Sepultura – ‘Bestial Devastation’ Iggor, Jairo e Max falam sobre os 30 anos do primeiro disco da banda

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Fotos: Acervo Silvio Gomes


Se lá em 85 um profeta daqueles de barba longa branca, cajado e fala tranquila dissesse que o Sepultura que estava prestes a lançar
Bestial Devastation fosse um dia se tornar uma das maiores do metal mundial, ninguém acreditaria. Ou que aqueles adolescentes que estavam compondo músicas urgentes e de sujeira inquestionável fossem um dia gravar algo como “Kaiowas” e ainda ser aclamados pelos mais importantes nomes da música no mundo, o velhote seria chamado de louco e o mandariam para o hospício.

Belo Horizonte, 1984. Os irmãos Max e Iggor Cavalera, guitarra e bateria, respectivamente, juntos com Paulo Jr e Wagner Lamounier, montam o Sepultura. Um ano depois, Lamounier sairia da banda e fundaria o Sarcófago.Wagner foi substituído por Jairo Guedes, que solidifica a formação que gravaria o primeiro registro dos mineiros: Bestial Devastation.

A partir daí, aqueles quatro moleques estavam prestes a se tornarem a família de milhares de outros adolescentes ao redor do mundo.

Não é exagero! Com certeza eles conviveram em um grau de proximidade maior do que muito “tio da piada do pavê” que você só via no Natal ou nos enterros de família.

Em São Paulo, corriam algumas lendas e o que mais se comentava era a pouca idade e o diferencial que a banda empunha em suas músicas e apresentações ao vivo. Para saber um pouco mais sobre os 30 anos de banda e do lançamento desse álbum, a gente trocou uma ideia com Max Cavalera. Na época, Max “Possessed” Cavalera.


Sounds Like Us: Como era o Max na época da gravação do Bestial Devastation? O que você queria alcançar com sua música?
Max Cavalera: A gente ficou feliz de ter conseguido um contrato. Ele nos deu a chance de gravar nossas músicas em um estúdio de verdade. Muitas pessoas em São Paulo comentaram que o nosso som era tão bom como de um Kreator. Eu não esperava muito. Eu era apenas um grande fã de metal. O disco ganhou uma coluna na revista Kerrang por ser a primeira banda brasileira de metal. Nós fomos uma espécie de pioneiros, embora a gente não soubesse disso.

Sounds: Como foi o processo de composição e gravação desse disco? Conta pra gente suas lembranças da época? Ficou feliz com o resultado?
Max: Fizemos primeiro uma demo para “Necromancer” e ficou animal! O som de Bestial Devastation é muito melhor do que do Morbid Visions. A gente fazia umas jam no Jam Pad, mas os riffs são meus. Jairo fez as guitarras solo. O Iggor tocou com um kit de batera emprestado. Eu escrevi todas as letras e um amigo nosso pintou a capa do álbum. Ele teve que fazer isso às 3h da madruga para que sua família, que era extremamente religiosa, nunca visse aquilo! Ele se escondia debaixo da sua cama durante o dia! O Paulo não gravou o baixo, eu e o Jairo que fizemos. Foram necessários 3 dias para gravar e mixar o disco.

Sounds: Hoje, seus filhos dividem o palco e o estúdio com você. Na gravação do Bestial Devastation você também era bem novo. É como se a história se renovasse mesmo. Você já chegou a olhar pra eles no palco e pensar: “Caralho, era o meu sonho. Hoje é o deles”? Chegou a dar algum conselho pra eles pra eles, já que você tem muita bagagem pra isso?
Max: Claro que eu fico orgulhoso pra caralho de eles terem se tornado músicos. Eu fico muito animado de ouvir a bateria do Zyon, o Igor arregaçar nos vocais. Ele tem a minha habilidade para compor riffs – um dom que ele recebeu de mim. Richie é um frontman realmente notável! Eles aprenderam muito saindo em turnê com a gente desde que eram muito jovens.


Sounds: Você apresentou muitos artistas ao público brasileiro, que ficava de olho nas suas camisetas e nas suas indicações de banda. Você ainda é bastante atualizado com novas bandas, e parece ser um cara que vai atrás de coisas novas, sem a nostalgia de “no meu tempo é que as coisas eram foda”. Na época do Bestial, isso parecia ter a ver com o fato de você ser bem jovem e tudo ser novidade. E como é isso hoje, que você está mais velho, mais experiente, é bastante conhecido, mas continua indo atrás de banda underground?
Max: Eu ainda gosto de música do mesmo jeito! Eu me envolvo com novas bandas. Para mim, a primeira vez que ouvi Hellhammer foi como a primeira vez que ouvi o Nails. É sempre emocionante!

Sounds: David Ellefson, do Megadeth, disse certa vez que o Sepultura foi a maior influência para uma nova geração do metal assim como o Metallica tinha sido uma grande influência para a geração dele. Você acha que o Max lá de 85 poderia esperar um dia escutar uma declaração dessa?
Max: Não. Um monte de gente diz essas coisas agora, mas ninguém disse naquela época. Nós nunca sequer sabíamos que estávamos fazendo grandes coisas quando estávamos lá fazendo aquilo. Nunca pensamos nisso. Eu não vivo no passado.

Na época (85), já existiam Vulcano, Hellhammer, Venom, mas o Sepultura se aproximava mais dos primeiros discos de bandas como Possessed, Voivod e Kreator. Mesmo com essas semelhanças, a sensação e os vereditos entre as inúmeras conversas de bar, nas praças, Woodstock ou na Galeria do Rock era que eles estavam sempre um passo além.

Bestial Devastation é um disco de afronta, talvez benefício da pouca idade que não se apoia no receio como fronteira segura. Quando se é jovem, você quer mais é questionar e ultrapassar limites para provar que pode ser o mais extremo e, assim, conquistar o seu espaço. E nesse caso, talvez ninguém vinha com mais sangue nos olhos do que Iggor Cavalera.


Entre alguns fãs e amigos, o comentário que perdurava era sobre o jeito daquele moleque arregaçar a bateria. E realmente não existia nada igual. O Sarcófago teve bateristas extremamente velozes. MX e Multilator tinham uma tendência mais técnica. Iggor era sanguinário. Tinha vontade, raiva, velocidade, groove e, principalmente, identidade e foi isso que fez com que ele deixasse sua marca, sendo conhecido hoje como um dos bateristas mais influentes da música.

Parece que foi ontem, mas Iggor já está fora da banda há quase uma década. Enquanto esteve no comando da cozinha, tudo soava orgânico e poderoso. Era um som grandioso e isso talvez tenha origem na história de um cara que sempre frequentou o universo dos novos sons e assumia suas influências vindas de lugares diversos que nem sempre tinham origem no metal.

Desde os batuques nas arquibancada dos estádios em jogos de futebol, passando pelo Sepultura e hoje no MixHell, Iggor sempre foi o equilíbrio de Max, trazendo as novidades e reverberando isso de forma criativa no som da banda.


Sounds Like Us: Quais são suas lembranças ao parar e pensar que lá se foram 30 anos desde a gravação e o lançamento desse primeiro registro do Sepultura? Como você vê esse disco atualmente?
Iggor Cavalera: Foi bem legal. Principalmente pelo fato de ter começado uma história com meu irmão e acabar virando um vinil bancado por uma loja de discos. O resto já sabemos.

Sounds: Para a época, o Bestial Devastation era um disco bem sujo. Você era bem jovem na época e nesse caso, quando se tem 16 anos dentro de um estilo contestador e agressivo, a ideia é sempre chocar. Você acha que esse disco cumpriu esse papel? 
Iggor: 15 anos. Era bem difícil tentar explicar para um engenheiro de som, acostumado a gravar sertanejo, que você queria uma guitarra totalmente destorcida e uma bateria com som de metralhadora. Mas conseguimos um resultado legal. O mais foda é ainda hoje tocar um som como “Troops of Doom” e sentir a adrenalina tomar conta de você.

Sounds: Sem internet e com a dificuldade de compartilhar informações,  várias histórias eram criadas sobre as bandas na época. Foi o caso do Kiss, que “matava animais no palco”, do WASP, que serrava mulheres, do Venom, que cultuava o demônio, e por aí vai. Chegou a rolar alguma lenda urbana sobre vocês nessa época?
Iggor: Hahahaha… Comigo teve o lance de segurar uma moeda na parede batendo com as baquetas para aquecer no camarim antes dos shows, e é claro que eu confirmo sempre essa lenda.


Sounds: O Sepultura sempre pareceu estar um passo à frente. Você sempre teve esse lance de ouvir todo tipo de música, e o que antes era visto como uma coisa ruim fez de você uma referência em novas tendências dentro da música. Em uma época de som mais extremo, você vestia camiseta do English Dogs. Depois, em uma fase mais thrash metal, envolvido com coisas como Faith no More e Clutch. Hoje, você tem o Mixhell. Você acha que esse era ingrediente extra que fez com que o Sepultura sempre tivesse, a cada disco, algo de especial no jeito de compor suas músicas?
Iggor: Sim! Sempre foi o nosso combustível. E continua sendo com o Mixhell. Haters gonna hate!

Sounds: Você criou um estilo de tocar bateria diferenciado que se tornou sua marca e que influenciou muita gente, dentro e fora do metal. Desde o jeito de montar seu kit, ou na maneira de tocar as partes mais rápidas, altura dos tons e por aí vai. Isso tem relação com o fato de você ter começado a praticar ainda muito jovem? Pergunto isso porque a pouca idade favorece o “sangue nos olhos” e a prática vem na raça, com instrumento emprestado e tudo mais. Como você começou a tocar, quem te influenciou e o que você acha de ter influenciado tanta gente?
Iggor: Comecei a tocar bateria aos sete anos, bem antes de pensar em formar banda, então acho que isso sempre me fez ver a bateria como o instrumento principal e não uma forma de acompanhar as guitarras.

Sounds: Tentando fazer uma viagem no tempo e pensando naquela época, do que mais você sente falta?
Iggor: Dos amigos que acompanhavam os ensaios da banda. Era como um uma gangue, um culto secreto.


Originalmente, o disco era um split. O lado A vinha com as músicas do Overdose, banda conterrânea dos mineiros que fazia um som mais melódico, muito influenciado por Iron Maiden. Os caras até se vestiam do mesmo jeito, com aquelas roupas da época do The Number of the Beast e PowerslaveEsse tipo de som já era bem difundido, mas nada era como o Sepultura.

Imagine que, naquele tempo, ninguém sabia o que era black, death ou thrash metal. Em um ambiente tomado por uma inocência positiva e pela dificuldade de se obter informações vindas de fora do país. As bandas não se apoiavam em denominações. O que realmente importava era a música. Era ela que vinha antes de qualquer tag ou definição de estilo. Era comum um cara gostar de Savage Grace, Metallica e Bathory.

Pouco tempo depois tudo ficou mais dividido e aí começaram as separações de quem ouvia só death, só thrash ou só heavy metal tradicional. Uma época em que o “só” ganhou poder e se transformou em um estilo de vida e de comportamento singular, mesmo todo mundo sabendo que o metal precisava da união de quem estava lá pelo mesmo objetivo. Mas isso já é outra história.

Comparado ao Overdose, o Sepultura era uma novidade e Max “Possessed”, Igor “Skullcrusher”, Jairo “Tormentor”e Paulo “Destructor” atingiram um grau de brutalidade e peso que, para uma banda brasileira, era inimaginável.

Com Jairo na segunda guitarra, a banda tinha muita consistência e estabilizava a formação que ainda iria compor Morbid Visions e Schizophrenia. Segundo Max, “Jairo era um bom guitarrista, sabia tocar Slayer e Mercyful Fate e me ensinou alguns riffs”.


Sounds Like Us: São 30 anos de Bestial Devastation. Algum dia passou pela sua cabeça que você atingiria tantas pessoas com a sua música? Como era o Jairo nessa época e quais são suas lembranças da época da composição e gravação do disco?
Jairo Guedz: Eu nunca imaginei isso; aliás, nenhum de nós imaginava. Eu era muito novo, muito inocente, apesar de ser o único da banda que fumava e bebia (e por isso era crucificado pelo Max e pelo Iggor o tempo todo). Nessa época eu dividia minha vida entre escola, trabalho, namorada e duas casas, pois vivia mais na casa do Max do que na minha. Durante as gravações e da pré desse álbum, a gente não tinha nenhum conhecimento sobre equipamentos, estúdio, logística de uma banda, nada! A cada álbum a coisa vai tomando forma, alguns membros da banda vão se interessando por “isso” ou “aquilo” e se tornando mais exigentes e profissionais em suas escolhas. No início a gente bateu muito a cabeça na parede pra tirar proveito do que ainda não conhecíamos bem.

Sounds: Um amigo meu tinha o split com o lado do Overdose todo riscado. Lembro de histórias que a galera fã do Sepultura riscava o lado A de propósito mesmo. Conta pra gente como foi toda essa história…
Jairo: A gente pediu para alguns amigos fazerem isso naquela época. O OVERDOSE era como o “filho” bem-criado e o SEPULTURA era o filho bastardo tanto da Cogumelo Records, como no contexto geral do mercado e dos grupos daqueles tempos em BH. Claro que nos tornamos grandes amigos após isso, mas, logo no início, a ideia era comprar algumas caixas e riscar com um prego, álbum por álbum, apenas o lado A (Overdose – Século XX), para depois revender para os chegados e também deixar alguns separados pra divulgação no exterior.


Sounds: O meio da década de 80 foi uma época bem fértil dentro da música extrema. Além de vocês, tinha aquela primeira safra, com Chakal, Mutilator, Holocausto e Sarcófago. Existia uma cena se formando em Minas Gerais, mesmo que, na visão de quem estava mais distante, não parecesse intencional. Quero dizer, vocês pareciam mais querer tocar do que formar uma cena. Para nós, aqui de SP, era essa a impressão. Era isso mesmo? Você sabe dizer quando que você se deu conta de que aquelas bandas juntas teriam força para sustentar essa dita cena e quando foi que essa força se perdeu?
Jairo: A gente não tinha ideia dessa famosa “cena”, não era algo intencional nem de longe. Era natural. Nos vestíamos, tocávamos e nos portávamos como podíamos e da forma que nos era agradável, tosco, confortável no sentido de nos manter “inseridos” em um grupo. Não pensávamos em “cena” e sim em “estar inserido em um grupo” que representava um mesmo estilo de música, de pensamento, de atitude. A Cogumelo foi o primeiro “eixo” e talvez o primeiro elemento propulsor dessa “cena” metal em BH. Mas acredito que até mesmo pra eles a coisa não era tão intencional ou mercadológica assim no início. Lá pelo ano de 1988 que a coisa foi tomando forma, força e criando bases fortes em relação a um mercado. Tínhamos mais acesso aos álbuns e vídeos de fora, e com isso descobrimos que uma cena estava realmente se formando.

Sounds: Se não me engano, o primeiro show de vocês em SP foi em 86. Como foi tocar músicas do Bestial Devastation ao vivo fora de MG? Por aqui já tinham bandas como Genocidio ou Vulcano, por exemplo. Rolava uma amizade já com as bandas de SP? Como o público recebeu o Sepultura?
Jairo: Foi como a realização de um sonho pra gente. Se hoje a meta de qualquer banda de heavy metal é tocar na Europa, naqueles tempos era sair de BH e tocar em SP. Foi muito bom para a imagem do SEPULTURA, e o OVERDOSE não foi tão feliz assim por causa do público que apareceu naquela noite na casa. Éramos fãs de bandas como VULCANO, KORZUS, DORSAL etc, então posso dizer que nunca me senti tão nervoso como me sentia nesses primeiros shows do SEPULTURA fora de Minas Gerais. Esse show foi uma porta que se abriu pra gente e nos deu fama na capital e no interior do estado de SP e depois, no Brasil!


Sounds: O Sepultura começou e se manteve dentro do metal, mas também nunca negou suas influências punk/hardcore. Para o público fica claro que isso era um lance mais seu e do Max. Essa ideia de romper barreiras e não se limitar já era algo presente no Bestial Devastation ou foi um lance que vocês só conseguiram colocar na música de vocês mais tarde?
Jairo: Foi sim, verdade. Eu e o Max curtíamos muita coisa mais HC. O Iggor veio com algumas ideias também (Paulo sempre foi pro lado Iron Maiden, melódico) e com isso acabamos formando o GUERRILHA. Em algum tempo já conseguimos inserir alguma coisa mais HC na banda também, mas de forma bem sutil. Logo depois do MORBID VISIONS, começamos as composições do SCHIZOPHRENIA (que escrevi quase totalmente com os caras e depois passei a “palheta” para o Andreas) e nesse álbum já tinha muito mais profissionalismo, solos mais elaborados, bases melódicas e HC misturadas, elementos mais harmônicos. Essas ideias mais HC vêm desde o Bestial Devastation sim, mas as ideias mais harmônicas vieram depois influenciadas por bandas como Metallica, Exodus, Testament, etc.

O Sepultura é uma banda que não implora por um esforço da memória em lembrar o quanto é um dos nomes mais importantes de todos os tempos. É como aquele seu amigo de infância que você viu criança, adolescente e hoje, na vida adulta, divide alguns bons momentos e compartilha boas histórias. O Sepultura tem aquela magia que pouco importa se é hoje ou daqui a 50 anos. Sempre que você escutar, vai parecer que é a primeira vez.

A impressão é que, lá em 85, nem eles sabiam muito bem o barulho que estavam fazendo. Mas tinham certeza do barulho que queriam fazer.