Mark Lanegan: “Devil in a Coma”

In Livros
Vinicius Castro

Mark Lanegan é um sujeito em muitos. Sempre foi o que me pareceu. E dessa forma, podemos complementar esse “muitos” de diversas maneiras. Mesmo quando ele era parte do Screaming Trees. Cabiam ali, entre Clairvoyance e Last Words, uma porção de Marks. Diversas possibilidades para que voz e textos nos alcançassem. Entre esses tantos Marks, cabem também suas aparições em projetos além de sua banda principal: Mad Season, Desert Sessions, Queens of the Stone Age, e algumas parcerias junto a nomes como Unkle, Isobel Campbell e até uma aparição em uma faixa do Bomb The Bass. A presença é ampla. Seja ela física ou sonoramente, por meio de uma voz embebida em honestidade gritante de uma das mais consistentes assinaturas vocais de que se tem notícia.

Lanegan tem estofo para pertencer ao panteão por onde trafegam nomes como Tom Waits, Patti Smith e Leonard Cohen, só pra citar alguns exemplos. Pouco dessa impressão deriva de uma questão fisionômica ou mesmo performática. Acho que é muito mais pela forma como esses personagens transcorrem entre música e poesia, poesia e música, criando uma única linguagem única.

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Devil in a Coma, lançado pela editora mais lado B desse Brasil, a Terreno Estranho, reforça a amizade que Lanegan tinha com as palavras, ainda que elas pareçam, vez ou outra, sair como algo que rasga a carne e a métrica. É a poesia de que gosto. Muito mais sobre tecidos e sistema nervoso, do que se “determinadas palavras” servem em seus “determinados lugares”.

Foto: Sounds Like Us
Foto: Sounds Like Us

Devil in a Coma é um livro visceral. Um relato tão áspero quanto o drive embebido na garganta de Lanegan. Tão dilacerante quanto o ambiente em que ele foi produzido. Muito disso por conta de o autor não economizar na transparência, mesmo quando isso parece trazer de volta dolorosos boletos a serem pagos em um leito completamente tomado pela consciência.

“…lembranças dolorosas da minha juventude e da vida adulta e a corrosão mental da minha atual situação sem me deixar ir embora, os arrependimentos, erros e a tristeza avassaladora de uma existência desperdiçada, que muito provavelmente poderia acabar a qualquer momento, quando ainda sentia que tinha tanto a consertar” – (Parte da Equação)

Era março de 2021. Lanegan sentiu seu corpo mais pesado do que o normal. Os aparentes quilos a mais vinham de uma carga viral sem precedentes à época, produzida pelo coronavírus, causador da Covid-19. Enquanto no Brasil tínhamos que lidar com falta de ações de saúde pública, e um criminoso e intencional descaso do ex-ocupante da cadeira da presidência e sua corja, Lanegan vivia na Irlanda. E o que parecia ser algo breve se estendeu, mostrando uma força muito além do que os nossos olhos poderiam perceber. Uma criatura microscópica devastou o planeta, matando, só no Brasil, mais de 700 mil pessoas (considerando aqui os casos não subnotificados).

Enquanto o ex-presidente eleito aparecia em vídeo rindo da condição das pessoas acometidas pela Covid-19, imitando as reações de alguém que está morrendo sem conseguir respirar o mínimo de oxigênio, Lanegan e outros milhões de pessoas ao redor do globo sentiam isso na fraqueza de seus pulmões obstruídos pela doença. Por conta da Covid-19, Lanegan sofreu uma queda que limitou alguns de seus movimentos, perdeu parte da audição e foi submetido a um coma.

Fiquei sobre a
ponte balbuciando gaguejando
tremendo
dentes em britadeira
vento calafrio
barbitúricos, tristeza
e mágoa

O desespero vai arrombar a sua porta
E arrancar a porra do seu coração fora

O livro corre em formato de prosa junto a poemas a cada capítulo. Tudo relatado, me parece, sem muito filtro, o que torna o trânsito ainda mais “real”. Lanegan reflete, reconsidera, e reencontra memórias de toda uma vida em que o uso e abuso de substâncias o colocou, por vezes, em proximidade com a finitude, algo que, à época da escrita, de fato estava acontecendo.

Em seus últimos momentos, antes de fechar o livro e “ao cerrar das cortinas”, como destaca a contracapa da edição, Lanegan escreve:


…até que esteja tudo acabado
e reduzido a pó
quando o reino chegar
Você estará cantando
uma canção de esperança
uma canção de amor
presa na sua garganta
que nunca acaba
(A Aterrisagem Mais Suave)

Para nós, essa “canção” talvez nunca acabe mesmo. E Lanegan seguirá reverberando por aí, por aqui, e por lugares ávidos por boa música e leitura. Devil in a Coma é, ao final, um retrato íntimo que nos coloca em proximidade aos demônios, sofrimentos e a despedidas pelas quais nós, invariavelmente, seremos obrigados a passar.

  • Sobre o livro
    Devil in a Comacompre aqui
    Editora Terreno Estranho
    Tradução: Carlos Messias
    Tradução e Revisão: Tanara de Araújo
    Edição: Marcelo Viegas
    Projeto gráfico: Daniel Justi
    144 páginas