Thelonious Monk Os 100 anos do nascimento do cara mais metal do jazz

In Bandas

Em uma conversa há alguns anos sobre vinil entre nós e o idealizador da Marafo Records, Edu Medina, o papo desviou para o que fazia sentido ou não ouvir no formato analógico. O que soava melhor e era mais legal ouvir na velha bolacha, o som mais vivo, quente.

Certo momento, lá pelo meio do papo, surgiu o nome de Thelonious Monk, um dos grandes do jazz, predileto aqui da casa e que em 2017 chega aos 100 anos de existência. Sim, existência porque se tem algo que Monk deixou altamente impregnado nesse plano foi sua música e atitude. Intensa, dona de seu tempo e livre. Uma música que não só toca, mas existe de verdade.

Entre justificativas, percepções e preferências, chegamos à conclusão: “Monk é o heavy metal do jazz”. Bingo!

Thelonious Monk
Foto: Gordon Gibb

Daí por diante, o peso referente à música de Monk ganhou essa conotação, digamos, interessante. Outras conclusões também se ascenderam e é sobre isso que queremos falar para homenagear o centenário de nascimento de um gênio que, sob nossa ótica ignorante referente às artimanhas do jazz, foi do tipo que rompeu com algumas regras, mas nunca com suas próprias.

Por hora, é de bom grado esquecer a técnica como determinadora. Vamos ao sentimento como causa.

Sem o atrevimento em dissecar de forma técnica como ele foi genial, vamos ao ponto de como ele gentilmente conseguia, e ainda consegue, ativar diversos pontos da nossa sensibilidade, esteja ela em um momento tenso ou leve, suave ou bruto, torto ou mais quadrado mesmo. Afinal, Monk tem dessas. Trafega entre extremos e aproxima cabeçudos e meros admiradores.

Brilliant Corners - 1957 (LP repress 2011). Foto: Sounds Like Us
Foto: Sounds Like Us

Na contracapa do LP Brilliant Corners, Peter Gamble apresenta Monk escrevendo que ele foi um dos principais criadores do bebop. Não só isso, é também, assim como Charles Parker e Dizzy Gilespe, um dos pais do jazz moderno.

Antes disso, lá nos anos 40, antes de sua música vencer o conservadorismo dos críticos e da grande maioria de seus colegas, ele era esnobado e até tratado como louco. Mas ele estava à frente e provavelmente não reconhecia aquele tempo e espaço como seus.

É fato que o jazz tenha sim seus métodos, caminhos, regras e possibilidades, mas ainda assim é um lugar possível e transitável. E se na arte os limites existem para serem transpostos, diríamos que Monk sempre nos pareceu um cara bem atento a isso. Prova disso é uma brincadeira que ele mesmo fazia com seu nome: Thelonious Sphere Monk. Dizia: “alguém com esse nome não pode ser quadrado”.

Monk03Nascido em 10 de outubro de 1917 na Carolina do Norte, Monk já tocava piano com cinco anos de idade, só de observar as aulas da irmã. A história conta que ele foi um autodidata, mas há registros de que ele chegou a fazer algumas aulas aos onze anos. Aos 13 foi tocar na igreja e o resto veio com a prática.

O Acervo Folha, em homenagem ao pianista, publicou um fato interessante ocorrido em 1958. Contam que a caminho de um show em Baltimore, o carro em que estava foi parado numa blitz. Os policiais deram ordem para que todos descessem do carro. Sem entender a ordem, Monk ficou lá dentro. Os policiais ficaram bem putos e começaram a atacá-lo com cassetetes. Em um reflexo de sobrevivência, Monk sentou-se sobre suas mãos, a fim de protegê-las.

Foto: Sounds Like Us
Foto: Sounds Like Us

Antes do brinde final a esse senhor centenário, um outro fato curioso. Em uma das frases resgatadas pelo saxofonista Steve Lacy, amigo do pianista, Monk disse “don’t play everything (or every time). Let some things go by. Some music just imagined. What you don’t play can be more important that what you do” (“Não toque tudo (ou o tempo todo). Deixe algumas coisas acontecerem. Improvise. O que você não toca pode ser mais importante do que o que você toca”).

Thelonious Monk morreu em 10 de fevereiro de 1982, aos 61 anos, em consequência de uma hemorragia cerebral.

Thelonious Monk
Foto: Guy Le Querrec

Mesmo com os desafios do início de carreira, nessa época já era considerado um gênio. Morreu sozinho, mas um gênio. E mesmo tendo sido convidado a gravar suas composições depois de muito tempo, já aos 30 anos, morreu como um gênio. Pagou um preço alto por sua originalidade em uma comunidade rígida, mas ainda assim, morreu como um gênio.

Mas, como a arte é suficiente para vencer o tempo, nos dá a chance de entrar em um dos universos mais lindos do jazz.

E mesmo que a vida se cale, permanece a música, a única coisa capaz de fazer brotar melodia do mais incômodo silêncio. Assim como Monk fez.

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