Smashing Pumpkins Mellon Collie and the Infinite Sadness

In Bandas, Discos

O maior desafio de uma obra de arte é sobreviver ao tempo e seguir relevante com o passar dos anos. O maior desafio de quem a admira é, mesmo com o passar dos anos, permitir-se emocionar com o conjunto de sensações que ela oferece.

Mellon Collie and the Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins, pode e deve sim ser chamado de obra de arte. Daquelas que de tempos em tempos revelam novas nuances, diferentes emoções e instigantes descobertas. É um disco de aspirações astronômicas, mas longe de ser um Use Your Illusion I e II, do Guns n’Roses, Mellon Collie não se apresenta como uma colcha de retalhos de ambições superlativas. É realmente um disco que, por necessidade criativa, tinha que ser lançado em formato duplo. Simples assim.

Foto: Kevin Cummins
Foto: Kevin Cummins

Diferente de alguns boatos da época, não se trata de um disco conceitual. É uma obra complementar dividida em dois atos.

O primeiro deles, sob o nome de Dawn to Dusk, abre com uma bela introdução seguida pela já clássica “Tonight, Tonight” e seu vídeo com menções a Le Voyage Dans la Lune, de Georges Méliès. Referência que também pode ser vista no filme A Invenção de Hugo Cabret, do diretor Martin Scorsese, que nesse longa prima por um tom de sensibilidade tocante, mas isso já é outra história.

Dawn to Dusk ainda traz a poderosa “Jellybelly”, os hits “Zero” e “Bullet with Butterfly Wings”, a fortíssima “Fuck You (An Ode to No One)” e a comovente “Muzzle”. Isso só para citar algumas pérolas, afinal de contas, é um disco bem conhecido do grande público e isso aqui não tem a pretensão de ser uma resenha.

Em um misto de diferentes texturas, aromas e sabores complementares, Billy Corgan e sua turma conseguiram produzir uma narrativa que nos convida a ser descoberta em diferentes níveis e perspectivas.

A apaixonante arte gráfica mostra um cuidado extremo em sua elaboração e consegue criar uma unidade entre audição e visão. É um universo tão coeso que é quase possível acreditar que ali existe vida. E por que não? O nome do responsável é John Craig, um talentosíssimo ilustrador que trabalha com colagens e carrega no seu estilo uma boa variedade de referências fantasiosas.

Smashing PumpkinsHá rumores que no disco anterior, Siamese Dream, Corgan haveria gravado todas as partes de baixo e guitarra. Já em Mellon Collie, o Smashing Pumpkins age como uma banda no ponto mais alto de sua parábola criativa. É um disco forjado, em sua maioria, sob longas jam sessions supervisionadas pelos produtores Flood e Alan Moulder. Isso explica o clima pungente que domina toda a órbita em que o disco configura.

Twilight to Starlight, nome escolhido para dar vida ao segundo ato, é mais, digamos, pesado. Sabe-se que Corgan é um grande fã de algumas bandas de metal e isso parece ter refletido de maneira positiva nas músicas.

Twilight abre com “Where Boys Fear to Tread” e um riff que faria qualquer banda de sludge modernoso repensar o rótulo antes de vender isso no release. “Bodies”, não menos pesada, traz Corgan bradando aos gritos love is suicide entre os versos. Em seguida vem a apaixonante “Thirty-Three”. Delicada e de aura quase inocente, é uma das músicas mais belas de toda carreira do Smashing Pumpkins.

Dentro desse espectro, Twilight to Starlight ainda tem o mega hit “1979”, uma música que soa como trilha sonora para boas lembranças de colégio e que, talvez por isso, se mostre cada vez mais nostálgica. “XYU” (nome em homenagem à “XYZ” do Rush? Billy Corgan é fã da banda. Será?) tem um peso poderoso, cheio de fúria fuzz incontrolável. Ao final, para coroar, ainda somos agraciados com a psicotrópica “By Starlight”.

Um fator interessante é que, em todo universo criado em volta de Mellon Collie, vale fazer o exercício de selecionar aleatoriamente cinco músicas. Você vai ver que, independentemente de quais escolher, terá sempre cinco ótimos singles.

Mesmo que a maioria das pessoas tenha desenvolvido seu relacionamento afetivo com Mellon Collie durante a adolescência, ele ainda é um disco que se comunica de diferentes formas com pessoas de 15, 30 ou 40 anos. E quando Corgan canta believe in me em “Tonight, Tonight”, não importa a idade, você não tem muito pra onde escapar. Resta acreditar.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Pode parecer uma egotrip de Mr. Corgan e talvez até caiba a comparação com grandes clássicos duplos como Physical Graffiti (Led Zeppelin), The Wall (Pink Floyd) ou outros lançamentos magnânimos. Mas a parte mais bonita de toda essa história é acompanhar a trajetória desse álbum sendo escrita em tempo real, com beleza única, cometendo deslizes e conquistando aquela maturidade que facilita o trato com alguns percalços e o mantém centrado em compreender os finais e aproveitar os novos começos.

Mellon Collie, em toda sua grandeza e amarração, é um olhar telescópico em direção à lua que ainda nos traz de presente o sol e as estrelas. Afinal, é disso que se trata, e um não vive sem o outro.

Mellon Collie and the Infinite Sadness
Mellon Collie and the Infinite Sadness