ESPECIAL WARFARE NOISE I: PARTE 3 Entrevista Gerald Minelli (Sarcófago)

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Se no ano de 1986 La Mano de Dios estava naquele clássico gol de Diego Maradona, pela seleção da Argentina contra a Inglaterra, no Brasil, a mão do capeta estava com certeza nessa coletânea, mais precisamente na ríspida música do Sarcófago.

Como corria pelo país afora, o Sarcófago queria ser a banda mais bastarda do mundo. Conseguiram. Eles distorceram não só o som, mas toda e qualquer visão puritana sobre religião e passividade de uma cultura que não representava aquele tipo de música e atitude. Coube ao Sarcófago o papel de se manter fiel aos seus princípios e tratar sua música como uma violenta arma contra tudo e contra todos, mesmo que isso custasse uma certa popularidade que, na verdade, eles nem estavam tão interessados.

Sarcofago22Na época das trocas de fita, era comum aparecerem gravações de bandas já reconhecidas tocando músicas dos mineiros. Em um desses registros, numa TDK já muito rodada, tinha uma gravação do Impaled Nazarene tocando “Black Vomit”. Em outra, o Beherit tocando “Satanas”. Pra gente, ainda adolescente, aquilo era incrível: “olha só onde os caras chegaram!!!”. Era um feito e tanto uma banda gringa tocar a sua música. Tinha peso de homenagem.

Em um underground ainda mais cheio de obstáculos que o de hoje, o Sarcófago foi a banda que ultrapassou os limites do metal extremo sendo reverenciada ao redor do mundo. Um mundo de comunicação distante e cercado por largas fronteiras onde as cartas, que hoje são entregues no dia seguinte, demoravam meses para chegarem ao seu destino. Nesse enquadramento, romper fronteiras era uma vitória e tanto.

O Sarcófago foi uma das bandas responsáveis por atrair a atenção do mundo para a música extrema feita no Brasil. Em um país onde há pouco era impensável nascer alguma banda de metal que conseguisse reconhecimento, eles encurtaram a geografia de tal forma que se tornaram tão influentes quanto um Emperor ou o Darkthrone.

Toda essa história começou depois de algumas demos e no registro do clássico Warfare Noise I. É a coletânea de 1986 que conduz nossa entrevista com Gerald Minelli, um dos nomes que fundou o Sarcófago e que até hoje se mantém fiel a seus princípios e crenças. Gerald dividiu com a gente um pouco de suas lembranças e aspirações daquela época tão rica, saudosa e definitiva para o metal.

Leia também:
Especial Warfare Noise I (parte 1): entrevista Vladimir Korg (Chakal).
Especial Warfare Noise I (parte 2): entrevista Silvio Gomes (Mutilator).

Sarcofago8Sounds Like Us: O Korg (Chakal) bem lembrou que lá no fim dos anos 80, quando o Sarcófago chegou pra gente em São Paulo, a história era de que vocês queriam ser a banda mais podre do mundo.
Gerald Minelli: Bem lembro que, no início dos anos 80, o Sarcófago já estava na ativa, com registros de alguns trabalhos trazidos pela coletânea Warfare Noise I. Há um equívoco, o SARCÓFAGO SEMPRE QUIS SER A BANDA MAIS BASTARDA DO MUNDO, A MAIS TOSCA, E ACHO QUE CONSEGUIMOS.

Sounds: Em algum momento, depois de terminar as gravações do Warfare Noise I, você chegou a pensar que o Sarcófago um dia seria uma parte importantíssima da história do metal mundial?
Gerald: O nosso objetivo sempre foi o que descrevo na pergunta anterior, ser a banda mais bastarda do mundo. Partindo desta pretensão, imaginávamos e sonhávamos ter alguma representatividade no cenário.

Sarcofago34Sounds: Você consegue lembrar de como se sentiu quando viu o Warfare Noise I pronto com suas músicas, a foto de vocês na contracapa e tudo mais?
Gerald: Sim! Tive uma das sensações mais gratificantes em ver um sonho realizado e com a cara que queríamos. Ali é a prova de que a banda de fato era um grupo que soava de forma coesa e já demonstrava identidade e inovação. Realmente tenho orgulho disto. Fizemos um bom trabalho.

Sounds: Voltando um pouco no tempo, como você enxergava a cena do heavy metal mineiro daquela época? Das bandas da coletânea, existe alguma delas que você gostava mais?
Gerald: A cena era ótima, mas não vou dizer que era fácil em muitos aspectos. Nós éramos muito coesos e tínhamos seguidores fiéis, independente de serem membros de outras bandas, e sempre seguimos o que acreditávamos na maneira de fazer música – o resultado está no presente e ficará pra sempre. Gosto muito do Holocausto e do Chakal. Acho que, naquele momento, eram bandas autênticas. Uma muito brutal, barulhenta e cheia de energia, a outra com uma proposta refinada e som muito expressivo com uma dupla de guitarristas fenomenais. Aquela coletânea foi muito boa e inovadora.

Sounds: No comecinho dos anos 90 a gente tinha uma fita cassete com o Impaled Nazarene tocando “Balck Vomit”, uma música gravada no Warfare Noise I e que até hoje é muito forte. Puxando um pouco pela sua memória, como foi compor essa música?
Gerald: Compor para Sarcófago era muito divertido e, ao mesmo tempo, sério. Na minha opinião, o Butcher apresentava ideias muito legais e nós realmente contribuíamos uns com os outros. Lembro que comecei a tocar uma sequência e ela virou a primeira parte da música. Em seguida, ele foi acrescentando, o Dudu foi colocando a batera e o Wagner aparecia com as letras rapidinho. Formávamos um quarteto legal e coeso.

Sarcofago6Sounds: Olhando para o passado, você acha que conseguiu realizar tudo o que você queria com a banda? Qual a importância do Sarcófago na sua vida?
Gerald: Sim! Somos uma banda que sobrevive por anos e vamos dando sequência sem interferência de nenhum dos membros. Não fazemos propaganda, não procuramos nenhum tipo de mídia, apenas estamos seguindo cada um a vida que escolhemos. O Sarcófago sobrevive por si só com o que foi construído. A maior mídia que a banda tem é o publico que ao longo dos anos se multiplica porque sente que a banda soa como se estivesse aparecido hoje. Ressalto que seguimos o melhor caminho e fizemos as melhores escolhas. Aos fãs, obrigado pela fidelidade e compreensão dos propósitos tomados pela banda. Aos amigos do Holocausto, Rodrigo e toda gangue, e Marck, do Chakal, vocês nos ajudaram a ser o que somos e fazem parte de um cenário maior e mais abrangente. Especial a banda irmã Sextrash. Oswaldinho, Juninho e demais obrigado pelo companheirismo e fidelidade. Vocês são 100% membros do Sarcófago. Impossível falar e lembrar da banda sem relacionar vocês, juntos somos uma banda, Sexfago.

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