Snail Mail Emocional, 'Lush' desponta como um dos discos mais legais do ano

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A gente não sabia nada sobre Snail Mail. Absolutamente nada. E que delícia o sabor da ignorância no seu literal significado, de ignorar algo. Encaixados nesse recorte, permitimos que a música cumprisse o seu papel mais bonito: o de surpreender, encantar e causar emoções possíveis.

Snail Mail, nome escolhido por Lindsay Jordan, nasceu em Baltimore em 1999, pouco antes do bug do milênio, e traz em suas letras e composições uma imaturidade deliciosa.

O primeiro disco de Lindsay, Lush, foi escrito e gravado pouco tempo depois de ela se formar no ensino médio, e isso explica um pouco o imediatismo adolescente do disco. Lush fala sobre solidão, dores e desgostos sem qualquer tipo de filtro. Nele, a distorção fica somente a cargo das linhas de guitarra, temperadas com fuzz e construções simples. De resto, é um disco sem muitas curvas.

Lush é o primeiro disco de Lindsay; portanto, se você está à procura de alguma super novidade na música, é melhor não apostar nisso. O álbum não traz nada de novo e isso é bom, já que, em alguns casos, a pretensão de tentar inventar algo pode roubar a espontaneidade da qual a música se alimenta.

Foto: Andre Chung

A história de Lindsay conta que ela foi aluna de guitarra de Mary Timony, que já passou pelo Helium e Wild Flag, bandas bem conhecidas do universo indie, e é um pouco por aí que suas músicas transitam. Lush tem a cara do indie do fim da década de 90. Em certos momentos, o timbre de voz de Lindsay nos fez lembrar da rouquidão de Cat Power, e os trejeitos melancólicos, da contemporânea Julien Baker.

“Speaking Terms” traz para 2018 as melodias que o Sonc Youth nos entregou em músicas como “Stones”, de Sonic Nurse, de 2004. Lindsay se questiona: Inside of reverie how do you know / When you’ve gone too far?. A gente compra a ideia e segue junto com ela. Uma bela música.

E assim o disco segue sem muitos desvios, e faixas como “Heat Wave” e “Golden Dreams” conversam com mais proximidade entre si, enquanto outras mais melancólicas, como “Stick”, “Lets’s Find An Out”, “Deep Sea” e a incrível “Anytime” mantêm a conversa em primeira pessoa, até que o fim seja declarado de forma até, digamos, esperançosa: Still for you, anytime.

Mesmo envolto em melodias tristes, pode até soar estranho, mas Lush é um disco delicado e aconchegante. Dá também a impressão de que tudo ali foi feito em um curto espaço de tempo e que ele simplesmente saiu. Com a pressa típica de quem beira os vinte anos de idade.

Talvez por isso, algumas músicas chegam até a soarem parecidas entre si, mas de novo, pra nós, isso não é algo negativo. Pelo contrário. É uma linearidade que reforça o que gostamos em um álbum, no sentido mais literal que essa palavra consiga carregar. Porque temos ali um começo, meio e fim.

Foto: Divulgação