Interpol Os 15 anos de 'Turn on the Bright Lights'

In Bandas, Discos

O intervalo de duas décadas em relação à que você nasceu geralmente desperta certa curiosidade. Um voyeur artístico, talvez. De repente, aquilo passa a ser tão seu que você se enxerga presente, frequentando, vivendo aquele tempo.

Nos anos 90 eram latentes as referências ao fim dos anos 70. O ressurgimento do punk rock, por exemplo, foi a tônica da década. Bandas que se inspiravam no clássico punk 77 surgiam aos montes e arrebentaram de tocar. Assim como as bandas, nós, fãs de música, também nos reconhecemos em uma década anterior à nossa. Por outro lado, para o bem e para o mal, a imprensa adora esse tipo de “revival”. Por exemplo, mesmo bandas que não soassem punk ou hardcore eram vendidas como tal nos anos 90.

interpol01Chegaram os anos 2000, século 21, nada de bug do milênio, o mundo não era um cenário dos Jetsons e adivinhem só? Os anos 80 eram a bola da vez. E foi um tal de salvação do rock pra cá e pra lá que, se a humanidade fosse 100% roqueira, estaria realmente salva por completo. Os Strokes eram os novos Velvet Underground. Franz Ferdinand os novos Talking Heads. O Killers eram colocados entre o The Cure e o New Order. Bravery, We Are Scientists, Rapture e o… Kaiser Chiefes. Bom, o Kaiser Chiefes era o novo ninguém. Para nós, público, essa classificação é por vezes até saudável. Ajuda na hora de indicar uma banda X ou Y para um amigo ou procurar por novos nomes.

O padrão ajuda mesmo que uma parte das pessoas lute e relute para escapar dele. Faz parte da rebeldia do rock. Ela, aliás, é um padrão. O rock, nos anos 2000, virou um padrão. Todo mundo fazendo tatuagem e os globais, que antes usavam só camisetas do Ramones, adotaram o Joy Division, Smiths, Depeche Mode e The Cure. Lembram do que falamos lá no início? Então, os 2000 eram os novos 80 (duas décadas de intervalo). Não tinha como evitar, o excesso de salvadores do rock e a internet começavam a deixar grande parte do público ainda mais raso e isso afetava o julgamento de quem realmente se entregava à música, fossem estes bandas ou o público. Lollapalizaram o rock. O independente virou gênero. Fodeu!

Disco
LP Turn on the Bright Lights (Matador, 2002)

O rock do novo século era um caldeirão de referências. O problema é que a mídia precisava tanto, mas tanto de um novo ícone, que isso acabou minando a possibilidade de enxergar a qualidade de algumas bandas. Caso do Interpol.

Vendido como filhotes de Joy Division e na contramão da gratificação instantânea do Strokes, logo na estreia o Interpol chegou com Turn on the Bright Lights, derrubando com elegância soturna essa comparação. Não que fosse mal negócio ser comparado ao Joy Division, e por vezes ao Psychedelic Furs. O que pesava aí era a forma massiva com que isso era repetidamente frisado nos veículos mundo afora. O Interpol era, e tinha potencial para ser, muito mais do que só o novo alguma coisa.

Turn on the Bright Lights chega agora aos seus 15 anos de vida. 2002. Mesmo ano de lançamento do lindo Murray Street, do Sonic Youth. Um ano depois de Is This It?, a estreia bombástica do Strokes. É um disco cheio de nuances. Melódico, mas denso. Obscuro, mas dançante. Um álbum elegante no seu preto básico e ternos bem recortados. Turn on the Bright Lights tem uma arrogância criativa que se revela em suaves gotas, com uma paciência pouco encontrada nos jovens. Uma paciência madura.

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Paul Banks e Carlos Dengler

Carlos Dengler é o responsável por travar batalhas enfáticas entre o groove do break-beat e o rock deixando clara a relação de proximidade com a bateria de Samuel Fogarino. Os dois conversam sobre breques, peso, andamentos funk, quebras de tempo e outros assuntos que só se tem na cozinha. É conversa olho no olho. Enquanto isso, Daniel Kessler passeia livre. Cria ruídos, ambiências repletas de reverb e momentos delicadamente shoegaze. Tudo com muito bom gosto. E aí tudo vira uma imensa tela em branco e cheia de possibilidades para que Paul Bakns dê vida a uma atmosfera serena e melancólica. Uma mistura de paixão e apatia calcada em um lirismo potente. Em “NYC” ele canta I had seven faces, thought I knew which one to wear / I’m sick of spending each lonely night, training myself not to care.

Já em “Obstacle 1”, com timbre quase sufocado, Banks escreve It’s in the way that she walks / Her heaven is never enough / She puts the weights in my heart / She puts, oh, she puts the weights into my little heart.

Mesmo que aquela época sugira o contrário, o Interpol ainda é daquelas bandas que se preocupam com o que cantam. Existe um cuidado com as palavras, no encaixe das letras. Talvez seja a tal referência de duas décadas anteriores à que você nasceu. E para uma banda dos anos 2000, era isso. Os anos 80. Talvez o hip-hop, do qual Banks é muito fã, tenha ajudado em seu modo de escrever. Um dia a gente ainda pergunta isso pra ele. Quem sabe?

Turn on the Bright Lights ainda tem o hit “PDA”, que por aqui foi bastante tocado. “Obstacle 2”, “NYC” e “Say Hello to the Angels” compõem juntas boa parte da beleza do disco. “Hands Away” faz uma ponte precisa com “Obstacle 2”, onde Banks primeiro diz If you can fix me up we’ll go a long way  para logo em seguida contrabalancear com take my love in real small doses.

Entra “Stella Was a Diver and She Was Always Down” e aí você aí há de convir, que nome de música! Apesar de um andamento totalmente diferente, ela tem a mesma pressão de “PDA”. Uma completa a outra. São quase extensões, mesmo que independentes e distantes na ordem do disco. Adiante você vai chegar em “Roland”, “The New” e “Leif Erikson”. Que desfecho! Nesta última a banda assume um certo conforto com as comparações ao Joy Division. A gente não acha uma referência direta, mas muito das boas maneiras com que criador e criatura desenvolvem seus temas estão lá.

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Paul Banks

Completados dez anos de seu lançamento, Turn on the Bright Lights ganhou uma versão comemorativa. Um convite para que os fãs pudessem conhecer mais de perto uma banda ainda no preparo do que viria a ser a gravação de seu primeiro registro.

Depois de um interlúdio, os bônus realmente começam com “Specialist”. Nada muito grandioso, e até pode haver uma concordância nos motivos de ela ser uma faixa lado B. “PDA” soa mais despretensiosa e traz um Paul Banks inseguro, meio fora do tom e um Interpol ainda mais próximo e justificado em suas referências e reverências ao pós-punk. Com algumas boas intenções aqui e ali, “Roland” também soa mais ingênua e mais lenta. Mas isso é quase imperceptível.

Entre as inéditas, “Get the Girls/Song 5” tem cara de jam session, mas funciona bem de ponte para “Precipitate”. Tá aí uma que poderia ter entrado no disco se houvesse espaço para mais uma faixa. Por ser da segunda demo, soa um pouco mais bem resolvida. Mais segura. “Song Seven” também se mostra pertinente, assim como as introspectivas “A Time to be so Small” e “Gavilian/Cube”. Mas não é só isso. Entre as famosas, tem versões demo de “Stella”, “Obstacle 2”, “Hands Away” e “The New”, que brinca com o shoegaze em uma bela versão, diga-se de passagem, além de “NYC”.

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Daniel Kessler e Paul Banks

Dentro de todo o desejo por algo novo, o início do século 21 escancarou algumas portas. Nem todas levavam a lugares interessantes ou relevantes para o tanto de expectativas criadas por uma imprensa que via mercado e lucro antes da música como protagonista.

Talvez por isso a palavra revival venda tanto, mas não traduz. Não no caso do Interpol. Não tem revival nenhum. Turn on the Bright Lights é um disco ainda atual. Atemporal, talvez. Um legítimo representante da paixão antes de se transformar em hábito. Um grande álbum de uma banda cheia de reais traços de uma década, onde ela se reconhece e se entrega a um tempo que passa a ser seu. Um tempo de escuridão otimista onde é possível se sentir feliz por estar triste e dançar. O tempo do Interpol.

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