Entrevista: Tim Bagshaw With the Dead

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Na alquimia temos por definição a mistura de elementos vindos de diferentes estados que, por meio de um processo de transmutação, resultam em novas formas. Agora, e se na música essa alquimia fosse direcionada para uma só finalidade, a de fazer algo pesado, denso, vertiginoso e envolvente?

O With the Dead é, por que não, resultado de um processo alquímico que une duas mentes das que mais vivenciam e representam o doom metal nos dias de hoje. Lee Dorrian, o cara que deixou o Napalm Death praticamente na sua melhor fase para mergulhar nas profundezas do universo sabático e montar o Cathedral. Na outra ponta, Tim Bagshaw, o cara por trás de boa parte dos riffs de uma das bandas mais representativas do metal impregnado de enxofre, o Electric Wizard. Ou seja, dois mundos que sempre viveram sob a fumaça turva embebida nas lições do Black Sabbath, Trouble e Candlemass, entre outros mestres do estilo, juntas por um único propósito: propagar ainda mais o som que emana das profundezas de um lugar que muita gente não quer nem ouvir falar, mas que outras tantas adoram manter uma relação bem próxima.

Tim, que montou o With the Dead em 2015, a princípio contava com a ajuda do baterista Mark Greening. No mesmo ano eles lançaram seu debut que, se você tem familiaridade com as bandas que citamos no primeiro parágrafo já sabe o que esperar: riffs gigantes, massivos, aqueles vocais com a marca registrada de Lee Dorrian e levadas lentas, atormentadas e suficientemente cativantes do início ao fim do álbum. Tudo soa muito instintivo e natural.

Na época de lançamento, o disco causou um certo burburinho, mas depois pouco se falou. Claro que a gente não ia deixar isso barato, então fomos conversar com Tim pra saber mais sobre o With the Dead e o seu lindo disco de estreia, que veio colocar ainda mais escuridão e tormento no doom metal atual. Bom, a música que fecha o disco leva o singelo nome de “Screams From My Own Grave” (“Gritos do Meu Próprio Caixão”). Por aí já dá pra ter uma ideia, mas é bem melhor ouvir o que o cara que criou esse universo tem a dizer, né.

Tim Bagshaw,
Tim Bagshaw

Sounds Like Us: Olá Tim, antes de mais nada, queria dizer que gostamos muito do que ouvimos do With the Dead até o momento. Como estava sua vida e o que vocês estava fazendo até o dia em que resolveram montar a banda? De quem foi e como surgiu a ideia?
Tim Bagshaw: Oi, eu estou bem, obrigado, sigo vivendo… hehe! Quanto ao nascimento do Dead… Bom, o Mark Greening me mandou um e-mail depois que ele foi “dispensado” do Electric Wizard dizendo que a gente deveria fazer um som juntos. Eu nem tinha pensado muito sobre isso até ficar sabendo que o Lee Dorrian e a Rise Above estavam interessados em se envolver. Depois de falar com Lee, eu cheguei com umas músicas e voei para a Inglaterra para ensaiar e fazer umas gravações. Foi tudo muito fácil. Pouco depois tivemos algumas diferenças pessoais com Mark e, basicamente, decidimos continuar com a banda sem ele. Aí chamamos o Leo Smee que era do Cathedral para o baixo e o Alex Thomas, do Bolt Thrower, na bateria.

Sounds: Como funcionou a parte criativa no With the Dead? As músicas são suas ou todos têm sua parcela de culpa nessa avalanche de peso criada por vocês?
Tim: Eu escrevi as músicas e fiz uma demo com oito músicas na minha casa, nos Estados Unidos. Depois as mandei pro Lee para que trabalhasse nos vocais. Depois de ensaiar essas músicas por algumas vezes, Leo e Alex vieram para adicionar suas próprias misérias a essa “avalanche”. Aí então o Lee coloca seus vocais, o que acaba resultando no horror final.

With the Dead
With the Dead

Sounds Like Us: Você e o Mark já tocaram juntos. A música que envolve vocês, incluindo também o Electric Wizard, Ramesses e o Serpentine Path, sempre soa muito orgânica e por isso acreditamos que não exista nenhum tipo de fórmula mesmo com a experiência de vocês dois por já terem tocado juntos. Sendo assim, como foi pra vocês esse processo de compor e registrar essas músicas em tão pouco tempo?
Tim: Sim, não existe mesmo nenhuma fórmula. Como eu disse, é tudo muito fácil. Eu apenas sento com a minha guitarra e os riffs aparecem. Eu tento não pensar muito sobre essas coisas e simplesmente deixar as músicas virem de forma natural. Depois de fazer isso por tantos anos eu ainda fico realmente muito surpreso que o material ainda esteja fluindo. Acho que, se você tem uma fórmula, ela tende a defini-lo e você se torna meio que estagnado e depois de um tempo isso se torna bem chato.

Sounds: O disco foi gravado ao vivo?
Tim: As baterias são captadas ao vivo, o resto é gravado “morto”.

Sounds: Nos últimos anos, o Jaime Gomez Arellano [produtor] vem acumulando bons trabalhos com bandas como Angel Witch, Ghost, o Cathedral e o último do Paradise Lost. Como foi trabalhar com ele
Tim: O Gomez é um grande cara e é realmente fácil trabalhar com ele. Ele tem um talento natural pra capturar o som, e seu conhecimento e utilização de microfones e equipamentos mais antigos são grande parte dos métodos dele para conseguir grandes timbres para o disco. Só de ouvir a gravação pura, antes de qualquer mixagem, já foi incrível.

With the Dead
With the Dead

Sounds: Você acha que o doom metal abriu um pouco o leque de uns tempos pra cá? Pergunto isso porque antes a gente tinha bandas como Samael, Cathedral e o início do Paradise Lost, por exemplo, que tinham uma sonoridade mais próxima. Hoje, dentro do doom metal, bandas como Electric Wizard, Sleep ou YOB beberam nas mesmas fontes de bandas como Black Sabbath, Candlemass ou Trouble, mas conseguiram enriquecer sua música e não soam parecidas. Onde o With the Dead entra nisso? Vocês acham que são parte de um doom mais clássico ou querem criar nuances para algo diferente?
Tim: Não sei muito bem como responder isso. Eu não acho que a gente esteja fazendo o doom metal clássico, e não acho que a gente esteja fazendo muito algo diferente de outras bandas do gênero, mas eu gosto de pensar que nós temos o nosso próprio som e nossa própria abordagem dentro da música.

Sounds: Como é ter um cara como Lee Dorrian nos vocais da sua banda? Ele sempre me pareceu muito íntegro em tudo que faz sem precisar estar necessariamente sob os holofotes. Como tem sido tocar com um dos pioneiros do doom?
Tim: Tem sido fácil trabalha com o Lee. Ele é muito descontraído, direto e não gosta de complicar demais as coisas. Quando era adolescente, ouvi o From Enslavement to Obliteration, do Napalm Death, por várias e várias vezes. Depois, quando ele formou o Cathedral, pirei em ver o quão “doomy” aquilo era. Além disso, sem o Lee, talvez o Electric Wizard não tivesse sido descoberto em um momento tão importante e as coisas poderiam ter sido bem diferente. Mas, de qualquer forma, nós seguimos sendo amigos há anos e é realmente muito bom estar em uma banda com ele.

Lee Dorrian
Lee Dorrian

Sounds: Logo que escutamos “Living With the Dead”, ficou clara a nossa vontade de escutar o disco de vocês em LP. Qual a sua relação com o vinil? Pode citar pra gente quais são os 3 que você mais escutou na vida?
Tim: Sim! Vinil é demais e estou feliz que tenha voltado em grande estilo. É bom que as pessoas estão apreciando um determinado som ou aquele “estalo” do vinil. Anos atrás eu achei que estávamos todos indo em direção a algum lugar tipo a era do mini-disc (ou pior)… credo! Eu escutei ao Trouble, Pentagram, Black Sabbath, Hawkwind, Pink Floyd e Iron Maiden. Elas foram algumas das primeiras bandas que comprei em vinil.

Sounds: Quais bandas fizeram você mergulhar fundo no doom metal?
Tim: Trouble, Pentagram, Black Sabbath, as de sempre.

Sounds: O que você acha que o With the Dead pode trazer de novo para a música pesada?
Tim: Esperemos que alguns alfinetes e agulhas, hemorragias nasais, dores de cabeça, náuseas e paralisia. Haha!

Sounds: Muito obrigado pela entrevista, Tim. A gente fica bem feliz de poder trazer suas palavras para o público brasileiro.
Tim: [ele responde em português] Obrigado! Cheers!

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