Morbid Angel 20 anos de Domination

In Discos


1985. O disco Seven Churches, do Possessed, marca o início de uma rica safra dentro da chamada música extrema. Um ano antes, a banda havia lançado a demo tape Death Metal e, a partir daí, tivemos o nascimento desse rebento musical sujo e desgraçado – no bom sentido, claro.

Óbvio que não podemos esquecer dos seminais Death, Hellhammer e o Slayer que, juntos, fixaram a chancela e moldaram toda uma geração de bandas. Dentre essas que beberam, e muito, nessa fonte, estava o Morbid Angel.

Pulamos para 1990. As primeiras eleições diretas o Brasil elegeram um bon vivant do jet ski, a moeda estava prestes a passar de Cruzado Novo para Cruzeiro, a TV televisionava a briga pelo petróleo na Guerra do Golfo e foi nesse caótico ano que chegava até nós um split 7’’, com tiragem limitada.

Das 666 cópias que havia no mundo, uma estava nas mãos de um amigo que se correspondia com várias bandas dessa safra. O esquema era via carta e o escambo era simples. O cara enviava material daqui e as bandas enviavam demos, EPs, revistas e todo tipo de coisa que pudesse servir de divulgação daquela cena que ainda engatinhava.

Esse vinil era raro e o dono dessa pérola não deixava ninguém nem segurar o disco. Exagero sim, mas era uma época difícil demais para conseguir material das bandas de que a gente gostava. Sem internet, o jeito era passar as tardes na Galeria do Rock, na Woodstock, na André Discos e os sábados na casa de amigos, escutando discos e gravando fitas.


Morbid Angel / Slaughter Lord foi lançado entre 89 e 90, em compacto prensado em vinil vermelho, e trazia duas faixas que eram saboreadas e digeridas por horas. O lado do Slaughter Lord tinha duas músicas tiradas da demo Taste of Blood. O do Morbid Angel trazia duas faixas de um show realizado em 88.

A partir daí, o Morbid Angel passou a ser uma das prediletas da casa e foi por isso que resolvemos escrever sobre o aniversário de 20 anos de Domination, o quarto álbum na discografia dos reis do death metal, lançado em 95 e que já trazia Erik Rutan, ex-Ripping Corpse, tocando teclado e guitarra.

O disco soa como uma evolução natural dos 3 primeiros. Talvez um pouco voltado para uma produção mais minunciosa e comprimida. Não tão direto quanto Altars of Madness ou tão orgânico quanto Covenant, ele exibe alguns experimentos nas construções das músicas sem se afastar das características que consagraram o Morbid Angel até então.

Talvez até por isso, seja um disco que compartilha da mesma “ousadia” (para a época) capturada e registrada no Blessed Are the Sick.


É besteira tentar classificar ou entender o quanto a banda soa coesa. Criativamente falando, Pete Sandoval estava na sua melhor forma. O mestre Trey Azagthoth despeja riffs intrincados e por vezes atonais com a mesma facilidade com que deve andar em linha reta ou somar 2+2, e David Vincent cria linhas de baixo mais objetivas e consegue emular seus urros de forma enfática.

Domination também é conduzido por solos mais melódicos, mesmo os mais ruidosos. Algumas estruturas pareceram mais tradicionais, vindas do heavy metal puro mesmo, o que não é ruim. É um disco que mostra como uma banda pode ser versátil sem deixar de ser extrema.

Sabe quando você escuta uma música nova de uma banda de que você gosta muito e a sua primeira reação é: “Vishhh”? Pois é, acho que essa talvez seja a explicação mais acertada. A música é “Dominate”. A sequência traz “Where the Slime Live”e “Eyes to See, Ears to Hear”. Uma trinca matadora de passagens quebradas e em velocidades alternadas, como é de costume nas composições do guitarrista e fundador da banda, Trey Azagthoth. É interessante como essas três músicas conseguem criar um diálogo complementar entre elas. Chega a ser estranho ouvi-las separadamente. Mais uma amostra da riqueza criativa atingida pela banda.

“This Means War” é uma típica paulada death metal e aí vem a genial “Caesar’s Palace”. Uma composição forte, com andamento mais arrastado e um bom gosto absurdo nos riffs e no trabalho de bateria. É a típica música que reafirma o lugar no topo da escala de bandas extremas conquistado com anos e anos de serviços prestados à música.


É quase um desdobramento da já clássica “God of Emptiness”. A intro oferece o couvert para que os pouco mais de 4 minutos restantes saciem a necessidade de toda e qualquer agressividade musical que alimenta a alma de quem é adicto do death metal. Com certeza um hino que ainda não teve sua posição reconhecida. “Hatework” fecha o disco no clima que um grande álbum merece. Grandiosa e a toque de caixa.

Depois de Domination, David Vincent deixou a banda. Pensando bem, talvez “Hatework” já apontava o caminho controverso que o Morbid Angel tomaria no disco que marca a volta do baixista/vocalista a banda. Mas isso é outra história.


Domination também foi um disco importante para o vocalista do Crânula e do Desalmado, Caio Augustus e para o vocalista do Jupiterian, Thiago Vakka e nós convidamos os dois para contar um pouco mais da relação de cada um com essa maravilha da música extrema.

É uma das maiores obras-primas do death metal. Pra mim está no TOP 5 da banda. Sou suspeito a falar de Morbid Angel, porque defendo os álbuns que a maioria odeia, exceto o ultimo, que é indefensável. Esse disco é a afirmação do David Vincent e seu lado Danzig. Cheio de pose, camisas abertas, vocal bem definido, melodias mil, cabelo esvoaçante e muita ginga rockeira. A cafonice machona de David abrilhanta o álbum e ele se torna disco de cabeceira do lounge de hard rock da casa de Satã.

Foi fundamental para que eu ouvisse álbuns mais lentos, elaborados, roqueiros e aceitasse capas profundamente descoladas. É aquele baque que fã extremo precisa levar de sua banda preferida.
(Caio Augustus – vocalista Desalmado/Crânula).

Recentemente eu vi uma entrevista do Trey da época do Formulas… onde ele comenta sobre o quanto ele detesta o Domination. Desde o processo de composição das letras do David Vincent até a produção “estéril” e “industrial” que foram demais pro gosto dele. Entendo o sentimento, o At the Gates também odeia o The Red in The Sky is Ours, mas os dois discos marcaram minha vida e não consigo ver pelo aspecto técnico. Não importa quanto argumento contra os caras tenham, tem muito sentimento envolvido.

Lembro da primeira vez que ouvi o Domination, lá pra 1997. A dobradinha de Dominate/Where the Slime Live foram definitivamente a base para como eu faço e penso música hoje. Seja rápida ou lenta, tá tudo ali, resumido em duas músicas. É uma aula e guia para qualquer estilo dentro da música extrema.
(Thiago Vakka – vocalista Jupiterian).