New Model Army Fabrique Club - São Paulo - 10 de Junho de 2018

In Bandas, Shows

Perto dos 40 anos de vida, o New Model Army veio ao Brasil mais uma vez confirmar ao vivo o que já ressalta em seus discos: é um nome forjado em sangue, suor, lágrimas, poesia e músicas escritas com paixão. É isso, o New Model Army é uma banda apaixonada. Que segue olhando adiante, sem parar nem reconhecer fronteiras. Segue conversando com o folk, o punk, o rock, o metal, e resistindo sem nunca ter abraçado qualquer moda ou tendência.

Em rejeição a qualquer formalidade ou introduções burocráticas que acariciariam o ego de alguns rock stars, Justin Sullivan (vocal/guitarra/violão), Marshall Gill (guitarra), Ceri Monger (baixo), Dean White (teclados) e Michael Dean (bateria) subiram no palco do Fabrique Club, em São Paulo, pouco depois das 20h, para provocar uma colisão de sentimentos tão intensos que faltaria gramática para descrever tudo o que aconteceu naquele lugar.

O show teve duas datas, dias 9 e 10 de junho. Não pudemos ir na primeira noite, que contou com algumas das músicas que a gente esperava muito ver e ouvir: “Purity”, “Here Comes The War”, “Green and Grey”, “Vagabonds”. Mas o New Model Army é dono de um arsenal tão grande de músicas que a certeza de que a noite seria incrível estava do nosso lado.

O show foi inaugurado pela intensa “225”, do disco Thunder and Consolations, e a emoção foi tão categórica quanto a força que ela tem. Na linha do tempo de uma relação, é comum que o passar dos anos faça com que nosso olhar procure por diferentes frestas e descubra diferentes percepções e preferências no decorrer dessa linha. Ultimamente, a gente tem olhado com certo carinho e preferência para “225”. Não esperávamos que ela fosse abrir o show, apesar de ter muita força pra isso. Foi um presente porque, na verdade, não sabíamos nem se ela estaria no set list.

Já nos primeiros acordes, como em um mantra impaciente, o looping de bateria que direciona o andamento de “225” preencheu todo e qualquer espaço do Fabrique. Sullivan parecia uma fera recém solta em seu habitat. Numa mistura de alegria e voracidade, ele encarnava os versos reforçando algumas partes com seu já conhecido gestual, os olhos arregalados, atentos, encarando e hipnotizando todos ali. Que música linda. Que início para um show tão esperado!

Ainda do maravilhoso Thunder and Consolations teve “I Love the World”, tocada no bis e que estava no setlist do dia anterior; “Family”; “Ballad of Bodmin Pill”; “The Charge”, faixa bônus do disco; e “Stupid Questions”, cantada alto pelo público. Uns gritavam com força impossível de se medir em decibéis. Outros com um ou os dois punhos cerrados no alto, como se tentassem não deixar aquele momento escapar. Outros tantos balançavam a cabeça, pulavam, fechavam os olhos ou dançavam entregues a movimentos que traduziam algo perto do que a gente pode chamar de felicidade.

Emendada em “225”, “March of September” veio junto com “Between Dog and Wolf” e “Pull the Sun” representar o disco de 2013, Between Dog and Wolf. Sullivan parecia uma espécie de xamã tentando orquestrar “Pull The Sun” com seus movimentos as passagens tribais enquanto, em um canto fora do palco, Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, curtia e balançava comedidamente a cabeça, assistindo a tudo com um ar de “bebemos da fonte certa”.

Era então chegado o momento de ver pela primeira vez as músicas de Winter, último disco da banda, lançado em 2016. “Burn the Castle” poderia facilmente estar em qualquer um dos quatro primeiros registros da banda. Ela convocou e o público respondeu de imediato: Burn the cattle… burn the casttle…burn the caaaaasttle!!! Como bem observado em algumas resenhas da época, Winter, o disco, é uma volta a um New Model Army mais à flor da pele.

Para nós, “Red Earth” foi o único momento que ameaçou dar uma esfriada nos ânimos, mas nada que fizesse a energia cair demais. Logo depois, com uma execução passional, “High”, faixa-título do décimo disco dos caras, emocionou e é bem provável que o New Model Army tenha plantado em muita gente a vontade de revisitar High (2007) com muito mais carinho.

Vale lembrar que, quando os shows no Brasil foram anunciados, a ideia era que o New Model Army fizesse duas datas com músicas totalmente diferentes. Mas regras não são uma máxima em se tratando de uma banda com a alma preenchida pelo punk. Dito isso, Sullivan “desrespeitou” (ainda bem) o prometido e convidou Andreas Kisser para se juntar a banda para tocarem “The Hunt”, regravada pelo Sepultura no álbum Chaos AD, e que já havia feito parte do set list na noite anterior.

Ainda com Andreas no palco, Sullivan anunciou mais uma quebra de promessa: “Devido à situação do meu e do seu país, vamos repetir uma outra música” (em tradução livre). E assim, os primeiros acordes de “51st Of America”, que tocou muito nas rádios rock das décadas de 80 e 90, e no Clip Trip, programa de vídeos da TV Gazeta, ganhou coro, corpo e mostrou que não recebeu o status de clássico à toa.

“Lights Go Out” encerrou a trinca que revisitou The Ghost of Cain, com o público pulando e cantando Now, now the lights go out, there’s no warning / Now, now the lights go out, there’s no reason / Now, now the voices cry, we don’t need you now.

E aí, em um desses momentos difíceis de esquecer, Sullivan pegou um violão já gasto pelo tempo para cantar sozinho outra de nossas preferidas, “Better Than Them”. Com uma mistura de ironia e poesia, ele disparava: With our hunger and our hatred, we all walk this town / With our fear and our weakness – just holding on / With our doubt and our emptiness and this cold, cold frown / We’ve got to be so important, we’ll put the whole damn world down… To bring us survival through each and every day / When nowhere is safe and nowhere is home – just be cool. Foi a única presença de No Rest for the Wicked no set, assim como “Fate”, também a única a trazer um pouco do sexto disco, The Love of Hopeless Causes, de 1993.

Ao final, para nós, que vimos pela primeira vez o New Model Army, a máxima “lavar a alma” fez muito sentido. Ao acender das luzes, o esforço agora era repassar na memória cada milésimo de segundo ainda frescos vividos ali para que nenhum detalhe pudesse escapar. A vivacidade daquela banda no palco, a mensagem, a entrega. Viemos às lágrimas, sim. E muito mais que lavada, na verdade nossa alma transbordou.

SETLIST
225
Lights Go Out
March in September
The Charge
Believe It
Burn the Castle
Pull the Sun
Red Earth
Better Than Them
Stupid Questions
Between Dog and Wolf
High
Ballad of Bodmin Pill
Poison Street
Fate
Play Video
The Hunt

BIS
51st State
I Love the World