Redd Kross: Cine Joia – 26 de maio

In Shows

Foto: Ricardo Babachinas

Vinicius Castro

Uma coisa é certa. O show do Redd Kross em São Paulo (Cine Joia, 26 de maio), entrou para o hall daqueles momentos históricos presenciados por algumas centenas de pessoas, mas que será lembrado por milhares. Algo parecido com o que aconteceu em relação à primeira vinda do …And You Will Know Us by the Trail of Dead ou do Asian Dub Foundation, ambos no SESC Belenzinho no comecinho dos anos 2000.

A vinda do Redd Kross foi atrelada ao In-Edit, festival importantíssimo focado em documentários sobre música. Eram também os 40 nos da loja de discos London Calling, uma das mais antigas da tradicional Galeria do Rock.

A festa teve início com a apresentação do Twinpines, um dos mais longevos nomes da cena que costumávamos chamar de guitar bands. O show foi incrível. Com o som em ótimos níveis de qualidade, o quarteto formado por Ale (guitarra/voz), Bruno (guitarra/voz), Leo (guitarra/voz) e Magoo (bateria) fez bonito e, além dos clássicos indie, desfilou três composições que estarão no próximo disco deles: “Ghosts”, “Tremble Dance” e “Crab Valley”.

Na troca de palco, a DJ Flavia Durante manteve o clima dos bons sons em alta rotatividade com um set especialmente recheado de pérolas como Sugar, Nirvana, Savages e Fugazi.

A segunda banda a se apresentar foi o Alphawhores, do Panamá. O duo formado por Massiel Pinzón (bateria) e Juan Carlos García de Paredes (guitarra) trouxe uma sonoridade mais pesada para o Cine Joia, com Juan usando pedais de downtune dividindo a saída da guitarra em dois amplificadores, o que deixou som do duo mais potente, agradando o público.

Voltando ao Redd Kross, tudo começou com “Huge Wonder” e o seu jeitão meio “Helter Skelter” (Beatles) com um riff que remete à segunda metade de “War Pigs” (Black Sabbath). A partir dali, ficou claro que aquele seria o show da vida de muita gente.

A celebração foi acontecendo à altura daquilo que o quarteto representa. Confesso que, por ser a estreia da banda no Brasil, esperava que setlist trouxesse pinceladas bem diluídas da discografia da banda. Felizmente fui surpreendido. Sabe quando você passa a semana pré-show imaginando como será a apresentação de uma de suas bandas favoritas, e aí você cria o setlist imaginário, com reações da plateia, falas da banda e tudo mais? Pois é, foi muito melhor.

Leia também

O comentário que mais circulou era que os irmãos Jeff e Steven McDonald, junto a Dale Crover e Jason Chapiro, haviam feito um verdadeiro show de rock.

Foto: Ricardo Babachinas

Sem qualquer afetação, os irmãos Jeff e Steven McDonald transpareciam estar onde realmente desejavam estar: no palco e em comunhão com uma energia que não se explica ou tampouco se simula. Ela acontece e pronto! É como tentar explicar por vias palpáveis a paixão ou as ondas do rádio. Você não vê, mas sente.

Depois da clássica “Peach Killi Pop” veio a trinca “Stay Away From Downtown”, “Slunt Queen” e “Uglier”. Músicas mais recentes, parte de discos que, depois da volta da banda após um hiato de 15 anos são, sem dúvida, dois dos melhores momentos da discografia do Redd Kross: Researching the Blues e Redd Album.

Como de costume, a banda não abriu a mão dos covers, o que só comprova como eles estavam à vontade no palco do Cine Joia. Teve “Blow You a Kiss in the Wind” (Tommy Boyce & Bobby Hart), “Crazy World” (Frightwig), It Won’t Belong” (Beatles), “Crazy Horses” (The Osmonds), “Deuce” (Kiss) e trechos de “I Want You (She’s So Heavy)” e “God of Thunder”, dos já citados Beatles e Kiss, respectivamente.

Foto: Ricardo Babachinas

Entre as que eu mais gostaria de ver ao vivo estavam “Lady in the Front Row”, “Jimmy’s Fantasy”, “Linda Blair” e “I’ll Take Your Word for It”. E deu tudo certo. Elas estavam lá em um set list que superou as expectativas.

Para além de um show de rock, o Redd Kross operou um certo descolamento de valor, como se tudo ali passasse a ser delineado pela capacidade da banda de gerar encanto. Algo que se confirmou quando o quarteto simplesmente não quis sair do palco. Em um bis histórico, eles tocaram o EP de 1980, lançado pela Posh Boy, praticamente na íntegra, apenas alterando a ordem de algumas das faixas.

Foto: Ricardo Babachinas
Foto: Ricardo Babachinas

Conheci o Redd Kross com Phaseshifter, em 1994. Mas, em 2026, ver Jeff e Steven McDonald frente a frente, sorrindo, e fazendo os movimentos que o Kiss costumava fazer no palco, me fez voltar à infância, quando eu também imitava o Kiss segurando uma guitarrinha verde limão, feita de plástico, com apenas quatro cordas e que era vendida na feira livre. Minha brincadeira preferida era juntar algumas almofadas no chão da casa dos meus pais e dar cambalhotas ouvindo o disco Destroyer, imaginando fogos em meio aos acordes que vinham das caixas de som.

Ao final, o Redd Kross reforçou um princípio que fica ainda mais nítido no documentário Born Innocent (Dir. Andrew Reich), o de se divertir e não abrir concessões que possam criar desvios de uma honestidade que é inegociável. Pra mim, algo equivalente a jamais se afastar das cambalhotas nas almofadas da sala.

Set List
“Huge Wonder”
“Peach Kelli Pop”
“Stay Away From Downtown”
“Stunt Queen”
“Uglier”
“I’ll Blow You a Kiss in the Wind” (Tommy Boyce & Bobby Hart cover)
“Crazy World” (Frightwig cover)
“Lady in the Front Row”
“Mess Around”
“I’ll Take Your Word for It”
“Candy Coloured Catastrophe”
“Annie’s Gone”
“Emanuelle Insane”
“It Won’t Be Long” (Beatles cover)
“Neurotica”
“Switchblade Sister”
“Jimmy’s Fantasy”
“Linda Blair” / “I Want You” (She’s So Heavy)

Bis:
“Annette’s Got the Hits”
“Cover Band”
“Clorox Girls”
“I Hate My School”
“S & M Party”
“Standing in Front of Poseur”
“Crazy Horses” (The Osmonds cover)
“Deuce” + trecho de” God of Thunder” (KISS cover)