Portishead Os 20 anos de um dos discos mais lindos da música.

In Bandas, Discos

Em sua estreia, o Portishead levou apenas alguns segundos para mudar todo o idioma reconhecido pela arte como canal entre corpo e alma. Na conversa entre batidas cautelosas, pesadas e ambiências frias e doloridas, havia beleza. E muita. Havia também um certo medo no ar. Não um medo hesitante, mas um medo que transpira e inspira. Talvez uma música traumatizada por algo que a gente não compartilha, mas entende. “Glory Box”, “Sour Time”, Mysterons” e a maravilhosa “Roads” nos colocavam sob a perspectiva do atingido. A tríade criativa responsável estava na voz de Beth Gibbons, na serenidade minimalista da instrumentação de Adrian Utley e na estreita relação que Geoff Barrow tem com as camadas e mais camadas de colagens e ambiências que não podemos ver, mas que nos emocionam de forma plural.

Era só o começo. Era o ano de 1994. Era o lançamento de Dummy, o disco que nos apresentou ao Portishead e fez com que nosso coração acompanhasse cada ruído de um enquadramento aparentemente cinza, mas cheio de vida nas entrelinhas.

PortisheadTrês anos depois o desconforto voltou a cutucar a cicatriz da saudade que a gente já vinha sentindo. Era 1997 e tal falta foi estancada pelo lançamento do segundo disco. O álbum homônimo trouxe de volta o mix daquela sonoridade apresentada em Dummy. Era como se a gente colocasse a Billie Holiday pra interpretar alguma cena de David Lynch. Nos instrumentos, Barrow e Utley refinaram ainda mais suas ideias, transformando até o silêncio em algo muito pesado.

Mas pra entender um pouco melhor sobre esses ingleses vindos de Bristol é preciso voltar um pouco no tempo. Aos antigos filmes de espionagem e ao clima de glamour que envolve esse universo. Esse é o ponto de referência e intersecção que talvez ilustre melhor toda a sonoridade da banda. Não é pra menos, já que o Portishead teve seu início filmando um curta-metragem, To Kill a Dead Man (1994).

Portishead10Diferentemente do seu antecessor, nesse segundo disco há um som mais futurista, inovador, mas na outra ponta há também o ruído primitivo orquestrado entre plumas empoeiradas de um cassino decadente. E sob essa perspectiva, “Cowboys” já dá a diretriz: Did you sweep us far from your feet. É Beth Gibbons sendo Beth Gibbons. A voz de Gibbons muda de humor entre uma faixa e outra. Aqui ela já entra afogada em desencontros e possessividade, universo que segue na segunda música do disco, “All Mine”. De início soa chique, delineada por uma ambiência de extremo bom gosto. É a alta costura da música. Tem aquela cara de trilha de algum filme de James Bond dos anos 70 que, em meio a ternos bem cortados e texturas em 7mm, revela uma solidão amarga. There’s nowhere to hide from me / All mine, you have to be dá o tom com seu andamento intrincado e sexy que te envolve confortavelmente.

Agora vai lá. Abra uma boa garrafa de vinho porque é isso que “Undenied” sugere. Há de se ter tempo para ativar todas as suas sensações e aproveitar o estrago que o minimalismo pode fazer pilotado por quem sabe usar o espaço a seu favor. Se para alguns o vazio é o nada, para a dupla Barrow e Utley é um mar de possibilidades. Uma tela esperando por representações daquilo que só a arte pode declarar. A tensão da narrativa aqui é moldada por um piano solene e uma linha de baixo gentil, enquanto Gibbons se esforça para alcançar notas que parecem ser escritas conscientemente fora de sua escala vocal. O alcance real fica por conta da emoção. Um espetáculo de uma artista despida de suas seguranças vocais.

Portishead4A bateria orgânica de “Half Day Closing” sugere um vento frio daqueles que sopram por uma planície descampada e do qual você não tem para onde fugir. Os instrumentos soam como se estivessem distantes da voz de Gibbons. Ouça essa música usando um fone. A linha de guitarra vai ficar no seu ouvido direito e a descoberta dos detalhes é tão emocionante que impulsiona ainda mais a riqueza de layers que essa música carrega. Desde os vocais fantasmagóricos, passando pela cama do órgão até chegar na linha de guitarra tão oprimida quanto a secura da voz de Gibbons.

E se em “Half Day Closing” Utley esbanja criatividade, em “Over” ele vai de encontro ao título de Marshall Berman (All That Is Solid Melts Into Air) e faz com que cada nota se sustente no mesmo ar em que Berman propôs que elas se desmanchariam. Todas no lugar certo, na hora certa e dando ao mínimo o papel principal. É um momento de afago perfeito para a voz de Gibbons que, em suas primeiras frases, já nos coloca frente a frente com o que a maturidade insiste em nos mostrar. Que o problema não está nas palavras, mas sim no tom e na forma como elas são ditas. O que parece impossível, aqui é feito com extrema naturalidade. Ela emposta agora uma voz limpa, de impulso contido. Como se toda potência de cada órgão do seu corpo pulsasse nas suas cordas vocais. Tudo ali é vivido muito de perto. I can’t hold this state anymore / Understand me anymore / To tread this fantasy, openly / What have I done? / Oh, this uncertainty / Is taking me over. É a melhor do disco.

“Humming” traz a voz de Gibbons mais ressecada. É como uma gaze sob um machucado velho. Depois disso vem “Mourning Air” é seus bits hip-hop em baixa rotação, território que eles dominam muito bem, e “Only You”, onde Gibbons volta a enfrentar alguns possíveis demônios e sua voz rasteja como se estivesse fraturada. Ali tem uma alma, corpo, mente. E no meio de tudo isso, os solos jazzy de Adrian Utley. Genial.

O notável sobre esse disco é que ele não é apenas bem escrito, mas toda sua execução, a princípio sinistra, torna-se lindamente encantadora. Em meio a beats, scratches e rhodes, o Portishead se manteve impecável nesse segundo registro que em 2017 completa seus 20 anos.

O encantador em uma banda como o Portishead é que a gente pode sempre contar com a surpresa daquilo que não se revela tão fácil. A valorização do nada em criar diversas harmonias entre camadas e mais camadas de emoções que estão sempre a flor da pele. Doídas. Algo que não se nomeia e talvez nem precise.

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