí você olha pra trás e o mato já cresceu tudo de novo. É como me sinto em relação a isso. Com o Fugazi e as outras bandas da época, você ia conseguindo cortar esse mato. Mas com o Evens, é como se você cortasse, mas aí todo o trabalho se perde quando você viaja. Porém, isso é algo que a gente escolheu. Não é uma reclamação, e a questão toda é: a gente tem tocado onde, quando, da maneira e pelo motivo que queremos. Ninguém nos diz o que temos que fazer. É parte do desenho da banda. Como eu disse, eu poderia facilmente sair em turnê com uma espécie de “banda do Ian MacKaye” e conseguir shows em qualquer parte do mundo, mas não é o que quero. Pra mim, já tem merda suficiente rolando e não estou interessado. Nunca estive.

Pra falar a verdade, nos últimos dois anos das turnês do Fugazi eu estava bem desconfortável com o circuito em que estávamos. A gente estava tocando em vários locais grandes, mas enquanto alguns deles faziam sentido por conta de serem conhecidos, a maior parte dos outros eram bares e estavam conectados com todas as bases da autodestruição. Mas também, todo o resto do mundo estava em turnê, então em uma noite era o Fugazi, na outra era o Black Oak Arkansas, na noite seguinte o baterista do Steely Dan, depois o Mudhoney e, na sequência, a Cindy Lauper. Sabe aquela expressão, curva de rio? É como me senti. Você fica girando nesse circuito, e todas as bandas que existem ficam fazendo turnê no mesmo circuito. Aí concluí que não queria fazer parte daquilo. Sou um punk. A minha parte era desafiar o pensamento convencional. É mais fácil fazer do outro jeito, mas vocês sabem, com o Fugazi fazia sentido, pela banda ser grande. Mas era bem difícil, pois não podíamos tocar em galerias de arte porque não seria justo, já que só caberiam 100 pessoas e as outras 1.900 que queriam nos ver ficariam de fora. Então, quando a banda decidiu entrar em um hiato, eu e Amy decidimos criar nosso próprio caminho como uma banda. Até no Brasil tocamos em lugares diferentes. Em São Paulo a gente tocou naquele centro comunitário…

“Para nós [Fugazi], tudo girava em torno da música. Mas é muito difícil as pessoas falarem apenas sobre a música. Acho que a nossa ética foi algo que soou muito alto…. as pessoas falavam “meu Deus, eles não fazem isso, não fazem aquilo”. Era uma baita banda. E as pessoas não entendiam que elas realmente podiam ter controle da situação”

Foto: Sounds Like Us

Sounds: No Sesc!
Ian: Sim, e lá foi incrível! Foi um show incrível naquela noite [Sesc Vila Mariana, em março de 2007]. No Rio de Janeiro, tocamos duas vezes em um estúdio [Audio Rebel], que foi legal. No início não, mas depois o show foi bem bonito. Eu estava bem cansado, pois o Brasil é sempre difícil. Mas também porque naquela época os controladores de voo estavam em greve.

Sounds: Ah, foi durante a crise dos aviões na ANAC. Atrapalhou o voo de vocês?
Ian: Levamos 10 horas. Foi um pesadelo. Um baita pesadelo.

Sounds: A gente se lembra dessa época. No auge daquela crise flagraram a presidente da instituição, que deveria estar resolvendo a situação, fumando um charuto em uma festa.
Ian: Que desastroso. Eu devo ter passado metade do meu tempo no Brasil. Qual o nome do aeroporto doméstico de São Paulo?

Sounds: Congonhas.
Ian: Esse mesmo! Eu estava lá todos os dias. Isso estava me deixando louco. Então, quando chegamos ao Rio, eu estava extremamente exausto, mas a galera da Audio Rebel (é esse o nome?) era realmente muito legal. A gente tocou em uma sala nos fundos. E sabe, tinha um pub maluco em Vitória, acho, teve também um museu [aqui a gente acha que ele juntou as lembranças do Victória Café, em Londrina; do UK Pub, de Recife, e do Santander Cultural, de Porto Alegre]. Era uma espécie de pub inglês em que a gente tocava de um lado e do outro tava rolando uma festa bem barulhenta. Era completamente maluco. Já em Curitiba tocamos em uma galeria, eu acho…

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Não foi em Porto Alegre?
Ian:
Isso, em uma sala de vidro. Foi muito legal. É difícil quando você viaja, é bem mais difícil encontrar lugares assim. Aqui nos EUA a gente tocou em um teatro antigo em Portland, em uma espécie de salão em Olímpia, em um estúdio vintage de fotografia em Eugene, desses em que as pessoas se vestem como se estivessem em outra época, com roupas de caubói e tal. Tocamos em uma escola de ensino médio em Berkeley, e foi ótimo. E outra coisa é que eu marco os shows para ficar fora por um mês, e o resto do pessoal marca por seis meses porque agora todos os clubes de rock são agenciados por um produtor. As bandas já não marcam mais os próprios shows.

Sounds: A gente se pergunta se as bandas conhecem os locais onde vão tocar…
Ian: Algumas sim, mas a maioria simplesmente diz “ok”. Pra mim é completamente contraditório viver assim porque sempre diríamos “não vamos tocar naquela merda de lugar”, sabe? Tem produtor de shows marcando nos lugares com seis meses de antecedência – quem pensa assim na vida real? – e aí tem buracos na agenda, de você não poder marcar um show em dezembro porque tem outro ali no meio e sequer dizem que banda vai tocar; o produtor simplesmente está reservando a data.

Sounds: Isso é triste.
Ian: É um sistema doente.

Gravações do The Evens / Foto: Sounds Like Us

Sounds: É a lógica do trabalho, né?
Ian: Pra mim, de onde eu venho, toda a ideia do punk é não fazer parte deste sistema. É como eu olho para isso. Então, se isso significa ser underground, tudo bem. Sabe, eu não acho que consiga fazer parte disso [do sistema], não me faz sentir bem, eu fico deprimido. Eu simplesmente não estou interessado naquele mundo. Eu acho que estou mais interessado em criar um novo mundo, e este sempre foi meu interesse. Se você pensar, a Dischord e o Fugazi sempre foram sobre criar um novo ambiente.

Sounds: Sim. E você parece uma pessoa inquieta.
Ian:
Inquieto?

Sounds: É, no sentido de não se acostumar com o que já está aí.
Ian: Ah, sim, sim, sim. Isso, não quero ser complacente. É que inquieto, pra mim, é uma sugestão, algo como “eu tenho que fazer alguma coisa”. E não sou assim.

Sounds: Ah não, não estávamos pensando por esse lado…
Ian: É mais como se eu estivesse dirigindo para algum lugar e a rodovia fosse o meio mais rápido de chegar. Tem pedágios nela, mas estradas pequenas também me levariam até lá. Elas são mais interessantes, mas demoram mais. Pra mim, você tem mais a aprender nas estradas pequenas.

Sounds: Isso é grandioso.
Ian: É, mas acho que é complicado pra mim porque as pessoas sabem quem sou eu e uma parte de mim tem a impressão de elas falarem “ah, você é cínico, você sabe que, por ser famoso, as pessoas sabem quem você é”. E aí, quando simplesmente faço as coisas de um jeito menor, as pessoas não se interessam.

“Acho que o rock e o punk, em certa medida, foram seduzidos pelo volume, além de serem comprimidos por ele”

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Por quê?
Ian:
Elas [as pessoas] não estão interessadas. Elas não entendem… eu sempre digo às pessoas “O Evens é a coisa mais punk que já fiz”.

Sounds: Por que você diz isso?
Ian:
Eu sinto que é mais confrontativo. As ideias estão todas ali, sem um sistema de som que as esconda. É isso que vocês perguntaram?

Sounds: É isso mesmo. E outra pergunta que a gente tem é que quando você criou o Evens, temos a impressão de que as pessoas esperavam algo agressivo ou relacionado ao punk por conta de suas bandas anteriores. O Evens tem leveza, mas quando você escuta a banda, especialmente ao vivo, é bem pesado. Não no sentido do heavy metal, mas sim em densidade. E dessa experiência vocês parecem extrair leveza. A gente estava pensando aqui, de onde vem esta leveza? Da estrada, do tempo? Vem de você e Amy estarem tão confortáveis um com o outro e as coisas soarem tão naturais?
Ian:
Tem um monte de “sim” para todas estas perguntas. Eu não sei, pra mim não é como se a música fosse tão pesada quanto agressiva. Acho que depende da forma como você define essas palavras. Acho que o rock e o punk, em certa medida, foram seduzidos pelo volume, além de serem comprimidos por ele. Passei todo esse tempo falando para vocês sobre o problema com os circuitos: parte da razão pela qual as bandas estão nesses circuitos é por causa do volume que elas escolheram para tocar. Eles conseguem tocar alto por um tempo, mas em algum momento os policiais vão desligar, você sabe. Então nosso sentimento era “como podemos tocar em outros locais? O que podemos fazer para escapar do circuito das casas noturnas?”. Abaixar o volume. Parece tão óbvio. E na minha cabeça, alguns dos momentos mais profundos da minha vida foram próximos ao silêncio. Não foram altos, não foram distorcidos, não foram direto na porra da minha cara. Algo poderoso, para mim, não precisa ser alto, só precisa ser real. É possível também por ser apenas nós dois [ele e Amy] e sermos uma banda diferente. Eu não queria gritar o tempo todo. As pessoas muitas vezes pensam em mim como uma pessoa muito brava, e não sou um cara bravo.

Ian em show do Embrace / Foto: Jim Saah

O que as pessoas não entendem é que, se você esteve numa banda tocando música extremamente alta, com muita agitação no palco, o único jeito de você transmitir as letras era gritando. Mas não necessariamente porque você estava furioso. Nunca fiquei furioso. Eu não sou um cara furioso. Tô falando sério. Vou gritar, e isso não me importa, mas não porque estou furioso. Para mim, é por emoção. Janis Joplin era minha heroína quando eu era criança. Ela estava furiosa? Eu não sei. O punk imediatamente faz você parecer que está com raiva, e claro que estou com raiva, não há dúvida sobre isso. Mas eu não estou furioso, e acho que essa é uma questão semântica, certo? Mas não importa, tudo bem quanto a isso! Eu quero ir longe, sabe. Quero tocar música até morrer. No blues e no jazz, quando você envelhece, as pessoas ainda o reconhecem como um músico válido. Você não olha para o cara do blues e diz “este cara já não é mais relevante”. Mas no rock, os músicos mais velhos parecem ter dois destinos: um é ficarem cansados de competir com os jovens, de se vestir como alguém mais novo, como estão fazendo no hip hop. E o outro destino é vestir ternos e agir como “agora estou mais velho”. Estes dois caminhos não têm apelo pra mim. Ambos parecem desdenhosos de certa forma.

E eu concluí que, para tocar até morrer, não iria ficar em uma turnê com o Fugazi ou algo assim. Se decidirmos voltar a tocar, faremos do nosso jeito, segundo nossa vontade, mas eu vou tocar sentado. Por duas razões: uma é que quando você está sentado, você não precisa ficar pulando no palco o tempo inteiro. Quando eu tiver 75 ou 80 ou 85 anos eu vou ficar pulando como um pug no palco. E as pessoas vão falar “olha, ele está se sentando”. Então eu já vou ficar sentado agora. E aí, terei tocado sentado por 30 anos. A outra razão é a Amy está sentada na bateria. Se fico sentado também, ficamos em condições iguais [we’re evens, em português, quer dizer “estamos quites”]. E essa é a ideia. Nos sentamos perto um do outro. Isso foi pensado, eu e ela combinamos isso. Eu estava pensando, se quero tocar pelo resto da minha vida, em qual ritmo devo escolher? E este é um bom ritmo. Mas não acho que seja leve, necessariamente. Acho que a gente soa como nós mesmos, não sei explicar. Tem gente que nos chama de “duo folk”. Acho isso uma loucura.

Sounds: Duo folk? Sério?
Ian:
Eu vejo muitas bandas agora e eles têm guitarra, pedais, synth, é insano. A quantidade de processamento do som não tem a ver comigo. Não parece soar como um som. Essa coisa é totalmente…

Sounds: Comprimida.
Ian: É, e não curto isso. Prefiro ouvir alguém tocando um bongo real. Não importa quão descolada esta coisa seja, pois não me importo com o que é descolado, que se foda o descolado. Eu só quero que seja real. Eu só quero que as pessoas se arrisquem, compondo algo que querem dizer, cantando isso e não tendo vergonha. Pra mim, o Evens é realmente capturar essa essência, algo como “aqui está”.

“Ninguém me pergunta sobre meus discos, sabe? É estranho porque eu acho que discos são como um quebra-cabeça. Nós colocamos nossas ideias”

Sessão de fotos do disco Red Medicine, do Fugazi

Toda a missão da Dischord era “crianças podem tocar, então vamos agarrar nossas próprias armas”. Éramos crianças! Nosso primeiro disco lançado foi em 1980. Eu tinha 18 anos, era um garoto. A gente não sabia que porra estávamos fazendo, mas eu sempre soube de uma coisa: se a gente continuasse fazendo nossas coisas, seria uma maneira de mostrar para as pessoas que aquilo era possível de ser feito por garotos. Mas o que aconteceu foi que enquanto todo mundo meio que se virou para o mainstream, nós continuamos onde estávamos. Aí as pessoas diziam: “vocês são fora do comum. Vocês são um povo excêntrico”. Mas eu acho que éramos crianças normais.

A ideia da gravadora era meio que mostrar que qualquer um podia fazer isso. Se alguém foi reconhecido como especial, qualquer um poderia ter este reconhecimento. Com o Fugazi, a gente recusou tudo referente às grandes gravadoras, e estávamos comprometidos a fazer canções que pensávamos ser percebidas pela imprensa musical como “esses caras se importam com a música”. mas o que eu não levei em consideração foi que a imprensa musical era feita de músicos frustrados. Tudo que eles queriam em toda sua vida era assinar com uma grande gravadora, e lá estávamos nós, “cagando” pra isso. E eles nos odiaram por isso. Era do tipo “vocês podem ter aquilo que sonhei, mas vocês rejeitam”. E a gente tentando mostrar que o que importava era a música. Você tenta comunicar uma ideia, mas você precisa lembrar que a transmissão é uma coisa, e recepção é outra, completamente diferente. As pessoas ouvem as coisas de acordo com o que vivem.

Fugazi em 1988 / Foto: Andy Perseponko

Sounds: Te incomoda que às vezes as pessoas vêm falar mais sobre o espírito do Fugazi do que sobre a música?
Ian: Claro! Mas a culpa é nossa. Para nós, tudo girava em torno da música, é só por isso que a gente toca. Mas é muito difícil as pessoas falarem apenas sobre a música. Acho que a nossa ética foi algo que soou muito alto…. as pessoas falavam “meu Deus, eles não fazem isso, não fazem aquilo”. Era uma baita banda. E tudo que queríamos era focar na música, mas as pessoas não entendiam que elas realmente podiam ter controle da situação. Colocávamos luzes brancas porque o destaque era a música. Fizemos shows para todas as idades porque queríamos que todo mundo pudesse estar presente. Quanto ao preço dos ingressos, você precisa escolher se quer ser um evento de entretenimento ou de música. Se você cobra caro pelo show, é melhor você entreter, certo? Mas se você cobra um preço razoável, você oferece música. Eu ouvi alguém dizendo algo sobre o Evens, algo que eu mesmo diria: “a banda e o público fazem o show juntos”. Se o público não estivesse lá, então seria apenas um ensaio. Essa é a prova. Sem público, não é show, é um ensaio. Na minha cabeça, a banda e o público têm um trabalho mútuo, que é fazer com que aquilo seja um show.

Então, voltando às nossas ideias: O Fugazi toca, mantém um preço de ingresso justo e faz um show. A ideia é transcender, é fazer algo acontecer. Trata-se da música. Tudo o que eu faço gira em torno da música. Nós ensaiamos o tempo todo. A gente trabalha, trabalha e trabalha na nossa música, e aí criamos músicas interessantes. Todos nós ficamos malucos com o fato de as pessoas terem falado só do fato de termos feito shows para todas as idades e com ingressos a 5 dólares. É muito decepcionante. Vi bandas se tornarem populares e falarem delas por sua importância, e elas nem são boas! Mas elas têm uma boa história, como, você sabe, “esse cara veio de uma família desequilibrada, foi viciado em heroína, mas está limpo agora”. Os jornais adoram isso. As pessoas que escrevem sobre música adoram isso. Vocês são jornalistas de música?

Sounds: Já fomos um dia (risos).
Ian: É sempre essas histórias…

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Vimos o The Evens em São Paulo e o show foi ótimo, além de você ter sido bem acessível ao público.
Ian: É, aquele foi um bom show. É um exemplo de show que me faz pensar: “certo, continue tocando!”, mas tem um monte de shows em que eu só penso: “o que foi aquilo?” Aquela noite foi interessante, mas surgiu uma situação que precisamos contornar. Eu decidi vender alguns discos ao fim de cada show. Achei que poderia ser um jeito de falar com as pessoas, interagir com elas, usar os discos como uma maneira de conversarmos. Se eu simplesmente estou sentado, em uma postura de “você pode vir aqui conversar comigo”, as pessoas acabam não indo. Mas o fato de estar chamando as pessoas com um aceno de mão é mais convidativo, e também é bom porque podemos vender alguns discos. Mas isso está virando aquelas situações de shows grandes… foi uma hora de show, e uma hora e meia de venda de discos e conversas com o público. E naquele show em São Paulo eram umas 100 pessoas com câmera tentando tirar fotos, e aquilo tudo estava ficando insano para mim. Foi a Amy quem percebeu que aquilo tinha que parar uma hora, pois não estava sendo uma situação saudável. Eram muitas câmeras. Eu quero estar disponível para conversar com as pessoas, mas elas agem como se eu estivesse acima delas. Sabe, um cara veio até mim e disse “você salvou a minha vida”, e eu “obrigado”. Aí veio um outro cara e falou a mesma coisa, o que eu agradeci.

Sounds: Meio que as pessoas hoje se importam mais com as fotos e não tanto com a música… e também pode ser timidez dessas pessoas, não acha?
Ian: Aquela noite em São Paulo foi a primeira vez em que as coisas saíram do controle. A Amy me levou pra fora, me cutucou e disse “isso tem que parar!”. Aí as pessoas surgiam e queriam comprar um disco, e comecei a pedir para aguardarem.

Sounds: É uma boa decisão.
Ian: Finalmente, com as poucas pessoas que sobraram, eu tirei algumas fotos.

Sounds: Nos parece frustrante que você não tenha a chance de falar sobre seu disco com as pessoas.
Ian: Ninguém me pergunta sobre meus discos, sabe? É estranho porque eu acho que discos são como um quebra-cabeça. Nós colocamos nossas ideias, como “ok, essas são músicas para as pessoas pensarem”. “O que isso significa?”


Sounds: Quando escutamos a “I Do Myself”, do The Odds, ficamos imaginando essa música nascendo da convivência entre você e Amy na cozinha, cozinhando. A gente cria algumas histórias sobre as músicas e suas composições.
Ian: Duas pessoas me contaram suas teorias sobre esta música. Uma delas me disse que era sobre suicídio e uma outra pensou que fosse sobre masturbação.

Sounds: [risos]
Ian:
E não, não é sobre cozinhar.

Sounds: E a gente não pensou isso por conta da letra, mas por conta do sentimento. Algo acolhedor, uma vibe de intimidade…
Ian: Essa é a ideia. Nós escrevemos essa música no andar de baixo [da Dischord], há muitos anos. Ela vinha e voltava por muito tempo – eu tenho uma versao dela de 2001 – e demorou uma eternidade para terminá-la. Escrevi uma parte, Amy outra, e a gente ficava mandando as partes um para o outro. Na verdade, esta música tinha um outro final, que cortamos.

Sounds: Sério? Por quê?
Ian: Não me lembro muito por que. Quando arranjamos nossas músicas, como no Fugazi, nós mudamos as coisas e vamos tentando coisas diferentes, então é difícil de saber. Acho que a compus no piano. Estou tentando lembrar. Talvez eu até tenha escrito essa melodia com Fugazi. A música “Mt. Pleasant Isn’t” [do disco The Evens] era uma música do Fugazi. Na época eu a levei para a banda e eles: “mehhh”.

Sounds: A gente fica feliz de ela ter se tornado uma música do The Evens.
Ian: Eu a mostrei para o Fugazi, eles falaram “isso”, e eu pensei “tá bom”. Mas aí, quando comecei a tocá-la com a Amy, ela disse “essa música é boa”, o que eu pensei “ahhh, isso é ótimo”.

The Warmers no livreto de 20 anos da Dischord / Foto: Sounds Like Us

Sounds: Nós sentimos muita inspiração vindo do The Evens. Soa como um projeto muito pessoal pra gente. Porque é o amor de vocês dois e pela música. Isso é muito inspirador porque nós amamos música e decidimos ter nosso site juntos só para escrever sobre música. Nós estávamos aqui pensando que o The Evens é um projeto mais pessoal do que musical…
Ian: Amy e eu somos amigos há muitos anos. Eu a conheci em 91 e tínhamos muitos amigos em comum. Ela antes estava em uma banda com esta mulher, Lois [Maffeo], e depois tocava no The Warmers, com meu irmão [Alex MacKaye]. Éramos amigos há muitos anos, e sempre falávamos muito sobre música, sobre a vida e sobre tocar juntos. Em 2001, Joe [Lally] e sua esposa, Tania, estavam prestes a ter sua filha, Olivia, e a banda teve um intervalo de 5 ou 6 meses porque alguém relacionado ao Brendan [Canty] tinha nascido ou morrido, alguma coisa tinha acontecido. O bebê de Tania e Joe estava previsto para nascer no meio de setembro, então estabelecemos uma data de parada, provavelmente de 15 a agosto a 1 de setembro, algo assim. Como os pais iam decidir quando iam voltar a trabalhar, essa pausa no Fugazi ficou indeterminada, e eu perguntei a Amy “você quer tocar comigo? Tenho tempo e tem algumas músicas que não levaria para o Fugazi”. E ela disse “sim!”, então começamos a tocar e foi instantaneamente ótimo.

Foi uma experiência tão boa, simplesmente sentar no porão e compor. Começamos a gravar e eu não parava de ter ideias. Meu cérebro estava explodindo musicalmente porque era completamente diferente de compor para o Fugazi. No Fugazi nos tornamos um monstro de quatro cabeças, e é assim que somos até hoje. Qualquer projeto que fizermos terá essa cumplicidade. Eu, Joe [Lally], Brendan [Canty] e Guy [Picciotto] fazemos as coisas em um estalar de dedos porque nos conhecemos muito bem. Quando compomos funciona muito, mas com Amy eu tinha uma conexão completamente diferente. E o Evens foi além de um projeto. Não queríamos fazer shows, estávamos simplesmente gravando coisas em uma fita K7. Eu adorava isso, era muito incrível. Aí mudamos de ideia quanto a fazer shows quando o Fugazi resolveu entrar em um longo hiato. E foi muito legal porque viajamos juntos e tocamos no Brasil, Chile, Argentina, Japão, Austrália, Nova Zelândia, toda a Europa. Foi excelente pra gente, pois estávamos apaixonados e viajar era uma experiência muito legal.

Aí a banda se tornou meio empírica pra gente, como se fosse uma parte nossa. Agora nós dois somos o Evens. Estamos conectados. Como em todo relacionamento, falamos disso o tempo todo. Como a gente faz? E agora, com o filho? É permanente, como uma criança nossa. Não consigo me imaginar não estando no Evens. E quero que as coisas evoluam naturalmente. Gravamos o disco [The Odds] e começamos a turnê em 2013, mas não pareceu natural pra gente. Gostei de tocar, mas o jeito como o circuito dos shows estava funcionando não era legal. Então a gente continuou tocando juntos, pelas manhãs. Você não imagina quanta música foi tocada para cada canção lançada. Ambos estamos descobrindo como fazer isso tudo. A gente se pergunta se deveria trazer uma terceira pessoa para acrescentar uma outra dimensão às músicas, se deveria deixar mais básico… simplesmente não sei. Isso está em aberto. Mas tenho certeza de que estamos conectados. Estamos juntos todos os dias e não tem aquilo de “preciso de espaço”. As pessoas passam metade do tempo delas tentando se descobrir, e às vezes elas fazem isso acompanhadas. Aí, ambos vão tentar se descobrir juntos. Fizemos uma longa pausa e tivemos nosso filho. Além disso, tivemos uma série de mortes na família, muitas coisas ruins acontecendo, enfim, muitas coisas acontecendo no geral. Acho que a gente formou a banda no sentido de “ok, estamos vivendo, estamos fazendo isso”. E vamos lidar com tudo isso.

“O que podemos fazer para escapar do circuito das casas noturnas? Abaixar o volume. Parece tão óbvio. E na minha cabeça, alguns dos momentos mais profundos da minha vida foram próximos ao silêncio”

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Tem alguma chance de o Evens se tornar um trio com o filhinho de vocês?
Ian: Com ele? Ele tem apenas 7 anos [à época da entrevista]. Mas ele toca trompete. É um trompetista nato. Nunca toquei trompete, tampouco Amy, e ele toca trompete. Antes ele tocava bateria, mas agora é o trompete.

Sounds: Isso é ótimo!
Ian:
É bem interessante mesmo. Mas, vocês sabem, ele tem sete anos, pode mudar.

Sounds: Sem dúvida! [risos]
Ian: Tocamos com um baixista e foi muito interessante. Foi legal, bem diferente. Um outro tipo de conversação musical, e libertador em alguns aspectos. Quando se toca em duo, uma pausa sua deixa a pessoa completamente sozinha. Mas em três pessoas, você para de tocar e as outras duas continuam. Mas não sei, vamos ver. Escrevi algumas músicas e gostaria que elas vissem a luz do dia.

Sounds: Claro! Vai ser ótimo ouvi-las.
Ian:
Adoro viajar para tocar, mas a economia está bem incerta. Está tudo caro, e como não tocamos em casas de shows tradicionais, fica tudo mais difícil. Ir ao Brasil, por exemplo, custa uma fortuna.

Sounds: Sério?
Ian: Sim. E seria uma viagem pra pelo menos nós três. E uma quarta pessoa pra ajudar, claro. Isso antes mesmo de entrar no avião. Aí tem a estadia, tem a época da escola dele, a logística. Eu adoraria ir praí. Faria turnês em todos os lugares. Desde 1981 tenho estado fora do país praticamente todos os anos. Mas para o Canadá, por exemplo, fui uma vez nos últimos 10 anos, e essa foi minha grande viagem internacional. Mas tudo bem. Está tudo ótimo.

Foto: Josh Sisk