BEASTIE BOYS Os 30 anos da poderosa estreia de 'Licensed to Ill'

In Bandas, Discos

Foto: Henry Diltz

Amanda Mont’Alvão

Desde que uma jogada de marketing reivindica ter se tornado uma espécie de embrião do hip hop, o mundo da música vem provando que as origens de uma revolução nem sempre fazem jus ou combinam com as mudanças alcançadas.

Se hoje Kendrick Lamar dá voz de urgência à maior tensão racial vivida pelos Estados Unidos desde a segregação institucionalizada nos anos 60, fica difícil imaginar que a combinação entre rimas, batidas e samples tenha em sua biografia de origem uma banda inventada de última hora por um executivo que buscava lucro. Estamos falando da Incredible Bongo Band, criada pelo americano Michael Viner para a trilha sonora de um filme e responsável pela gravação da música “Apache”, que, após cair nas mãos do genial pioneiro DJ Kool Herc e ganhar uns scratches, mudou para sempre a história da música mundial ao se tornar o primeiro sample.

Ao contrário da improvável ligação entre uma jogada da indústria fonográfica e o duro realismo de Lamar, alguns começos davam uma ideia do “estrago” irreversível que seria feito adiante. Este é o caso do disco de estreia dos Beastie Boys, Licensed to Ill (Def Jam), que em 1986 já instalava as bases de um revolucionário percurso criativo baseado na capacidade de absorver e liquidificar referências.

A primeira formação dos Beastie Boys: Kate, MCA, John e Mike D (da esquerda para a direita)

Referências variadas sempre foram uma marca dos Beastie Boys, uma banda que transitava com facilidade por círculos improváveis. A turnê podia tanto acompanhar o Dead Kennedys, o Reagan Youth, o RUN DMC, o Public Image Ltd ou a Madonna. A turma de amigos incluía Darryl Jenifer, do Bad Brains; Harley Flanagan, do Cro-Mags; e Rick Rubin, criador da gravadora Def Jam. Billy Idol se declarou fã antes mesmo de o primeiro disco sair.

Criada em 1980, a banda era originalmente um quarteto: Mike D (Michael Diamond) nos vocais e na bateria; MCA (Adam Yauch) no baixo; John Berry na guitarra e Kate Schellenbach na bateria. Esta foi a formação do EP de estreia Polywog Stew, lançado em 1981 pela gravadora independente Rat Cage. “Holy Snappers”, uma das músicas do registro, mostrava a influência do Bad Brains e do Dead Kennedys.

John e Kate saíram logo depois desse registro e no lugar entrou Ad-Rock (Adam Horovitz). Em 1983, a formação definitiva dos Beastie Boys lançou o EP Cooky Puss, que já flertava com o hip hop e com a cultura do scratching. As apresentações passaram a incluir um DJ.

Mas foi em 1986, em um tempo de disseminação do hip hop, de auge do punk e do começo do hardcore, que Licensed to Ill – uma referência ao filme License to Kill, da saga 007 – veio ao mundo. Trinta anos depois, este é um álbum que reafirma sua presença na discoteca básica de fãs de hip hop. Ou de hardcore. Ou de punk. Ou de heavy metal. É a somatória criativa de três pós-adolescentes fãs de guitarras altas, rimas e beats funkeados. Uma construção musical ainda sem forma definida, usada a serviço de narrativas imaturas e infames sobre garotas, armas, drogas, festas e uma Nova York vivida sem limites.

Foto: Glen E. Friedman

As rimas traziam situações do cotidiano, mas sem qualquer problematização. Não que fossem apartadas da realidade; porém, elas traziam uma realidade vista apenas pelo ângulo da diversão e expressa, várias vezes, por uma linguagem chula. O único engajamento era com a diversão, com brincadeiras imbecis e com comportamentos exagerados. Tinham 21 anos e pareciam não querer crescer. Inventavam histórias e zombavam da imprensa, dando a ela a “superficialidade” com que eram julgados. Era como se pedissem, “não nos levem a sério”.

Curiosamente, aqueles tempos não eram muito propícios para a diversão: no começo da década de 80, os Estados Unidos ainda se recuperavam dos horrores da Guerra do Vietnã e lidavam com a gestão de Ronald Reagan, que estava decidido a reerguer a economia do país custe o que custasse – mesmo que gerando intolerância às diferenças. Em Nova York, os distritos enfrentavam a especulação imobiliária ao mesmo tempo em que colhiam os prejuízos do desemprego de seus moradores. É no mínimo sintomático que uma banda alienada à realidade tenha sido tão bem recebida pelos americanos. Alguma expressão artística precisava extravasar, de modo lúdico e despretensioso, as dificuldades da época. Claro que houve rejeição, e o outro lado da moeda os colocava como indecentes e como uma ameaça aos valores da tradicional família americana.

Foto: Sunny Bak

Além disso, tamanho envolvimento com a graça e com a irresponsabilidade colocou à prova até mesmo a capacidade criativa do trio. Era comum atribuírem os bônus ao co-produtor Rick Rubin, fundador da Def Jam. Felizmente, o tempo mostrou que aqueles moleques descuidados eram sim capazes de agregar camadas e mais camadas de invencionices ao hip hop.

Uma característica impressionante dos Beastie Boys é a facilidade com que criam diferentes climas em um mesmo disco, costurando, de maneira genial, as infindáveis possibilidades que os samples prometem. “The New Style”, a segunda de Licensed to Ill, por exemplo, tem guinadas improváveis a partir das batidas secas de um hip hop gangueiro típico dos anos 90.

A partir de um sample da bateria de “When the Levee Breaks”, do Led Zeppelin, e da guitarra de “Sweet Leaf”, do Black Sabbath, “Rhymin And Stealin” dava a tônica dos riffs pesados e batidas carregadas trazidas do heavy metal. O flow vinha mandatório.

“She’s Crafty” mais uma vez recorda Led Zepellin, pelo riff de “The Ocean”. As batidas aqui são mais tribais e secas. A faixa descreve um encontro com uma beastie girl. Sobram referências a uma mulher objetificada. O modo pouco respeitoso dirigido às mulheres mais tarde foi revisto pelo trio. O documentário The Punk Singer, sobre a líder da banda feminista Bikini Kill, Kathleen Hanna, traz uma bela cena sobre a conscientização dos conteúdos misóginos a partir da convivência de Ad-Rock com ela. Eles são casados desde 2006.

Turnê em Memphis, em 1987. Foto: Beastiemania

Em uma espécie de rap starwarsiano de tempo desacelerado, “Posse in Effect” sampleia Beside, Juice e Joeski Love para narrar o que seria o estilo de vida do hip hop. “Slow Ride” vem mais tropical e funkeada, ao estilo da Incredible Bongo Band. Na sequência vem “Girls”, um som garageiro meio robótico que traz o lúdico do disco em seu auge. À época não houve preocupação com a letra. Hoje ela certamente renderia críticas.

“Fight for Your Right” marca uma das verves mais veementes do gosto dos Beastie Boys pelo heavy metal. O clipe se tornou um grande clássico e sintetiza bem o espírito do trio no começo da carreira: despreocupados com as consequências e decididos a causar. Junto com “Sabotage”, do disco Ill Communication, a faixa permanece como uma das mais poderosas e emblemáticas deles.

“No Sleep till Brooklyn” também evoca o heavy metal e ainda traz um solo de guitarra de Kerry King, do Slayer. Dois anos depois, o Stiff Little Fingers fez um cover incrível da música, adaptada para “No Sleep Til Belfast”.

“Paul Revere” ecoa seus graves em uma narrativa que remete a Clint Eastwood e aos beastie boys tratados como bad boys. “Hold it Now, Hit It” é bastante funkeada e talvez seja o momento menos roqueiro do álbum. É o antecedente perfeito para a impulsiva e dançante “Brass Monkey”.

Originalmente composta pelo Run DMC em 85 e descartada logo após a gravação, “Slow and Low” foi pedida pelos Beastie Boys como um cover. Acabaram fazendo uma nova música, mantendo a maior parte da letra. Tem até referência ao ao Sugarhill Gang: “What you see is what you get/And you ain’t seen nothing yet” é um trecho de “8th Wonder”.

Foto: SOUNDS LIKE US

Finalizando o disco, “Time to Get Ill” sintetiza bem as colagens que marcam o grupo. Tem Barry White, Creedence Clearwater Revival, Stevie Wonder e Led Zepellin na mesma faixa, interagindo tão naturalmente que nem mesmo aqueles pout-porris das propagandas da Som Livre conseguiriam. É música criada dentro da música.

Parte desta combustão criativa que só melhorou com o tempo pode ser explicada pelo espírito colaborativo do trio, que realmente trazia todos os integrantes na composição dos flows e na escolha dos samples. Assim como as possibilidades sonoras eram inúmeras a partir de colagens, o mesmo se via com a linguagem, desfiada em rimas bastante marcantes. Desde o princípio até a triste morte de MCA, em 2012, os Beastie Boys exerceram, na prática, uma resistência ao individualismo que Reagan tanto queria pregar.