Grave e Infamous Glory: 07/10 – Burning House (SP)

In Shows

Foto: Jaque Souza

Vinicius Castro

Quando as primeiras demos tapes de death metal começaram a surgir, alguns veículos enquadraram a sonoridade como algo passageiro e sem profundidade. Um equívoco dos grandes. Porque se tem algo que o death metal tem é profundidade.

Por aqui, junto com essas fitas, algumas gravações de ensaios também ganharam espaço e, pelo menos por parte do público, o death metal ganhou espaço e provocou uma identificação imediata por quem procurava por algo diferente. Fosse a gravação de um ensaio do Cannibal Corpse, um registro ao vivo do Obituary em tempos de Slowly We Rot ou a incrível Au-to-dafe, do Carbonized. Uma coisa era certa: não havia como sair ileso.

Ainda que calcado na velocidade, não era como o thrash daquela virada dos anos 80 para os 90. Não era como o grindcore, também recém chegado à época. O death metal usava das alegorias sobre uma forma de horror que, quase sempre, me parecia uma opção metafórica de relatar a face podre do ser humano. Ou seja, uma sonoridade que nasce para ser suja, grotesca, temerária, afrontosa e subterrânea na sua forma de transmitir seus temas e também em relação ao ambiente onde ela melhor se manifesta.

Ainda que as coisas fossem um tanto mais lentas, no início da década de 90 a troca de cartas e fitas era frenética. Foi nesse período que eu conheci o Grave, por meio de uma fita com a gravação da demo Anatomia Corporis Humani. Era um item raro e pouco visto por aqui. Por isso, não havia quem conseguisse tirar a fita da casa do proprietário daquela maravilha. O possível era se reunir na sala e ouvir quantas vezes desse e, depois, quem sabe, conseguir que o dono compartilhasse uma cópia da gravação.

Pouco depois veio Into the Grave, disco de estreia da banda. O Grave parecia partir de um certo rancor sustentado por uma crueza também muito particular, herança que a influência do thrash metal alemão teve sobre a banda e algo que conversava, de certa forma, com a cena de Belo Horizonte, também muito influenciada por nomes daquela região, como Destruction, Sodom e Kreator. Fiquei encantado. Lembro de, a partir de então, buscar incessantemente por bandas com aquela sonoridade.

Todo esse contexto fez com que a vinda do Grave ao Brasil, com sua formação clássica, fosse a realização de algo muito aguardado.

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Antes dos suecos, o primeiro show da noite foi do Infamous Glory, banda de São Paulo e uma das melhores do nosso death metal. Foi a escolha perfeita para dividir o palco com o Grave. Isso porque o Infamous Glory tem os pilares de sua sonoridade calcados no death metal sueco.

Foto: Rodrigo Faustino

Quando cheguei ao Burning House, o Infamous Glory já estava no palco e duas músicas já haviam sido tocadas: “Corpse Fauna”, de Algo Mortis (2024) e “Sovereign of Darkness”, do meu disco preferido deles, An Ancient Sect of Darkness (2019).

Ainda que estivessem ocupando apenas parte do palco, Coroner (vocal), Tonhão (baixo), Kexo (guitarra), Schuch (guitarra) e Gustavo (bateria) mantiveram o nível lá em cima.

Vieram então “The Last Spell”, “In the Cold Mist of Death” e “Infestation”. Vale destacar o clima de diversão entre os integrantes (algo presente no show do Grave também), deixando clara a paixão da banda pelo death metal e por tocarem juntos. Ao final, o Infamous Glory prestou sua homenagem ao death metal sueco com o cover de “Casket Garden”, clássico do Dismember.

Foto: Rodrigo Faustino

Parte da celebração ao death metal sueco estava também no merch, com a presença do Morbus Zine e a edição nacional do livro Swedish Death Metal, escrito por Daniel Ekeroth. A versão brasileira da “bíblia” do death metal sueco ganhou prensagem via Kill Again Records, Metal Brasileiro Zines (MBZ) e Morbus Zine.

O Grave subiu ao palco e confesso que a emoção foi grande. Foram 35 anos de espera e lá estava uma das melhores bandas do death metal em sua formação clássica.

Ola Lindgren (guitarra), Jörgen Sandström (baixo), Jens Paulsson (bateria) e Jonas Torndal (guitarra) transformaram uma quarta-feira aparentemente ordinária em algo extraordinário. E tudo aconteceu de uma forma muito especial, com um setlist focado nos primeiros lançamentos: Into the Grave, You’ll Never See…, Souless, o EP …And Here I Die… Satisfied e o single Tremendous Pain.

Foto: Jaque Souza

De início, cinco clássicos: “Into the Grave”, “Day of Mourning”, “Deformed” e “In Love” de Into the Grave, além de uma das minhas prediletas, “Morbid Way to Die”, do igualmente incrível You’ll Never See…. “Hating Life” e os hinos “Extreme Rotten Flesh” e “You’ll Never See…” também foram pontos de destaque, reforçando a certeza de que estávamos vendo algo histórico.

Além dos dois primeiros discos, o setlist deu uma pequena escapada com a execução de “Soulless”, faixa título do disco de mesmo nome, lançado em 1994; e “And Here I Die”, do EP …And Here I Die… Satisfied, de 1993, o que, de certa forma, foi também um presente para os fãs.

Foto: Jaque Souza

Vale destacar a execução perfeita e a brutalidade na medida com que Ola, Jörgen, Jens e Jonas compartilhavam suas composições com a gente. Os quatro pareciam se divertir conforme o show acontecia, como bons amigos e confortáveis em manter o espírito do death metal.

Jörgen conversou com o público e brincou fazendo uma relação com o Sepultura, dizendo que, para além dos nomes, os mineiros haviam sido um tanto influentes no início da carreira do Grave. O baixista e vocalista também disse de forma efusiva: “nós finalmente estamos aqui”. A gente concorda. Finalmente! A espera para ver a formação original foi longa, mas valeu demais!

Foto: Jaque Souza

Infamous Glory Setlist
Corpse Fauna
Sovereign of Darkness
The Last Spell
The Nameless One
Night Hunger
In The Cold Mist of Death
Ruthless Inferno
Infestation
Casket Garden (Dismember)

Grave Setlist
Into the Grave
Day of Mourning
Morbid Way to Die
Deformed
In Love
Hating Life
Eroded
For Your God
Soulless
Brutally Deceased
Extremely Rotten Flesh
You’ll Never See
And Here I Die