‘Black Metal’, do Venom Os 35 anos do disco clássico em depoimentos de artistas fãs da banda

In Bandas, Discos

Falar em black metal sem citar o Venom seria um equívoco. Há quem credite, e com razão, a criação da estética sonora do gênero ao Bathory, mas o nome e todo imaginário criado em volta do estilo vieram do segundo discos dos ingleses.

Em tempos de pouca informação, o black metal como manifestação musical mal existia. O que a gente tinha era uma banda de rock pesado. É, naquele tempo, mal sabíamos o que era black metal ou metal extremo. Não havia tantas subdivisões dentro do metal. Agent Steel, Celtic Frost, Savage Grace, Metallica, Motorhead, Raven. Era tudo rock pesado. No máximo speed/power metal ou hard rock. Nem headbanger a gente era. Muito menos metaleiro, como queria a TV Globo pós Rock in Rio.

O Venom era parte do repertório diário dos fãs de música pesada. Até quem não era muito chegado em um som mais barulhento entrou na dança e nas conversas sobre quem eram Cronos, Mantas e Abadon, os três polêmicos nomes por trás da banda.

A primeira vez que vimos a banda em ação no palco foi em um VHS pirata, com uma imagem horrenda e qualidade de som terrível. Mas, mesmo assim, aquilo para nós era incrível. Era a nossa realização de ver quem afinal eram aqueles caras que alimentavam a imaginação de milhares de fãs ao redor do mundo com uma música grosseira, genuína, rude e de poucos amigos.

O som primitivo sustentado por imagens satânicas e uma boa dose de humor cínico era a combinação explosiva de uma banda que abusava de uma velocidade desenfreada, riffs violentos e um vocal que vomitava blasfêmias abastecidas de uma boa dose de arrogância.

Black Metal, o disco, foi lançado no dia 1 de novembro de 1982. Dono de uma distinção rara que acomete aos grandes, deu origem a um movimento cult de mesmo nome.

É considerado um grande clássico. Um evento importante e definitivo na vida de muita gente. E, pensando nisso, convidamos algumas pessoas que vivenciaram o impacto deste clássico para contar um pouco sobre a relação com a banda e, principalmente sobre a importância que Black Metal teve na vida de cada um deles.

“Bem, na verdade, desde o Cream e o Jimi Hendrix Experience, os power trios sempre me chamaram a atenção pois sempre demonstraram que o rock, em certos casos, não precisa de muita gente para compor uma banda. E quando começou a New Wave Of British Heavy, o único power trio com muita personalidade foi o Venom, que com o primeiro álbum, Welcome To Hell, era diferente das outras bandas e provou isso no segundo disco, Black Metal. Um registro muito importante porque, além de ter sido um divisor de águas para a própria banda em si, batizou o estilo musical que na época começou a dividir o metal e, após isso, várias outras subdivisões surgiram, como thrash, speed, power e por aí vai. O Black Metal, do Venom, é o mais original de todos”.
Walcir Chalas (Woodstock Discos).

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O Venom é uma das maiores bandas de metal de todos os tempos e Black Metal é, sem sombra de dúvidas, o meu disco preferido. Este clássico me leva para 1985, época em que o descobri, com três anos de atraso, esse opus e fiquei chapado. No mesmo ano eu peguei esse e o primeiro disco, o também excelente Welcome To Hell. Velocidade, loucura e muita atitude punk! O Venom é uma fusão diabólica de Motorhead com o punk/hardcore. Ouça “Raise The Dead”. É Motorhead puro! Claro, por ser parte da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal), existem coisas mais tradicionais como a maravilhosa “Leave Me In Hell”. Na verdade, minha preferida é uma das mais lentas, “Countness Bathory”, música que viria a influenciar o batismo de outra incrível banda, o grande Bathory. Isso sem falar de toda a cena black metal que veio depois se apropriando do título do álbum e bebendo até se fartar nessa fonte negra que originou o Black Sabbath e depois Venom, Possessed, Hellhammer/Celtic Frost, Bathory e também o Sarcófago.

Como músico, fui extremamente influenciado pelo trabalho deles e particularmente pelos vocais do Cronos, subestimado por não ser uma Tetê Espindola do metal (risos). A capa também é um ícone que, além de extremismo, traz senso de humor. Eu acho chato quando o metal fica muito rabugento. Gosto dessa atitude “foda-se” frente a toda pompa e formalidade de algumas bandas e isso eles têm de sobra. O Venom é cru, rude e perigoso como todo rock pesado deve ser, e uma influência muito grande em todas as bandas que eu já toquei e ainda toco. Hoje, temos duas versões da banda, o que é melhor que nenhuma, com certeza.
Manu “Joker” Henriques (Uganga / ex-Sarcófago).

Cronos e Abaddon. Foto: Divulgação
Cronos e Abaddon. Foto: Divulgação

Black Metal é um dos álbuns mais importantes e influentes da história do metal na minha opinião. Em 1982 ainda não existiam os subgêneros do heavy metal, sendo que o Venom foi a primeira banda a levar o tradicional heavy metal a um âmbito mais denso, cru, pesado, satânico e chocante. Com uma influência que vinha do Black Sabbath, Kiss, Motorhead e Judas Priest, eles levaram a brutalidade a um outro patamar. Eu acredito que, após o lançamento do Black Metal, nasceram o thrash, o death, e o black metal como os primeiros e mais importantes subgêneros do heavy metal. Ainda não existia Metallica, Slayer, Bathory ou outras bandas que tocassem com tanta raiva ódio e velocidade. Pessoalmente, este álbum me influenciou muito. Com certeza sempre figurará entre os meus top 5. O Venom é o pai da música extrema propriamente dita. A relevância deste álbum está a par com os grandes lançamentos na história do metal.
Moyses Kolesne (Krisiun).

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

“Impactante, Black Metal foi responsável pela propagação do estilo que leva seu nome, tornando o Venom referência para seguidores. Quem me apresentou a banda foi um amigo de escola, Dino Dragone Jr., hoje cineasta e que, por muitos anos, foi um premiado diretor de videoclipes. Ele até tatuou o bode da capa de Black Metal, desenho criado por Cronos, no braço. Por sinal, lembro que a imagem do bode já impressionava antes mesmo de ouvirmos as músicas. E elas eram matadoras, a começar pela faixa-título! Dos alto-falantes saía aquele som genuinamente tosco, honesto, agressivo, raivoso e com letras cheias de blasfêmia e ironia. Posso dizer que fui e voltei ao inferno, assim como diz a letra de “To Hell and Back”. Outras que me fizeram ainda mais fã do trio Cronos, Mantas e Abaddon foram “Don’t Burn the Witch”, “Raise the Dead”, “Leave Me in Hell”, “Sacrifice”, “Heaven’s on Fire”, e, claro, a clássica “Countess Bathory”. Nunca cansei de ouvir Venom e tenho orgulho de tê-los visto na minha frente, já sem Mantas, em 10 de dezembro de 1986 no ginásio Poliesportivo do S.C. Corinthians Paulista.”
Ricardo Batalha (editor da revista Roadie Crew)

Cronos e Mantas. Foto: Divulgação
Cronos e Mantas. Foto: Divulgação

Quando o Venom apareceu para mim, eu lembro que ouvia uma fita do LP Seven Gates of Hell, que era uma gravação pirata em vinil de um vídeo (em VHS) de um show deles. Eu ouvia uma fita K7 deste LP, que era feito nos porões do inferno em São Paulo. Dava medo. Quando ouvi o álbum Black Metal pela primeira vez, pulei todas as faixas para começar com a “Countess Bathory”, que era a minha favorita. O disco era aterrador na época. Hoje a gente ouve, como estou ouvindo agora, no mood saudosista. Tenho que confessar que gosto mais do Welcome to Hell, mas o Black Metal sedimentou a carreira do Venom. Lembro bem que uma revista americana publicou uma matéria sobre o álbum dizendo que o Venom fazia o Motorhead parecer como uma orquestra sinfônica.

Eu sempre achei o Venom na linhagem motorheadiana e se tivesse um Master Chef do metal, o Venom seria uma base motorheadiana com várias colheres de enxofre para harmonizar com uma grande taça de Jack Daniels com Coca-Cola. Você pode perceber no Black Metal essa grande influência, com referências ao blues em “Teacher’s Pet” e a descarada “Leave me in Hell”. Perceba que Cronos é quase um Lemmy encarnado pra cantar aquilo, mas com as letras podres próprias do Venom. Black Metal é clássico absoluto e é claro, é necessário colocá-lo na sua cronologia para entender que a maioria das bandas desta época evocavam outros caminhos estéticos para o metal. Estavam longe das malfadadas regras majors e tinham liberdade para procurar novas formas de audição. As gravações parecem primárias e de verdade são, mas vale dizer que uma postura antiesquemão era que movia esse novo metal. A capa do Black Metal é a capa mais tranca-cu da história. Aquele bode já diz tudo.

Para finalizar, aqui em Belo Horizonte no início da década de 80, tinha um lugar que passava vídeo de metal aos domingos (ICBEU). Imagem horrível, som péssimo, mas era o que tínhamos. Quando passou o Venom, estava eu ,o pessoal do Sepultura, caras de futuras bandas importantes de Belo Horizonte e uma metaleirada lá assistindo ao vídeo quando um antigo punk louco, chamado Bonaégua, começou a surrar a cadeira com uma corrente na hora da “Countess Bathory” e resolvemos ajudá-lo. Sei que na época falamos que não foi a gente e tal, mas quebramos mesmo um bocado de cadeiras e o lugar ficou fechado duas semanas. Foi mal.
Vladimir Korg (The Unabomber Files / Chakal)

Cronos e Mantas. Foto: Divulgação
Cronos e Mantas. Foto: Divulgação

Black Metal é um disco que descobri meio tarde. Foi só quando eles vieram tocar em São Paulo, em 1986, quando eu tinha 12 anos. Tinha a turma da rua que jogava bola e os metaleiros que só falavam de som. Eu era da segunda turma. Os pilares eram Judas Priest, Iron Maiden, Metallica e Motorhead, mas as coisas estavam ficando um pouco mais meladas com o hair metal dominando nos Estados Unidos enquanto a velocidade aumentava na Europa. Foi aí que eu fui atrás das bandas mais agressivas. O Venom conseguia juntar toda a melodia do heavy metal com a energia que queríamos. Isso tudo com uma pegada mais rápida e violenta, mas ao mesmo tempo com aquela coisa meio bluesera e com um cinismo genial e divertido nas letras. Desde então, não sai da minha lista de favoritos.
João Maurício (Ulster)

Abaddon. Foto: Divulgação
Abaddon. Foto: Divulgação

Quando ouvi Venom a primeira vez foi com o disco At War With Satan, por meio de um camarada que morava na mesma rua que eu e que comprava vários discos, o grande “Batata”. Inclusive eu troquei toda a minha coleção “infantil” de Iron Maiden por esse disco, mas logo me arrependi, por apego à infância. Alguns dos discos eu comprei com uns 5 anos de idade, mas o Venom pintou quando eu já tinha uns 12 e me achava “O” satânico. Depois de eu quase descascar o disco, achei o Black Metal na loja Gramofone, no Shopping da Gávea, onde eu jogava flipper. Na verdade eu jogava o Arcade Gladiator, que tinha altos gráficos viciantes. Me lembro que troquei a etiqueta do disco pra conseguir pagar com o dinheiro do lanche. Super satânico!

Aí eu ouvia Venom no meu iPod mental e pegava onda de bodyboarding ao som de “Black Metal”, a canção. Também lembro de gravar esse disco em uma fica k7 e levar para o Natal da família. Mostrei para minha avó e ela deu uma dançadinha fingindo curtir. No Rio de Janeiro tinha uma galera que ouvia Venom. A vizinhança surfista do Leblon era um pequeno reduto metal, terra de Dorsal Atlântica, e a galera mais velha contava que no show do Venom que teve no Maracanãzinho, junto com Exciter, uma galera viu vultos no palco, o que foi “encagaçante”.

Outra lembrança que tenho é que em uma dessas viagens de escola, eu escrevi os versos da contracapa do disco no Correio do Amor, que eram bilhetes anônimos que os professores liam ao final da aula. A professora ficou de cabelo em pé porque eu escrevi aquelas coisas horríveis sobre fazer amor com prostitutas morrendo e guardar a chave da porta da morte. Bem molequinho surtado maligno.
Gabriel Bubu (Do Amor).

Foto: Divulgação
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Os anos 80 foram uma década de vanguarda pra música, principalmente a música pesada. Tudo era inovador e diferente. Eu só posso imaginar como foi, na época, para alguém que era fã de bandas como Judas Priest, Def Leppard, Scorpions e Motorhead ouvir o Black Metal pela primeira vez. Pra mim é quase mítico tentar imaginar esse cenário. Nessa época eu ainda estava nascendo e só fui ter essa experiência na segunda metade dos anos 90, quando tudo isso já estava muito bem estabelecido. Mesmo assim, quando ouvi o Venom pela primeira vez, meu contato com o heavy metal era mais ou menos o mesmo das pessoas daquela época. Foi um susto, um soco na cara ir do Priest, Maiden e Manowar para o Venom. Era a coisa mais imunda, nojenta e maligna que eu já tinha ouvido na vida e ao mesmo tempo apaixonante. Como quando você olha para um eclipse, sabe que não deve, mas não consegue tirar os olhos daquela maravilha.

O Black Metal, do Venom, é, talvez, o disco mais importante daquela década. Com certeza está entre os 5 mais importantes. Eles juntaram a rebeldia sonora do Motorhead e o visual chocante do Kiss e levaram tudo para uns três patamares acima. O Venom, pelo menos quando eu era adolescente nos anos 90, chocava tanto quanto em 82 e isso não é pra qualquer um. Pra resumir, um disco perfeito. Tem tudo que um bom disco de metal deve ter. E só pra fechar, Venom é melhor que Motorhead! 666
Kexo (Death By Starvation)

Mantas. Foto: Divulgação
Mantas. Foto: Divulgação

No início dos anos 80, as informações chegavam no Brasil sempre com muita defasagem. Não existia internet, e as poucas informações com que éramos presenteados vinham da imprensa escrita e de alguns programas de videoclipes na televisão aberta. Nessa época eu me recordo que era leitor da revista Somtrês e também colecionava os pôsteres de tamanho gigante. Esses pôsteres saíam mensalmente e era uma grande ansiedade para saber qual era o pôster do mês. Lembro que minha coleção era grande e eu tenho esses pôsteres até hoje (AC/DC, Black Sabbath, Iron Maiden, Saxon, KISS e por aí vai).

Na televisão tínhamos alguns programas de clipes tipo Super Special, da TV Bandeirantes. Ali víamos vídeos do Nazareth, Van Halen, Kiss, AC/DC, Black Sabbath, Iron Maiden, Scorpions, etc. Era um sonho. Afinal, conseguíamos ver materializados os nossos ídolos do metal. Em Belo Horizonte tinha um cinema chamado Cine Club ICBEU, e nesse local nos reuníamos aos domingos para assistir aos vídeos de heavy metal. Em um desses domingos, antes de começar a sessão, um grande amigo chegou com uma fita k7 onde estava gravado o Welcome to Hell, primeiro trabalho do Venom. Posso dizer que foi impactante, nunca tinha ouvido algo tão porrada. Foi paixão à primeira vista.

A partir daí, comecei a pesquisar sobre a banda, só que naquela época não tínhamos internet, então as informações eram conseguidas com os amigos colecionadores de vinil, como eu, aqui de Belo Horizonte. Daí foi um passo para conhecer a Loja Woodstock Discos, em São Paulo. Passei a fazer viagens constantes a essa loja onde era muito bem recebido pelo vendedor Toninho. Na Woodstock comprei vários discos durante anos, e um deles foi o Black Metal, do Venom. Desde a primeira audição, achei o disco muito foda, rápido, pesado, cru, simplesmente animal. A partir daí passei a ser mais um fã alucinado e a colecionar material da banda. Para mim o Venom é um dos grandes da NWOBHM e seu legado é eterno.

É difícil destacar uma música desse álbum e vou me arriscar em citar “Black Metal”, “Leave Me in Hell” e “Countess Bathory”.
Ricardo Neves Costa (Mutilator).

Foto: Divulgação
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Qual importância tem uma banda que acabou por batizar um estilo com o nome de um álbum seu? Tal fato somente já retrata a dimensão que o Venom ocupa no metal. Black Metal, um álbum cuja introdução fez muitos desavisados pensarem que o disco estava riscado, na abertura de um dos maiores clássicos do metal extremo, a faixa-título. Além desta, “Teacher’s Pet”, “Sacrifice”, “Don’t Burn the Witch”, “Buried Alive” e, principalmente “Countess Bathory” – que possui um grande significado para mim pelo fato de eu tê-la gravado em estúdio com o Genocidio – , são além de músicas, hinos definitivos desta obra atemporal e de relevância incontestável dentro da música pesada. “Lay down your souls to the gods rock and roll…ohhhh Black Metal!”
Murillo Leite (Genocidio).

Mantas. Foto: Divulgação
Mantas. Foto: Divulgação

“Alguns dias atrás eu estava no apartamento de uma amiga de longa data em Berlim me preparando para uma turnê que fizemos por essas bandas. No dia do primeiro show, conversando sobre som, pedi pra escolher um entre os milhares de discos dela e botei Black Metal, do Venom, que escutamos inteiro. É um disco completo e ainda traz uma parte do disco seguinte, At War With Satan, também perfeito. Qual banda fez isso? Logo começamos a falar em como as bandas atuais podem se conectar mais com esse som e espírito. Sou completamente a favor e vejo que o Venom Inc. mantém a chama acesa e vigorosa. Lay down your souls to the god’s Rock’n’Roll!”
Josh (Bode Preto)

Abaddon. Foto: Metalpix
Abaddon. Foto: Metalpix