Neneh Cherry 'Broken Politics' é um disco carregado de questões do nosso tempo

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A expectativa é íntima da frustração, mas vez ou outra elas se perdem pelo caminho, não se reconhecem mais, e passam a não dividir a mesma linguagem. Foi o que aconteceu nesse finzinho de 2018 com a chegada de Broken Politics, o novo disco de Neneh Cherry.

Em agosto, quando “Kong”, o primeiro single, foi lançado, Broken Politics já acenava em direção às grandes obras do ano. Hoje, ouvindo o disco na íntegra, tá confirmado: o resultado superou as expectativas deixadas pelos bons ecos de Blank Project (2014).

Voltando um pouco no tempo, quem viveu o final dos anos 80 com certeza esbarrou com “Buffalo Stance” em algum momento. Tocada à exaustação, o hit do álbum de estreia da sueca, Raw Like A Sushi (1989), se misturava a “Back to Life”, do Soul II Soul; a “Tom´s Dinner”, da Suzanne Vega, e a outros clipes que embalavam programas como o Non-Stop, na nossa MTV Brasil.

Pouco depois, “Woman”, do disco Man (1996), também tocou bastante, assim como a parceria com Youssou N’Dour em “Seven Seconds”. A real é que, mesmo sem ter a atenção que sempre mereceu, Neneh Cherry gravou ótimos discos.

Foto: Carlos Calado

Passadas quase três décadas, a chegada de Broken Politics confirma o que a gente já sabia: Neneh Cherry é, por si só, um ato político. Sua presença, letras, vestimentas, causas, seu posicionamento. Uma mulher de 54 anos em corpo, alma, e voz carregada com a negritude do soul, a fluência do hip hop, e a objetividade na forma como transmite suas mensagens.

Vale lembrar que ela carrega esse viés político desde 1982, quando apareceu em um cover de “Stop the War”, de Edwin Starr, lançada em protesto à Guerra das Malvinas. Em 2018, esse mesmo posicionamento aparece refletido em diversas músicas de Broken Politics.

“Fallen Leaves” é a encarregada de abrir o disco. Nela, Neneh Cherry se expõe entre andamentos minimalistas sustentados por um piano simples, enquanto ela flutua por beats espaçados que trabalham a seu favor.

Is it fallen leaves / The bird shit on my sleeve / With no luck at all / There’ll be no luck for me / Watch me come undone / Look at what you see / Just because I’m down / Don’t step all over me (Fallen Leaves)

A já citada “Kong” é uma música pesada, que traz a crise dos refugiados na Europa como fio condutor e conta com a produção de 3D, do Massive Attack, que já emprestou seu bom gosto para outras vozes igualmente incríveis como as de Tracey Thorn e Elizabeth Fraser.

Vale lembrar que essa não é a primeira vez que ela contribui com o Masive Attack. Neneh Cherry aparece fazendo backing vocals em “Hymn of the Big Whee”, do maravilhoso disco de estreia da banda, Blue Lines.

And goddamn guns and guts and bitter love/Still put a hole in me (Kong)

Laura Snapes, em resenha ao The Guardian, disse que “Synchronised Devotion” é o mais próximo que a cantora chega de definir um manifesto. Sem dúvida é uma música tão forte quanto singela, e soa de fato como um manifesto bem pessoal, apoiada em uma instrumentação econômica onde, mais uma vez, o protagonismo é a voz de Cherry.

It’s my politics living in the slow jam / Everything low, rain slow / Play for supreme / Delightful, painful / Play with me synchronized / I’m a Pisces hanging from the vine / Live it out a day at a time… Take me to my, to my tomb / And see me play (Synchronised Devotion).

Foto: Joseph Okpako

Broken Politics não tem a elegância de Blank Projects, mas é preciso ao levantar questões importantes. Além de “Kong”, traz também músicas sobre aborto (“Black Monday”), direitos das mulheres (“Soldier”), o uso de armas (“Shot Gun Shack”), e a crença em verdades construídas a partir de mentiras (“Faster Than The Truth”). Nessa última, Neneh Cherry traz um flow mais livre em uma das melhores faixas do disco, por mais que ainda seja cedo para eleger nossas prediletas.

“Natural Skin Deep” traz de volta, mesmo que em um curto recorte, a veia jazz da cantora, herança de seu padrasto, Don Cherry. A faixa traz um sample emocional de Ornette Coleman, com quem ele tocou durante um tempo. Ou seja, isso só confirma que ela entende do riscado.

Don’t have anywhere to go / Nowhere to hide / All of me is now / I’m a breath of drop (Natural Skin Deep)

Ao site Consequence of Sound, Neneh Cherry disse que Broken Politics é “uma luta contra a extinção do espírito e do pensamento livre”. Nos encontramos nessa fala, concordamos e pedimos, please Neneh Cherry, come back to Brazil. A gente tá precisando.

Foto: Divulgação