Replicantes – O Futuro é Vórtex Os 30 anos de um disco que vai além do punk

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O Replicantes sempre foi uma banda inteligentemente distante dos arquétipos presentes na psiquê do punk que mirava sua voracidade em críticas sociais e protestos contra o sistema, e sua ira contra a política imposta pelos grandes poderes. Não que eles deixassem de lado estas premissas, mas eram uma banda que sempre trouxe um pouco mais de curvas e emoções, principalmente em seus dois primeiros registros. O Replicantes sempre foi um ser provocativo, que trazia nos olhos um tanto de revolta e uma esperta ironia que lhe serviu de combustível.

A distância geográfica também foi amiga da banda. Longe de São Paulo, onde o punk foi semeado pela desigualdade social e pela necessidade de alguns jovens pertencerem a algo e determinar o rumo de suas angústias, e distantes de Brasília, onde “a turma” vinha descobrindo os Ramones, Buzzcocks e o Sex Pistols, o Replicantes tinha sua base no Rio Grande do Sul.

ReplicantesLonge das referências da sua época, essa distância talvez tenha sido o super trunfo dos gaúchos, que conseguiram manter sua liberdade criativa sem se prender musical, lírica e esteticamente ao jeitão tradicional de expurgar toda aquela atitude repleta de rebites. O sintoma de quem tinha o primeiro contato com o Replicantes, banda nascida em 83, era de querer ir atrás daquilo pra ouvir mais, mais e mais.

Se por um lado o punk em SP trazia sua postura politizada, no resto do Brasil o lance era focado em um discurso contra sentar e esperar que algo viesse de alguma encenação por esse viés.

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Cortesia Carlos Gerbase

Era 1986 e, num contexto histórico, se por um lado o chamado Rock Brasil era agraciado pelo grande Cabeça Dinossauro, do Titãs, e a Plebe Rude lançava O Concreto Já Rachou, o punk dava vida a discos imprescindíveis como o primeiro do Lobotomia, o Descanse em Paz, do Ratos de Porão, e a coletânea Ataque Sonoro, que lançada um ano antes, tinha acabado de trazer pra gente um monte de novas bandas que entortariam de vez os ouvidos de muita gente. E aí, no meio de toda aquela sede por violência e velocidade, uma música veio pra ficar e ganhou o status de hino: “Surfista Calhorda”.

Um hit com vocal rasgado, ritmo punk rock, daqueles pra dançar chutando o ar e cruzando os braços em sincronia (ah, os anos 80) e uma letra que fugia dos protestos e falava diretamente a um grupo, uma situação, um fato narrado com conhecimento de causa.

Replicantes
Cortesia Carlos Gerbase

A formação inicial, e considerada clássica, tinha Carlos Gerbase (bateria), Wander Wildner (vocal), Cláudio Heinz (guitarra) e Heron Heinz (baixo). Logo os caras gravaram um EP com quatro músicas: “Rock Star”, “O Futuro é Vortex”, “Surfista Calhorda” e “Nicotina”. Essas duas últimas viraram sucesso nas rádios gaúchas e prepararam o terreno para que a banda soltasse o primeiro disco, O Futuro é Vórtex, de 1986.

A banda assinou com a RCA e, para gravar esse que seria o primeiro registro full da banda, se mudou para São Paulo; afinal, era aqui que tudo estava acontecendo. A receita está toda ali: a sonoridade do Ramones, a acidez do Sex Pistols e um pouquinho da cena punk californiana. O Replicantes deu origem a um disco cru e cheio de energia.

O Replicantes assinando o contrato com a RCA para gravação de O Futuro É Vórtex
O Replicantes assinando o contrato com a RCA para a gravação de O Futuro É Vórtex – Cortesia Carlos Gerbase

Os resquícios da ditadura vivida por aqui ainda faziam faixas serem censuradas em alguns discos da época. No caso dos gaúchos, a execução pública de “Choque”, “Mulher Enrustida” e “Porque Não” foram vetadas pela censura federal sob a alegação de conter palavras, digamos, de baixo calão. Essa última, pelo menos no nosso disco, vem picotada na frase “Eu quero que o Caetano vá pra puta que o pariuO samba me da asma bossa nova é de fuder, prefiro tocar bronha e punkar até morrer”. O palavrão foi banido da faixa, como se o vocalista Wander Wildner ficasse mudo no refrão. Pra gente que ainda era criança, parecia um erro ou sei lá o quê. Pobres crianças!

O futuro é vórtex replicantesO Futuro É Vórtex é um disco recheado de grandes músicas e seguindo a ordem da prensagem do LP da época, o disco abre com a predileta da casa e um dos refrãos mais legais da história do punk nacional: Mas nossos filhos serão mutantes / Queria tudo como era antes / O sol nunca mais vai brilhar / Aqui dentro do abrigo nuclear. Era o forte canto de “Boy do Subterrâneo”, que tinha como cenário a Guerra Fria e o pavor que assolava aqueles tempos: a guerra nuclear. Muitas bandas daquela época abordavam esse tema, e não só as de punk. No thrash metal, bandas como Nuclear Assault, Sacred Reich e o próprio Metallica recorriam ao tema por estar vivenciando aquilo de muito perto.

O engraçado é que mesmo tendo a alma punk, O Futuro é Vórtex foi um disco, de certa forma, rejeitado pelos punks mais radicais da época e as letras com alguns palavrões afastavam a banda do grande mainstream e das rádios mais populares. Mas a segunda faixa do disco da banda era mais forte do que tudo isso e conseguiu aproximar esses dois mundos conquistando uma grande massa de fãs.

Gravação do clipe de "Surfista Calhorda"
Gravação do clipe de “Surfista Calhorda” – Cortesia Carlos Gerbase

“Surfista Calhorda” virou hit instantâneo e graças a ela o disco caiu no gosto, nos ouvidos e na boca de um público que cantava a músicas nas festinhas em casa de amigos, nas baladas mais alternativas ou gritando alto no carro. Sim, “Surfista Calhorda” invadiu as rádios da época e era tocada na programação normal de algumas emissoras.

O disco ainda traz “Censor”, que fala sobre como um indivíduo, parte de toda uma estrutura, tinha o poder de classificar, com uma carimbada, uma obra e tirar de circulação aquilo que poderia ser de extrema riqueza cultural. Uma obra definida por um carimbo.

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Cortesia Carlos Gerbase

“Ele Quer Ser Punk” e “Hardcore” eram bem diretas. “Hippie-Punk-Rajneesh” tem um refrão bizarro que, quando se é criança, você nem imagina sobre o que eles estão falando. Mas aí o tempo passa e você percebe que é uma baita letra, que conta sobre todas as fases e modas que um cara assumiu porque estava apaixonadão por uma garota.

Estamos falando de um trabalho de importância ímpar não só para o rock, mas para a música. Letras diretas, músicas objetivas, o melhor da pegada punk e a mais ácida energia dão forma a essa obra seminal.

Replicantes
Cortesia Carlos Gerbase

O Futuro é Vórtex traz um Replicantes que, na época, passou a ser a banda de quem andava de skate ouvindo uma fita com o disco gravado no walkman. Do surfista que não era calhorda e tomou de assalto aquele hit que afrontava os ditos falsos surfistas e dos punks que estavam sempre prontos pra uma festa com os (Dead) Kennedys porque eles é que sabiam o que era hardcore. Era também uma banda presente entre os que gostavam do Rock Brasil daqueles tempos de Plebe Rude, Ira e 365. O Replicantes conseguiu, de uma forma especial, ser a banda de muitos sem a dependência de um só universo. Falar aqui sobre esse grande disco é parte do exercício de manter vivo esse troço encantador e vital chamado punk rock.

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