Entrevista: Pete Stahl (Scream)

In Entrevistas

Uma banda com mais de 40 anos de carreira pode parecer uma viagem ao passado, mas é também um surpreendente lembrete de futuro, especialmente se for uma banda punk. Como o punk poderia caber na longevidade, no amadurecimento e na paciência se toda sua identidade é construída na urgência e na intempestividade? Ao finalmente vermos o Scream nos palcos, depois de quatro décadas de sua estreia, constatamos que o punk é uma estrutura, é constante; não uma fase temporal de onde se evolui (ou, a depender do conservadorismo, para onde se regride).

Nesta estrutura erguida com a eloquência do inconformismo, Pete Stahl (vocal), o irmão, Franz Stahl (guitarra), Enoch “Skeeter” Thompson (baixo) e Kent Stax (bateria) se movimentaram e movimentam com uma interessante mistura de experiência e inquietação. Dentro da fundação do punk hardcore na costa leste dos EUA, mais precisamente na capital do país, o Scream é o que é porque não corresponde a algumas identificações entre seus pares, se pararmos pra pensar: a banda prezava pela euforia juvenil, mas não soava como o Teen Idles; alargava as fronteiras do punk de modo distinto do Government Issue; aspirava ao caos nas apresentações ao vivo, mas de forma diferente do Void; era altamente inflamável, mas não buscava a aceleração do Bad Brains. Vindos da Virgínia, e não de D.C., os integrantes reuniam ingredientes sonoros diversificados que os tornavam únicos, de forma que Ian MacKaye prontamente os chamou para gravar um disco pela gravadora que ele e Jeff Nelson haviam fundado, a Dischord Records. Still Screaming (1983), além de ser a estreia do Scream em estúdio, é o marco inicial dos discos cheios da Dischord, que até então tinha colocados somente EPs na rua.

capa do disco Still Screaming, do Scream
Still Screaming foi o primeiro disco cheio a ser gravado e lançado pela Dischord Records (Foto: Sounds Like Us)

Ian, de certa forma, foi responsável por inspirar o público quanto à importância da diferença do Scream. Jello Biafra, do Dead Kennedys, foi outro nome encorajador, especialmente quando a plateia do primeiro show do Scream em DC, reagiu negativamente, ainda sem saber como digerir o que tinha visto. Essas histórias são particularmente comoventes pra gente: toda ampliação estética precisa de tempo, até mesmo de um farol, para que seja compreendida. Mas não demorou para que o Scream fosse conquistando mais e mais públicos com seus shows sempre frenéticos e conduzidos por uma musicalidade contagiante – algo que tivemos a sorte de testemunhar neste 2026.

Dentre os fãs ilustres, um deles levou a adoração para outro patamar: em vez de ser como o Scream, um jovem Dave Grohl queria ser do Scream. Respondendo ao anúncio que buscava um baterista – Kent tinha saído – Dave fez o teste (detalhe: ele fingiu ter 19 anos, sendo que nem tinha a maioridade) e entrou na banda, com quem gravou os discos No More Censorship (1988) e Fumble (1993). A banda se separou em 1990 e Dave se mudou para Seattle com o propósito de se tornar baterista do Nirvana.

Da esquerda para a direita: Franz Stahl, Pete Stahl, Dave Grohl, Enoch “Skeeter” Thompson e Lee “Harley” Davidson (Foto: autoria desconhecida)

Antes da entrada de Dave, a banda tinha tomado a feliz decisão de acrescentar o guitarrista Robert Lee “Harley” Davidson, que injetou heavy metal de uma forma bastante surpreendente. O retorno do Scream, em 2009, foi com a formação original (exceto Harley e com a entrada de Clint Walsh), e assim a banda seguiu até o lançamento de seu mais recente disco, o extremamente boa vibe DC Special, de 2023, cheio de participações especiais. Em meio ao clima de festa, uma grande tristeza: Kent Stax morreu de câncer logo após o anúncio do álbum. Tanto o Scream quanto Dave Grohl fizeram homenagens a ele.

Skeeter Thompson e Gizz Butt durante show no SESC Paulista, em fevereiro de 2026
Andrew Black e Pete Stahl no show do SESC Paulista, em fevereiro de 2026 (Foto: Daniel Agapito)

Para a turnê no Brasil, o Scream trouxe o baterista Andrew Black, que manteve o peso e o dinamismo percussivo da banda, e o muito adorado guitarrista Gizz Butt, das bandas inglesas English Dogs e Prodigy. A seguir você confere nossa conversa com Pete Stahl, em que ele generosamente conta pra gente uma história vibrante, mas cheia de desafios – um deles em escala global: sobreviver, fazer música e inspirar mudança e resistência em meio ao autoritarismo. Com vocês, o lendário (e igualmente pé no chão) Pete Stahl:

Sounds Like Us: Como vocês se estabeleceram na cena de Washington D.C.? Levou um tempo para as pessoas entenderem o som característico de vocês? Lemos que a recepção do público não foi exatamente calorosa no primeiro show de vocês no Woodlawn High, no mesmo dia em que D.O.A e Jello Biafra também tocaram.
Pete Stahl: Vivendo, respirando e mergulhando em barulho todos os dias nos porões das várias casas em que o Scream morou. Ensaiando o tempo todo, compondo e aprendendo covers para desenvolver nossa sonoridade. Começamos a tocar em algumas festas nos quintais de algumas casas, com barris de cerveja e encontros em porões, até finalmente conseguirmos fazer alguns shows em clubes menores e em espaços independentes. A reação às vezes era mista, como no Woodlawn High*, mas também começamos a fazer amigos lá, e essa sensação de não nos encaixarmos completamente nos deu energia e vontade para continuar criando nosso próprio som. [Nota dos editores: Era a estreia do Scream tocando com a galera de DC, e eles eram tão diferentes que a maior parte do público foi embora, pensando que eles fossem posers. O D.O.A. estava assistindo com Jello Biafra (Dead Kennedys) e este último, vendo o que estava acontecendo, foi bastante encorajador. Pete conta que foi só quando Ian MacKaye começou a ver os shows do Scream que a banda passou a ser valorizada, conforme relato no livro American Hardcore, de Steven Blush].

Pete Stahl (Foto: autoria desconhecida)
Pete Stahl (Foto: autoria desconhecida)

Que tipo de inspiração (inclusive não musicais) moldou o som do Scream?
Stahl: Todos nós crescemos apaixonados por música! Franz e meu pai empresariavam bandas de rock e nos levavam para casas noturnas em DC quando eu tinha apenas 10 anos. A mãe de Enoch sempre tocava discos de R&B e soul em casa. Todos nós curtíamos rock progressivo e jazz fusion antes de descobrirmos a new wave e o punk. O P-Funk [Parliament-Fundakelic, o coletivo musical liderado por George Clinton] apelidou Washington D.C., de “cidade do chocolate” porque historicamente era uma cidade majoritariamente negra – muita coisa de jazz, soul e funk de qualidade podia ser ouvida nas ruas e nas rádios de lá. Por outro lado, DC também era conhecida pela cena country, bluegrass e roots rock. Tudo isso criou uma playlist diversificada de onde pudemos aprender. E diria que esportes, garotas e política também nos inspiraram.

Scream na época do Still Screaming (Foto: Mimi Baumann)

Apesar de pertencerem a uma cena bastante consolidada do hardcore da costa leste, vocês sempre se destacaram por terem um som mais distintivo e por ignorarem supostas fronteiras no gênero. Como vocês cantam em “We’re Fed Up”: “Queremos quebrar todas as barreiras com o nosso som” (“We want to break all barriers with our sound”). Neste sentido, vocês sempre foram o tipo de banda que fazia pontes e que ocupava um não lugar, mas sem que isso fosse problemático para vocês. Esse alargamento sonoro e estético foi intencional?
Stahl: Sim. Por mais que quiséssemos causar impacto com nossa música e letras, também queríamos trazer as pessoas pra perto. Nossa missão sempre foi provocar emoções de atração e repulsão com potência e intensidade enquanto expressávamos nossos pensamentos e ideias de uma forma divertida e positiva.

Em algum momento – ou em algum álbum – vocês se sentiram incompreendidos ou deslocados?
Stahl: Sim. Depois que gravamos o Fumble sentimos que, como banda, estávamos fazendo coisas muito legais, mas, ao mesmo tempo, notamos que não estávamos nos conectando com o público que havíamos conquistado. Seguimos em turnê e gravamos algumas demos, mas a energia ia se dissipando ao nosso redor até as coisas finalmente desmoronarem.

Vocês sempre foram guiados pela ética do “faça você mesmo”, mesmo vivendo os anos 90, que se tornaram a era da profissionalização da música alternativa por gravadoras que queriam descobrir o próximo Nirvana. Como foi isso para vocês?
Stahl: Testemunhar o que você fazia se tornando uma mercadoria é complexo. Nós sempre buscamos ser bem-sucedidos como músicos. Quando algo assim explode, pode gerar muita desilusão, então a gente sempre voltava à nossa essência, fazendo nossas próprias coisas. Foi diferente para cada um de nós, mas acho que todos voltamos ao ponto de partida, começando outras bandas individualmente e encontrando significado e propósito nessa experiência novamente.

“Fight/American Justice” é uma obra-prima, na nossa opinião. E continua sendo contemporânea, infelizmente. Poderiam nos contar mais sobre o nascimento dessa música?
Stahl: Como muitas de nossas músicas, ela vem das experiências e perspectivas pessoais de cada um de nós. Essa combinação específica de músicas aconteceu por acaso, porque elas são realmente duas peças diferentes. “Fight” é sobre nos unirmos para combater os poderes constituídos e os problemas que nos dividem.

“American Justice” é baseada em uma história real com a qual muitas pessoas se identificam: o assédio e a opressão policial. Como em tud na vida, existem pessoas boas e más. “American Justice”é uma história sobre se deparar com policiais corruptos e um sistema que, se você não tiver influência de alguma forma, pode arruinar sua vida. Pensando nisso, lembro-me de que fomos influenciados pela maneira como o Bad Brains combinava punk e reggae e mudava a dinâmica de forma instantânea. Nós também aspirávamos a essa mesma habilidade musical, e acho que foi por isso que compusemos as músicas dessa forma.

Vocês tocaram bastante antes de entrar em estúdio para gravar o primeiro álbum. Houve um show em Seattle com a presença de pessoas que seriam futuros membros do Soundgarden, Mudhoney e Nirvana. Vocês acham que fazer turnês ajudou a moldar a abordagem da banda?
Stahl: Com certeza! Sempre nos esforçamos para executar nossa música com seriedade. Por meio dessa busca nos tornamos confiantes para tocar com qualquer um. Como músico, você quer alcançar essa sensação de pertencimento. Sempre há pessoas na plateia e uma banda no palco. Todos nós somos uma coisa ou outra, só que em momentos diferentes. Só para constar, acho que um de nós estava usando uma camisa de flanela no show que vocês mencionaram, então…

Como foi a gravação do primeiro álbum? De que forma Don Zientara, Ian MacKaye e Eddie Janney contribuíram artisticamente?
Stahl: Nossa, foi uma festa! A gente não sabia como nada funcionava, na verdade. Com Don, Ian e Eddie nos orientando, simplesmente tocamos nosso set, nos divertimos, cantamos juntos e experimentamos novas ideias.

Há uma citação de Alec MacKaye [das bandas Faith, Untouchables e The Warmers] comparando o Scream com o Bad Brains em termos de shows e composições. Sei que vocês admiravam muito o Bad Brains, então, como é serem colocados em pé de igualdade?
Stahl: Eu diria que é bom sentir que finalmente chegamos lá, porque sempre que fazíamos shows – e isso pode soar um pouco infantil –, queríamos estar à altura e sermos no palco equivalentes a qualquer banda com quem tocássemos. Quando você está em uma banda, existe um aspecto competitivo, e eles foram uma banda que nos inspirou muito. Então, nos esforçamos para ser tão incríveis quanto o Bad Brains. Se as pessoas acham que conseguimos, a sensação é muito boa.

Skeeter Thompson, Franz Stahl e Harley Davidson (Foto: autoria desconhecida)

Como foi quando Harley Davidson e Dave Grohl entraram na banda? O que eles trouxeram para o som e o que você e os membros originais queriam transmitir sobre o DNA do grupo?
Stahl: Harley vinha da cena heavy metal e o conhecemos por meio da minha irmã. Ele tocava em uma das maiores bandas de metal do norte da Virgínia e tinha uma ótima reputação no palco. Ele definitivamente trouxe uma energia nova porque nos levou para um espaço diferente, e ter duas guitarras também liberou Franz para fazer coisas diferentes e adicionar musicalidade de um jeito novo. Acho que apresentamos o punk e o reggae para o Harley, que, por sua vez, trouxe um som do rock mais direto, que era para onde estávamos caminhando. Sabíamos que ele vinha de um lugar diferente da maioria do nosso público, então foi divertido nesse sentido.

Quando Dave entrou, acho que foi um ou dois anos depois, estávamos com dificuldade para encontrar o baterista certo. Havia muitos bateristas ótimos na região, mas todos com quem tocávamos mudavam o som que buscávamos. Dave trouxe uma nova energia, porém mantivemos o mesmo som cru, e ele era compatível com o nosso som. Ele trouxe vida nova e energia, conhecia todas as músicas, então foi muito fácil. Harley e Dave nos ajudaram a nos superar e a sermos uma banda melhor.

No encarte do CD de 20º aniversário da Dischord, há uma história sobre o Scream ser a primeira banda a receber royalties, no sentido de que a gravadora ajudou a pagar os reparos da van e as contas de telefone durante a turnê. Você pode nos contar um pouco mais sobre isso?
Stahl: O Scream foi a primeira banda da Dischord a lançar um álbum completo, então acho que foi um passo para a gravadora em termos de evolução como empresa. Tínhamos ambição de fazer turnês, então acho que a Dischord acabou precisando criar algumas soluções. Isso fez sentido em termos da forma como a gravadora evoluiu.

Scream com Kent Stax na bateria (Foto: autoria desconhecida)

Como é viver no atual ecossistema musical, que se baseia em grande parte na performance nas redes sociais e onde a renda dos músicos não parece ser algo que as gravadoras e o público estejam considerando?
Stahl: Sempre foi difícil. As redes sociais meio que facilitam o contato com as pessoas e a realização dos seus próprios projetos, então é uma questão de aprender uma nova forma de fazer negócios. De muitas maneiras, isso te empodera a fazer mais. É o mesmo desafio, só que em um novo formato. Essa história toda de streaming é uma grande farsa, porque os artistas ganham menos por seu trabalho. Como artista, os primeiros objetivos costumam ser mais voltados para compor, gravar e tocar ao vivo. Pode ser difícil navegar por todas as oportunidades e armadilhas do cenário atual. Se você conseguir manter o controle da sua música e das suas masters, estará em uma posição melhor para os ganhos.

Vocês conseguem se sustentar exclusivamente com a música ou têm outros empregos?
Stahl: Não. Sempre precisamos de empregos para pagar as contas – telefone, cartão de crédito, van, aluguel entre as turnês.

Pete, você também tem bastante experiência como gerente de turnês. Com base na sua experiência com o Scream e outras bandas, quais são os principais desafios de fazer turnês hoje em dia?
Stahl: Já trabalhei com muitas bandas. Além de ser produtor de turnê, fui técnico e diretor de palco, então são literalmente milhares de bandas. Em termos de gerenciamento de turnês, a lista é menor: Cave In, Blood Brothers, Soundtrack Of Our Lives, Division of Laura Lee, Coheed and Cambria, Michael Franti and Spearhead, Queens of the Stone Age, OPM, Sunn O))), Rival Sons, L7. Os principais desafios de fazer turnês são financeiros. Hoje em dia é muito raro as bandas lucrarem com os shows, a maior parte do dinheiro vem de coisas como merchandising e contratos de licenciamento. Você pode até ganhar um pouco de dinheiro na estrada. Conseguir equilibrar a logística e o custo de contratar uma equipe e transporte e ainda lucrar um pouco é um desafio. Sem contar que pesa muito estar longe de casa e das suas pessoas queridas.

O Spotify hoje em dia está cheio de “música” feita por IA. A música de vocês, por outro lado, vem de carne e osso, de esperanças e pensamentos. Se você pudesse definir brevemente, quem são os humanos que fazem a música para o Scream? O que mais importa para vocês?
Stahl: Comunidade. Nós buscamos nossa energia, pensamentos e ideias em nossas famílias, amigos e vizinhanças. É daí que tiramos nossa inspiração. É algo vivo, que respira. Somos um produto do nosso meio, de onde viemos, e isso é um fio condutor que conecta todos na banda. Essas fontes são o que nos moldam e nos tornam o que somos. E esperamos sensibilizar outros seres humanos.

A cena hardcore de D.C./Virgínia sempre foi muito engajada politicamente, com shows beneficentes da Positive Force, protestos contra o Apartheid e outros. Parecia não haver separação entre música e política. Com o segundo mandato de Trump, não há espaço para neutralidade, especialmente com todos os ataques e políticas racistas e anti-imigrantes. Como vocês têm lidado com os eventos recentes em seu país e na política externa?
Stahl: Protestando e incentivando outros a fazerem o mesmo, mantendo-nos informados politicamente. Mas são tempos difíceis. Sinto que sou provocador, mas meio como Muhammad Ali no final de uma luta de 15 rounds, nas cordas. Participei de protestos contra a Guerra do Vietnã, lutei contra a censura do moralismo, toquei em shows em defesa dos direitos das mulheres, mas aqui estamos nós, com a Suprema Corte exercendo poder de maneiras piores do que nunca. Me sinto meio derrotado. Estou tentando me manter engajado, mas também preparado para cuidar da minha família e estar presente para a comunidade. Como banda, continuamos participando de eventos beneficentes com organizações como a Positive Force, para que possamos continuar nos sentindo parte da luta e contribuir para combater essa tomada de poder autoritária. É difícil, não sei se estou lidando bem com tudo isso. Eu fico com raiva na maior parte do tempo.

Como foi o processo de composição do álbum DC Special, considerando que foi lançado logo após os anos da pandemia?
Stahl: Grande parte dele foi composta durante a pandemia. Quando fizemos nossos primeiros discos, nosso processo criativo era diferente. Morávamos juntos e tínhamos uma outra dinâmica. Mas quando voltamos a nos reunir após um hiato, não morávamos mais juntos. Até podíamos nos encontrar para ensaiar e todos podiam contribuir com seu toque pessoal. Mas, na maioria das vezes, era o Franz me enviando uma música, eu criando a letra, juntando tudo e enviando para o Kent e o Enoch. Depois, nos reuníamos e desenvolvíamos a música.

DC Special foi um projeto conceitual e queríamos envolver membros da comunidade e contar a história da nossa banda através da história da música de Washington D.C. Então, as músicas foram compostas antes, mas realmente ganharam forma no estúdio.

Interior do Inner Ear Studio na locação original (Foto: Sounds Like Us)

O elenco presente na gravação de DC Special é impressionante! E vocês gravaram no Inner Ear, o estúdio onde gravaram o início da carreira do Scream. O quanto D.C. e essas pessoas influenciaram vocês?
Stahl: Washington D.C. tem uma cena musical tão vasta que nos influenciou de muitas maneiras. Cada um de nós gostava de estilos musicais diferentes, mas as pessoas que nos inspiraram nos ajudaram a manter nossa essência e a buscar o que queríamos alcançar. Era nossa intenção convidar pessoas que nos inspiraram. E nem todos que convidamos compareceram. Por exemplo, convidei o Big Tony [do lendário grupo Trouble Funk], conversamos e trocamos músicas, mas ele acabou não podendo ir. Convidamos o Darryl Jenifer [do Bad Brains] e, embora ele não tenha ido, compusemos uma música juntos. Convidamos o Michael Reidy [da banda Razz] e a Martha Hull [do The Slickee Boys]. O objetivo era incluir uma gama de pessoas que nos inspiraram.

Convidei o George Daly, que escreveu a música “Faces” [do The Hangmen], cujo cover gravamos no disco. Estas pessoas me introduziram à música quando criança. Por termos crescido imersos na música, são essas influências do jazz, rock, soul e punk que nos moldaram como somos hoje.

Kent Stax (Foto: autoria desconhecida)

Em retrospectiva, o anúncio do novo disco deve ter sido agridoce, considerando o triste falecimento de Kent logo em seguida, mesmo que vocês já estivessem lidando com a doença dele. Sentimos muito por isso. Como vocês se lembram daqueles dias? Acham que tiveram a chance de se despedir?
Stahl: Quando nos reunimos para gravar o DC Special não tínhamos plena noção da gravidade da doença de Kent [o baterista morreu de câncer]. Tivemos a sorte de fazer a gravação antes do diagnóstico. O disco parece uma forma de dizer adeus. Também fomos duramente atingidos pelo fechamento do Inner Ear [o estúdio foi adquirido pela prefeitura de Arlington e demolido para dar lugar a um centro de artes], então, fazendo o que sempre fizemos, tivemos a chance de nos despedir através da música. Somos uma banda, mas também funcionamos como uma família, então não haveria circunstância em que não tivéssemos a chance de nos despedir.

O fato de vocês ainda estarem na ativa mais de 40 anos depois e terem lançado recentemente um ótimo álbum mostra que o punk é um companheiro mais atemporal do que a fama da juventude sugere. Como a música ajudou vocês a amadurecer e envelhecer?
Stahl: Algumas pessoas provavelmente diriam que não amadurecemos! Mas estar juntos há tanto tempo e tocar juntos por tantos anos nos dá um lugar para onde sempre podemos voltar. Quando me sinto encurralado, tenho um espaço que me lembra quem eu sou, e isso me mantém jovem. A música sempre esteve no centro de nossas vidas.

Pete Stahl, Franz Stahl, Kent Stax (RIP) e Enoch “Skeeter” Thompson (Foto: Joel Dowling)

O relacionamento de vocês no Scream é extremamente duradouro, mais de 40 anos! O que permaneceu desse tempo e o que mudou? Vocês são o tipo de banda que conversa sobre o relacionamento?
Stahl: Temos nossas brigas, mas sempre dialogamos. Se estamos preocupados um com o outro, conhecemos as nuances da vida um do outro e sabemos como lidar com isso. Com o tempo, aprendemos a nos ouvir mais. Sabemos como transmitir nossas ideias e como ser criativos e compreensivos. Acho que aprendemos isso com o tempo.

Nos últimos anos, o hardcore tem conquistado cada vez mais jovens. Há alguma banda nova que tenha empolgado vocês? E o que no hardcore e no punk fascinou vocês no início dos anos 80?
Stahl: É empolgante ver pessoas se redescobrindo através da música. Há muita música boa por aí e frequentemente acabamos interagindo com bandas que vemos na estrada, conhecemos em turnê ou por meio de amigos. Todas as novas bandas locais que convidamos para tocar no show beneficente do Kent são empolgantes: Bedmaker, Hammered Hulls, Distortion Inc. e XK Scenario. Também estamos encontrando nova energia e inspiração em bandas com as quais tocamos recentemente, como The Messthetics, Butter Brain, Club Brat, Rebelmatic, NOFX, Bad Cop/Bad Cop, Tsunami, The Meffs, Holy Rollers, The Kill Fancies, Maafa, Touché Amoré, Violent Society, False Tracks, PG 99, The Downstrokes, entre muitas outras, e não podemos esquecer nossos irmãos do Soulside [outra proeminente banda de DC]!

Depois de tanta domesticação da espontaneidade e da música ser reduzida a um produto de consumo, o que você acha que significa ser punk hoje?
Stahl: Ser punk é sobre ter coragem de ser você mesmo!