JR Slayer Guitarrista do Head Wound City explora o synth pop em um dos discos do ano

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Entre tantas e tantas bandas apostando pesado na música extrema, no arranhar das guitarras altas do bom e velho shoegaze, na poesia combativa de alguns bons registros do rap e até na energia do hardcore revisitado, o ano de 2016 foi criativamente fértil e muitos lançamentos superaram às expectativas.

Em novembro do mesmo ano um sopro de novidade surgiu no universo dos bons sons e em poucas ouvidas a gente já estava achando aquela uma das melhores músicas do ano. Era “We Only Make One Sound”, primeiro single do disco de estreia do JR Slayer.

Tá, mas quem ou o que é esse tal JR Slayer? Cody Votolato é o responsável pela produção, composição e criação do JR Slayer, um codinome que ele adotou para lançar esse novo projeto e também por não se sentir muito confortável em lançar um disco usando o seu próprio nome. Cody não é nenhum estreante e seu background já é bem conhecido pelos adoradores do bom e velho noise. Ele já passou pelo saudoso e frenético Blood Brothers, Jaguar Love e hoje ainda toca no não menos ruidoso Head Wound City.

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À esquerda, Cody Votolato (JR Slayer) com a sua banda atual, o Head Wound City

Voltando àquele fim de 2016 cheio de incertezas políticas e caos econômico, alguns sites já tinham soltado seus vereditos sobre os melhores álbuns daquele ano e da forma cortês com que “We Only Make One Sound” havia se instalado em nosso gosto, o disco que ainda estava por vir tinha grandes chances de estar entre os nossos preferidos, mas ele só seria lançado em 2017, então, nada de entrar na lista.

O single “We Only Make One Sound” foi um respiro minimalista necessário naquele momento. Soava como se o New Order estivesse num dia triste sentado em algum bar tomando um Cosmopolitan ao lado do Postal Service. Os dois em silêncio, sem assunto algum, mas se entendendo perfeitamente. É classudo, kitsch e atraente. Algo que você tem a impressão de já ter ouvido, mas talvez nunca dessa forma.

E então nós ouvimos, ouvimos e ouvimos esse primeiro single até que em fevereiro de 2017, quando a chegada do disco Time Out Crystal Heart deixou a gente em stand by. Seria esse mais um caso de uma single encantador enquanto o resto álbum não passa de um amontoado de músicas de apoio? Felizmente não. Time Out Crystal Heart é um baita disco.

Como um todo, as músicas de Time Out Crystal Heart se posicionam confortavelmente entre a discoteca cristalina e o pós punk anuviado por construções baseadas em synths e beats com fortes referências dos anos 80. É um disco perfeito pra você ouvir num bistrô, dançar sozinho em casa ou receber os amigos para boas conversas umedecidas em bons drinks.

“The Poems Aren’t Enough” é quem faz a recepção sob um beat mais delicado e um clima etéreo para que a já citada “We Only Make One Sound” entre dando dicas de que Cody deve ter ouvido muito Pet Shop Boy e Depeche Mode na sua adolescência e soube trazer isso para o presente sem que soe como uma cópia de suas referências. O que Cody faz é mais delicado, menos danceteria lotada. A dança aqui é mais solitária.

Em “Tied and Bound” a viagem é mais intensa sob um beat seco e synths carregados de melodias mais dinâmicas. “Arranged Thought” é também uma das mais legais do disco. Eletro objetivo que encapa um dos momentos mais dançantes impulsionado por uma linha de baixo que vai te lembrar o grande Peter Hook, mas sem a mesma eloquência melódica do mesmo.

JRcapaMas é em “Walking Ways” que aqueles passos sincronizados que você exibia nas danceterias no início dos anos 90 vão vir à tona. “Walking Ways” também parece ter saído de algum filme do Eddie Murphy ou do seriado Anjos da Lei. Junto com “Arranged Thought” e “We Only Make One Sound” ela forma a trinca das melhores músicas do disco de estreia do JR Slayer.

A viagem no tempo acelera e “Crooked Crown” traz os anos 2000 de volta com algumas referências que parecem ter saído de alguma banda do cast do Loolapalloza, o que não é necessariamente um elogio. “La Beaute’ (Song for Coleman)” é uma faixa instrumental que entre caminhos mais lineares faz a ligação com a faixa título que por várias vezes desde seu início ameaça explodir, o que não acontece de fato.

O lamento de “Sad Spectre” e a acústica “Every Wretched Face” são as encarregadas de encerrarem o disco sem a mesma força com que ele começa, mesmo porque, nessas duas a impressão é realmente de um adeus ardido ao sair de cena. You’re all I see é parte do que Cody canta em tom confessional em “Every Wretched Face” sobre econômicas batidas em um violão com cordas de aço.

Time Out Crystal Heart não é um disco que veio salvar o rock nem reinventar o eletro pop ou o pós punk da década 80. Time Out Crystal Heart soa como a necessidade de um artista que precisava libertar um lado específico da sua criatividade. Uma necessidade que tomou forma em beats saudosos e um ar melancólico disfarçado de momentos dançantes. É um disco solo, que só poderia ser criado, registrado e concebido dessa forma. Um disco que só faz sentido solo.

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