Thrash metal 1988 Trinta anos depois, 10 discos que ajudaram a fortalecer o estilo

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Foto: Harald Oimoen

No significado literal que imprime, a palavra movimento caracteriza-se pelo conjunto de ações de um grupo de pessoas mobilizadas por um mesmo fim. Uma tela em branco, diversas possibilidades e um cenário que vai sendo ilustrado aos poucos, em um determinado momento da história.

Segundo Dan Lilker, baixista do Nuclear Assault, uma das histórias sobre a origem da palavra thrash é que ela veio do hardcore. No documentário Get Thrashed ele ainda conta que as bandas de hardcore tocavam muito rápido e que as de metal beberam nessa fonte. Da mistura do hardcore com o heavy metal nasceu o thrash metal.

Dave Lombardo (Slayer), Lars Urich (Metallica), Jeff Hanemann (Slayer) e James Hetfield (Metallica). Foto: Harald Oimoen/Reprodução “Murder in the Front Row”

Ainda sobre as origens desse movimento, a aparição do Metallica na coletânea Metal Massacre (81); o lançamento de Heavy Metal Maniac (83), do Exciter, que mostrou que o metal poderia ser tocado com mais velocidade; e as primeiras gravações do Exodus, pré-Bonded By Blood, que circularam pela Bay Area no mesmo ano, definiram os pilares inaugurais do estilo.

A explosão do thrash aconteceu em Los Angeles, na primeira metade da década de 80, em lugares como o Ruthie’s Inn, onde um público sortudo pôde ver bandas como Legacy, (antigo Testament),  Metallica, Exodus e Possessed em shows históricos que custavam por volta de apenas 5 dólares. Misturados na plateia, integrantes de outras bandas, pessoas que curtiam hard rock, heavy metal tradicional, e todos eles de olho no novo estilo que vinha surgindo: o thrash metal. Depois dos shows, segundo conta Sean Killian, vocal do Vio-lence, no livro Murder in the Front Row, as bandas iam para a casa do Metallica para celebrar a noite e beber algumas cervejas a mais.

Robb Flynn e Sean Killian, do Vio-Lence, ao vivo em 1988. Foto: Harald Oimoen/Reprodução “Murder in the Front Row”

Por aqui as coisas aconteceram um pouco mais tarde, mas a maneira como o movimento se instalou no Brasil era mais ou menos parecida – guardadas as devidas proporções, claro. Dynamo, Aeroanta, Projeto SP e Dama Xoc, em São Paulo, são algumas das casas que respiraram e transpiraram esse momento. Houve shows memoráveis de bandas como Apoleon, MX, Attomica, Korzus, Brainwash e tantas outras. Depois, assim como no berço do movimento, as bandas brasileiras também bebiam juntas, se misturavam ao público, trocavam ideias e conversavam ainda mais sobre metal, porque nunca era o suficiente. Era preciso, e vital, falar a todo momento sobre aquilo, e o tempo parecia curto demais pra isso.

Nossa memória mais antiga sobre o thrash esbarra no fim da década de 80 e foi nesse período que alguns discos importantes foram lançados.

Paul Ballof (Exodus), Chuck Billy (Testament) e Steve Zetro Souza

O já distante 1988 foi um ano frutífero. Em Los Angeles, o glam e o hard rock dominavam as páginas de revistas como a Circus e a Hit Parader, enquanto bandas ainda não tão conhecidas como Fishbone, Jane’s Addiction e Faith no More, vindas da mesma região, se preparavam para ganhar as rádios misturando estilos e definindo sua própria linguagem. Ainda no mesmo ano, o heavy metal tradicional assumia os teclados dando um toque, digamos, diferente às suas músicas. Caso do Iron Maiden, em Seventh Son of Seventh Son, e do Judas Priest, que já havia usado sintetizadores em Turbo Lover, lançado em 1986.

No meio de tudo isso, grandes nomes do thrash lançaram álbuns importantes, pelo menos pra gente. E é interessante como aquele 1988 foi essencial para que um estilo ainda jovem procurasse novos caminhos dentro da sua própria estrutura. Pensando nisso, fizemos uma lista com dez discos que, pra gente, foram os mais legais lançados naquele ano. Não é uma eleição dos melhores ou piores. É um resgate recheado de lembranças contornadas por discos que por 30 anos nos acompanham, e que a gente gostaria de dividir com vocês a importância de cada um deles.

Nuclear Assault
Survive

Com Game Over, disco de estreia lançado em 1986, o Nuclear Assault injetou uma agressividade diferente no thrash. Uma energia áspera que vinha de músicas enérgicas, desenfreadas e, de certa forma, até inconsequentes.

Dois anos depois, em Survive, a banda parecia mais madura e dona de seus instintos. Toda explosão e violência ainda estavam lá, mas a inconsequência deu lugar a uma linguagem mais efetiva do jeitão nova-iorquino de se fazer thrash metal, temperado com uma dose do hardcore também feito naquela costa. Em resumo, em seus primeiros registros, o Nuclear Assault era tão próximo do D.R.I ou do Cryptic Slaughter quanto do Slayer ou Anthrax, e assumiu com propriedade esse lugar entre esse dois mundos tão ricos.

Nuclear Assault. Foto: Divulgação

Survive compila momentos arrebatadores: A maravilhosa “Rise from the Ashes”, os hinos “Brainwashed” e “Equal Rights”, as inquietas “Survive” e “Fight to be Free”, e o inusitado, porém eficiente, cover de “God Times, Bad Times”, do Led Zeppelin. A verdade é que poderíamos investir algumas linhas para defender o quanto cada uma delas é incrível, mas o melhor jeito de identificar isso é ouvindo esse disco com o volume e a atenção que ele merece. Survive é um grande registro e um bom jeito de começar nossa lista.

Megadeth
So Far… So Good… So What?

Entre a objetividade que costuma rondar os primeiros discos de uma banda e a força de um grande clássico que ela produz, sempre haverá um espaço importante que une esses dois polos. Por exemplo, para que o Megadeth alcançasse a plenitude criativa de Rust in Peace, foi preciso passar por um período conturbado e isso aconteceu na época de So Far… So Good… So What? Um disco complicado, e que na época de seu lançamento, ouvimos pouco, se comparado ao anterior, Peace Sells… But Who’s Buying? Era um tempo em que o Megadeth era movido a polêmicas, tretas, drogas, álcool e instabilidade, muito por conta de Dave Mustaine.

Recentemente, mergulhamos de volta em So Far... Em um novo contexto, soou grandioso e até melhor compreendido. “Into the Lungs of Hell” ainda nos parece pretensiosa, “americana” demais. Outro momento “melhor não” é o cover de “Anarchy in the UK”, do Sex Pistols, que contou com a participação do próprio Steve Jones, guitarrista dos Pistols. De resto, So Far… é um disco melhor do que a nossa memória tinha registrado até então. So Far... traz de volta lembranças incríveis de uma época cheia de mudanças e descobertas. “Set the World Afire” e suas alterações inteligentes de andamento são indicativos do que a banda viria a fazer em seu próximo disco, o já citado Rust in Peace.

Dave Mustaine. Foto: Harald Oimoen/Reprodução “Murder in the Front Row”

Entre outras grandes preciosidades, So Far… So Good… So What? traz “Hook In Mouth”, “Liar”, e “In My Darkest Hour”, que teve sua letra escrita no dia em que Mustaine soube da morte de Cliff Burton, seu ex-companheiro de Metallica.

Embora divida opiniões, So Far… é um dos momentos mais criativos, nervosos e tensos do Megadeth, e talvez seja o disco que mostre com maior fidelidade a relevância, inconstância e o brilhantismo da banda. Moral da história? É bom demais rever alguns conceitos, trazê-los para o capítulo atual dos nossos dias, e assim fazer as pazes com um velho conhecido como So Far… So Good… So What?

Anthrax
State of Euphoria

Alguns discos são um tanto injustiçados e as razões para isso são inúmeras. No fim da década de 80 as  indicações vinham de amigos, de revistas, programas de rádio ou TV. Nessa conjectura, State of Euphoria, do Anthrax, sempre teve o estigma de cansativo, se comparado ao que a banda havia lançado até então. O que era estranho pra nós, já que nos entendemos muito bem com o disco quando ele foi lançado por aqui.

Anthrax. Foto: Divulgação

Resultado? Devoramos o álbum. Músicas como “Be All End All”, “Who Cares Wins”, “Make Me Laugh”, “Now It´s Dark” e “Antisocial”, cover do Trust, ainda falam muito sobre como se fazer thrash metal.

Among The Living segue sendo apontado como o grande marco na carreira da banda. E de fato é. Mas o lado injusto dessa história toda é que State of Euphoria tem um poder que age em uma outra esfera, menos literal. É um disco que sempre vai sofrer com as comparações ao seu antecessor. State.of Euphoria chegou bem aos seus 30 anos e segue sendo um dos nossos preferidos dentro da discografia da banda.

Metallica
…And Justice For All

Um silêncio. Sem grave, distorção e a tradicional camiseta do Misfits. Um silêncio sem a voracidade de Cliff Burton, calada então por um acidente. Para nós, fãs, a pergunta era: depois de três excelentes e importantíssimos discos, o que seria do Metallica sem Cliff Burton?

Pode não ser o seu preferido, mas, quando foi lançado, …And Justice For All deixou todo mundo pra trás. Slayer, Megadeth, Exodus, Testament. Todas as atenções se voltaram para a complexidade de músicas como “Blackened”, “Eye of the Beholder”, a incrível faixa título e a linda “To Live Is to Die”, faixa instrumental, em homenagem a Cliff, e que foi composta com algumas ideias deixadas pelo baixista.

Foto: Divulgação

A primeira música a ser divulgada foi “One”. Fãs, crítica, músicos, todos estavam encantados com a famosa passagem de dois bumbos criada por Lars Ulrich, mas que o Dark Angel já havia feito algo em Darkness Descends, lançado em 86.

“One” também ganhou clipe, o primeiro da história do Metallica, já que, até então, com três discos lançados, nunca havia filmado nenhum vídeo.

Além de ter trazido a banda para a sua primeira passagem pelo Brasil, …And Justice For All foi o nível mais alto de complexidade que eles atingiram. Toda essa genialidade foi também um importante ponto de virada para o Metallica que, a partir dali, começou a olhar com mais carinho para outras formas de se pensar em thrash metal. Era a semente do que seria o Black Album. Era a história a ser escrita por uma banda que ainda faria muito pela música. Uma banda que se tornaria o maior nome do metal de seu tempo. E do nosso.

Mutilator
Into The Strange

Um dos grandes nomes da seminal cena mineira é o Mutilator. Entre seus poucos registros, Into the Strange, segundo disco dos caras, foi um salto e tanto de técnica comparado ao que víamos e ouvíamos na época. Levou a banda do death/thrash calcado na cena alemã direto para algo mais complexo.

Logo que foi lançado, Into The Strange ganhou comparações com nomes consagrados como Possessed e, claro, Slayer da fase Haunting the Chapel e Hell Awaits. Nas revistas ou conversas entre amigos, o ponto era: “o novo disco do Mutilator tá gringo”.

Mutilator. Foto: Divulgação

“Gringo” era o código para valorizar algo que era muito bom. Mas Into The Strange é coisa de brasileiro mesmo. Feita aqui com qualidade e orgulho. Três décadas depois, Into The Strange, um dos grandes discos do thrash metal mundial, é coisa nossa.

Vio-Lence
Eternal Nightmare

Sabe aquelas bandas que sempre que você escuta parece ter algo fora do lugar? A cada ouvida uma luta interna era travada porque sempre houve a nítida percepção da qualidade das músicas e dos músicos, mas algo ali não engrenava, até que já no final da década de 90 alguma coisa mudou e Eternal Nightmare se transformou em algo incrível.

Talvez o Vio-Lence seja a banda mais cult da chamada segunda geração do thrash metal americano. Eternal Nightmare, segundo disco dos caras, e o primeiro que conhecemos, trazia músicas calcadas dos pilares do estilo, mas com um toque a mais. Era uma combinação bem equilibrada de energia e força que explodiam com a mesma intensidade com que causavam estranheza. Para sermos honestos, muito desse “pé atrás” era por conta de Sean Killian, talvez o timbre de voz mais esquisito do thrash.

Vio-lence. Foto: Divulgação

Hoje, o Vio-lence é muito mencionado como a banda que revelou Phil Demmel e Rob Flynn, a dupla que atualmente comanda as guitarras do Machine Head.

Jornalistas e músicos que puderam testemunhar, dizem que a banda era uma unanimidade ao vivo. Fazia jus ao nome que carregava. Eram shows enérgicos, intensos, e num tempo onde as apresentações eram um importante cartão de visitas, não deu outra, os shows do Vio-lence passaram a ser disputadíssimos. Sorte de quem viu.

Slayer
South Of Heaven

“Era como se o Reign in Blood estivesse em 78 rpm e o South of Heaven em 33 rpm”. Quem disse isso foi Dave Lombardo, na biografia “O Reino Sangrento do Slayer” (Joel McIver – Edições Ideal), para definir o quarto disco do Slayer. Desde a faixa título até “Spill the Blood”, South Of Heaven realmente é mais “lento” que seu antecessor, mas é tão pesado quanto.

É um disco vivo. A bateria fala alto e “Live Undead”, uma das melhores músicas da banda, é prova disso. É sem dúvida um dos momentos mais criativos de Lombardo. Não só dele, mas também de Jeff Hanneman, que assina todas as composições do disco, sendo três delas em parceria com Kerry King.

De toda discografia, Reign in Blood é o disco mais violento e que também ajudou a ditar os direcionamentos do death e black metal. Mas é curioso pensar que, na época, a mesma velocidade que hoje é marca forte de Reign in Blood, causou estranheza. As músicas, o encarte, a ausência de solos, tudo ali tinha uma aura meio punk, e naquele tempo isso não era tão bem visto quanto hoje em dia. As características clássicas do metal tinham ficado em Hell Awaits. Em Reign in Blood a coisa estava mais objetiva. Talvez por isso South Of Heaven tenha chegado como um disco mais maduro, que trazia de volta o peso mais voltado para referências do heavy metal propriamente dito, tanto nas composições quanto arte gráfica e postura da banda.

Slayer. Foto: Divulgação

South Of Heaven segue sendo um dos grandes discos do Slayer. No contexto de uma época, é um marco corajoso na carreira de uma banda que vinha de uma aposta na velocidade ríspida de um disco até hoje tido como um ponto de referência, e que então optou por um comportamento criativo mais cadenciado e não por isso, menos agressivo.

Em South Of Heaven o Slayer levou toda a sua capacidade de musicar a perversidade humana a um novo patamar, sem precisar se colocar atrás de músicas insanamente rápidas.

Explicit Hate
A View Of The Other Side

O death/thrash alemão, edificado pela tríade Kreator, Sodom e Destruction, sempre foi uma grande influência para as bandas brasileiras. Talvez por identificação com o aspecto áspero, direto e brutal que inseria em suas músicas. Nomes como Sepultura, Chakal e Holocausto traziam essa proximidade com os alemães em suas estruturas, mas também salpicavam altas doses de Voivod, Possessed e Venom para construir sua identidade.

Entre as que se dedicaram a tais ensinamentos e lançaram discos em 88, o Explicit Hate, do Rio de Janeiro, foi uma das bandas que vieram à nossa memória.

Explicit Hate. Foto: Divulgação

A View Of The Other Side, lançado pela Cogumelo Discos, é thrash metal formatado na inteligência dos riffs, na dinâmica mais trabalhada e nas linhas vocais que conversam de perto com o Kreator da fase Terrible Certainty.

Hoje, ou mesmo na época, é perceptível que a banda não estava preocupada em reinventar o thrash, mas havia algo diferente ali e que chamou atenção. Afinal, o que a gente queria mesmo era um bom disco de thrash e nisso, desde a faixa de abertura, a grudenta “Invasion From Inside”, até a instrumental “The Trip”, o Explicit Hate fez bonito.

Forbidden
Forbidden Evil

Quando foi tocada no saudoso programa Comando Metal, da rádio 89FM de São Paulo, “Through Eyes of Glass” foi caso de amor à primeira ouvida. Aquela mistura de melodia com técnica e velocidade despertou nossa curiosidade e, naquele momento, tudo o que queríamos era saber mais sobre aquela banda: qual era sua formação, como construíam aqueles riffs, e, principalmente, queríamos saber se de onde vinha aquela música, havia mais.

Na época, um VHS da Combat Tour com shows do Death, Faith Or Fear, Raven, Dark Angel, e o Forbidden circulou bastante. Na fita, uma execução matadora de “Through Eyes of Glass”.

Forbidden ainda com Robb Flynn (Vio-lence/Machine Head) e Paul Bostaph (Slayer) na formação. Foto: Harald Oimoen/Reprodução “Murder in the Front Row”

Forbidden Evil, primeiro disco dos caras, é uma amostra de um equilíbrio inteligente entre linhas vocais que seguem mais pela melodia do heavy metal tradicional, riffs velocíssimos e dinâmicas de bateria precisas de Paul Bostaff, que mais tarde faria parte do Slayer.

Testament
The New Order

“Trial By Fire” era presença constante no Clip Trip, programa da TV Gazeta, que no final da década de 80 educou muitos jovens roqueiros desse nosso Brasil. E em uma época onde o metal começava a olhar um pouco mais para as novidades, inserir outros elementos e se adaptar a novos formatos, o Testament se manteve estritamente fiel às suas raízes thrash. Com The New Order eles deram um passo à frente em uma tentativa de apresentar um som mais técnico. Em termos criativos, The New Order é muito do que a banda precisava naquele momento.

As incríveis “Disciples of the Watch”, “Into the Pit”, a já citada “Trial By Fire” e a faixa título mostram uma evolução e tanto se comparadas ao urgente The Legacy, seu disco de estreia. Um grande destaque é o excelente cover do Aerosmith, “Nobody’s Fault”, que nas mãos do Testament ficou melhor que a versão original.

Testament. Foto: Divulgação

Em algumas críticas, as comparações dos vocais de Chuck Billy com James Hetfield foram recorrentes. Faz sentido, mas a verdade é que a voz de Chuck tem muita força e um apelo grande em nossa memória afetiva.

Ouvir New Order hoje é quase como rever algumas cenas desenhadas há três décadas e que ainda nos emocionam. Por isso ele é o nosso escolhido para fechar, com um grau de importância gigante, nossa lista.