Discografia faixa a faixa Corrosion of Conformity

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Parece distante, mas há pouco tempo, o convívio com o diferente falava mais alto do que o conforto de estar entre os que conversavam na mesma língua. Tempos em que algumas fronteiras se transformaram em um fraco borrão e aproximaram expressões distintas, dando a elas o privilégio de aprenderem uma com a outra e, a partir daí, construir algo novo. O novo que só existe a partir do aprendizado com o não igual. O crossover.

No mesmo ano em que Billy Milano convocava as tropas headbangers e punks em “United Forces”, sob os riffs matadores de Scott Ian no S.O.D, o D.R.I também extrapolava a velocidade em ritmo de taquicardia com seu Dealing With It! Na outra ponta, Slayer, Metallica e Megadeth ostentavam adesivos em seus instrumentos e usavam camisetas do Dead Kennedys, TSOL, GBH, Misfits e Discharge. Tudo estava literalmente junto e misturado. E no meio disso tudo estava o Corrosion of Conformity.

corrosion-of-conformity10Com a espontaneidade criativa, a fúria, o conteúdo e de mãos dadas com o metal e o punk/hardcore da época, o C.O.C ajudou a criar e a fortalecer as raízes do crossover americano que, no meio da década do 80, passaram a ser o novo direcionamento da música pesada. Mais que isso, construíram um movimento que sobreviveu mesmo ao constatar que esses mesmos sonhos já não eram tão sonháveis, mas era possível transformá-los na arte que favoreceu toda essa combustão.

O Corrosion of Conformity nasceu em 82, em Raleigh, na Carolina do Norte (EUA). Era cria legítima do punk americano e do pesadelo de ter vivido a juventude sob a guerra fria, o governo de Ronald Reagan e o início do sonho americano como moeda de troca.

06Eye For An Eye foi o primeiro disco. Gravado em 83, mas lançado só em 84, dividia a fúria adolescente com nomes como Broken Bones, Agnostic Front, Minor Threat, Black Flag e Suicidal Tendencies, entre outros grandes nomes do punk/hardcore daqueles dias. Com Animosity, de 85, eles já começavam a somar, à sua maneira, fortes doses de crossover e thrash metal. Na verdade, o C.O.C nunca foi uma banda contente em estar na sua zona de conforto. Um disco sempre foi diferente do outro,  mesmo que estivessem no mesmo recorte.

Depois do EP Technocracy, o C.O.C invadiu os anos 90 com um disco ainda mais incrível: Blind. Não só a década, mas a proposta também já era outra. Blind é o primeiro registro com o vocalista Karl Agell e Pepper Keenan, que também assumiu parte dos vocais e a guitarra. Como quarteto, o C.O.C grava mais quatro discos – Deliverance, Wiseblood, America’s Volume Dealer e In The Arms Of God – todos eles inseridos mais no stoner metal do que no crossover dos dois primeiros lançamentos.

02Em 2006 a banda deu uma parada, e em 2010, resolveu retomar as atividades mesmo sem Pepper, que na época estava em turnê com o Down. Nessa configuração, lançaram um disco homônimo em 2012 e o registro mais recente, IX.

Muito mais que escolher essa ou aquela música, a beleza do faixa a faixa é poder transitar pela discografia de uma banda e entender, por meio da música, suas escolhas, direcionamentos, mudanças, riscos e o que resultou disso tudo. Tá feito o convite; agora, é apertar o play e desfrutar da viagem cheia de som, fúria e peso oferecidos por essa grande banda.

“College Town”
Eye For An Eye
(No Core/Toxic Shock/Caroline – 2000)eye-for-an-eyeMesmo em meio a todo hardcore desenfreado de Eye For Eye, o Corrosion of Conformity já dava indícios de suas referências metal/sludge/stoner que viriam a ser ressaltadas alguns anos depois. O riff inicial de “College Town” “lembra” muito o de “Cornucopia”, do grande Black Sabbath. Homenagem direta, cópia ou coincidência, a gente não está aqui pra levantar falsos testemunhos sobre essas duas maravilhas. O fato é que essa é uma música perfeita para iniciar nosso faixa a faixa porque ela já assinala as reais intenções de um espírito punk contaminado pelos ensinamentos de Iommi e sua turma.

“Consumed”
Animosity
(Metal Blade – 1985)animosityVocê está diante de um dos discos seminais do crossover americano dos anos 80. Aqui, o hardcore e o thrash metal se encontraram em uma fusão sob medida, que fez de Animosity um clássico entre os adoradores do estilo. Entre todas, “Consumed” foi a nossa música eleita. Um resumo da estética sonora em que o C.O.C se encontrava naquele momento de mistura caótica e desbravamento de um novo universo cheio de músicas diretas ao lado de grandes nomes como S.O.D, Excel, D.R.I e Attitude Adjustment.

“Vote With A Bullet”
Blind
(Relativity – 1991)blindEsse é o único registro sem o baixista Mike Dean e que também conta com o vocalista Karl Agell, que dividiu os vocais com Pepper Keenan. Foi difícil escolher. “Dance of Dead” sempre foi uma das preferidas por aqui. Uma música enérgica, com uma construção ótima, mas não há como negar a importância de “Vote With A Bullet” para a configuração que o metal buscava naquele início da década de 90. É uma música que representa o sentimento de uma época incrível para a música. Ela é a livre troca de referências que abraçava desde o industrial até o grindcore oferecendo um bem vindo frescor para o status criativo daquele momento. Fudge Tunel, Prong, White Zombie e Helmet foram bandas que, junto ao C.O.C, alteraram o curso da música pesada e implantaram um novo jeito de fazer, pensar e enxergar o heavy metal que a partir dali, ganhava novas e grandes possibilidades. Mas ao mesmo tempo que Blind ofereceu um novo direcionamento, músicas como “Vote With A Bullet” mantiveram a mensagem do ideal punk do C.O.C.

“Albatross”
Deliverance
(Columbia – 1994)deliveranceDeliverance é o House of The Holly do Corrosion of Conformity. O Powerslave, o Master of Puppets de uma banda que há algum tempo vinha, por indícios claros, procurando um canto na música para chamar de seu. Deliverance é a bíblia daquilo que a gente entende como stoner metal. O princípio de tudo está ali. É cheio de grandes momentos e, entre eles, a forte abertura com “Heavens’s Not Overflowing”, o groove de “Senior Limpo”, o proto sludge de “Broken Man” e o acesso hard rock dos anos 70 no melhor estilo Kiss de “My Grain”. Mas calma, apesar de toda essa riqueza, nenhuma delas é a nossa eleita porque no recorte das músicas perfeitas, o C.O.C conquistou seu lugar quando compôs “Albatross”. É ela quem rouba a cena refletindo uma compreensão perfeita entre músicos e sua obra. Pepper dá uma aula de feeling vocal enquanto a cozinha viaja sob um dos riffs mais lindos do stoner metal. Reparem na bateria no início da música. Coincidência ou não, a virada inicial de “Albatross” é a mesma do início de “Balls to the Wall”, clássico do Accept.

“Wiseblood”
Wiseblood
(Columbia – 1996)wisebloodWiseblood deu um cacoete mais rediofônico aos refrãos de Deliverance, ao peso dos riffs de Blind e um trajeto possível pelo blues que seria ressaltado em America’s Volume Dealer. Mas enquanto isso não se concretizava, em Wiseblood o C.O.C conseguiu manter a criatividade aflorada entre riffs marcantes e andamentos empolgantes. Caso da faixa-título, dona de um refrão que a gente não sabe o motivo ou razão, mas nos lembra um pouco “Foxy Lady”, do Jimi Hendrix. Viagens à parte, há quem diga que Wiseblood é a continuidade óbvia de Deliverance, mas isso tira a individualidade de um relacionamento um pouco mais próximo que ele tem a oferecer.

“Diablo Blvd”
America’s Volume Dealer
(Sanctuary – 2000)Corrosion Of Conformity America's Volume Dealer 2Não sabemos se por um estado de criatividade generalizado ou se as coisas apontavam para o mesmo lugar, mas a segunda metade dos anos 90 conspirou para que algumas bandas produzissem seus equivalentes ao Load e Reload, do Metallica. Não que sejam discos ruins, mas ficam devendo bastante em termos criativos ao que veio antes. America’s Volume Dealer é um desses casos. Passa a impressão de ser um misto de uma tentativa radiofônica noventona com um resquício de tudo o que o C.O.C já havia produzido até aquele momento. Por exemplo, escuta a faixa “Congratulations Song”. A gente duvida que a imagem de Scott Weiland entoando “Sexy Type Thing” não venha na sua lembrança. “Stare Too Long” parece ter saído de um disco do Lynyrd Skynyrd. Entre todas elas, é em “Diablo Blvd” e na última faixa do disco, “Gittin’ It On”, que a gente aposta nossas fichas. Mas, como a ideia é escolher apenas uma, ficamos com a primeira opção.

“Paranoid Opioid”
In the Arms of God
(Sanctuary – 2005)in-the-arms-of-godIn the Arms of God tem seus grandes momentos e “Paranoid Opioid” com certeza é um deles. A menção ao Black Sabbath não fica só no nome da música; ela está também em algumas referências da linha de vocal criada por Peeper. E mesmo com tanta menção ao Black Sabbath, o C.O.C conseguiu manter sua identidade. “Paranoid Opioid” é, para nós, a melhor faixa de In the Arms of God. É daquelas músicas que surpreendem. Quando você acha que ela terminou, entra outro riff lindo e, depois desse, outro; aí vem o final, com uma levada de bateria incrível, e você solta aquele sorriso rendido, confesso e sozinho, pensando: “que música!”. Bom, não poderia existir motivo melhor para “Paranoid Opioid” estar por aqui.

“River Of Stone”
Corrosion of Conformity
(Candlelight Records – 2012)COCPode parecer improvável, mas reparem como, claro, guardadas as devidas proporções, “River Of Stone” tem certa proximidade com os últimos lançamentos do Mastodon. Principalmente na forma como Mike Dean encaixa as melodias dos vocais no refrão. Corrosion of Conformity, o disco, é um registro com o mesmo line up de Animosity: Mike Dean (baixo e vocal), Woodroe Weatherman (guitarra) e Reed Mullin (bateria). Porém, apesar do mesmo espírito cru, é mais ousado e diverso. É saudável olhar o C.O.C como duas bandas diferentes que vivem em um só corpo. De um lado, o trio que gravou o Animosity, um dos pilares do crossover. Do outro, o quarteto que gravou discos cheios daquele groove e riffs poderosos a la Black Sabbath. “River Of Stone” é cheia de charme, com um Mike por oras descompassado entoando um canto esquisito e, ao mesmo tempo, de alma inspirada. O disco homônimo também tem seus encantos e o principal deles é fazer rolar ladeira abaixo os dizeres de quem acredita que o C.O.C. é apenas crossover ou stoner. É mais que isso, e dá um imenso prazer descobrir as nuances em que eles trafegam.

“Trucker”
IX
(Candlelight Records – 2014)IXTá aí um disco de guitarra alta. A capa, as músicas, os timbres, os vocais, o som vivo da bateria. Tudo aqui parece ter reencontrado o mesmo vigor que explodia em Animosity, Deliverance e Blind. IX é um disco valvulado. Ouvindo músicas como a incrível “Trucker”, você tem a certeza de que esse é um reencontro com os riffs setentões e o groove pesado que marcou parte da carreira dos caras. Mas quando passa por “The Nectar”, você respira e conclui que IX é também um disco que acentua momentos mais acelerados, trazendo para o presente a fase crossover. Mike pode não ter o mesmo carisma da voz de Peeper, mas como a arte sempre opta por possibilidades surpreendentes, seu estilo de cantar traz um ar mais solto e despretensioso para as músicas. Dean é mais punk mesmo. Mas é ouvindo a nossa escolhida, “Trucker”, que você vai entender que nem tudo é 8 ou 80, e, nesse caso, a arte imita a vida sem qualquer tipo de constrangimento. “Trucker” é puxada por um riff altamente sabático. Lembra um pouco os tempos de Blind e enfatiza o quanto IX é um grande disco, mas como em alguns misteriosos casos da arte, não teve o reconhecimento que merecia. Talvez muitas pessoas nem tenham ouvido com a atenção que o disco merece. Perde quem se deixou engolir pela urgência dos dias de hoje. Porque IX, no mais literal dos sentidos, é um álbum, e deve recebido como tal.

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