DISCO A DISCO: SONIC YOUTH Uma entrevista com Lee Ranaldo sobre o que a banda ouvia nas gravações

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Chegamos à segunda parte do nosso Disco a Disco. Uma série criada para que a gente pudesse traçar a carreira de músicos que a gente admira de um jeito diferente. Falamos sim sobre curiosidades da carreira, mas o fio condutor aqui é a música. Simples, a pergunta que permeia nossa série é: “O que essas pessoas estavam ouvindo quando compuseram cada um dos discos que gravaram?”

Nosso convidado da vez é o Lee Ranaldo, uma das mentes mais criativas e eloquentes da música alternativa, indie ou como queiram chamar. É também um dos responsáveis por expandir nossos universos comprovando que lindas melodias podem sim ser amparadas por enormes paredes de ruídos. Saudades, Sonic Youth.

Refletindo aqui sobre o dia em que entrevistamos Lee Ranaldo, vai soar cliché, a gente sabe, mas diante de algumas constatações é inevitável não pensar em como a vida sempre nos surpreende.

Uma vida de espera resumida em um fim de semana regado a muita ansiedade, massa e vinhos. E o que era pra ser uma entrevista esperadíssima por nós acabou por se tornar um dos melhores jantares das nossas vidas.

Era um sábado, meio friozinho. Um dia com aquela cara de macarronada aconchegante numa dessas cantinas tradicionais que, assim como a música, têm esse poder de fazer com que a gente visite alguns sabores e aromas que ficaram guardados lá na infância. Um sábado daqueles em que tudo parece contribuir pra você se perguntar se aquele dia está acontecendo mesmo. E hoje a gente para e pensa: “é, aconteceu mesmo!”

Acomodados e com a expectativa de quem cresceu de mãos dadas aos acordes, ruídos, experimentalismos e melodias produzidas por Lee, conversamos sobre os discos do Sonic Youth. Cordial e de bom papo, Lee contou algumas curiosidades e coisas exclusivas que foram muito além da pauta. Generoso e talvez, assim como nós, tomado por aquele sentimento que faz com que em pouco tempo três estranhos tornem-se três antigos conhecidos, ele contou tudo e mais um pouco.

Pela obra, sua permanência, a liberdade criativa, a vontade de fazer, pela emoção de correr riscos e experimentar, pelo amor à música distribuído em uma discografia imensa, influente e altamente relevante, Lee é realmente aquilo tudo que passamos a vida imaginando que ele fosse.

Uma dessas pessoas que a gente tem como amigo íntimo. Desses que há décadas você se abre, confessa. Que você usa de trilha sonora como um ombro amigo, ou que divide dúvidas e encontra motivação e força para enfrentar o mundo se for preciso. É desses que há longos anos você sempre para pra ouvir o que ele tem a dizer. E mesmo que você já saiba de cor o conteúdo da conversa, sempre há a possibilidade de uma nova escuta, de um novo entendimento. Sempre há tempo de novas descobertas.

Lee Ranaldo
Foto: Sounds Like Us

Sounds Like Us: Lee, a gente tem uma seção em que perguntamos para as bandas os discos que elas estavam ouvindo à época da gravação de cada álbum.
Lee Ranaldo:
É difícil de lembrar essas coisas, de certa maneira. Claro, não há dúvidas de que na época de Daydream Nation estávamos andando com o Dinosaur Jr., então tem influências deles naquele disco. Estávamos ouvindo muito as coisas do Stooges também. Ouvimos muito rock de Detroit e MC5 também. Fizemos o Experimental Jet Set, Trash and No Star meio que depois de irmos ao Japão com frequência, nos aprofundando na cena de noise industrial deles, como Boredoms, Masana e Merzbow. Acho que isso se refletiu no disco no finalzinho… Quando estávamos no Japão, a Kim comprou uma espécie de tapete de brinquedo em que você coloca as cartas em cima e, ao pressionar cada uma, sai um som de carro. Tem uma faixa escondida no fim do Experimental que é a gente pisando nesse tapete por uns dois minutos. Ela usou o brinquedo ao vivo, no palco. A gente pisava e fazia uns sons estranhos. Então, certeza que naquela época a gente estava ouvindo bastante música japonesa, como o Boredoms e o Merzbow. Aquelas coisas barulhentas, ásperas e extremas… o que é até engraçado, porque tem umas músicas super calmas naquele disco, como a “Skink”, mas que de fato foi influenciada por aquele noise japonês.

Sounds: Então vocês meio que pegavam as referências ao longo das turnês…
Lee:
Sim, em diferentes períodos. Agora há pouco eu estava falando do A Thousand Leaves, que foi no fim dos anos 90. Não sei, parece que teve uma explosão do som underground de Nova York a partir daquela época. Depois do Nevermind, do Nirvana, sabe? Era o fim da época em que as pessoas tentavam ser “o próximo Nirvana”, e de repente, todo mundo tava querendo fazer músicas de meia hora de noise doido e ouvindo John Cage e Stockhausen… então apareceram várias bandas novas, como o Wolf Eyes, que acredito ter surgido naquela época. Eram aquelas bandas que viravam as costas para a MTV, as grandes gravadoras e o Nirvana, e mergulhavam no underground. Tenho certeza de que a gente foi bastante inspirado por isso quando gravamos o A Thousand Leaves.

Sonic Youth na fase entre os discos Bad Moon Rising e Evol
Sonic Youth na fase do Evol

Sounds: Falando em Nirvana, vocês [Sonic Youth] foram responsáveis por levá-los à Geffen, não foi?
Lee: Aham.

Sounds: E como foi isso?
Lee:
Ah, eles admiravam nossa carreira, o fato de estarmos em uma grande gravadora sem nos vendermos… então eles nos pediam vários conselhos. Falamos pra eles assinarem com a Geffen e eles toparam, inclusive com o mesmo empresário – estamos com ele até hoje. Eles pegaram a mesma empresa de merchandising; acho que sentiram que precisavam de recomendações naquela época. Eles nem imaginavam que fossem lançar um disco que mudaria tudo. Era uma coisa de “o que a gente faz nesse caso?”. Então, acho que os influenciamos neste ponto. Era o segundo disco deles, e a gente já tinha gravado uns 8 ou 9 discos na época em que assinamos com a Geffen, então tínhamos um pouco mais de experiência. Acho que eles estavam em busca de uma referência naquela ocasião.

Sounds: Você alguma vez sentiu que o espírito musical do Sonic Youth pudesse ficar ameaçado por conta da pressão da indústria?
Lee:
Não, acho que não. Acho que todos nós nos sentíamos bastante confiantes com o que somos e com o que estávamos fazendo. Quando assinamos pela primeira vez com a Geffen, ganhamos muito mais dinheiro para fazer nossos discos. Imagina: gastamos cerca de 30 mil dólares para fazer o Daydream Nation e, provavelmente, 150 mil dólares para fazer o Goo. Talvez a mesma quantia, ou mais, para gravar o Dirty. De repente estávamos em uma grande gravadora e tínhamos todo aquele dinheiro pra esses dois últimos discos… a gente estava curioso: “Como o Sonic Youth soaria produzindo um disco como o Aerosmith produz”, aquele lance de eles gastarem centenas de milhares de dólares em um disco, sabe? Foi interessante em alguns discos nossos. No Dirty a gente trabalhou com o Andy Wallace e o Butch Vig, e aí invertemos para o que o Nirvana tinha feito com o Nevermind, que é gravar com o Butch e o Andy mixar. Mas, depois de alguns discos, a gente ficou meio que entediado e era tipo “tem som agudo demais aqui… é muito dinheiro gravar cada parte da guitarra umas 20 vezes até ficar perfeita”. A gente descobriu que nem ligava tanto pra esse lance de perfeição. Quando a gente gravou esses discos com o Butch Vig, mais especificamente o Experimental Jet Set, ele falava “Toca de novo, canta de novo, de novo, de novo”, em um momento em que já não ligávamos para aquele nível de perfeição. Então, na época do Washing Machine, a gente meio que voltou ao nosso jeito inicial, concluindo que não precisávamos gastar rios de dinheiro para fazer um disco que soasse legal. Talvez no Goo, Dirty e até no Experimental Jet Set tenha rolado um monte de grana pra gravar, mas, de repente, o dinheiro diminuiu de novo. Eles ainda estavam nos dando um monte de grana, mas usamos para construir nosso próprio estúdio. Compramos uma mesa de som e um monte de equipamentos. Pensamos que o dinheiro seria melhor usado no nosso próprio estúdio, além de podemos ficar bastante lá, em vez de pagar uma grana para estúdios tão caros.

Sonic Youth ao vivo em 1987
Sonic Youth ao vivo em 1987

Sounds: Pensando no começo da carreira, no fato de você ter vindo da orquestra do Glenn Branca e do rótulo de “new wave” dado a bandas como o Sonic Youth…
Lee: A gente nem era new wave de fato, mas amávamos todas aquelas bandas. A gente era pós new wave.

Sounds: Considerando toda a discografia, às vezes temos a sensação de que vocês tiveram uma fase de muito noise com melodia, depois barulho mais pop, como se nunca se acomodassem com qualquer sonoridade. Como se dissessem “ó, aqui está esse disco melódico, mas no próximo vamos tentar algo diferente”. Esse era um pensamento da época?
Lee:
Na verdade, não, porque sinto que desde o começo nossa música tinha dois lados: extremo na melodia e extremo no noise. E tinha muito a ver com o jeito de fazer, com quem estava produzindo e no que essa pessoa estava focando, não sei, como coisas diferentes que vêm em diferentes épocas da vida. Nunca quisemos um disco que soasse como o anterior, mas acho que sempre revezamos entre esses dois polos, de noise e melodia, e acho que isso se manifestou de maneiras distintas em cada álbum. Também tinha muito a ver com outras bandas que nos interessavam, como o Dinosaur Jr. Eles também tinham o noise e a melodia, mas de um jeito diferente da gente, sendo muito melódicos e muito barulhentos ao mesmo tempo. Era mais rock. Acho que um pouco da impressão de vocês vem do fato de nenhum de nós ser um compositor de verdade e a gente nunca foi daquelas bandas em que alguém aparece com uma música e diz “olha nossa música nova, aqui está Teenage Riot”. Isso nunca aconteceu. O que rolava era a gente se reunir e tocar juntos. Aos poucos, por vezes ao longo de dois ou três meses, a música ia tomando forma e aí apareciam os vocais. Por não sermos compositores no sentido tradicional, não tínhamos aquele problema de as músicas soarem iguais ao que soavam antes. Era sempre um lance de “eu tenho essa parte aqui. O que você vai colocar?”, e aí a gente tentava algo diferente. Acho que isso manteve nossa música soando diferente e fresca o tempo todo. As letras sempre vinham das jams, com nós quatro juntos. Também estávamos sempre mudando as afinações, o que ajudou bastante. Quando você inventa uma afinação, você tem todo um som novo para explorar.

Lee Ranaldo ao vivo com o Sonic Youth em 1988
Lee Ranaldo com o Sonic Youth em 1988

Sounds: Que bandas ou discos vocês tinham em mente enquanto improvisavam nos ensaios?
Lee:
Bom, a gente foi muito influenciado por coisas diferentes ao longo do tempo. No começo eram as bandas de Nova York. Mais tarde, na época do Evol e do Sister, apareceram outras influências além das nova-iorquinas. Começamos as turnês pelos EUA, então no início ouvíamos Minutemen, Black Flag e todas aquelas coisas da costa oeste, e também Teenage Jesus and the Jerks, DNA e outras que estávamos vendo em Nova York. Mas aí foi se expandindo conforme a turnê foi passando por outras cidades, como o Butthole Surfers, que nos influenciou bastante, e Big Black e o Steve Albini em Chicago. Depois foram as bandas que íamos ouvindo na turnê europeia. Todas elas estavam presentes em nossas mentes enquanto estávamos fazendo nossos discos. Como as letras só apareciam no finalzinho, a gente se referia a algumas passagens das nossas músicas como “aquela parte que parece Stooges” ou “aquela parte que parece Dinosaur Jr”.

Sounds: É inconsciente, né? É como você ouvir o disco e pensar “essa daqui soa como…”
Lee:
Sim, mas nós sempre nos inspirávamos nas novas bandas que nos chamavam a atenção e também em obras de escritores diferentes. Às vezes isso se refletia em algumas letras, como na época do Sister, que estávamos lendo muito o Phillip K Dick e livros de ficção científica. Mais tarde, acho que na época do Daydream Nation, alguém me emprestou um livro de um autor americano chamado Raymond Carver e as palavras dele se tornaram muito importante pra mim e para minhas letras. Daí houve um momento em que a cena indie ficou meio entediante depois do Nirvana e a gente começou a ouvir mais free jazz, e aí não lembro em qual disco a Kim tocou trompete pela primeira vez, talvez no NYC Ghosts and Flowers. Aliás, neste disco a gente estava pensando bastante em como Nova York era um lar para a Geração Beat, com a capa do William Burroughs e tal. E no A Thousand Leaves tem uma música para o Allan Ginsberg. Não são influências musicais, mas influenciaram bastante. O free jazz se tornou uma grande influência mais ou menos quando o Jim O’Rourke começou a tocar com a gente, no NYC Ghosts and Flowers. Estávamos começando a sentir essa conexão com a composição moderna do século 20, como Cornelius Cardew, John Cage, Yoko Ono e toda a galera do Fluxus, então gravamos o Goodbye 20th Century [SYR4] com o Jim O’Rourke e com um percussionista da costa oeste que a Kim conhecia. Naquele ponto, as jams do Sonic Youth estavam bem próximas do que as pessoas estavam chamando de “nova música”, com as leituras de partitura e sons muito parecidos com o que estávamos fazendo. Mas aí pensamos “podemos pegar essas partituras modernas e fazer shows em que você realmente está tocando outras composições, mas com seu estilo e vocabulário próprios”. Então gravamos o disco e fizemos uma turnê na Europa, onde estávamos tocando a música do John Cage, da Yoko Ono e de todos daquele álbum. Quando a gente criou nossa pequena gravadora SYR, era nesse período de explosão de pequenas gravadoras, com um monte de gente tentando descobrir como fazer e lançar discos. A gente tinha o estúdio, então estávamos sempre tocando ou gravando coisas.

Sonic Youth na fase do disco Sister
Sonic Youth na fase do disco Sister

Sounds: Quando você fala em gravadoras pequenas, a gente pensa na Dischord. E aí a gente lembra do Minor Threat, cujo show te deixou completamente estupefato, segundo o livro do Michael Azerrad Our Band Could Be Your Life...
Lee:
A Kim tava nesse show também! A gente ama o Minor Threat e tudo aquilo que tava rolando em DC, enquanto tinha Black Flag, Minutemen, Meat Puppets e outros bandas em outros locais. As cenas de DC e de Los Angeles foram muito importantes pra gente. Era um período pré-internet, com a cultura de fanzines, e você tinha cenas de hardcore em Madison, Wisconsin e Mineápolis. Essas bandas estavam aparecendo em tudo quanto era cidade e se conectavam com cartões-postais. Aquilo tudo foi muito influente pra gente.

“Estávamos no meio do processo de composição e nosso estúdio ficava a 3 quarteirões do Word Trade Center. Jim estava vivendo e dormindo lá quando tudo aconteceu. Parte de um dos motores de um dos aviões caiu no telhado do nosso estúdio. Aí o FBI veio e foi toda aquela loucura”

Sounds: A gente percebe, não só no Brasil, que hoje em dia podemos facilmente ouvir bandas independentes porque temos internet. Podemos simplesmente acessar o Google, Spotify, Bandcamp… Temos a sensação de que uma parte das bandas estava sempre esperando ter locais pra tocar, zines e sites para ler sobre elas e coisas do tipo. Mas isso nunca é garantido, porque nem sempre você tem os zines ou os lugares… Nisso, vimos muitas bandas desistindo e se dissolvendo. E, olhando toda a sua história, você sempre esteve construindo coisas, sem ficar esperando ser famoso…
Lee:
A gente sempre se concentrava na música, que era o mais importante. Mas talvez por morar em Nova York e circular com as pessoas com quem estávamos saindo, como o Jim Jarmusch, que se tornou cineasta, as coisas tenham acontecido. Atores, pintores e escritores tinham bandas naquela época. Era mais fácil conseguir shows em um clube do que fazer uma exposição em uma galeria de arte ou ganhar dinheiro para fazer um filme. Mais tarde, pessoas como Robert Longo e Richard Prince pararam de tocar em bandas e se tornaram famosas no mundo da arte. Quando começamos, sentimos que estávamos sintetizando muitas coisas diferentes que estavam acontecendo em Nova York a partir da história da música da cidade, como Velvet Underground, La Monte Young e Tony Conrad. O Glenn Branca e o Rhys Chatham de um lado do minimalismo, e o Steve Reich e o Phillip Glass do outro, além do pessoal da new wave e de Ramones, Blondie e Talking Heads.

Sounds: Com exceção do The Eternal, do Murray Street pra frente a música de vocês ficou muito mais experimental, minimalista e não tão noise…
Lee:
Talvez, não sei. Não acho que a gente tinha consciência de que estava ficando minimalista. Talvez naquele momento estivéssemos procurando por algo diferente. Murray Street tem apenas 7 músicas, mas elas são meio longas e com evoluções, então…

Sounds: Apenas aconteceu dessa forma, né?
Lee:
Sim, creio que sim.

Lee Ranaldo e Thurston Moore ao vivo em 1989
Lee Ranaldo e Thurston Moore ao vivo em 1989

Sounds: E o que vocês estavam escutando na época do Washing Machine e do Murray Street?
Lee:
É difícil lembrar o que a gente estava ouvindo durante na época do Washing Machine. 1995… Ainda era o fim do Nirvana. Sabe, o Teenage Fanclub estava por ali e tinha todas aquelas bandas diferentes por perto. Tenho certeza de que estávamos ouvindo isso. Este foi o único disco que fizemos fora de Nova York, em Memphis. A gente queria muito ir para algum lugar tentar algo diferente. E o Murray Street, claro, foi meio que afetado pelo 11 de Setembro e por todas aquelas coisas que aconteceram no período em que estávamos fazendo esse disco. Não sei se estávamos conscientes de que era algo mais minimalista, mas talvez tenha algo dessa característica no álbum.

Sounds: É mais uma impressão nossa comparando os discos que traziam mais o noise, mas o Murray Street não é tão minimalista porque a gente sabe aque ali existem muitas camadas.
Lee:
Sim, isso.

Sounds: É um disco experimental também, mas menos barulhento.
Lee:
O Jim mixou o NYC Ghosts and Flowers e tocou alguns instrumentos nele, mas só no disco seguinte que ele foi co-autor. Então o Murray Street e o Sonic Nurse foram escritos e gravados com o Jim. De repente tínhamos um membro extra na banda e às vezes tínhamos três guitarras, então estávamos tentando descobrir como não fazer aquilo parecer muito desordenado. Nessa época, outra influência para nós era o Beck. A gente adorava os primeiros trabalhos dele, quando era mais folk-desleixado, antes de ficar famoso.

Sonic Youth na fase do Daydream Nation. Foto: Reprodução/Facebook da banda
Sonic Youth na fase do Daydream Nation

Sounds: Interessante você ter falado do 11 de setembro ter afetado o humor de vocês no Murray Street. Foi um acontecimento que abalou todo mundo, e a gente nem imagina como foi para quem é de Nova York…
Lee: Bem, nós estávamos no meio do processo de composição e nosso estúdio ficava a 3 quarteirões do Word Trade Center. Jim estava vivendo e  dormindo lá quando tudo aconteceu. Parte de um dos motores de um dos aviões caiu no telhado do nosso estúdio. Aí o FBI veio e foi toda aquela loucura. De alguma forma isso realmente afetou esse disco. Para o povo americano isso tomou conta de tudo. Especialmente porque morávamos lá, tão perto. Depois do 11 de setembro eles desenharam uma linha vermelha perto do WTC e batizaram a área de “zona vermelha”. Era onde ficavam minha casa e nosso estúdio. A gente estava na metade do caminho nas composições do Murray Street e não pudemos ir ao estúdio por quase dois meses. Depois liberaram, mas todas as ruas tinham cercas, caras com armas em todos os cantos e tínhamos que mostrar papéis para dizer: “Temos que ir naquela rua porque nosso estúdio está ali”. Foi muito pesado! Acho que o Sonic Nurse também refletiu os acontecimentos do 11 de setembro.

Sounds: Afetou melancolicamente ou no sentido de inspirar uma transformação?
Lee:
Acho que foi um lance mental. As coisas mudaram. Os EUA não eram vistos como um lugar com uma cultura de ataque. De repente, depois do 11 de setembro, foi como se “ok, acontece aqui também”. Era bastante intenso.

Sonic Youth ao vivo em 1990
Sonic Youth ao vivo em 1990. Foto: Heather Harris

Sounds: Falando sobre estar em bandas, assistimos ao derradeiro show do Sonic Youth aqui no Brasil e foi muito intenso. Como foi isso para você? Foi doce ou amargo?
Lee: Eu acho que foi um pouco dos dois porque, naquele momento, todo mundo, tanto a banda quanto o público, sabia que esses eram os últimos shows. No palco, acho que foi normal. Mas só lá. Thurston e Kim ficaram em quartos diferentes e cada um se sentou em uma ponta da mesa. Era meio amargo porque a gente, como banda, já sabia que aquilo vinha acontecendo há um tempo, mas o público em geral, não. Mas é interessante que o último show tenha sido aqui. É muito especial, mas nos disseram que seria em São Paulo e nem foi realmente, de tão longe que era [o show foi em Paulínia, durante o SWU]. O dia estava chuvoso, escuro e cheio de lama, então talvez tenha sido um bom show de despedida.

Sounds: Chovia muito naquele dia. Era como se o mundo estivesse desmoronando por vocês estarem dizendo adeus.
Lee: Foi apocalíptico. Era um festival, com Stooges, ou Megadeth… eu não lembro quem mais tocou… Foi um daqueles festivais onde nada fazia sentido.

Sonic Youth e Nirvana durante a turnê de 1991: The Year of Punk Broke. Foto: Charles Peterson
Sonic Youth e Nirvana durante a turnê de 1991: The Year Punk Broke

Sounds: Era o Primus e o Megadeth…
Lee:
Sei que a Kim escreveu sobre isso no livro dela. É o começo do livro. Sobre o último show e ela se sentindo como “ok, no minuto que nós sairmos do palco será o fim do Sonic Youth”. Talvez, para ela, essa tenha sido a impressão mais forte por causa de todas as coisas que ela estava passando com o Thurston. Acho que todos nós sabíamos que era o fim, mas era um sentimento tão estranho porque os shows eram simplesmente normais. No palco parecia a mesma coisa. Não acho que houvesse a sensação de ser o último show quando estávamos no palco. Era como tocar músicas e fazer um bom trabalho, mas, de repente, acabou depois disso. Foi um tempo estranho, com certeza.

“É interessante que o último show tenha sido aqui. É muito especial, mas nos disseram que seria em São Paulo e nem foi realmente, de tão longe que era. O dia estava chuvoso, escuro e cheio de lama, então talvez tenha sido um bom show de despedida”

Sounds: E o nome do último disco é The Eternal. Foi como uma previsão…
Lee:
Esse é um disco estranho pra mim justamente por causa disso. Eu o adoro.

Sounds: A gente gosta muito de suas músicas nesse disco. Elas são próximas da sua carreira solo.
Lee:
Sim! De certa forma, são sim. As turnês duram por volta de um ano, um ano e meio. A gente tocava e depois tinha 3 meses livres, quando todos faziam suas próprias coisas. Kim foi mexer com moda e Thurston foi escrever livros com a garota pela qual deixou Kim. Mas ainda não estávamos separados ou pensando que fôssemos nos separar. E eu tinha todas essas músicas. Comecei a gravá-las e foi muito estranho porque no último ano do Sonic Youth eu estava fazendo meus discos apenas no meu tempo livre, e não porque o Sonic Youth tivesse acabado, pois nada disso tinha sido revelado ainda. Quando se soube que Kim e Thurston estavam se separando e que a banda ia acabar, eu já tinha um disco pronto. Aí eu pensei “ok, junte uma banda e vá tocar seu disco”. Meu primeiro show com uma banda tocando minhas músicas foi no dia em que a Pitchfork anunciou que Thurston e Kim estavam se separando. Por isso, foi bem estranho [ele ri].

Sonic Youth na fase do Goo
Sonic Youth na fase do Goo

Sounds: Uma das ironias da vida. O fim e o começo…
Lee:
Quando nós fizemos o The Eternal, não sabíamos muito bem o que estava acontecendo.

Sounds: Havia um sentimento ou algo estranho no ar?
Lee:
Tinha um sentimento estranho naquela época. A gente gravou um outro disco, o SYR 9 ou o 7. É uma trilha sonora para um filme francês chamado Simon Werner. É um disco bem bonito, eu o adoro. É um dos meus favoritos entre os mais recentes do Sonic. Quando estávamos fazendo esse álbum, Thurston estava bem estranho e a gente ficava pensando “tem alguma coisa muito estranha rolando”.  Isso era entre ele e Kim, mas eu e Steve [Shelley] não sabíamos ainda. Esse disco foi feito com uma vibe bem estranha. Eu, Steve e Kim meio que fizemos aquele disco acontecer. Durante toda a gravação, Thurston ficava meio de canto, sem falar muito. Isso foi antes de eu e Steve sabermos o que estava rolando e antes que o público soubesse também.

A gente não sabia porque o Thurston tava tão esquisito. Isso foi uma das últimas coisas que fizemos juntos. The Eternal e o Simon Werner foram as últimas coisas que fizemos. Mas acho que quando nós fizemos o The Eternal e saímos para a turnê dele, estávamos fazendo shows tão bons quanto os de outras épocas da nossa carreira. Eu realmente senti que cada vez que saíamos do palco era como: “nossa, esse seria um show foi foda em qualquer época do Sonic Youth: 1983, 1989, 1995, 2006”. A gente estava fazendo shows realmente bons e pra mim esse disco se saiu muito bem. E muito disso é devido a The Eternal ser um trabalho nosso com o produtor John Agnello. Ele teve uma boa parcela de responsabilidade por como esse registro ficou. Ele realmente ajudou a moldá-lo. Ele não sabia nada do que estava acontecendo e nós também não.

Tenho certeza de que Thurston e Kim sabiam que as coisas não estavam legais entre eles. Mas eu realmente senti que os últimos shows foram tão poderosos e fantásticos quanto qualquer show que o Sonic Youth fez em sua carreira. Depois de 30 anos, é muito legal poder pensar “Como foram os shows do Rolling Stones depois que eles começaram? Eles ainda estavam tocando ‘Satisfaction’?” Enquanto nós estávamos tocando todas aquelas músicas novas do disco em shows que foram incríveis.

Dirty - Vinil Box Set
Dirty – Vinil Box Set

Sounds: The Eternal é o primeiro disco em que você tem mais de uma música, não é?
Lee:
Não, acho que no A Thousands Leaves tenho duas ou três. Em Washing Machine tenho duas. É um dos poucos registros que tenho mais de uma, mas não o único. Essas coisas simplesmente acontecem, sabe? A gente escrevia primeiro a parte instrumental e, no último minuto, às vezes mesmo já estando no estúdio e gravando, ainda não tínhamos a letra. Era como: “ok, você pega essa, você aquela e eu pego essa”. Fiquei com duas no The Eternal.

Sounds: Tem alguma música que você mais goste de tocar e uma que você não curte muito?
Lee:
De todos os discos do Sonic Youth?

Sounds: Isso. A gente sabe que essa é uma pergunta difícil, mas pode ser a primeira que apareça na sua mente.
Lee:
Eu realmente não sei se há alguma. As pessoas sempre me perguntam qual a minha música favorita e é muito difícil. Sempre questionam “qual o seu disco favorito?” Nós colocamos nosso coração em todos. Você nunca deixa sair um disco que não te dê orgulho. Sei que muitas pessoas não gostaram de NYC Ghosts and Flowers. E a Pitchfork deu um zero ou algo assim…

A Thousand Leaves
A Thousand Leaves

Sounds: Perdoa, eles não sabem o que fazem… [risos]
Lee: 15 anos depois, um crítico da Road Zero mudou de opinião e disse: “eu estava errado”. A gente nunca lança um disco que não nos desperte emoções fortes. Às vezes não coincide com as expectativas do público…

Sounds: A gente acha o NYC Ghost and Flowers um disco emotivo.
Lee:
Sim, eu também acho. De verdade. E aquelas músicas ficaram ótimas nos shows, muito fortes. Talvez esse disco não tenha sido perfeito na gravação das músicas.

Sounds: Às vezes os críticos estão esperando uma coisa dentro de uma fórmula ou de como vocês vão superar o registro anterior…
Lee:
E os críticos esperam que você esteja tentando ser famoso e faça um disco de sucesso. A gente nunca pensou por esse lado. Então, às vezes, os críticos atacavam nossos discos porque não achavam que ali havia um single de sucesso.

Sounds: Por quê não tem uma “100%” aqui? [risos]
Lee:
Nada disso passou pela nossa cabeça. Não estávamos pensando nessas coisas. Estávamos pensando sobre as bandas que amamos, a música e os filmes que vimos que eram inspiradores, esse tipo de coisa.

“Quando estávamos fazendo o Simon Werner, Thurston estava bem estranho e a gente ficava pensando ‘tem alguma coisa muito estranha rolando’.  Isso era entre ele e Kim, mas eu e Steve não sabíamos ainda”

Sounds: A gente adora a “Wish Fullfillment”. O que te inspirou a compor essa música?
Lee:
Ela é um pouco pessoal. Eu queria poder falar sobre ela porque nunca fiz isso. Ela tem a ver com algumas coisas dentro da banda. Há uma edição deluxe de Dirty que tem uma versão demo dela. É muito mais uma música bonita e silenciosa do que a forma como fizemos no disco. Porque algumas vezes o Sonic Youth tem problemas para envolver suas cabeças em torno das músicas que eu trazia. Meio que “vamos fazer assim?”. E a “Wish Fulfillment” do disco nunca foi a minha visão de como ela deveria soar. Acabou sendo muito mais violenta do que eu imaginei que ela seria. É uma música que não tocamos ao vivo muito, sabe? Houve um momento em que eu toquei sozinho um pouco. Não sei, ainda resisto a falar sobre isso.

Sounds: Desculpe-nos trazer o assunto à tona!
Lee:
Sem problemas, imagina. Seria maravilhoso contar pra vocês do que se trata porque isso iria surpreendê-los.

Sounds: Mas você estava falando sobre o que os críticos estavam esperando. Este é o problema dos méritos do Sonic Youth, né?
Lee:
Tá, posso falar sobre a “Wish Fulfillment”. Ela fala sobre algumas pessoas que tocavam em bandas só para ficarem famosas e aparecerem em capas de revistas. Tudo isso versus quem estava fazendo isso pela arte e sem pensar no que o público ia achar, se ia pensar que sou bonito ou ótimo. De uma maneira geral, essa música tem a ver com umas pessoas específicas.

Sounds: Você sempre fala sobre a indústria e esse é um mérito do Sonic Youth, porque vocês sempre fizeram as coisas como queriam e a indústria abraçou vocês mesmo assim…
Lee:
Sabe, a gente sempre teve muita sorte, especialmente depois de 97. Quando tocamos no Lollapalooza, em 95, ganhamos muito dinheiro e compramos todas aquelas coisas…


Sounds: Aquela foi uma grande edição do festival.
Lee: Foi sim! Caveman, Jesus Lizard, Beck… Mas aquele também foi um dos piores Lollapaloozas para o público americano porque não teve Nirvana, Pearl Jam, Megadeth, Metallica ou essas bandas grandes. Mas, como posso dizer? Nós compramos nosso estúdio com a grana para fazer o disco da época [Experimental Jet Set]. Mas, peraí, do que a gente tava falando mesmo? Eu ia falar uma outra coisa…

Sounds: Era sobre a indústria musical abraçar vocês…
Lee:
Isso! Depois desse disco a gente começou o nosso selo, o SYR, e estávamos empolgados: “Somos sortudos, podemos fazer coisas loucas, gravar discos esquisitos, prensá-los, gravar músicas mais pop e colocá-las na Geffen, e talvez elas consigam entrar na MTV e coisas assim.” Nós sempre tivemos sorte de ter alguma credibilidade no mundo da arte e alguma credibilidade na cena subterrânea e no mainstream, então podíamos nos mover em diferentes direções, o que foi muito legal para nós.

Sounds: Alguma coisa fez vocês pensarem “hmm, isso é comercial demais para gente”?
Lee:
Naquela época a gente sempre caía fora desses lances de ter nossa música em uma propaganda ou de fazer algo com nossa música que rendesse muito dinheiro mesmo sendo de mau gosto. E continuamos a dizer “não” quando assinamos com a Geffen. Quando estávamos fazendo o Goo, a Geffen exigia que tivéssemos um empresário, no sentido de “a gente não pode falar com vocês sobre dinheiro”. Isso foi antes de encontrarmos nosso manager por todos esses anos, que também se tornou manager do Nirvana e que vinha da cena independente. Então a gente assinou com dois caras que estavam representando o Living Colour e ganhando bastante dinheiro com a banda. Eles se tornaram nossos empresários uns quatro meses depois de assinarmos com a Geffen e toda semana eles vinham nos dizer “podemos ganhar muita grana se fizermos uma parceria com tal coisa”… não me lembro bem, acho que era a Urban Outfitters. Mas a gente não queria isso! Parecia péssimo. Depois de 3 ou 4 meses, a coisa mudou para: “nós não queremos trabalhar mais com vocês, que não querem ganhar dinheiro”. Eles nos demitiram.

E então encontramos nosso empresário, que ainda está com a gente [Danny Goldberg]. Era um cara que veio da cena independente e agora é super-poderoso. Ele fez Nirvana, Foo Fighters, Norah Jones, Nine Inch Nails e Queens of the Stone. Bandas muito populares, mas ele veio da cena indie, do esquema de trocar discos e tal. Era o mais apropriado e ele sabia que não queríamos fazer coisas apenas para ganhar dinheiro. Então, nós não aceitamos muitas oportunidades, mas sentimos que mativemos nossa credibilidade em todos os aspectos.

Sonic Youth posterSounds: Você ainda mantém coisas da banda? De quando vocês estavam começando, as resenhas…
Lee: Eu e o Thurston somos os arquivistas da banda. A gente tem uma coleção grande de pôsteres, gravações de vídeos com os nossos shows e coisas do tipo. O Sonic Youth tem um grande arquivo de coisas e a gente está tentando preservar isso. Tem as masters de todos os nossos discos e fitas ao vivo das turnês. No comecinho a gente gravava tudo em cassete e, mais tarde, em DHT. Só depois nos formatos digitais.

Sounds: Nossa, DHT! Isso é antigão!
Lee: Sim, é realmente bem velho! E era um formato bem instável. Depois de uns 5 anos aquelas fitas ficaram zoadas. Eles chamam de “dropouts”: a música tá rolando, mas de repente o som some e volta depois, do nada. Estamos tentando preservar todas essas coisas, mas temos um enorme arquivo. De novo, eu não tenho ideia por que estou falando essas coisas [risos]...

The Eternal
The Eternal

Sounds: Não, tá certo! A gente estava falando sobre arquivar as coisas do Sonic Youth. Você lê as resenhas?
Lee:
Dos nossos discos? Claro! A gente sempre costumava ler as resenhas e nós éramos impactados tanto pelas críticas negativas como pelas positivas porque não se tratava de ler as resenhas para dizer “ok, você é ótimo!”. Às vezes os comentários negativos traziam coisas meio fora do assunto, como “esta pessoa não entende nada sobre nós”. Ou começavam a fazer você pensar como “bem, nós realmente não concordamos com eles, mas talvez eles tenham algum ponto sobre a impressão que damos ao público”. Então, claro, líamos cada uma das críticas, boas ou ruins.

“15 anos depois, um crítico da Road Zero mudou de opinião e disse: ‘eu estava errado’. A gente nunca lança um disco que não nos desperte emoções fortes. Às vezes não coincide com as expectativas do público…”

Sounds: Nós falamos recentemente com o Ian MacKaye e ele lamentou como a música é tratada agora [ALERTA, SPOILER!]. Quando ele sai em turnê com o Evens, os shows acabam e ninguém vai conversar com ele. E ele sente falta disso, dessa proximidade… Ao contrário de agora, com você falando com a gente. E vimos que, depois dos shows aqui, você tirou fotos com vários amigos nossos.
Lee:
Sabe de uma coisa, pra mim essa é uma das partes mais divertidas dos shows porque ali você pode conhecer pessoas que vão aos seus shows, ver quem elas são e do que elas gostam. Às vezes é cansativo porque pode demorar, especialmente depois de fazer duas horas de show. Mas isso é muito interessante pra mim e para o tipo de apresentação que eu faço agora, mais intimista. O público está sentado, a gente pode conversar e não é como um grande show de rock. E ainda dá pra falar com as pessoas nas barracas de merch. Sabe, todo mundo está postando fotos no Instagram. Esta é uma história legal do Brasil: um ano atrás [2015], quando minha banda tocava aqui no Largo da Batata, nós fomos a algum restaurante para comer e conheci uma garota, uma brasileira. Ela me deu um CD de uma senhora chamada Helena Meirelles, que toca viola caipira, e falou “bem, você pode gostar disso, tem umas afinações estranhas”. E aí comecei a escutar aquela música e fiquei bem impressionado.

Encontrei com ela novamente depois de um desses shows de São Paulo e disse a ela: “Acabei de comprar um desses instrumentos porque o Luciano [da Desmonta Discos, que produziu os shows do Lee] comprou para mim há uma semana e meia”. Ela ficou espantada. Ela me entregou um CD de música caipira e aquilo me fez ouvir essa música. É um instrumento como um violão, mas é tocado de um jeito especial, com afinações abertas. Esta fã, depois deste show, influenciou algo que mudou o que eu ouviria no próximo ano. Quem sabe o que vou fazer com isso depois? Então, pra mim, rola uma troca legal com essas pessoas. Quando você pensa em grandes bandas e como elas fazem um show, com todas essas pessoas que as amam tendo contato apenas pela visão do palco… as bandas vão embora e nunca veem uma pessoa dessa forma, tão de perto, sabe? Eu acho que isso é realmente importante e influencia o que eu vou fazer depois.

Sonic Youth ao vivo em 2009
Sonic Youth ao vivo em 2009

Sounds: E sua carreira solo?
Lee:
Meu próximo disco [Electric Trim] é realmente influenciado pelo fato de eu ter tocado coisas mais acústicas nos últimos dois anos. Acho que o meu próximo disco é uma das coisas mais legais que já fiz. Eu não sei o que vão achar, mas pra mim… Tem a participação da Sharon Van Etten, do Nels Cline, do Kid Millions [da banda Oneida]. Foi produzido por um cara de Barcelona, o Raül Fernández, um amigo meu que conheci há alguns anos anos. Ele usa o nome de “Refree” e tocou no Brasil usando esse nome. No disco há cordas, toda minha banda [The Dust], os músicos convidados e alguns outros. Não é um disco acústico exatamente. Esse disco levou cerca de um ano para ficar pronto, porque eu ia e voltava toda real. Fazer um disco como na velha tradição dos anos 60, em que você mergulha nele e fica bastante tempo, foi uma experiência muito legal. As pessoas fazem discos tão rapidamente nos dias de hoje, mas eu amo fazer um disco que leva bastante tempo. Você realmente contempla cada aspecto dele. Então esse disco trouxe diferentes pessoas, tentando coisas diferentes. Nós temos músicas em que o Steve está tocando bateria nos versos, o Kid Millions no refrão e tem bateria eletrônica em outra parte. É bem experimental, de certa forma. Não sei se as pessoas vão entender o disco, mas eu adorei e não vejo a hora de lançá-lo. Algumas das músicas que toquei no show do ano passado estarão neste disco.

E uma outra coisa é que pela primeira vez eu trabalhei com um letrista. É o Jonathan Lethem, um autor famoso nos EUA que escreveu livros premiados. Ele é, talvez, um dos autores mais importantes da sua geração. Ficamos amigos. Eu estava procurando ter em minhas letras uma perspectiva além da minha, porque quando você escreve suas próprias letras é sempre muito pessoal. Seis das músicas do meu novo disco foram escritas por nós dois e foi uma experiência muito legal.

Lee Ranaldo
Foto: Sounds Like Us