Os livros de música que mudaram sua vida

In Livros

Algumas histórias precisam de um ponto de partida, e talvez nossas relações com as histórias das músicas tenham começado com o Alta Fidelidade, do Nick Hornby, e com o Almanaque do Rock, do Kid Vinil.

Fechar um livro e perceber que algo mudou dentro de você é uma sensação indescritível, mas que deixa alguns efeitos possíveis de serem narrados. Nossa ideia do outro fica um pouco menos idealizada, as certezas se embaralham um pouco mais e a gente descobre fascinação em coisas bem improváveis. No caso dos livros de música, é como se conseguíssemos aceitar que o mundo é menos compreensível do que gostaríamos, que nem toda vivência tem palavra correspondente e às vezes os acontecimentos importantes da vida brotam de algo que dificilmente conseguimos explicar.

Músicas têm essa magia de serem vitais para nós sem precisarem ser úteis ou de terem objetivos definidos. E os livros de música nos oferecem uma espécie de dicionário de sensibilidades para acomodar tanto nossos maravilhamentos quanto os estranhamentos, ao mesmo tempo em que contam que quem faz música sente sede, fome, raiva, ambição, decepção, ou seja, são seres de carne, osso e muita complexidade. No lugar do certo e do errado, as contradições oferecem uma outra chave de leitura para ler (e escutar) o mundo, os outros e nós mesmos.

Reunimos aqui depoimentos sobre livros de música inspiradores, que abriram alguma portinha na cabeça, alguma fresta pra outro mundo. Deixamos também nosso convite para que você se junte a nós no Clube do Livro de Música do Sounds Like Us, onde vamos ler e conversar sobre O Livro do Disco: Clube da Esquina – Milton Nascimento e Lô Borges, de Paulo Thiago de Mello (Cobogó); A vingança das punks: uma história feminista da música, de Poly Styrene ao Pussy Riot, de Vivien Goldman (Barbante); Nossa banda podia ser sua vida: cenas do indie underground americano 1981-1991, de Michael Azerrad (Powerline) e Deslumbre: histórias de obsessão musical, de Gaía Passarelli (Terreno Estranho). O Clube vai rolar de agosto a novembro e as inscrições terminam no dia 31 de julho. As informações completas e link para inscrição estão aqui e também no nosso instagram. Bora ler?

Fui arrebatada por Our Band Could Be Your Life: Scenes from the American Indie Underground 1981-1991 (Little Brown and Company, 2002) em 2011, quando ainda não havia tradução no Brasil. Como assim, existia um livro enaltecendo as bandas que eu tanto amava – dentre elas o Mission of Burma – e ali elas recebiam o maior destaque? Histórias de origem e duração sempre me encantam, mas o que mais me surpreendeu na obra-prima do Michael Azerrad é que ele narra um mundo possível, em que pouco dinheiro e pouca visibilidade não necessariamente arruinavam uma banda. A despeito desses injustos pontos de partida, nesse mundo era possível criar algo alternativo na prática. Como toda história humana, as contadas aqui são cheias de desejos e fracassos. Sustentar isso e considerar como vida vivida e significativa é bem difícil atualmente. O livro me mostrou o quanto a teimosia ajuda a criar perspectivas. Mas só ela não adianta, é preciso que o sistema ofereça condições de sobrevivência. Felizmente agora temos uma bela edição brasileira, Nossa banda podia ser sua vida (Powerline, 2018), que será lida em nosso Clube do Livro de Música.
Amanda Mont’Alvão

No caso das páginas, sempre brinco (de forma séria) que, junto com as raras revistas da época, os álbuns de figurinhas dos anos 80, como o Rock Attack ou Stamp Colour, foram transformadores e me despertaram curiosidades que foram definidoras para o que viria a ler e ouvir. Nos livros, diversos fizeram a minha cabeça. Mas se tem algo legal na música é que ela segue me transformando, apresentando uma porção de “marco zero” e desconfortos que são os lugares que mais me interessam. Dentro desse cenário, Black Music inaugurou para mim algumas percepções diferentes sobre o jazz e a consciência negra. A sonoridade já era algo presente, mas não em suas camadas mais profundas e transformadoras. Isso porque o livro vai além dos textos críticos ou artigos sobre o bebop, hardbop e a chegada do free jazz. Black Music fortalece a posição dos nomes da época, focados em um movimento de autenticação da cultura preta como expressão e, de alguma forma, fazendo disso uma reação ao que, nos anos 60, por conta do seu sucesso comercial, vinha tornando o jazz algo “palatável para a amerikkka branca”, como descrito na segunda capa. É um livro de diversas camadas, radical e revolucionário, escrito por quem tem visão e pensamento crítico aguçados e que viveu o período, o que leva o livro para além de ensaios críticos ou históricos. São textos vividos.
Vinicius Castro

Um dos inúmeros livros musicais que marcaram a minha vida é Black Music: free jazz e consciência negra (1959-1967), de Amiri Baraka (Sobinfluencia, 2023). Escrita ainda sob o nome de LeRoi Jones, a obra é rigorosa, demolidora e afrocentrada. Quando jovem, li O jazz e sua influência na cultura americana, edição brasileira de Blues People – Black Music in White America (1963), também de autoria do poeta, dramaturgo, crítico cultural e acadêmico. Mas a leitura de Black Music me encontrou com um repertório maior. O deleite foi muito mais intenso.
Rodrigo Carneiro (Mickey Junkies / autor de Jardim Quitaúna, Afetos sísmicos e Barítono, todos pela Editora Terreno Estranho)

Sem titubear, o nome do livro que marcou minha vida é A garota da banda, da Kim Gordon (Fábrica231, 2015). Ler seus relatos sobre infância, juventude, vida adulta; a parceria com artistas e com o cinema; lançar sua marca de roupas, dirigir videoclipe, atuar e ser a garota da banda só me fez acreditar que eu estou sendo honesta comigo mesma, assim como Kim sempre foi. Acho que estou no caminho certo. É tão maravilhoso como ela expõe corajosamente seus anseios e também frustrações, dores e alegrias, de maneira tão sincera. Isso me trouxe força e empoderamento. E acredito que também para muitas outras Kims espalhadas pelo mundo, mães, garotas de bandas, mulheres divorciadas, independentes e bem resolvidas. Um trecho que me marcou bastante foi a carta aberta à Karen Carpenter, onde ela descreve seu carinho pela trajetória da Karen e faz um alerta sobre o poder das mulheres sobre os seus corpos. Que a indicação desse título seja um alento a todas as mulheres, garotas ou não de banda, como foi pra mim. E viva as garotas das bandas! <3
Ligia Murakawa (Wilza / Giant Love)

Dance of Days: duas décadas de punk na capital dos EUA (Iberia, 2015) é um retrato marcante de um momento em que música e política se entrecruzaram de forma potente. A leitura me fez perceber que a articulação entre arte e política não era apenas possível, mas necessária. A pesquisa de Mark Andersen e Mark Jenkins, testemunhas diretas dessa cena, confere à obra um caráter vivo e autêntico. Além de abordar bandas consagradas como Bad Brains, Minor Threat, Fugazi e Bikini Kill, o livro dedica a mesma atenção a grupos menos conhecidos, oferecendo um panorama amplo e democrático de uma das cenas musicais mais influentes do século 20.
Bruno Lisboa (4discos / Scream&Yell / Phono Brasil)

Certamente é o livro Rumo à estação Islândia (Conrad, fora de catálogo), de Fabio Massari, que na época pra mim foi, e ainda é, apaixonante por ser uma obra que mergulha na rica cena musical islandesa, apresentando artistas icônicos como Sigur Rós e Björk. Mais do que uma simples introdução a bandas, o livro constrói uma imersão cultural, revelando paisagens sonoras e visuais que traduzem a essência do país. Essa mistura de música, cultura e estética cria uma narrativa que deixa marcas duradouras em quem lê, tornando a experiência tão inspiradora quanto íntima.
Breno Della Rica Honorio (Giant Love)

Tranny: Confissões da anarquista mais infame e vendida do punk rock (Powerline, 2018) foi um marco na minha história, li pela primeira vez aos 17 anos e foi o estopim pra eu questionar minha identidade de gênero. Ele aborda de maneira visceral como é lidar com a disforia de gênero antes de se entender como uma pessoa trans, assim como as muitas nuances  que surgem pós transição. Além da leitura, recomendo demais os discos Searching For A Former Clarity, Transgender Dysphoria Blues e Shape Shift With Me, que também abordam em detalhe cada etapa desse processo. E sim, meu nome só é Laura por conta desse livro.
Laura Oliveira (DJ e multiartista)

Um dos livros de música mais marcantes da minha vida foi o Escuta Só: do clássico ao pop (Companhia das Letras, 2011), do Alex Ross. Eu ainda sonhava em trabalhar com jornalismo de música, e fui engolido pela forma didática com que ele abordava universos estranhos para mim à época, como o da música clássica, sem diminuir o leitor, mas também sem parecer condescendente. Ninguém conhece tudo e ninguém tem as mesmas referências; a humildade de reconhecer que aquilo que eu menosprezo pode ser um universo inteiro para o outro (e vice-versa) transformou completamente a minha forma de ouvir, pensar e analisar música e cultura, e foi transformador no meu desenvolvimento enquanto comunicador especializado na área.
Guilherme Guedes (Multishow / Canal Bis)

Escolho Só Garotos, da Patti Smith (Companhia das Letras, 2010), porque ele fala sobre encontros, amizade, criatividade e a coragem de apostar na arte mesmo sem garantias. Gosto da forma como o livro mostra que uma cena cultural é construída pelas relações de afeto, confiança e parceria que surgem ao longo do caminho. Como alguém que trabalha com música e acompanha artistas independentes, me identifico muito com essa ideia. É um livro que sempre recomendo e revisito, porque me lembra que a arte também acontece nas pessoas que caminham juntas.
Camila Mazzini (Circular / booker / produtora)

Eu já gostava da Patti Smith como cantora, mas não conhecia a história dela, o começo, quando ela foi pra NY, a relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, a amizade, o amor, a criação artística e a cena de Nova York daquela época! Nossa, ficava imaginando/viajando muito nas histórias! Até fui uma vez no Hotel Chelsea, onde eles moraram, pra ver como era! rs
Valeria Blanco (produtora cultural e assessora de imprensa)

Livros sobre música podem funcionar como mapas, tanto por ilustrarem o terreno por onde o leitor se aventurou quanto por indicarem caminhos, correções de rota, planos estratégicos. Inclusive por conterem planificações erradas. Não é o caso de Bass Culture: when reggae was king (Penguin Books, 2001), livro sobre toda a música inventada na Jamaica durante o século 20. O livro de autoria do londrino Lloyd Bradley (sempre acho uma loucura um nome começar com dois éles) foi publicado pela primeira vez no ano 2000, tem 500 e muitas páginas e não existe em versão brasileira, mas certamente você pode encontrá-lo por aí. Misturando fatos históricos e análises musicais apaixonadas, o escritor destrincha as origens do reggae desde os sistemas de som abastecidos por R&B, merengue e jazz latino da década de 1950 até o dancehall chegar nos ritmos sintéticos. Além do panorama de como as linguagens sonoras mexeram na música global, e de apresentar um monte de coisa boa durante a leitura, tem um fenômeno que este, assim como as melhores publicações sobre som, enseja que é te fazer aceitar, de forma racional, linhagens que você entenderá sensivelmente após a audição do descrito. Entender um mapa ao chegar no lugar.
André Maleronka (Againe / Crise Crise Crise / Caro Vapor)

O ano era 2005. Eu havia acabado de ingressar na faculdade de jornalismo com o sonho de ser tipo o personagem William Miller de “Quase Famosos” para excursionar com as bandas que eu amava e escrever sobre elas. Foi então que uma colega de classe me deu um exemplar de um livro que mudou de vez a minha vida: Reações psicóticas (Conrad, 2005), coletânea de textos escritos por Lester Bangs e publicados entre 1972 e 1980 em revistas como a Creem e a Rolling Stone. O cara era tão ou mais maluco e autodestrutivo do que Iggy Pop, Lou Reed ou qualquer outra personalidade do rock da época, e suas entrevistas, coberturas de shows e críticas de discos eram ácidas e selvagens o suficiente para fazer dele uma lenda, uma espécie de Hunter S. Thompson do jornalismo musical. Releio pelo menos uma vez por ano!
Danilo Carbone (Filmes para Ouvir)

reações psicóticas

Eu tinha nove anos e o Pato Fu tocava “Ando Meio Desligado” na trilha da novela das 7. Achei aquela música bacana e meu pai me jogou na mão esse livro do Carlos Calado, da mesma forma que tinha jogado O mundo de Sofia alguns meses antes. Foi como cair no caldeirão do Obelix: não só mergulhei na discografia dos Mutantes, como também deixei o cabelo crescer e passei a sonhar em tomar LSD (!). Também descobri os Beatles na sequência – e mais não precisa ser dito. Hoje, adulto e jornalista, A Divina Comédia dos Mutantes (Editora 34, 2012) segue sendo um livro inspirador. Não só porque a pesquisa do Calado é extensa e sem igual no que diz respeito a uma das bandas mais importantes do Brasil, mas também porque o texto tem um estilo e humor que servem de referência para minha escrita. Fundamental pra qualquer um que gosta de rock nesta terra.
Bruno Capelas (Programa de Indie / autor de Raios e trovões: A história do fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum, pela Summus)

Vários livros sobre música são muito importantes para mim, mas um se destaca: O Resto é Ruído: escutando o século XX (Companhia das Letras, 2009), de Alex Ross. Para mim, é inebriante a maneira como Alex conduz uma narrativa que começa em Richard Strauss e passa por duas guerras mundiais, uma guerra fria, jazz, tonalidade, dodecafonia, Stravinski, Beatles, Stockhausen e Velvet Underground até chegar em Björk e Radiohead. Um livro que é uma aula viciante e deliciosa.
Marcelo Costa (Scream&Yell / organizador de Eu nem queria dar entrevista: O melhor do Scream & Yell, Vol. 1, pela Barbante)

Esse é um livro que mapeia a evolução da música no século 20. Vai desde Schönberg decretando que a harmonia atingia o seu limite (um século atrás!) e propondo o atonalismo, passa pelo jazz, pela música de vanguarda, pelo minimalismo e chega até a Björk e o Radiohead. É uma leitura densa sobre a música inconformista e suas rupturas. O Resto É Ruído me impactou tanto que quando criei um podcast em 2012 com diversos amigos (dentre eles a Amanda aqui do Sounds!), não tive dúvida na hora de batizá-lo com o nome do livro.
Elson Barbosa (Sinewave / Subsensor)

Se eu tivesse que escolher um livro de música que marcou a minha vida, seria Everybody Loves Our Town: An Oral History of Grunge (Three Rivers Press, 2012), de Mark Yarm. Sempre fui fascinado pela cena grunge, que ajudou a moldar não só meu gosto musical, mas também minha forma de enxergar arte, comportamento e até de me vestir. O livro é basicamente um Mate-me Por Favor dessa cena, reunindo depoimentos de mais de 250 pessoas que viveram aquela efervescência em Seattle, desde o início dos anos 1980 até o declínio do movimento no mainstream, e consegue transmitir a sensação de estar no meio de tudo aquilo. Além de contar a história de Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden, ele dá voz a bandas bem menos lembradas, como Mudhoney, Melvins, Green River, Tad, U-Men, Malfunkshun, The Gits, L7 e Skin Yard, além de outros sujeitos que contam umas histórias hilárias e curiosas. Foi daqueles livros que eu não queria parar de ler e até ficava meio triste de perceber que estava me aproximando do fim, porque não queria me despedir dele.
Alexandre Lopes (jornalista / assessor de imprensa)

How Music Works (Grown Publishing Group, 2017), do David Byrne, me ajudou a mudar a forma que eu enxergava a música. Ele fala além da composição ou carreira musical. Ele me mostrou o quanto a música é influenciada pelos espaços, pela cultura, pela tecnologia e pelas pessoas. Este livro ampliou minha visão sobre processo criativo e sobre a indústria musical. Vou trazê-lo como um dos meus favoritos porque ele une sensibilidade, conhecimento e experiência. A cada capítulo ele desperta novas reflexões sobre o papel da música na nossa vida e em um todo. Este livro é foda, e David Byrne é genial. 
Vanessa Castro (coordenadora de A&R na Abramus)

Tive uma experiência intensa com o livro Nick Cave: Mercy on Me (Self Made Hero, 2017), de Reinhard Kleist, que eu adquiri no bairro do Kreuzberg em Berlim em 2019, na versão em inglês. Eu estava ali justamente resgatando memórias e investigando onde Nick morara naquele mesmo bairro, imersa naquela cena do pós-punk e da synthwave do começo dos anos 80 que floresceu naquelas redondedezas, incluindo bandas como o Die Haut, Malaria! e o Einstürzende Neubauten. Foi sensacional ler esse livro ao mesmo tempo que a minha experiência de seguir os passos de Cave se desenrolava, com quadrinhos não lineares e que misturam anedotas, letras de canções, histórias reais e ficcionais onde a imaginação do autor dá asas a versões paralelas do passado. E tudo com traços vibrantes e geniais! No capítulo 3, ele aborda exatamente a temporada de Cave no Kreuzberg, a neve, a escrita de um dos livros dele, o impacto de quando ele viu o primeiro show do Neubauten… O estilo de Kleist e a possibilidade que ele me mostrou de misturar realidade e ficção de forma tão contundente me impactaram muito, ampliaram minha percepção sobre como escrever livros de música e me confirmaram que eu estava no caminho certo na finalização do meu almanaque não linear sobre música em São Paulo. Vale conferir a edição de 2023, em português, da editora Hipotética.
Fabiana Caso (curadora / jornalista / autora de O Som de São Paulo, pela Terreno Estranho)

Lançado em 2013, Detroit Rock City: The uncensored history of rock ‘n’ roll in America’s loudest city (Da Capo Press, 2013) é uma espécie de livro irmão de Mate-Me Por Favor, apenas mudando o cenário de Nova York para Detroit, como o título, em referência ao clássico do Kiss, deixa claro. Ao longo de mais de 300 páginas (que, juro, passam voando) e dezenas e dezenas de entrevistas, o jornalista Steve Miller (que também participou da biografia de Johnny Ramone e da bíblia sobre a Touch and Go) alcança um feito muito difícil, mas possível provavelmente em livros de entrevistas/história oral, quando feitos da maneira correta, que é de colocar o leitor no local e hora onde tudo aquilo estava acontecendo. A lista de entrevistados inclui músicos da cena local, desde os anos 1960 até início dos 2000, além de jornalistas, produtos e outras figuras tão importantes quanto – espere por nomes óbvios como Iggy Pop, James Williamson, Wayne Kramer, Alice Cooper, Ted Nugent e Jack White, e outros nem tanto, mas igualmente essenciais, como Deniz Tek, John Brannon, Bob Seger, Suzi Quatro, Mick Collins e Andrew WK. Certamente meu livro de história oral favorito junto com o já citado Mate-Me Por Favor e Everybody Loves Our Town, sobre a cena de Seattle.
Luiz Mazetto (Basalt / autor de Nós somos a tempestade: conversas sobre o metal alternativo dos EUA, pela Ideal)

Considero o encontro com Rita Lee: uma autobiografia (Globo Livros, 2016) um daqueles “portais” que transformam a nossa vida de maneira radical, a ponto de ampliar nossa percepção sobre as possibilidades de existir no mundo. Daqueles que só conseguimos dimensionar com o tempo, quando percebemos o quanto moldaram nossas escolhas e a forma como entendemos quem podemos ser. Já é valioso por si só poder acessar a autopercepção de uma artista como Rita Lee por meio das suas próprias palavras, mas o que mais amo no livro é justamente entender melhor de que forma todas as suas experiências de vida, traumas e paixões ecoaram nas suas composições. Em um contexto em que tantas vozes femininas foram silenciadas ou colocadas à margem, ler a autobiografia da Rita Lee é também ler um registro de liberdade e resistência. 
Amanda Bredariol (Lava Divers)

Ganhei o Heavier Than Heaven no meu aniversário de 14 anos. A minha vida se divide em antes e depois desse livro. O Kurt Cobain é conhecido por ter sido um cara que bateu de frente com o establishment e ser um aliado nos direitos lgbt e anti-sexista, mas isso tudo foi passado pela Kathleen Hanna (Bikini Kill). Aulas dela que me acertaram em cheio. O Nirvana é a minha banda favorita de todos os tempos não só pela música, mas por ter uma filosofia punk ao mesmo tempo em que era a melhor banda do mundo. Naquele momento, se posicionar dessa forma gerava mais problemas do que aplausos. A obra descreve com riqueza de detalhes o quanto o Nirvana era uma banda política num momento de pura alienação da cultura pop. Muito da minha rabugentisse e “autossabotagem” artística eu devo a este livro.
Jonathan Tadeu (Jonathan Tadeu / Lupe de Lupe)

Mate-me Por Favor (L&PM Editores, 2021) foi uma verdadeira porta de entrada para muitos outros livros, tanto pela contextualização histórica e pela narrativa instigante quanto pelo formato em que a história é construída por meio de entrevistas, muitas vezes contraditórias entre si. Isso torna tudo mais humano, caótico e fascinante. Esse exercício de traduzir um cenário formado por pessoas tão diferentes, vivendo um momento de autodescoberta entre excessos, experimentações e loucuras que mais tarde seriam reconhecidas como vanguarda, transporta o leitor para outra época. Mesmo décadas depois, ainda é possível sentir o prazer do risco, da descoberta e da imprevisibilidade. Entre a cruz e a espada, o anonimato das ruas e a pulsação da irreverência, é um livro que permanece atemporal e ao qual sempre volto. 
Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)