Produtores: Steve Evetts Um papo com o cara que realça o melhor de cada banda

In Entrevistas, Especiais

Foto: Sounds Like Us

Em um dia de céu azul e sol imponente de setembro de 2017, em Anaheim, California, chegamos ao complexo como combinado. Tocamos a campainha e Steve Evetts abre a porta sorrindo. O olhar entrega que ali é o seu lugar. Seu habitat, algo que vai além do local onde trabalha. Um “tudo bem”, dito em bom português, escancara a simpatia que carrega sem esforço. Dentro do estúdio protegido do calor de uma primavera em transição para o verão, Steve nos levou para conhecer cada pedaço do seu lugar onde transforma músicas em registros. Tudo parte a importante missão de um produtor: alimentar o processo de eternizar a arte.

Alt.End, do The Cure; Yours Truly, do Sick of it All; Onward to Golgotha, do Incantation; Nation, do Sepultura; The Big Dirty, do Every Time I Die; praticamente todos os discos do Dillinger Escape Plan. A lista de ótimos álbuns com produção assinada por Steve Evetts é longa, e são grandes as chances de eles frequentarem os ouvidos de muitos de vocês que leem essas linhas nesse momento.

Steve é um produtor altamente requisitado. Além do seu estúdio, também roda o mundo atendendo a chamados que buscam as mãos, cabeça e coração de quem ama o que faz e assume sempre ter querido estar no comando da mesa de som. É a sua Enterprise.

Conversamos sobre os discos que ele produziu, equipamentos, o começo da carreira, o que ele gosta mais, menos, e o que o universo da produção trouxe de realização para sua vida. Vale ressaltar o quanto é interessante entender as coisas pela perspectiva de quem, não sendo nem músico nem fã, está por dentro de todo o processo de gravação.

Steve é um talento. Tem muita técnica, mas também enaltece as emoções que a música desperta. Tem algo de que a gente poderia chamar de “empatia criativa”. Entende de acentuar o melhor das bandas com quem trabalha sem alterar o compromisso de cada artista com sua música.

Em um dos pontos da nossa conversa, Steve diz que os discos são das bandas, e não dele. Em um universo repleto de egos inflados, ouvir isso de um cara tão experiente é um aprendizado e também um combustível, que faz com que a gente continue a acreditar na beleza inclusiva da música, e em tudo o que ela representa de importante na vida de cada um de nós.

Foto: Sounds Like Us

Sounds Like Us: Steve, como e quando você começou a produzir?
Steve Evetts: O primeiro disco que eu produzi foi cerca de 6 meses depois que eu comecei a trabalhar em um estúdio chamado Trax East, em Nova Jersey. Era uma banda de death metal chamada Incantation.

Sounds: Qual disco que você produziu deles?
Steve: Onward to Golgotha.

Sounds: Ah, o primeiro. Legal!
Steve: Esse foi o primeiro disco que produzi (risos). Na verdade, eu não produzi. A banda gravou no Trax East, eu estava lá e acabei trabalhando como engenheiro de som. Dei algumas sugestões aqui e ali, mas basicamente eu comandei a sessão. Fui listado como produtor. Foi meu primeiro crédito real.

Sounds: Como foi isso? O que você aprendeu com esse primeiro trabalho?
Steve: Foi legal! Eu aprendi certas coisas que não se deve fazer.

Sounds: (risos) Estas são as coisas mais preciosas.
Steve: Sim, sempre! Essa é a melhor coisa, sabe. Havia uma cena do death metal/ grindcore em Nova Jersey e eu trabalhei com algumas daquelas bandas. O Incantation foi uma delas. Outra que veio um pouco mais tarde foi o Human Remains. Fiz o EP deles [Using Sickness as a Hero] em 96. Eu só pensava em aprender a fazer as coisas com um orçamento menor e com tempo limitado tirando o melhor som que eu poderia em um determinado período. E ter que lidar com o artista, tentar chegar a um compromisso entre o som que eles ouvem em suas cabeças e o que realmente vai funcionar quando a música for gravada. Às vezes eu ficava tipo: “Isso é incrível! Soa tão pesado, mas…”. Muitas vezes as pessoas só estão preocupadas com o seu próprio som, e não com o que funciona no contexto de toda a banda. Não dá pra todo mundo ter o som mais pesado, porque o som é do grupo. Quando você ouve uma banda e diz “meu Deus, isso é um som pesado”, isso vem da uma combinação de todos, não de apenas uma pessoa. É como se você não pudesse ter um som de guitarra com todo aquele grave se você tem um baixista. O baixo tem seu grave e eles não podem competir. Há apenas uma certa quantidade de espaço que você pode preencher. Esse tipo de coisa eu descobri cedo.

Steve Evetts no Family Mob Studios. Foto: Sounds Like Us

Sounds: E você acha que foi bom para a sua carreira começar com uma banda de metal extremo? Foi como um teste de fogo?
Steve: Sim. Eu nem conhecia muito bem a cena death metal quando fiz o álbum do Incantation, mas eu conhecia o Slayer. E eu fiquei tipo: “Deixe-me tentar fazer soar como o Slayer”, pois eles tinham partes que soavam como Slayer para mim.

Sounds: Esse disco todo é bem pesado. Parece uma massa densa, e os vocais se misturam com tudo aquilo…
Steve: Mas o engraçado é que acabamos remixando. Porque minha primeira mixagem soava muito mais clara e o John (McEntee), guitarrista, ficou tipo: “Não está pesado o suficiente”. Então, colocamos grave em tudo, e isso acabou ficando [Steve faz alguns barulhos com a boca pra imitar o som]. Ele usava amplificadores Crate Solid State, coisas antigas e clássicas do death metal. É como se você pegasse um equalizador gráfico e fizesse um ‘V’ com ele. Como se não tivesse médio, e todos eles queriam isso. O baixista a mesma coisa – o baixo era super distorcido. Ele usava um pedal Metal Zone, deslizava as mãos pelo braço do baixo, e o som brrrhhuuu [faz barulhos de som distorcido com a boca]. E aí ele dizia: “Você acha que podemos tirar um pouco da distorção? Não consigo nem ouvir o metrônomo tocando.” Em um certo ponto você apenas tem que dizer: “Tá bom cara, é o seu disco”. Por mais engraçado que seja, ainda é a filosofia. O fato é que não é sobre mim. É sobre a banda. É o álbum deles. Quando eu estava fazendo esse disco eu falava: “Acho que está soando terrível. Eu posso fazer uma sugestão, mas se vocês estão curtindo, é meu trabalho gravar, então, vocês que sabem”.

“‘Se algo soa estranho pra você, não tenha medo de me dizer’. Serei o primeiro a admitir que não sei o que diabos estou fazendo (risos). Apenas um idiota vai dizer que sabe de tudo”

Sounds: Talvez esses “conselhos” dependam um pouco do relacionamento que você tem com a banda.
Steve: Não é apenas o relacionamento. Não é o meu disco. Se for sobre mim, então não estou fazendo o meu trabalho, sabe? Eu tenho que capturar o que a banda quer ouvir, como ela quer soar.

Sounds: Imaginamos que, por conta desta sua postura,  possivelmente você receba bandas mais amigáveis, que querem ouvir suas sugestões…
Steve: Sim, eu sempre sugiro. Se realmente sinto algo, vou dizer “acho que você está indo pelo caminho errado, e aqui estão os motivos”. Mas, no final, se você ainda quiser, tudo bem! Vamos fazer.

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Já teve algum disco que você queria fazer soar diferente?
Steve: Sim, claro! Eu posso dizer o que acho, mas se a banda ama a sonoridade, eu fiz o meu trabalho. Definitivamente estou apenas tentando esclarecer as coisas ou mostrar uma alternativa para o que os integrantes estão ouvindo, e não educá-los. Às vezes funciona. Eu já disse isso em várias entrevistas, quanto mais vou ficando velho, mais vou vendo que a melhor produção que você pode fazer é deixar os músicos em paz. Não tente forçar. Apenas movimente o processo, certifique-se de que as performances estão lá, de que todo mundo está feliz, de que a vibração está boa. Todo álbum é diferente. Às vezes eu tenho que ser mais duro. Especialmente se é uma banda mais jovem, inexperiente. Aí eu vou dizer “se algo soa estranho pra você, não tenha medo de me dizer”. Serei o primeiro a admitir que não sei o que diabos estou fazendo (risos). Apenas um idiota vai dizer que sabe de tudo.

Sounds: Quando você viu que estava de fato se tornando um produtor? Você chegou a fazer algum curso para isso?
Steve: Bem, eu tinha banda, mas ela era um meio para um fim. Eu pensava “tomara que a banda se torne realmente bem-sucedida para que eu possa abrir um estúdio de gravação”. Este era o meu objetivo final. Sempre quis ter um estúdio. Sempre foi o meu interesse. Na verdade, na banda, meu trabalho não era o de compositor. Escrevi algumas coisas, mas sempre fui aquele cara produtor. Eu ficava tipo “vamos pegar essa parte, mudar isso, trabalhar nesses arranjos…”. Eu já estava fazendo esse tipo de coisa. E aí quando assinamos um contrato de gravação, a gravadora em que estávamos faliu e fui procurar o Eric, no Trax East, e disse: “Você pode me dar um emprego? Eu posso varrer o chão, não me importo.” Era um estúdio pequeno, e eles precisavam de ajuda. Comecei a trabalhar lá. O primeiro projeto que fiz foi um overdub de vocal. Não era grande coisa, mas foi tipo: “Ok, está tudo etiquetado… Tchau”. Me deixaram sozinho e aí eu fiquei tipo: “Ok, agora sou só eu”.

Sounds: Teve algum álbum em especial que quando você ouviu despertou o interesse em se tornar um produtor?
Steve: Eu sempre fui interessado em gravação. Quando eu tinha uns 6 ou 7 anos, encontrei um gravador de rolo velho no sótão da casa dos meus pais. Tinha um pequeno microfone que ficava junto com o gravador. Parece um microfone de rádio, é uma coisa bem esquisita. Fiquei fascinado com aquilo e gravei minha irmã tocando piano.

Sounds: Foi sua primeira experiência não profissional com gravação?
Seteve: Sim. E então entrei de cabeça nos Beatles, e amei as gravações deles. Nas primeiras gravações, o material em estéreo deles, a bateria, eram só de um lado. Os tons eram isolados à esquerda. Os vocais e os instrumentos à direita. Meus pais tinham um aparelho de som que você podia colocar no mono, e tinha botões de volume para cada alto-falante, como um canal esquerdo e direito, e então ficava estéreo. Ao invés de equalizador, eram volumes individuais para as caixas. Naquela época alguns discos eram mono, outros estéreo, então este aparelho de som, um receptor da Panasonic, tinha esse interruptor estéreo/mono. Com os discos dos Beatles eu podia baixar a bateria apenas girando o volume dela e ouvir o que os vocais estavam fazendo. Fiquei realmente fascinado com isso. Eu tinha 13 anos, e comprei um gravador de 4 canais e comecei a usar e a me interessar ainda mais.

Sounds: Você descobriu em você um produtor, e não apenas decidiu ser um, né?
Steve: Sim, era tudo que eu queria fazer desde que era criança. Eu cheguei a ter uma de banda hair metal no final dos anos 80.

Sounds: Que legal, como chamava?
Steve: American Angel.

Sounds: Que demais! Você usava cabelo comprido?
Steve: Oh meu Deus! Vocês nunca viram?

Sounds: NÃO!
Steve: Isso é engraçado…

Sounds: Você acredita ter um estilo particular de som com as bandas que trabalhou?
Steve: Eu gosto de pensar que não.

Sounds: Perguntamos isso porque produtores como Steve Albini e Kurt Ballou têm uma identidade no trabalho que realizam com as bandas que eles produzem.
Steve: Steve Albini definitivamente tem um tipo de som, mas seu som vem do fato de que ele não tem um som. Acho que Albini e eu temos algumas semelhanças além do primeiro nome. Ele leva ao extremo o fato de literalmente tentar não interferir em tudo. A banda pergunta: “Como foi isso?”. E ele diz: “Não sei. O que vocês acharam?”.

Sounds: Mas e os resultados finais? 
Steve: Albini vai para um caminho mais natural.

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Você soa mais amplo. Gostamos muito do Albini, mas ele tem uma linha específica no resultado que consegue em cada trabalho. A bateria de In Utero, do Nirvana, soa parecida com a do Neurosis, que soa soa próxima a do Cloud Nothings. Você ouve e pensa “isto é Albini”. Kurt Ballou e alguns outros produtores também. Vira uma marca mesmo.
Steve: Obrigado! Fico feliz com isso, é o que eu quero dizer. Eu tento apenas pegar o que a banda faz e maximizar isso. Se eu tivesse que pensar se tenho um som, seria não ter um som – e também o fato de eu sair de um trabalho com coisas muito pesadas e ir para coisas realmente pop. Na verdade eu realmente gosto disso. Ir direto de um álbum para outro. No Trax East, em 1999, eu fui do Turmoil para o Dillinger Escape Plan. Do Saves The Day para Snapcase, depois para Kid Dynamite. Tudo direto. Esses foram os álbuns que fiz consecutivamente. Com o primeiro álbum do Wonder Years eu também fiz isso. Logo depois eu trabalhei com o Suicide Silence, no The Black Crown, indo do pop punk para o deathcore.

Sounds: É interessante porque você pode trazer o peso para o pop e oferecer a coisa mais limpa para ao metal extremo.
Steve: Exatamente. É isso que eu amo. Essa polarização cruzada de diferentes estilos. Para mim não há música ruim. Há apenas música mal feita. Você pode não gostar, mas não pode dizer que é ruim. Você pode dizer que é ruim se não for bem feito. Mas se for feito da melhor maneira possível, mesmo que você não goste, você ainda pode apreciar a arte pelo que ela é. Você pode aprender alguma coisa com tudo. É por isso que eu gosto de fazer diferentes tipos de música. É exatamente disso que vocês falaram. Você pode levar elementos de uma influência para a outra, isso fará com que você olhe para algo oposto. O som pesado faz você olhar para uma coisa do pop punk de uma maneira diferente e vice-versa.

Acima, Steve Evetts em um dos dias de gravação do Option Paralysis, do Dillinger Escape Plan

Sounds: Trabalhos como com o Saves the Day e Dillinger Escape Plan oferecem esses aprendizados.

Steve: E eu literalmente mixei o Saves The Day logo depois do Dillinger Escape Plan. Eu adoro o fato de que você tira um pouco de cada banda e pode incorporar essas coisas, como no álbum do Wonder Years.

Sounds: É um emo mais novo, né? 
Steve: Sim! O Wonder Years é fantástico. Não sei se você escutam eles ou não. Eu amo a voz dele [de Dan Campbell]. Tem muita paixão! Se vocês quiserem o lado mais punk, os primeiros discos que fiz com eles, Suburbia I’ve Given You All e Now I’m Nothing, são mais esse estilo. A banda está definitivamente crescendo e evoluindo. Eles estão fazendo um novo álbum [Sister Cities, lançado este ano] com outro produtor, o que foi meio chato a princípio, mas sabe, fiz três discos com eles, fazer o quê?

Sounds: O quanto construir um relacionamento, como com o Wonder Years, ou com as bandas que você trabalha, ajuda na qualidade do resultado final?
Steve: Definitivamente ajuda. Nesse caso não depende de mim. É o álbum deles, não o meu. Eu fico chateado porque amo os caras e queria passar um tempo com eles. Quero dizer, o Wonder Years cresceu comigo, sabe. Acho que eles se sentiam tão à vontade comigo, que queriam se sentir um pouco mais desconfortáveis.

Sounds: Legal você dizer isso. Quando o disco fica pronto, você não o sente como seu, né?
Steve: Nunca é o meu disco, é das bandas. Claro que eu me sinto parte disso tudo. É meu trabalho ser como o sexto, quinto membro da banda, o que quer que seja. O membro extra que ajuda a apontar para a direção certa.

Sounds: Você escuta as bandas com antecedência para decidir qual equipamento vai usar nas sessões de gravação? 
Steve: No estúdio?

Sounds: Sim, como amplificadores, como “esse som é legal com Fender ou…”
Steve: Bem, eu tento encorajar a maior parte das bandas a usarem seus próprios equipamentos, a menos que elas tenham equipamentos realmente ruins. Se elas disserem “eu tenho esse amplificador, mas não gosto muito”, então ok, eu vou sugerir algo. Mas, na maioria das vezes, quero que soem como eles mesmos. Se vão tocar com amplificadores Fender ao vivo, por que vou colocá-los usando um Marshall?

Sounds: E em que momento você decide que quer trabalhar com uma banda?
Steve: Eles me contatam, e então eu vou checar o material. Se é uma banda que já conheço, eles me contatam e eu digo: “Boa, vamos fazer!”.

Sounds: Você já entrou em contato com alguma banda para se oferecer como produtor?
Steve: Sim! O Poison the Well foi uma delas. Eu entrei em contato com eles, que me contactaram um ano depois, para gravar o The Tropic Rot. É um dos meus álbuns favoritos.

Sounds: Do Poison the Well ou de todos os que você já fez?
Steve: Eu tentaria nunca fazer isso, mas seu eu tivesse que fazer um top 5 dos meus discos favoritos, esse seria um deles, sem dúvida.

Sounds: Boa ideia! Qual é o seu top 5?
Steve: Não consigo. Há uma parte de sentimentalismo nisso. Alguns discos podem não ser os meus favoritos no que diz respeito a produzir tanto quanto o som, as ideias e a criatividade por trás disso. Pode apenas ser o fato de eu amar as pessoas com quem trabalho, e dos ótimos momentos em que estávamos rindo o tempo todo. Pra mim, é mais sobre a experiência. Eu não ouço muitos dos meus álbuns depois que os termino.

Sounds: Quais bandas você ainda ouve? 
Steve: Bem, um dos álbuns que sempre volto a escutar é o Jersey’s Best Dancers, do Lifetime.


Sounds: Gostamos desse álbum!
Steve: É um dos meus favoritos! Ainda tenho a mesma sensação que tinha quando estava fazendo ele. É um ótimo disco. Eu amo todos os três álbuns do Lifetime que eu fiz, mas mais esse em particular.

Sounds: Alguns músicos gravam seus álbuns e depois de um tempo não conseguem mais ouvir do tanto que tocaram aquelas músicas. Com você é assim também?
Steve: Normalmente não os ouço imediatamente. Os anos passam, então volto e digo: “essas são boas músicas”. Mas não se trata de ouvir, é sobre escutar. Há uma diferença. Audição é muito técnica, perceber as frequências. Mas escutar é ser consciente de tudo o que está na música.

Sounds: É mais emocional.
Steve: É estar sensível ao que está acontecendo no jogo interno entre as pessoas. É ter uma noção disso em vez do lado técnico: “Eu preciso colocar certa freqüência nos pratos…”. Não é sobre isso. Nunca é sobre isso. Porque alguns dos meus discos favoritos de todos os tempos não soam tão bem assim.

“Não se trata de ouvir, é sobre escutar. Há uma diferença. Audição é muito técnica, perceber as frequências. Escutar é ser consciente de tudo o que está na música”.

Sounds: Você tem algum exemplo em mente quando diz isso?
Steve: Os discos dos Beatles. Escute os álbuns. Pelo meu ponto de vista técnico, não são ótimos registros sonoros. O primeiro do Bad Brains é terrível! “Big Take Over” é uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos. Um som horrível!

Foto: Sounds Like Us

Sounds: (risos) Música maravilhosa.
Steve: Maravilhoso! Aquele som lustroso do I Against I não é uma gravação boa, mas é o meu disco favorito do Bad Brains, e de mais um monte de gente. Quickness é um álbum com uma qualidade sonora muito melhor.

Sounds: É talvez o nosso favorito. Quickness e o primeiro disco.
Steve: Eu prefiro muito mais o I Against I porque ele foi meio que a ponte entre os mais lentos, como em “Re-Ignition”. Mas “Soul Craft” é um dos melhores começos de álbuns de todos os tempos! Inacreditável! Mas quase prefiro o Bad Brains quando eles não soavam tão bem.

Sounds: (risos) Você acha que aprendeu a realmente ouvir quando era criança e estava lá brincando com o piano, experimentando o velho microfone…
Steve: Sim! Na época eu não sabia o que estava fazendo.

Sounds: É esse sentimento que você tenta trazer para cada álbum que você faz?
Steve: Exatamente! Minha irmã estava tocando piano e eu tinha um microfone de merda. Eu não sabia muita coisa sobre resposta de freqüência, não sabia de nada. Eu literalmente entrei embaixo do piano e “isso soa legal aqui embaixo”. E eu coloquei o microfone lá. E foi isso.

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Você gosta de testar coisas? Algum teste foi tão bom que você o reproduziu muitas outra vezes?
Steve: Sim! Sempre. Sabe, você tem sua pequena sacola de truques e ao longo dos anos começa a conhecer coisas que funcionam e não funcionam.

Sounds: Você mencionou as bandas que gostaria de gravar. E sobre as bandas que você recusou? Quais foram os motivos?
Steve: Foram inúmeras. Eu não quero soar como um cara velho, mal-humorado, mas sinto como se muitos dos garotos de agora, que fazem música, não fazem isso porque estão sentindo isso. Eles estão fazendo porque querem algo. Não estão realmente aprendendo o instrumento. Eles não conseguem tocar. Tudo soa igual porque tudo é feito basicamente por computadores. Eles consertam tudo. As guitarras não tocam através de amplificadores reais. Tocam através de simuladores de amplificadores. E a bateria é toda de samples de bateria. Não há sentimento real por trás disso.

Sounds: É como uma batida blast beat aqui, um breakdown ali, um solo aqui, um vocal e “ok, nós temos uma banda!”
Steve: Isso! É isso aí. Tudo é baseado em quantos seguidores você tem no Instagram, ou quantos likes você tem no Facebook. As bandas me mandam coisas e é como “Arghhh”. Começo a ouvir e, literalmente, em 10 segundos eu digo “ok, já tá bom…”.

Sounds: “Próximo!” 
Steve: Se eu puder prever a próxima coisa que vai acontecer, como: “Aí vem tal parte… ops aí está”, desencana, desculpa. Eu prefiro encontrar uma banda punk local que, mesmo sem muito dinheiro, queira realmente entrar lá e fazer isso do que uma demo mais produzida. É como “o que eu vou fazer com isso?”. Isso soa… você sabe como. Eu tentaria fazer um álbum pra valer, mas você não vai gostar disso. Você não vai gostar do método. “O que você quer dizer com eu tenho que tocar mais de uma vez?”. Você vai tocar até que fique certo. “Você pode consertar isso?!”. NÃO!

Sounds: Você passa muito por esse tipo de situação aqui? 
Steve: Sim! Com certas bandas, mas não vou nomear. Bandas que literalmente gravaram outros discos antes de trabalhar comigo, e estão acostumadas com alguém que conserta tudo, e eles não sabem como tocar seus instrumentos. Não aconteceu tanto assim, consigo contar em uma mão cheia os discos onde, como uma semana depois, eu fiquei tipo: “Oh, eles me enganaram totalmente”. Porque eu não os vi ao vivo, mas acabei de ouvir a gravação. Algumas bandas criam suas demos muito melhor do que outras. Elas realmente levam um tempo onde quase parece que eles estavam tocando. Entram aqui e digo: “Você não consegue tocar! Você consertou tudo no estúdio”.

“As bandas sabem que o produtor pode consertar tudo, então elas não se incomodam em praticar…Gastam 20 minutos trabalhando no ângulo e na luz certa para a selfie, em vez de 20 minutos praticando como tocar um riff de guitarra”.

Sounds: Você não acha que isso acontece por causa da indústria ou da maneira como isso inspira as pessoas? Porque nós sabemos que algumas pessoas formam bandas para serem rockstars, não importa o quanto tenham que tocar, mas elas acreditam nessa fantasia de que tudo vem de graça.
Steve: Sim, é difícil! É muito difícil porque, como eu disse, indo lá para fazer alguma coisa, para conseguir alguma coisa, nunca é o jeito certo de se começar. Você tem que fazer isso porque você ama música. Sabe, não me levem a mal, mas há muitos garotos que ainda fazem isso da maneira certa e pelas razões certas, e essas bandas são as que eu gravito em direção, mas a tecnologia realmente deixou tudo muito fácil para qualquer um conseguir uma gravação parcialmente decente. É literalmente o que a tecnologia faz, e não há nada de errado com ela inerentemente, mas isso faz com que você não aprenda a sua arte. E essa é a coisa mais importante que posso dizer a qualquer um: aprenda sua arte.

Sounds: Você tem técnicas particulares para microfonar os instrumentos?
Steve: Há certas coisas que sei de livros de gravações e outras coisas, de escola. Você sabe como o engenheiro move o microfone, esse é o tipo de coisa que faço. Essa é uma técnica antiga, mas está usando o ouvido. E novamente, não ouvindo, mas escutando. Aprender a criar sons artesanalmente, como conseguir as performances, tudo isso então filtrou para o artista, para as bandas. As bandas sabem que o produtor pode consertar tudo, então elas não se incomodam em praticar, em aprender seu ofício, sentadas no seu quarto por horas, horas e horas, realmente tocando. Estão preocupadas em fazer pequenos vídeos no Youtube e no Instagram tocando junto com alguma outra banda. Você já viu todos esses vídeos onde as crianças cantam junto? Oh meu Deus! Estão preocupados com likes no Youtube. Estão preocupados com as fotos do Instagram. Gastam 20 minutos trabalhando no ângulo e na luz certa para a selfie, em vez de 20 minutos realmente praticando como tocar um riff de guitarra.

Sounds: O tempo todo em que estamos conversando aqui, estamos falando sobre o sentimento colocado na música e nem tanto sobre técnica.
Steve: Sentir é tudo, técnicos são ótimos e tudo…

Sounds: E percebemos que você tira isso de uma relação profissional porque a música nos EUA é muito profissional, as bandas são tratadas profissionalmente. Se você for a um show local, o som será bastante profissional. Especialmente aqui em Los Angeles, onde tudo tende a ser como a indústria e o mainstream pregam, e por vezes, as pessoas podem esquecer do sentimento.
Steve: Sim. Sempre trabalhei mais no mundo indie e punk do que no metal. Sou mais parecido com o indie. Fiz alguns discos para grandes gravadoras também, mas sempre lidei mais com o outro lado. Realmente não sei. Talvez seja em meu detrimento, vocês sabem que não tenho uma grande mansão maluca…

Sounds: (risos)
Steve: Não tenho uma mansão. Prefiro apenas fazer coisas de que gosto e me orgulhem do que o contrário.

Sounds: Você consegue lembrar de algumas bandas que entraram no estúdio e você pensou “Oh, essa banda realmente sente isso. Eles querem fazer pela música”?
Steve: O Dillinger Escape Plan, obviamente. Eles sempre fizeram isso pela música.

Sounds: É difícil gravá-los?
Steve: Ah… sim!

Sounds: (risos) Por quê?
Steve: Tem muita coisa acontecendo nesses discos, o jeito que eles foram feitos. É muito… muito intenso. Não apenas a música em si, mas, novamente, cada disco é diferente. Trabalhar com esses caras é muito diferente porque estou sempre tentando coordenar porque todo mundo ali está em sua própria pequena bolha.

Steve Evetts com o LP Option Parylisis, do Dilliger Escape Plan. Foto: Sounds Like Us

Sounds: Eles gravam ao vivo?
Steve: Ah, não. Geralmente a gênese era o Ben e o baterista tocando juntos. Foi assim que os discos antigos foram feitos, exceto pelo primeiro EP.

Sounds: O Irony is a Dead Scene?
Steve: Não, não… O Under the Running Board. Bem, o primeiro homônimo foi um EP de 6 músicas, mas não é realmente Dillinger, é um som completamente diferente. Mas Under the Running Board com “The Mullet Burn”, foi o primeiro que eu realmente considero e que foi todo mundo ao vivo.

Sounds: Você prefere gravar bandas ao vivo?
Steve: Quando posso, absolutamente! Eu adoraria! Eu queria que todas as bandas pudessem seguir esse caminho, mas isso torna-se difícil, como com o Wonder Years é um ‘setup’ tão diferente. Para colocá-los aqui, como seis membros, e um cara alternando entre guitarra e teclados com um monte de configurações… Eu costumo gravar a faixa-base ao vivo, mas elas são todas scratch tracks [gravação usada como guia ou marcação durante o processo de gravação e edição].

Sounds: Estas faixas-rascunho seriam como um rascunho mesmo?
Steve: Sim. Tipo, eles tocam juntos, mas então precisaremos ter que regravar nas guitarras. Eles chamam de “faixas de rascunho”.

Sounds: Qual a diferença entre produção e engenharia de som?
Steve: A engenharia é definitivamente mais do lado técnico. É mais ouvir. Produzir é mais escutar.

Sounds: No Brasil, se você tem uma opinião, vira um produtor. Ou um influenciador de mídia social.
Steve: Oh meu Deus! Por favor. Não me façam começar isso.

Sounds: Por favor, fale (risos).
Steve: Nãooooo, vou soar como um velho amargo (risos). Engenharia é uma coisa mais específica. Eu faço as duas coisas. Comecei como engenheiro e não produtor, mas sempre fui mais produtor.

Sounds: Existe uma banda com que você ainda gostaria de trabalhar e ainda não rolou?
Steve: Hoje, meu verdadeiro artista de sonhos, com quem gostaria de trabalhar, é totalmente diferente de tudo que faço. É o Ryan Adams.

Sounds: Uau!
Steve: Eu amo… amo… amo ele! Se ele ouvir isso… Espero que ele ouça. Eu acho ele brilhante demais. Sua música me dá arrepios toda vez que eu ouço. Eu realmente sonho em trabalhar com ele. Ele é tão prolífico! Acabou de fazer um disco duplo recentemente. Ele só tem seu próprio estúdio, o Pax Am, e está sempre trabalhando.

Sounds: Gostamos muito do 1989.
Steve: Oh, o 1989, da Taylor Swift. Ele regravou todas as músicas deste álbum como Husker Dü e The Smiths.

Sounds: Não sabíamos sobre o da Taylor Swift. Esse álbum é ótimo!
Steve: E o engraçado é que isso é um testemunho de alguém que não é um fã da Taylor Swift em si, mas eu aprecio o que ela faz. Ela escreve suas próprias músicas, e uma boa música é uma boa música. Se é uma boa música pode ser feita em qualquer estilo. Ele pegou as músicas de Taylor Swift e as fez literalmente como Bob Mould tocando guitarra para o The Smiths.

Foto: Sounds Like Us