Sounds Like 90’s Ground Floor

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Cinco amigos e conversas INTERMINÁVEIS sobre bandas e discos. Intermináveis mesmo, do tipo que se começa um assunto no primeiro ano de faculdade e só depois do quarto ano vem a pergunta mágica “vamo ensaiar?”. Intermináveis porque essas conversas já se estendem por muito mais de dez anos. Mas agora, elas têm ainda mais assuntos, alimentados pelas memórias, pela convivência, pela saudade e pelo saldo de tropeços e aprendizados típicos de uma grande amizade.

Foi também em uma conversa que os cinco membros da banda paulistana Ground Floor contaram para o Sounds Like Us suas várias e incríveis versões sobre a banda. Uma experiência riquíssima pro meu imaginário, já que não tive a chance de ver o GF em atividade. Eu, Amanda, já tinha na bagagem as animadas e empolgantes lembranças compartilhadas pelo Vina e os amigos que ele generosamente trouxe para minha vida. Ao ouvir os cinco falando – Vina, Daniela, Fernando, Neto e Rafael, ficou bem claro: foram falar de música, e acabaram vivendo ela em tudo que fazem.

Essa é a gênese e também a memória do Ground Floor, aqui documentada em uma entrevista bastante informal. Entre uma risada e outra, histórias de covers tocados despretensiosamente e que foram dando origem a composições bastante próprias. Pedaços de gostos pessoais que, juntos, foram definindo uma sonoridade – pesada e melódica. Relatos de shows em que o público cantava todas as letras junto com a dupla de vocalistas, Daniela e Fernando. CD-Rs gravados na surdina, e empacotados pela turma de amigos. Os ensaios religiosamente frequentados porque eram só uma desculpa pros amigos se verem. O tal do new metal. O flerte com o sucesso. Os momentos de crise e os descompassos naturais da vida.

Entre mudanças de vida e permanências, esta é uma história de encontros reafirmados com o tempo.

Sounds Like Us: Como surgiu o Ground Floor? Como vocês se juntaram?
Neto: Começou na faculdade.
Vina: Eu e o Fernando temos uma longa história musical. A gente estudou junto no primeiro colegial e, depois disso, tivemos duas bandas: o Band-Ayd, por volta de 96 ou 97, e o Mass Control, que é antes disso e era mais metal. Em 94 ou 95, talvez, não lembro direito. E a gente sempre se deu muito bem nas bandas. Aí veio a época de faculdade e eu tava sem banda. Eles já tinham o Ground Floor. Eu lembro direitinho. O Fe foi em casa, não lembro o motivo, e ele tava com a fita que tinha um ensaio da banda gravado. Eu ouvi e na hora foi tipo “porra, quero tocar nessa banda!”. Primeiro porque a gente era amigo e isso sempre foi prioridade. Segundo porque a música era muito boa e muito atual para a época.


Neto: O Band-Ayd eu fiz teste pra entrar [risos].
Fernando: É verdade, Netão.
Neto: Lá na casa do seu pai. Aí a gente tocou Biohazard. A gente foi tocar uma música que era da fita de vocês, não lembro o nome…
Vina: “Comboio”.
Neto: Isso. Aí não rolou [risos]. Eu toquei bem o cover, mas a música que tinha que tocar bem eu não toquei [risos].
Neto: Eu, o Rafael e o Fe éramos da mesma sala na faculdade. A Dani a gente via direto também porque era a mina do Fe. Teve um dia de que eu lembro certinho. A gente era amigo e, num trampo da faculdade, coloquei Korn de trilha sonora. O Fe veio e “caralho, mano, você gosta de Korn, eu gosto também!”. Aí a gente trocou mó ideia.

Sounds: Consegue lembrar o que você botou do Korn?
Neto: Era a primeira música do Life is Peachy (96), a “Adidas”, sei lá, era alguma desse disco porque ele tinha acabado de ser lançado. Aí veio papo de Deftones e fomos ficando mais amigo. Ele era mais amigo do Rafael, com quem fui ter amizade só depois. O Fe disse que queria montar uma banda e eu tocava bateria e guitarra, mas ele precisava de um baixista. Nunca fui baixista, mas fui tocar com os caras. Aí ele falou “a Dani vai cantar e o Rafael vai tocar bateria, bora?”. Eu falei “bora!”.
Rafael: Pra mim, o mais legal é que a gente passou quatro anos na faculdade trocando ideia sobre música, mas nunca ninguém falou em ensaiar.

Sounds: Foram quatro anos de aquecimento.
Rafael: Sério, só falando de música.
Neto: O primeiro ensaio eu não fui [risos].
Rafael: A Dani também não.
Daniela: Claro que eu fui. Foi na Cardeal Arcoverde.
Vina: Depois vocês ensaiavam na igreja, lembra? Do Calvário.
Neto: Tinha alguma coisa a ver com o cara do Virgulóides, acho.


Sounds: Mas por que não teve quórum no primeiro ensaio? O que aconteceu?
Rafael: Acho que o Neto não pôde ir. O legal, e o difícil, é que a gente não tinha nenhum repertório. Uma das coisas que decidimos foi que cada um poderia escolher uma música, escutar e tocar.

Sounds: Quais foram as escolhidas?
Rafael: Eu escolhi uma do Farside.
Fernando: Nossa, eu não lembro disso também [risos].
Neto: Eu lembro que a gente tocava até um som do Californication, do Red Hot Chilli Peppers. Disso surgiu mais intimidade e as composições começaram a sair.
Daniela: Desde o começo a gente não queria fazer cover. A gente queria fazer música própria.
Neto: De 99 pra 2000, a gente foi passar o fim do ano em uma casa lá em Boiçucanga. O Fe levou umas bases, outras a gente fez juntos e saímos de lá com umas sete músicas, quase o disco inteiro.
Fernando: Cantava no embromation [risos].
Daniela: E o nosso turno era diferente do seu, né.


Sounds: O que é isso de turno?
Rafael: A praia tinha dois horários. Pessoas que acordavam duas horas da tarde e as outras, cedo, então, não se encontravam pra compoooor [risos].
Daniela: Tinha quem acordava cedo pra ir pra praia, que era eu e o Fernando. E o Neto era da turma que acordava tarde.
Fernando: Era tipo O Feitiço de Áquila, e como eu tinha insônia, encontrava com o Neto e com o pessoal da turno mais cedo.
Neto: Ficamos uns dez dias lá.

Sounds: Foi um Big Brother Ground Floor então. E quando o Vina entra?
Neto: 2002. A gente fez um ensaio naquele estúdio que fica do lado do Cão Véio, lá na João Moura, e não tinha Vina ainda. Ele entra quando a gente foi ensaiar no Tadeu.
Vina: Eu ensaio já no MK e no Tadeu.
Fernando: Eu lembro que a gente já tinha algumas músicas e pintou um show no Hangar 110. Era a gente, o Seven I Lie, Paura…
Rafael: E o João Gordo ia estar lá, fazendo sei lá o que.
Vina: Foi Paura, Unfashion, Seven I Lie e o Ground Floor.


Sounds: Tem o ano?
Neto: Acho que foi 2001.
Fernando: A gente tocou e foi uma catástrofe. Eu falei pra eles “cara, precisa de um guitarrista de verdade nessa porra” [risos]. Aí eu chamei o Vina pra tocar com a gente.

Sounds: Esse foi o primeiro show da vida do Ground Floor?
Fernando: Foi.
Neto: A gente teve mó sorte, nosso primeiro show foi no Hangar.
Vina: E era o auge do lugar, né.
Neto: O Hangar era recente. O primeiro show que teve lá foi do CPM 22 e isso foi um ano antes de a gente tocar lá. Não bombava muito ainda.
Fernando: Bombava sim, todo mundo queria tocar lá. Eu queria tocar lá. Naquela época eram poucos os lugares pra tocar e lá era o único lugar pra uma banda underground ir, se sentir respeitada e conseguir mostrar o som do jeito que deve ser mostrado, sabe.


Neto: O Black Jack também.
Vina: Isso, em Santo Amaro.
Fernando: Era o CBGB de São Paulo.

Sounds: E o som do Ground Floor, como era?
Vina: No lance de som, eu achava o Ground Floor foda. Porque o que eu e o Fe fazíamos antes, na época do Band-Ayd, já era bem contemporâneo.

Sounds: E sem internet, né?
Vina: É, tava chegando, mas a gente não tinha em casa. Eu lembro que só o Marcão tinha internet [vocalista do Band-Ayd] e a gente ia lá e baixava umas coisas do Napster, Audiogalaxy, e levava umas revistas Kerrang. No Band-Ayd a gente já tocava cover de Deftones, por exemplo. Isso é meio dos anos 90. A gente não copiava, mas vinha fazendo o que tava rolando lá fora. Era rap com hardcore. O Ground Floor foi um novo encontro de pessoas que também pensavam assim e que queriam fazer coisa nova e que fosse o som que a gente gostaria de escutar. Era um som mais pro alternativo.

Sounds: Quando as pessoas iam divulgar vocês, como elas se referiam ao Ground Floor?
Vina: New metal.


Sounds: E vocês ficavam confortáveis quanto a isso?
Vina: A gente nunca se abalou.
Fernando: Ah mano, eu sempre gostei de new metal.
Vina: É, a gente não renega, mas a gente não tava fazendo aquele new metal Adidas, Staind, Korn. A gente caía mais pro lado do Deftones, FAR, GlassJaw, At the Drive In. Lembro que a primeira vez que eu ouvi o At the Drive In foi quando o Arthur, que era o outro vocal do Band-Ayd, me mostrou numa fita. Eu pirei naquilo. E essas bandas faziam um som mais alternativo, até mais emo, mas que também eram bandas colocadas no balaio do new metal. O Fe fazia uns acordes mais emo mesmo, mais abertos.
Fernando: Foo Fighters do começo.
Vina: É, a gente ouviu muito os dois primeiros discos.
Fernando: Coisas nacionais também. Planet Hemp, Los Hermanos, Raimundos. Eu gosto disso até hoje.

Sounds: Ainda no lance new metal, na época rolou algum tipo de preconceito por isso?
Vina: Se rolou foi velado. Mas também, acho que a galera foi ter vergonha disso só um tempo depois, quando era feio dizer que fez parte daquilo. A gente nunca se colocou assim.

Sounds: Porque tem muita gente que hoje acha legal dizer que Korn era horrível e renega o new metal.
Neto: Hoje, o Korn é ruim.
Vina: Cara, a gente tava na ativa quando todo o boom aconteceu. Pra mim é legal ter visto mais um movimento nascer. Aquilo foi gigante.
Rafael: Tinha um lance engraçado porque sempre parecia que a gente tava no lugar errado, fazendo o que a gente queria fazer.
Fernando: Isso é verdade, a gente tocava com um monte de banda que não tinham a ver com a gente, mas, por algum motivo, aquilo dava certo.
Fernando: O show do Magic Bus foi legal.


Sounds: E vocês ensaiavam muito?
Neto: Uma vez por semana. No Fabião, lá no Tatuapé.
Vina: Eu morava lá. Todos eles saíam da Zona Oeste pra ir láaaaa pra Zona Leste ensaiar.
Fernando: Aliás, tem que ser dito, o Fabião foi muito importante pro Ground Floor.
Vina: Ele trabalhava no estúdio, era produtor, tinha trampado com o Velhas Virgens, tocou guitarra com a Rita Lee e gostava do nosso som. Virou nosso amigo mesmo.
Daniela: Nosso primeiro CD nós gravamos com ele.
Vina: O que eu achava foda disso é que ninguém media esforços pra ir ensaiar.
Neto: Era sagrado. Todo sábado. E o Fabião entrou no espírito. A gente tomava uma breja com ele antes e depois de ensaiar.

Sounds: E vocês tinham pretensão de que alguma coisa acontecesse com a banda?
Vina: Eu acho que pelo som que a gente fazia poderia rolar, mas não era o que vinha antes. Com o Costanza isso foi mais forte.
Fernando: Ah, eu tinha, cara.
Rafael: Vocês não lembram? A gente passou por um fuzuê [risos]. Um cara que gravava umas bandas de metal, era da Sum Records.
Fernando: A gente passou um mês achando que ia ser famoso [risos].
Rafael: Eu lembro de quando eu recebi uma ligação desse cara, eu tava no ônibus, na Pompeia.
Neto: O cara chegou até a te mandar um contrato, lembra?

Sounds: Mas como que foi? Ele colou em algum show de vocês?
Rafael: Caçador de talentos mesmo. Ele era da Sum Records e tinha mais uns quatro caras igual a ele. Eu acho que ele viu um show nosso.

Sounds: O que aconteceu nesse um mês em que vocês acharam que seriam famosos?
Fernando: Ah, a gente só ficou feliz mesmo.
Vina: Com o Costanza, eu tenho um pouco a impressão de que a gente quis chegar nesse sucesso. A gente mudou e começou a cantar em português, tirou um pouco o pé da distorção nas guitarras.


Sounds: Mas com o Ground Floor vocês conseguiram um pouco isso.
Daniela: Gente, não tinha letras do Ground Floor em nenhum lugar. A gente ia fazer show, as pessoas cantavam todas as músicas.
Fernando: E a Dani tinha medo [risos].
Daniela: É, eu tinha medo.
Neto: O Vina deixou umas 100 cópias do CD do Ground Floor na Galeria do Rock e vendeu tudo em uma semana.
Vina: Para a época, vender 100 CDs em uma semana era foda.
Daniela: Aí ligaram pedindo mais CDs.
Vina: E a gente saiu na Playboy [risos].

Fernando: A história do CD é legal. A gente fez a arte – eu e a Dani trabalhávamos numa agência. O produtor gráfico de lá viu a arte, gostou e fez a capa pra gente de graça. Aí eu e a Dani fomos em um fim de semana lá para a agência, ligamos todos os computadores e fizemos uma linha de produção pra fazer várias cópias do CD [risos]. Deixava gravando em todos os computadores, voltava, tirava e já colocava outros pra gravar. Passamos a tarde fazendo isso.
Daniela: A gente tomou uma bronca na segunda feira [risos].
Fernando: Rolou um e-mail “algumas pessoas vieram no fim de semana aí, usaram os computadores pra gravar e não pode fazer isso…” [risos]. Depois a gente foi na nossa casa com uma galera. Tava o Tércio, o CV, Marcão, e fizemos os adesivinhos da bolacha, que ia colada no próprio CD. Aí fizemos outra linha de produção pra colar e colocar na capinha.

Neto: O Ground Floor eram cinco pessoas, mas todos os amigos eram meio que da banda. Todo mundo participava. Sobre esse lance de sucesso, é engraçado, eu e o Fe estávamos fumando um cigarro lá no Cervejazul, foi o primeiro contato de fã que a gente viveu, acho. Passou um moleque olhando pra nós e eu falei “mano, o cara tá olhando demais pra gente” [risos]. Quando a gente olhou, ele tinha pintado na mochila o logo da banda feito com Liquid Paper [risos]. E a gente “caralho, o moleque tem o logo da banda pintado na mochila!!!”. Do lado do palco tinha um logo nosso desenhado na parede também.
Fernando: Uma vez eu tava saindo do trampo pra ir almoçar, veio um moleque correndo do Pão de Açúcar: “veeelho, você é do Ground Floor, né?”. E eu  respondi “sou”. Ele disse “eu curto sua banda” e saiu correndo de volta pro trabalho [risos].
Daniela: Teve uma vez, no SWU, show do Pixies, eu e o Fernando abraçadinhos vendo o show, e um cara veio, parou na nossa frente e perguntou se a gente era do Ground Floor. Aí ele falou “porra, do caralho, adorava a banda, eu ia em todos os shows de vocês”. Isso em 2010, acho.

Sounds: Vocês têm uma suspeita de onde que veio esse reconhecimento?
Vina: Eu só me dei conta quando um amigo, o Cleiton, que tocava no MR-8, e o Fabrício (Cu Metal) disseram que tinha um fórum de new metal e que a galera tava falando da nossa banda. Eu nem sabia o que era fórum [risos]. Depois a gente foi tocar no festival Midiacaos, em Guarulhos, que foi o meu primeiro show. Tocou Ban This, da Argentina, e o Shunning Scars.
Neto: Nesse show mó galera já conhecia a gente.
Fernando: Rolou o sorteio do CD que a gente tinha acabado de lançar. Foi foda. Eu falei “quem agitar mais vai ganhar nosso CD”. O Neto tava loucão, tinha tomado várias brejas e logo que terminei de falar isso, ele tomou o microfone da minha mão e “não, mano, quem vai ganhar é esse mano aqui” [risos]. Acabou com o sorteio [risos]. Tinha um cara sangrando, acho que o Neto ficou com dó e deu o CD pra ele.

Fernando: Era interessante porque nosso som era pesado, mas não era ogro. Só que a gente sempre tocava com umas bandas mais pesadas.
Vina: A gente era bem na nossa no palco, meio parado até. Não tinha aquele lance de ficar pulando.
Neto: No show do Hangar eu não olhei pra frente.
Daniela: Eu tremia.
Fernando: Era uma festa meio de Halloween.
Rafael: A gente era a primeira banda, não tinha muito público ainda.
Fernando: Eu sempre fui fiel ao que eu gostava, mas eu queria fazer sucesso porque cada vez que eu fazia um som no meu quarto, eu imaginava “nossa, essa base a galera vai pirar”. Eu pensava na reação das pessoas.
Vina: Sucesso é fazer o que você gosta e a gente gostava do que a gente fazia.

Sounds: Quantos shows o Ground Floor fez?
Neto: Vish, foram vários.
Fernando: Teve fim de semana em que a gente fez três shows. Um em um estúdio na Teodoro com o Pagedown e o Are you God?, outro no Tribe House e um no Central das Artes.
Neto: Foi um na sexta e dois no sábado.
Rafael: Foi quanto, uns 40 shows?
Vina: Sem internet, sem letras no CD, a gente era mó ruim de se auto promover e, mesmo assim, aconteceram umas coisas bem legais que eu nem sei de onde vieram. E tudo de forma intensa, mas em um curto espaço de tempo.
Neto: Além de SP, tocamos em Guarulhos, Santos, Jacareí…
Vina: Verdade, nesse de Santos tocou na rádio de lá [risos].
Neto: Tocou na rádio de Osvaldo Cruz, veio.

Fernando: O João Gordo tinha um programa na 89 FM e tocou um som nosso, “Oh My Life”. Aí ele falou “a banda até que é legalzinha, mas os vocais desafinam pra caralho” [risos].
Rafael: Nesse show de Jacareí, o palco tinha o pé direito triplo, de cimento, e as pessoas viam o show com o pescoço em 90 graus.
Fernando: E sempre rolava aquele lance de dividir os amplificadores e tal. Nesse show, falaram pra gente não levar nada. Chegamos lá e não tinha ampli, mano. Uma das bandas tinha tipo um [amplificador] Mesa Boogie. Eu vi aquilo e pensei “beleeeeza, vou tocar num Mesa Boogie”. Só que os caras não quiseram emprestar pra gente. Eu lembro que tocamos com a guitarra limpa.
Vina: Nesse show o Pagedown foi pra tocar e não rolou. Aí eles botaram o CD e deixaram rolando. O show foi o CD dos caras.

Sounds: E toda essa história não teve nenhum apadrinhamento, nem nada?
Fernando: Não, cara. Existia uma ceninha. Todo mundo chamava todo mundo pra tocar, sabe.
Vina: É, a gente sempre tocava com o Pagedown, o EDC, mas não tinha apadrinhamento.

Sounds: E rolava cachê?
Neto: Nada. Isso rolou umas duas vezes só. Acho que no Kool Metal, que foi bem foda esse show. A gente tinha tocado no Tribe House uns dois meses antes.
Fernando: Pra cinco pessoas.
Neto: Nada, duas pessoas e as bandas [risos]. Aí, dois meses depois, chamaram a gente pra tocar lá numa sexta feira e a gente “caralho, e agora, né”. No dia do show, quando a gente saiu ali da Sumaré e entrou na Henrique Schauman, tinha um mar de gente.
Fernando: Tinha o Itsari e o Are You God? nesse dia também.
Vina: A gente arregaçou nesse show. Era muita gente.


Fernando: Eu ganhei uma camiseta nesse dia. Um cara fez na mão uma camiseta com a capa do disco e o logo. Eu tenho ela guardada até hoje.
Rafael: A gente filmou esse show. Uma hora a Vivian (mulher do Neto) filmou um cara, na frente do palco, cantando junto todas as músicas. Foi um lance assustador.
Vina: Emocionado e com a mãozinha pro alto.
Fernando: Ele tava com o olho pintado de preto e a maquiagem derretendo.
Vina: Esse show tava lotado. Tinha mais do que 500 pessoas fácil, fácil.

Sounds: Qual a lembrança de cada um de vocês? O que foi mais foda?
Rafael: Pra mim, foi musicalmente. Eu toquei hardcore californiano por muito tempo e o Fe começou a fazer umas bases; isso foi fazendo com que eu fosse mudando meu estilo de tocar. Todo mundo se desenvolveu musicalmente. Mas eu, quando tive contato com outras pessoas que me viram tocar antes e depois da banda, ouvia “mano, você é outro baterista”.
Fernando: E você trouxe um monte de coisa pra banda. O Rafael pensa de um jeito bizarro pra tudo, não só pra música [risos].
Vina: Eu acho que a gente absorveu tanto quanto você.


Sounds: Você está no Arquivoooo Confidenciaaaal [risos]
Daniela: Eu tava vendo uns vídeos do youtube que o Vina mandou pra gente e pensei “o Rafael toca bem, né”. [risos]
Vina: Nenhum de nós era uns puta músico foda. Era a gente se desenvolvendo junto, e isso é coisa de amigo. Por isso era mais que só a banda. Tanto que a gente se vê até hoje.
Neto: Na real, acho que a herança do Ground Floor não é nem o musical, mas a galera. A gente era amigo de faculdade e, mais que musicalmente, a gente se desenvolveu familiarmente.
Dani: Meu, a gente nunca brigou.
Vina: O Fe morava na ZL e aí ele foi fazer Mackenzie e eu conheci o Neto, o Cotrim e uma galera por causa disso. Lembro até hoje o Fe dizendo “meu, você precisa conhecer o Neto, mano”. Sabe, virou família mesmo e é assim há sei lá, vinte anos.

Rafael: A gente queria se encontrar e tinha a satisfação de ter a música no meio desses encontros.
Fernando: Ah mano, eu lembro muito pouco dos shows, mas lembro de todos os encontros depois de ensaio.
Dani: A gente ia pra minha casa ou pra do Neto.

Rafael: Mesmo em épocas mais sinistras, na época que gravamos o Costanza [banda que sucedeu o Ground Floor, com letras em português], todo mundo se esforçou pra fazer um lance profissa mesmo. Rolou uma exigência de todo mundo, mas a gente se respeitou muito. Depois o Fe até falou que a gente precisava dar um tempo, dar uma relaxada e foi meio natural pra todo mundo. A gente gravou, continuava se vendo mas o Costanza parou.
Dani: Acho que todo mundo tava a fim de tocar outro som, ouvindo outras coisas que não eram mais aquilo que a gente fez.
Vina: Eu tenho um pouco a impressão de que a gente gravou um lance que não era nosso.


Sounds: É como se fosse vocês só que em outra época?
Neto: Acho que não. Eu acho que não é um disco nosso, mesmo. No Ground Floor a gente ouvia muito as mesmas coisas e fazia o som que a gente queria fazer de fato. E aí no Costanza, eu não tinha o mesmo tesão que eu tinha no Ground Floor. É legal e tal.
Vina: Eu acho que a gente teve uma visão de profissionalismo que não era aquilo. Sabe essas maldições do segundo disco [risos]?
Neto: No Costanza é tudo muito mais trabalhado.
Dani: A gente cresceu, né.
Vina: E foi legal passar por isso.
Fernando: Eu gosto daquele disco.

Vina: Ele é legal, mas é uma época em que a gente almejou uma coisa que quando a gente teve, não conseguiu dominar. As letras são boas, linhas de composição também, mas acho que a gente quis crescer mais do que a gente realmente tava crescendo.

Sounds: Vocês acham que no Costanza a banda perdeu um pouco a espontaneidade que tinha no Ground Floor?
Fernando: Não é tão espontâneo mesmo.
Neto: Acho que o problema é que a gente não testou o Costanza. Porque muita gente gostou e a gente não foi pra rua quando mó galera queria ouvir.
Rafael: O Ground Floor foi evoluindo. A gente tinha várias sensações que diziam “ó, vai rolar, vai rolar”. No Costanza a gente largou tudo e focou só no CD.
Vina: A gente nunca se cobrou como banda, mas individualmente, no Costanza, rolou uma cobrança, e a gente queria dar mais um passo que eu não sei se era o momento de dar. E a gente não fez shows


Sounds: Mas vocês não queriam?
Vina: A gente queria, mas não sei e foi tão natural…
Rafael: A gente virou uma banda de estúdio, cara.
Fernando: Eu me cobrei pra caralho.
Daniela: Ninguém tava com tesão de tocar, tava em outra.
Vina: Acho que para o Fe e a Dani, a cobrança era maior. Letras em português e tudo mais, não é fácil. O som mudou também, não era só letra.
Fernando: Mas tinha um motivo, você lembra? A gente achava que o peso das guitarras não combinavam com vocal em português e aí tiramos um pouco o peso pra funcionar melhor. E pensando hoje, foi uma decisão errada. A gente poderia ter trazido mais guitarras na masterização, mas acabamos nem masterizando. Pra mim foi muito estressante.

Vina: A gente murchou. Todos juntos e sem perceber, bem naturalmente.
Rafael: O Fe e a Dani fizeram aulas de vocal.
Vina: Mas é isso. A gente entrou na nóia do vocal afinado, das letras em português, das métricas e tudo mais. Era nóia pra todo lado.
Fernando: É, isso foi errado, cara.
Dani: Nas gravações de vocal, só ia eu e o Fernando pra gravar.
Neto: Exato, cadê a banda?
Dani: Ninguém ia. Aí terminamos de gravar o vocal e depois ninguém queria fazer show.
Fernando: Eu escuto o disco hoje e eu gosto, cara. E na época eu tava passando por umas coisas meio estranhas. Eu escuto o álbum hoje e me faz lembrar muito do que eu passei. Tinha muito na música, nas letras.

Sounds: Talvez tenha sido um disco pra expurgar demônios e deixar ali mesmo.
Vina: É uma boa leitura.
Fernando: Tinha uma música que chamava “Desespero”, velho. Era isso!
Rafael: A gente tava ouvindo muito Queens of the Stone Age nessa época. Bastante.
Fernando: Depois do Costanza a gente ficou um tempão sem tocar.

Sounds: Quanto tempo?
Vina: Não sei, mas acho que foi na época que eu montei o Huey.
Daniela: Foi antes do Huey. Vocês tão falando dessa parada só que não lembro disso porque a gente continuava se vendo.
Vina: Aí tem a terceira banda da mesma banda [risos].
Rafael: É, a gente volta, compõe mais um disco e aí ficamos sabendo que eles iam viajar.
Vina: Gravamos essas músicas no estúdio Papiris, aqui em SP. Ou seja, tem um disco inteiro de inéditas ainda que não foi lançado.


Sounds: Pra vocês, qual a música que mais representa o Ground Floor?
Vina: Acho que pra mim é a “Litany”.
Rafael: Eu gostava mais de “Oh My Life” porque lembrava mais as bandas que eu ouvia. Umas eram mais divertidas do que outras pra tocar.
Daniela: Eu gostava de cantar “Oh My Life” também.
Rafael: No Costanza tinha o “Para os que Estão Sós”, “Atamar e a Janela”.
Neto: “Oh My Life”, porque o pessoal pirava nela no show.
Fernando: É, “Oh My Life” é a que mais representa.
Vina: O Fe lembrou de um lance, que na época não era muito comum ter vocal feminino nesse tipo de som e a gente tinha dois vocalistas.
Rafael: Eu adorava quando eles dobravam, como chama isso mesmo?
Neto: Isso se chama Alice in Chains, cara [risos].
Vina: Tem isso na “Bounce” e é foda mesmo.
Fernando: Aqui no set list do Kool Metal, tem uma música sem nome. A gente chamava de semi nova que depois chamamos de “Bye”. Foi a última música que a gente gravou em estúdio.

Sounds: Olha, já tinha um rito aí, hein?
Rafael: E ninguém sabe onde tá. Ninguém tem.
Daniela: Como assim? Eu devo ter em algum lugar.
Fernando: Não Daniela, vamos manter a lenda [risos].

Sounds: Quando e por qual motivo a banda acabou?
Neto: Quando o Fe e a Dani foram morar em Miami, em 2013.
Vina: A gente nunca acabou.

Sounds: É um hiato eterno?
Neto: É, quase três anos, vai.
Daniela: Setembro de 2013.
Neto: Agosto, acho. Em setembro a gente não tocou.
Rafael: É que teve o Ground Floor lá de dois mil e cacetada, depois virou Costanza. Depois a gente deu um tempo e voltamos a fazer músicas novas de novo como Ground Floor.
Vina: Mas é tudo a mesma formação.
Neto: Antes do Costanza, a gente ficou um tempo sem banda. Teve o Ground Floor por seis anos ou até mais porque tiveram shows em 2003 e 2004. A gente começou em 99, aí foram os anos de Ground Floor, ficamos uns dois anos parados e gravamos o Costanza em 2006 com o Henrique (baterista do Project 46).
Daniela: Mas não foi paraaado.
Neto: A gente ficou um ano sem tocar.
Fernando: Nossa, eu não lembro disso [risos]. Mas a gente ficou parado ou fazendo música?
Neto: Ficou parado mesmo.


Daniela: Mas paramos por que?
Neto: Por causa do Fe.
Fernando: Tudo é por minha causa, velho [risos].
Neto: Você não tava bem.
Rafael: Você tava compondo.
Neto: Depois desse tempo a gente voltoooou e aí foi tipo “ah, desencana do Ground Floor”.
Daniela: E a gente decidiu cantar em português.
Fernando: A gente gravou um disco de onze músicas em português. A gente chegou a fazer show?
Vina: Fizemos. Um no Black Jack.
Fernando: Foi um disco que a gente gravou, não masterizou, não mixou e não lançou.
Rafael: E é bom!