R.E.M 10 anos depois, 'Accelerate' ainda é um autêntico disco de rock

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Foi realmente interessante ficar distante do R.E.M por alguns anos. Depois de um tempo, a maturidade veio contar pra gente, em capítulos menos rígidos, o tanto que essa banda foi, é, e ainda será, por um bom tempo, algo muito importante nas nossas vidas.

Passado algum tempo, o fato é que olhar pra trás nos certifica que a college band R.E.M é uma marca com diferentes graus no percurso de muita gente.

O aveludado baixo de levada funk 70 em “Orange Crush” ainda reverbera marcante na memória, assim como a dança meio non sense do clipe de “Pop Song 89”. O “Fireeeee” no refrão de “The One I Love”, foi cantado incontáveis vezes em nossas casas quando a idade era pouca. Mais tarde, nas baladas adolescentes, transformou-se em grito quando a gente agia como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. E talvez fosse. Michael Stipe avisava isso em “It’s The End of the World as We Know It” e ele se sentia bem com isso. A gente acreditava e também se sentia bem de fato. Mesmo porque era um tempo onde um mundo acabava a cada descoberta e outro era inaugurado no segundo seguinte, com emoções inéditas.

O R.E.M foi uma das bandas que mais conseguiram dosar conteúdo e apelo radiofônico. Sempre foi fácil cantar com eles. Equilibravam a idoneidade do rock alternativo com a facilidade em falar a gramática da grande massa. Sempre foram uma máquina de cuidadosas canções, mas depois de Automatic For the People e Monster, nos distanciamos. Sem muito motivo, tomamos direções distintas. Mas o curioso é que, sem este hiato, nosso reencontro não teria sido tão bonito como o que aconteceu em Accelerate, que em 2018 completa seus 10 anos de lançamento.

Accelerate, elogiado pela crítica e não tão acolhido pelos fãs, é um álbum que tem um gás juvenil e uma retomada de uma musicalidade menos complexa por Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo) e Michael Stipe (vocal). Há guitarras altas, refrãos lindos, letras inteligentes e uma musicalidade que nunca deixou de se relacionar com a banda, mas andava meio ofuscada por experimentos mais complexos. Era hora de reencontrar a simplicidade do bom rock. Era hora de voltar ao básico.

E que nome perfeito para o momento em que a banda se encontrava. Accelerate veio depois de outros discos, digamos, mais mornos: Up, Reveal e Around the Sun. Todos gravados depois da saída do baterista original da banda, Bill Berry, substituído por Bill Rieflin, que já tinha tocado com o Ministry, Revolting Cocks, Lard. Hoje o cara acompanha o King Crimson.

Foto: Brian Rasic

Como quem parece apostar na subjetividade, “Living Well Is The Best Revenge” é um statement de uma banda compromissada apenas consigo mesma: All your sad and lost apostles / Hum my name and flare their nostrils / Choking on the bones you toss to them / Well I’m not one to sit and spin / ‘Cause living well’s the best revenge.

Na sequência temos um desfile de letras e músicas que soam bem confortáveis em seu tempo e espaço. “Man-Sized Wreath” é objetiva. Rock despido e com cara de single. Na verdade esse é um álbum que parece feito quase todo por potenciais singles. É quase impossível não cantar junto: Throw it on the fire / Throw it in the air / Kick it out / On the dance-floor / Like you just don’t care. Radiofônica, “Supernatural Superserious” tem no seu início uma pitada do mesmo rock feito em Document.

O disco também traz os momentos mais 2000 da banda e isso acontece em “Hollow Man”, para que depois dela a faixa-título entre e faça com que você aí, que passou batido por esse disco na época, questione “onde eu estava com a cabeça que em 2008 não dei a devida atenção a esse disco?”. Tudo bem, isso é passado. O que a gente quer é encher vocês de motivos para recuperar o tempo perdido e “Accelerate”, a música, é um deles.

Mas como nem tudo são flores, há também momentos medianos. Entre eles, “Houston” e “Until the Day Is Done”, com seu jeitão meio “Daysleeper”, são as que respondem por isso. Ambas fazem a ponte para te levar ao encontro com “Mr. Richards”, um personagem fictício talvez, mas que parece ser bem merecedor da mensagem real. Por isso, seja lá quem for, o tal Mr. Richards ganhou uma faixa com uma dinâmica interessantíssima.

Foto: Divulgação

O mesmo cabe a “Sing in the Submarine”, um momento quase épico, coisa que Stipe e sua turma sabem fazer tão bem. E como é gratificante ver como essa faixa cresce por volta dos 2:37. É delicioso ouvir essa explosão emocional em que o R.E.M soa realmente como uma banda de protagonismo compartilhado. É Buck, Mills e Stipe como uma banda de rock.

“Horse the Water” ainda empolga, e mesmo não sendo um primor de criatividade, traz de volta uma veia quase punk rock que não vinha pulsando tanto nos anos que precederam Accelerate.

Por fim, é preciso aplaudir a divertidíssima “I’m Gonna DJ”: If death is pretty final, I’m collected vinyl / I’m gonna DJ at the end of the world / Cos if heaven does exist with a kickin’ playlist/ I don’t want to miss it at the end of the world. É o encaixe perfeito para uma pista. É rock dançante dos bons. É também o mesmo Stipe. Criativo, sagaz e, mais uma vez, um tanto confortável e se sentindo bem com o tal fim do mundo.

O R.E.M, envolto em toda sua maturidade, olhou pra dentro e revolucionou. É o que transmite Accelerate. Um lugar onde eles deixaram as emoções simplesmente serem o que elas são num fluxo quase juvenil de descarrego criativo.

Nossa impressão é de que Accelerate é um disco gravado junto, com a banda tocando numa mesma sala, naquele clima de college band edificado pelos próprios.

Voltando a “I’m Gonna DJ”, nela Stipe confirma ser um dos melhores letristas do nosso tempo: Music will provide the light you cannot resist. Dito isso, não há motivo mais convincente pra você revisitar esse grande disco, né?

Accelerate segue sendo um belo marco na discografia do R.E.M. Um disco bom de ouvir e de ter por perto. E como fazíamos com “The One I Love”, quando ele toca, a gente não resiste e aumenta o volume.

Foto: Divulgação