Vinicius Castro
Nos instantes finais da década de 80, o metal industrial vinha ganhando musculatura por aqui. Nomes como Ministry, Young Gods, Godflesh e Skinny Puppy eram descobertas recentes do público brasileiro e o ruído cativante produzido por essa turminha esquisita colocou a música pesada em um ambiente, até então, sem precedente. Algo que, em certa medida, apontava para a variedade de linguagens que produziria bandas que hoje em dia fazem parte do nosso cardápio.
Em um breve contexto, é interessante lembrar como os anos 90 pareciam propensos ao novo. Uma década atenta em capturar o que estava em um modo de cocção, como trovoadas antes de uma tempestade perfeita.
Embora na memória o período pareça ser mais elástico, tudo aconteceu muito rápido. Pouco depois da primeira onda do metal/rock industrial, novas bandas surgiram para fortalecer aquela sonoridade que parecia destrinchar as cenas de Blade Runner de forma intimidadora, mecânica, sob riffs massivos, samples, vocais distorcidos e beats gelados construídos em teclados, sintetizadores e/ou sequenciadores.

O Nine Inch Nails, fundado por Trent Reznor no final da década de 80, foi um dos nomes que ajudaram a pavimentar essa estrada.
Como em diversos casos, a música é produto do meio onde ela se organiza e vai além daquilo que ouvimos como resultado na ponta dessa cadeia criativa. Isso posto, Trent Reznor é também produto do seu meio: “Muitas vezes pensei que não sou o produto de nenhuma cena. Nunca senti que me encaixava em lugar nenhum. Mas há lugares que meio que moldaram quem eu sou”, disse Reznor em entrevista à Vice.
O idealizador do Nine Inch Nails cresceu na Pensilvânia rural e, como um adolescente que não se percebia pertencente àquele lugar, passou parte do tempo pensando em como sair de lá. Fez aulas de piano, mas a explosão da tecnologia, com a descoberta dos sintetizadores e drum machines, e o contato com bandas como Bauhaus, Throbbing Gristle e o pessoal da Wax Trax, foram elementos importantes para o contorno que o Nine Inch Nails viria a ter.
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A discografia da banda traz influentes registros, como Pretty Hate Machine, de 1989, determinante para que essas linhas fossem escritas. Minha cabeça explodiu quando vi o clipe de “Head Like A Hole” pela primeira vez e acredito que isso deva ter ocorrido com boa parte das pessoas daquele tempo. Foi algo (quase) comparável ao impacto de “Stigmata”, do Ministry, quando tocada no saudoso programa Comando Metal, da rádio 89 FM.
Outra peça fundamental para o retrato do som industrial noventeiro é The Downward Spiral.
Lançado em 1994, o álbum teve produção grandiosa de Trent Reznor ao lado de Flood (U2, PJ Harvey, Nick Cave) e concebeu pérolas como “March of the Pigs”, ‘Reptile”, “Closer” e “Hurt”.
Se você nunca mergulhou na música do Nine Inch Nails, deve ter esbarrado por aí com alguma das trilhas sonoras produzidas ou compostas por Trent Reznor. Assassinos por Natureza, Mid90s, Soul, Watchmen, são alguns dos títulos que contam com a assinatura do músico.
Mas a pergunta é: Quem era o Nine Inch Nails antes de ser o Nine Inch Nails?
TODO MUNDO COMEÇA EM UMA BANDA COVER
Ou quase todo mundo. Ainda que a afirmação tenha suas nuances, Trent Reznor fez valer a máxima, e durante a primeira metade da década de 80 foi parte de uma banda chamada The Urge.
A nata do rock e da new wave dos anos 80 era parte do repertório apresentado pelo The Urge.
Entre clássicos oitentistas, ele e seus companheiros de banda focavam seus esforços em reproduzir canções que iam de ZZ Top a Styx, passando por Journey e Billy Idol , como você pode ver no vídeo abaixo:
AOR OU INOCENTE?
Logo depois de deixar o The Urge, Trent Reznor se juntou ao The Innocent, que a princípio atendia pelo nome de Hot Rodney.
A formação com “o cara do Nine Inch Nails” foi breve. E de fato, é um pouco estranho imaginar a mesma pessoa que apenas quatro anos depois surpreenderia o mundo com Pretty Hate Machine sendo parte de uma banda de AOR (adult oriented rock, de nomes como Foreigner e Journey).
Além de ser altamente radiofônico, com uma produção cristalina e letras simples, o AOR também se caracteriza por refrãos açucarados como, por exemplo, este da faixa “Livin’ In the Street”.
It’s not easy living in the street/ gee ya think / Taxi, take me home. É, talvez esse refrão atormente a sua vida por um tempo.
Abaixo, a reprodução de um recorte de jornal anunciando a saída de Trent Reznor da banda, em 1985, para uma volta ao The Urge antes de sua próxima aventura:

A título de curiosidade, o The Innocent ainda contava com o guitarrista Alan Greene, que teve uma passagem pelo Pere Ubu; e o baterista Kevin Valentine, que chegou a gravar com o Kiss e fazer alguns shows com o Cinderella.
OS PÁSSAROS EXÓTICOS E A FEBRE DO SYNTH-POP

A descoberta dos sintetizadores foi o frenesi da música produzida nos anos 80. De Iron Maiden a Michael Sullivan e Paulo Massadas. De Yes a Jean-Michel Jarre e Rush. Todo mundo pirou naquela nova possibilidade de sonorizar o futuro.
Trent Reznor não passou ileso. Em 1986 ele viveu a sua fase synthpop como tecladista, programador e backing vocal do Exotic Birds, banda formada em 1983, em Cleveland. Além de Reznor, o grupo contava com Andy Kubiszewski, que um pouco mais adiante faria parte da banda que gravou The Downward Spiral, o segundo álbum do Nine Inch Nails.
O cenário era propício e eles chegaram a experimentar um certo reconhecimento, abrindo shows para o Information Society e o Culture Club.
SLAM BAMBOO?
Olha, Trent Reznor parece não ter dado muita sorte quando o assunto é o nome das bandas por onde ele passou: uma delas era o Slam Bamboo!!!
Ele fez parte da formação da banda em 1987, primeiro como um músico convidado enquanto ainda estava no Exotic Birds e, pouco depois, como parte integrante do grupo.
No vídeo abaixo dá pra notar Trent Reznor mais ao fundo, já sem as ombreiras e assumindo o visual all black.
A sonoridade não é lá essas coisas. Um synthpop um tanto anêmico, mas que, de algum modo, assim como sua passagem por suas bandas anteriores, ajudou Trent Reznor a entender o que ele aplicaria e, principalmente, não aplicaria na sonoridade do Nine Inch Nails. É que segundo o Consequence of Sound, parte do material de Pretty Hate Machine vinha sendo composto durante a sua temporada no Slam Bamboo.
PIERRE SORTUDO
O álbum de estreia do Nine Inch Nails foi lançado no segundo semestre de 1989. Um ano antes, Trent Reznor ainda teve tempo de fazer parte do Lucky Pierre, banda originária de Cleveland, formada por Kevin McMahon.

Alguns veículos encaixam a sonoridade na new wave, mas talvez isso tenha mais relação com o ambiente da época do que com o som praticado pela banda, mais relacionado a nomes como o Squeeze, por exemplo, do que ao B52’s.
Reznor marca presença em Communiqué, EP de 1988, que traz cinco faixas que, em alguns momentos, lembra um pouco a primeira fase do Devo, de um The Fall menos angular, ou mesmo do já citado Squeeze. Vale muito a audição. O Lucky Pierre é, considerando as antecessoras citadas aqui, a banda mais legal pré-Nine Inch Nails.
Trent Reznor traçou o seu caminho. E, como milhares de adolescentes, encontrou sua voz na música em busca de pertencer e se expressar. Segundo ele, suas primeiras letras não eram tão honestas e, por conta disso, não conseguia por para fora toda raiva que sentia naquele tempo. Foi aí que ele resolveu tentar aplicar esse sentimento também na sonoridade.
Certa vez, Reznor gravou algumas tracks em uma fita e mostrou a um amigo, que ouviu, gostou e entrou em contato, se colocando à disposição para participar daquele projeto caso ele fosse fazer algo com aquelas gravações. “Essa inspiração foi o suficiente para, sob o conforto de pensar que nunca faria sucesso e ninguém iria querer ouvir, dizer ‘ok, podemos tentar algo’”. E o resto é história.