Sounds Like 90’s Stand Of Living

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Fotos: Sounds Like Us e Arquivo Pessoal


O Sounds Like 90’s segue retomando o ambiente das boas histórias, bons papos e linhas leves com as bandas que a gente viu, ouviu e que de alguma forma fizeram parte da nossa história durante a tão rica década de 90. Nesse segundo capítulo da série, a gente foi trocar uma ideia com o Stand Of Living, banda que tem em sua formação Marcelo Papa (guitarra) e Helder (bateria), guitarrista e baterista do Bandanos, banda de crossover bem atuante do cenário underground, e o vocalista André Mesquita, que depois do Stand Of Living montou o Dissentiment e o Eulalia, participa do coletivo que organiza as Verduradas e recentemente lançou o livro Esperar não é saber.

Quem conviveu de perto sabe, o hardcore sempre foi mais do que uma subdivisão dentro da música. Bandas, público, publicações, tudo sempre circula dentro da mesma órbita e faz parte do mesmo universo. Com o Stand Of Living não foi diferente. Mesmo com pouco tempo de existência foi uma banda bem ativa durante a segunda metade dos anos 90. Quem viu ao vivo guardou em algum canto da memória as apresentações viscerais e cheias de energia que causavam um espanto curioso no público. Quem não teve a chance de ver, a gente convida para essa viagem no tempo regada a riffs rápidos e alguns berros que buscavam o equilíbrio entre a expressão sentimental e o posicionamento político nos corações insatisfeitos e questionadores, com músicas que encaixam perfeitamente dentro da honestidade que alimenta a boa e velha cartilha do espírito hardcore. Boa viagem!

Sounds Like Us: (risos) Tá valendo, vai. Por que vocês acham que eram uma banda fora da cena?
Marcelo Papa: Porque a gente era moleque, não tinha conhecimento e rolava até um tipo de antipatia de uma galera que a gente conhecia. Lembro que o Dedé [André] me levou numa Verdurada em 96 ou 97. Cara, tocou Street Bulldogs, Dead Fish talvez, Mukeka Di Rato. A gente colou e ele [André] já tava lá desde 93, então conhecia todo mundo. Quando a gente ia, era um bagulho esquisito, a gente era recepcionado estranhamente. O cara falava “pô, quem é esse cara?”. A impressão era de que a gente não era bem-vindo. Então aquilo criou meio que uma parede.

Com o passar dos anos você vai conhecendo todo mundo e vê que não é bem assim. Mas naquela época era muito fechada a coisa, então só colava amigo de amigo. O André era meu amigo e falou “você tem que ir nisso. Você gosta dessas bandas, tem que colar nesse lugar, é tudo em português e quando é em inglês é traduzido. Tem fanzine, demo”. Meu, a hora que eu fui naquilo eu falei CARALHO, o que eu tava fazendo, pagando pau pra clipe e para as bandas grandes. Aí que eu fui entender o que era o hardcore, o punk e o straight edge em si. Eu me tornei SxE por causa dele e sou até hoje. Talvez por causa dele que virei tudo que eu sou até hoje, entendeu?


Sounds: Você tinha noção do que era o SxE ou você conheceu lá?
Papa: Tinha, mas a gente aloprava “ahh Dedé, só come mato nessa porra”.
André: Não faz sexo [risos].
Papa: É, “só faz sexo com amor”. A gente era limitado, essa é a palavra. Depois que eu comecei a ir, pegar zine na mão, conhecer as bandas, demo, trocar ideia, aí eu conheci o Ruy, que era do No Violence. Meu, ele é um dos caras mais importantes que eu conheço dentro da cena hardcocre/punk. E o cara foi monstruoso, super receptivo e diferente da outra galera que eu tinha visto. Nesse show, que eu fui pela primeira vez, o André já era engajado e conhecido, então ficou lá trocando ideia com os caras e eu fiquei meio de canto. O Ruy veio falar “você é amigo do Dedé né? Chega aí gordinho, vamo trocar ideia?” [risos]. E aí fiquei amigo. Precisou alguém quebrar essa parede. A gente tinha uma fita de “a gente não vai ser aceito nisso, então a gente tem que fazer o nosso”. Aí formamos a banda, fazia show pra caramba, numa época em que era difícil até se comunicar. A gente trocava carta. Não tinha a manha nem de ligar, tinha gente que não tinha nem telefone. Quando eu conheci o Cris, por exemplo, que é o vocal do Bandanos hoje, o cara não tinha nem telefone na casa dele, saca? A gente trocava carta.
Helder: Eu também não tinha, infraestrutura em Cotia e Itapevi era difícil.

Papa: Então, como a gente formou a banda? Eu e o André fomos no show do Madball em 95 ou 96. Aí a gente falou “pô mano, a gente precisa fazer uma banda. Você canta, eu toco guitarra”. E tava o Pedro, o Louco, que a gente chama assim porque ele virou crente e sumiu. “Vamo montar uma banda”, mas não tinha batera. Fui no computador. Cara, eu devo ter o anúncio.
Helder: Você me deu, tá em casa.
Papa: A gente botou anúncio na Galeria do Rock. Fomos lá e metemos um monte de cartaz “Bateristas com influências de Snapcase, Earth Crisis, Strife, DRI.” A gente zoa que a gente tinha 5 ou 6 bandas como referências naquela época. O resto a gente gostava, mas a gente queria isso mesmo. Aí você tem que contar agora (aponta para o Helder) quem achou o anúncio e tal.
Helder: Fui eu mesmo. Pra quem é de Cotia, periferia na época, o rolê de sábado era ir pra Galeria. E eu vinha ainda mais porque não tinha disco, não tinha nada. Eu vinha com umas fitas virgens pra deixar numa loja no segundo andar. Eu pagava 5 conto pro cara gravar umas coisas pra mim. Eu voltava no outro sábado, levava as fitas e ficava escutando a semana inteira em casa. Aí to andando lá e vejo “banda de hardcore, baterista”… Liguei pros caras.
André: Você ligou pra mim e a gente marcou ensaio naquele estúdio, na Pompeia.

Papa: Aqui na Sumaré, aqui perto.
André: A gente tocou Sick of it All.
Papa: Mano, foi incrível o bagulho, foi muito mágico. A gente tentou ter banda antes. Os caras eram muito ruins tocando batera, e a gente era muito ruim também. A gente chegou, olhou para o Helder e o cara sacou um case de prato monstro. Eu falei “mano, ou o cara toca muito ou é um puta mentiroso charlatão” [risos]. Aí ele tirou tudo, montou e tal. Lembro que a gente tocou Sick of it All, umas quatro. Acho que eles tinham acabado de lançar o Built to Last.

André: É, por aí. Tocamos alguma coisa do Scratch the Surface.
Helder: Tocamos a própria “Scratch the Surface”.
Papa: A gente também chegou a tocar Suicidal Tendencies, que eram as influências que a gente tinha.


Sounds: Então, no anúncio falava de Snapcase, Strife, umas coisas que eram contemporâneas com o rolê de vocês.
Papa: Sim sim.

Sounds: Vocês estavam alinhados com o que tava rolando lá fora.
Papa: Sim, porque o Dedé trazia as coisas pra gente. Eu sempre falo que eu tive dois caras que traziam as coisas pra mim. O Dedé e o Pedro, que era camarada de um cara que era roadie do Sepultura. Então ele trazia tudo da fonte. Tipo “mano os caras tão ouvindo isso aqui ó”. Isso aí no começo dos anos 90.
Helder: Se o Sepultura pirou em Strife, porque nós não, né [risos].
Papa: Josu o nome do cara, lembrei. E ele tinha um irmão que chamava Marivas, que era colado com o Toninho e os caras do fã-clube do Sepultura. Lembro quando o cara chegou com o disco do Korn pra gente. “Mano, escuta isso aqui”. E eu “que horroroso isso aqui”. Não consegui entender. Não entrou na minha cabeça. Eu tava acostumado com som rápido, hardcore, thrash. Aí chega o Korn, afinação baixa, umas melosidades. Aí o Sepultura depois me lança o Roots. Aí acabou tudo na minha vida [risos]. E eu “mano, os caras estragaram até o Sepultura!”.

Sounds: Numa época, como você falou, que muita gente não tinha nem telefone, vocês já sacavam o que tava rolando fora, né? Vocês faziam fitas?
Papa: Era o começo do cd né.


André: Mas o lance também, é que em 94/95 tinha o dólar a R$ 1 né. Eu ia na Maze, na Noise e ficava comprando coisas da Victory. Acho importante falar das influências. É que cada um da banda, eu sentia assim, ia pra um caminho. Não é que causava um conflito, tipo, eu sentia que eu queria que a banda fosse uma coisa que não era, entendeu? Mas rolava um consenso.
Papa: Rolava.
André: Sei lá, por exemplo, o Pedro. Começou a ouvir Feeding The Fire, essas bandas SxE comunistas, Spawn, essas coisas assim.
Helder: Nossa, verdade, ele pirava em Spawn.

André: O Helder gostava de Biohazard, era NY, Sick of it All. Você [Papa] gostava de Suicidal Tendencies, DRI e bandas da Victory. E eu ouvia Chamberlain, Sonic Youth, Cap ‘n Jazz, Superchunk, as coisas que eu sempre ouvi. Eu gostava de emo, cara!
Papa: Tanto que as letras…
André: Eram muito ruins, mas.
Papa: Era um bagulho quase crossover, com uma batera NY HC, um baixo que às vezes o Pedro mandava uns slap e o Dedé mandava uns “embraaace me” [muitos risos].
André: Eu comprei na Verdurada aquele documentário sobre NY.
Papa: Que tem o Supla?
André: Não sei, tem um monte de banda ruim, tal, mas eu lembro que o Ganso, nosso amigo desde sempre, dizia que meu vocal parecia com o do cara do 108, que é uma banda que eu demorei pra gostar, mas hoje acho animal. Eu pensava “mas será que parece mesmo?”. Porque eu não achava parecido com nada da época. Tinha gente que falava que era rapcore.

Papa: Eu fazia as bases meio crossover já, meio thrash palhetada, mas o Helder quebrava tudo com uns bagulho meio tipo 25 ta Life, meio Madball. O Dedé, você via ele no canto, quietinho antes dos shows e tal, mas quando ele começava a cantar, mano, nego ficava em choque. Ele se jogava no chão, se arrastava, tá ligado? O cara incorporava, e o vocal muito potente e ao mesmo tempo sutil. E o Pedro doidão, pulava, tocava com óculos de pagode, surfista [risos], não sei o que rolava com ele.
Helder: Ele tava tentando se encontrar, acho.
André: Peraí, mas tá pulando fase. Quando o Cris entrou, ele ouvia Desecration, ouvia grind, gore, e aí foi legal, trouxe outra referência. Teve o Alexandre, que era nosso outro baixista que ouvia Fugazi.
Papa: Catharsis, Zegota, ele já tava louco já (risos). Ele queimava corda. “É, vou queimar a corda e ver no que dá”. Estourava a corda, claro [risos]. Eu acho que pelo lance que eu falei lá no início, a gente se sentia…

Sounds: Fora do rolê?
Papa: Hoje eu acho que a gente nem era excluído. Era um pouco de coisa nossa, de achar que a gente não ia fazer parte daquilo.
André: No fim, a gente tocou na Verdurada, todo mundo gostou pra caralho. Pena que logo depois a banda acabou, mas foi foda o show.


Sounds: De quando são as demos?
Papa: De 97 e 98. A primeira a gente gravou ao vivo, guitarra emprestada num estúdio horroroso. No estúdio MK. Quem gravou foi o Pardal, baixista do Anthares.
André: E aquele estúdio lá?
Papa: Então, essa é a segunda demo já. A primeira a qualidade é péssima.

Stand of Living – Brave New Life EP by Slikeus on Mixcloud

Helder: Na Clélia, mano.
Papa: Não, que Clélia, lá a gente gravou a terceira demo que não saiu.
Helder: A gente gravou uma terceira demo?
Papa: Terceira demo com cinco sons que não saiu porque o Helder esqueceu os pratos.


Sounds: Opa, furo de reportagem (risos).
André: Pra mim também [risos]. Pô, que músicas a gente gravou?
Papa: As cinco músicas que a gente fez quando o Cris entrou.
Helder: Mano, como que a gente tocou se não tinha prato?
Papa: Não tem prato, é a batera gravada sem pratos. A gente não lançou por causa disso. Eram cinco músicas que já soavam meio new school, já tinha umas influências de Earth Crisis, uns bagulho meio New Day Rising, essas bandas meio emo caótico.

Stand of Living – Last Breath EP / Terceira Demo by Slikeus on Mixcloud

Sounds: Vocês tocaram na Verdurada, a galera gostou.
Papa: A gente tocou na Verdurada já era 98/99.
André: Foi quando eu entrei no Coletivo. Nessa época a Verdurada era o Jorel e o Fred, aí logo eles me chamaram, comecei a ajudar, e o Ruy ajudava também.
Papa: A gente tocou com o I Shot Cyrus, Infect.


André: Não era I Shot Cyrus ainda, era outro nome.
Papa: Era Reborn. Foi o primeiro show como I Shot Cyrus (antigo Reborn). Tem esse pôster colado em alguma loja aí.
André: E o Reffer, de BH, do Ian. Lembro que a gente conheceu e ele veio tocar aqui depois com Libertinagem.

Sounds: E o rolê pra distribuir essas demos?
Papa: Ah, nos shows mesmo. E eu mandei várias por correio.
André: Eu sempre fui a favor de vender muito barato. Ou dar mesmo.
Papa: Até hoje tem lugar que a gente vai tocar e nego fala “meu, eu tenho a demo da tua outra banda”. “Ah, mentira, nem fodendo”. Os caras falam que a capa da demo é um quadro [risos]. E é tipo uma imagem de uma janela. É do Paul Klee?
André: Não, a segunda. Tem várias fotografias desse cara. Tem fósforos pegando fogo.
Papa: Cara, pra época era uma demozinha ok. Tinha uma gravação horrorosa.


Sounds: Mano, os caras colocaram o Fugazi aqui no encarte! (risos).
Papa: Tem isso? Fugazi escrito?

Sounds: Não, é a foto do Fugazi com o nome de vocês. Olha aqui. (risos)
Papa: Isso é coisa sua (André).

Sounds: Vem cá André, vamos tirar uma foto.
Papa: 
Caralho, que demais isso.


Sounds: Quem é o Ian (MacKaye), quem é o Guy (Picciotto)…
André: Eu sou o Guy Picciotto [risos].
Papa: Caralho, eu não lembrava que tinha os caras do Fugazi.
André: Acho que eu fiz pra mostrar. Ah, o Helder tem o original. Foi no corredor do MK essa foto.
Helder: Nunca vou esquecer, o Pedro deu uma murchada na barriga pra tirar a foto [risos].

Papa: Mano, olha as letras, “New Seeds”, “Brave New Life”.
André: Tudo inglês errado.
Papa: Mas era um bagulho do coração.

Sounds: Vocês têm ideia de até onde a música de vocês chegou?
André: Interior de Santa Catarina.
Helder: Mas a gente nunca saiu de São Paulo.

Sounds: Nem inteior?
Helder: Interior sim.
Papa: Várias vezes.
Helder: Teve São Roque, Itapevi.
Papa: Ah, era o rolê que tinha naquela época. Teve aquele festival que rolou na casa do Cris.
André: Na pista de skate de São Roque.
Papa: Ibiúna. E a gente conheceu o B Cap e os caras eram total perifa, só faziam as coisas na área deles, então a gente tocou bastante ali pela Zona Norte.


Sounds: Teve um show na ZN, lembra que tinha um palquinho pequeno.
Helder:
Na praça lá né, onde hoje é o Frangó. Eu lembro disso aí.

Sounds: Isso, acho que foi esse show, cara. Tocou o B Cap.
Papa: Esse show eu acho que o Stand não tocou.
Helder: Como não, eu levei os pratos [risos].
Papa: Mano, show lendário que a gente fez foi na escola Canuto Do Val, na Barra Funda.
André: Eu lembro desse, tinha um monte de criança.
Papa: Cara, foda! Era tipo evento da prefeitura. Tocou o Plague Rages!!! Imagina o Plague Rages tocando pras crianças, mano. Aí tocou a gente, o B Cap.
Helder: Foi naquela escola em frente à Mancha.
Papa: Eu e o Ronaldo do Sway que fizemos esse show aí. Pra você ter uma ideia, a gente foi lá à noite pra falar com a diretora, chegou a polícia e tomamos um enquadro. Acharam que a gente ia traficar droga [risos]. “Não, nós somos os organizadores do evento”. Aí os gambé foram embora. Mano, o visu chocava. A gente andava com umas camisetas feita a mão. Eu tinha uma do Black Sabbath que eu não tirava, branca, feita com spray. Fiz um silk no papel e pichei a camisa. Tinha a do Biohazard que ele falou [Helder], feita com canetinha.
Helder: Não, não. A do Biohazard eu fiz só o símbolo numa radiografia.
Papa: Mas eu acho que a gente só não tocou mais mesmo por causa do lance que te falei de a gente achar que não podia chegar ali, sabe. Porque a gente via os shows, tinha o Self Conviction na época, que hoje eu acho uma banda chata, mas pra época, era um negócio muito foda. O público pirava. Porque só tinha aquilo. Tinham três bandas e nas Verduradas tocava pelo menos uma das três. Era uma fase deles.

Sounds: É, quando chegou esse lance de SxE no Brasil pra mim, era o Self Conviction, o IML e o Nenê (Dance of Days) e elas não se conversavam, isso que era louco. Elas aconteciam em locais diferentes, falando da mesma coisa.
Papa: O Flávio, que era batera do IML e depois foi do Forgotten Boys, morava aqui nesse prédio.

Sounds: E o primeiro show? Vocês lembram até hoje?
Papa: Foi esse aqui.


André: O primeiro mesmo foi na casa do Helder, lembra?
Papa: Sim.
André: Que você ficou bêbado.
Papa: Sim, foi a última vez que eu bebi na minha vida.
André: Era tipo uma apresentação para amigos. Tinha umas 5 pessoas.
Helder: Nah, tá maluco, tinha quase uma gangue. Quase “Demostrating my Style” [risos].
Papa: Esse é o segundo, mas oficialmente é o primeiro. Aqui foi onde a gente conheceu o Cris. Pra você ter uma ideia, esse show não tinha batera. O Cris avisou a gente um dia antes. Aí o Helder, por sorte, tinha uma Mapex.
Helder: É a minha até hoje.
Papa: E o Helder tinha uma caminhonete do pai. A galera disse “meu, vai cancelar o show”. O Helder “nem fodendo mano. Vamo colocar a batera em cima do carro”. E detalhe, o Helder morava em Cotia. A gente morava aqui (Sumaré/Perdizes). A gente ia ensaiar na casa dele todo sábado, religiosamente, quatro ou cinco horas de ensaio sem parar e voltava rindo.

Sounds: Vocês acham que tem a ver com a pouca idade, tipo, sangue no olho mesmo de ir lá e fazer, ou tem mais a ver com a época?
Helder: Certeza, eu não faria isso hoje. Nunca!


Sounds: Hoje você vê galera largando banda por nada.
Papa:
Eu toquei com um cara numa banda que o cara saiu porque não queria pegar metrô com a guitarra.
André: Tem um monte de banda SxE nova que os caras gravam, fazem dois shows, acaba, aí montam outra banda. Acho que tá mais fácil né, tem tudo.
Papa: Nessa fase a gente fazia isso rindo, cara.

Sounds: Estúdio era tão caro, por isso que tinha esse lance de banda de garagem. Era mesmo na garagem, no quartinho, que rolavam os ensaios de quatro horas.
Papa: Quatro ou cinco horas tomando Tubaína quente.
André: Era sábado, a gente acordava cedo, pegava o busão às 9h ou 10h da manhã e ia pra Cotia.
Helder: Explica a geografia de Cotia.
Papa: O ônibus parava a uns 15 minutos da casa dele [Helder]. A gente andava 15 minutos a pé carregando as coisas, instrumentos, tipo 10h da manhã, o sol mais foda, ensaiava até as 17h, comia um negócio e chegava em casa 20h ou 21h, cansado. Imagina, não tinha namorada, não tinha nada que aguentava.


Sounds: Por que a banda acabou?
Papa e Helder: Porque a gente saiu na mão [RISOS].
Papa: Eu tava esperando essa pergunta (risos).
André: Eu sonhei com essa pergunta ontem. Ah, mas eu acho que já tava um pouco desgastado.
Helder: Não, mentira dos caras. Tinha muita lenha pra queimar, um monte de ideia e de coisa acontecendo.
André: Conversamos sobre isso uma vez. Eu, por exemplo, cheguei num momento que eu já não gostava mais do som. Eu não escutava mais essas bandas, eu queria fazer outra coisa.
Helder: Mas o Stand tava mudando.
André: Tava, mas eu gostava porque era vocês. A banda acabou e a gente montou outra banda, o Dissentiment que era eu, você [Papa], Alexandre, Erick [Labirinto], o Guga que toca no, como chama a banda dele? Jupter, Jup…
Papa: Jupiterian.
André: Isso! E o Vinas, do Isosceles Kramer, cantava. Já era um outro lance, eram as coisas de que EU gostava.

André: CrimethInc., Neurosis, Fugazi, meio screamo. A gente tocou na Verdurada clássica do tiro, você sabe disso? Putz, era a gente, Diáspora e mais outras bandas. Ia ter uma palestra do José Arbex sobre o conflito Israel x Palestina. Tô eu montando as coisas no galpão da Verdurada e um cara perguntou “o José Arbex vem hoje?”. A gente desconfiou, mas beleza, dissemos que ele não viria. Começou o show e foi animal. As meninas na frente.
Papa: Era muito diferente, tinha política envolvida. Por causa do Catharsis. Eles tinham lançado um zine, chamava Arauto e os caras traduziram.

Sounds: Que ano é isso?
Papa: 2000.

Sounds: Já era depois dos dois discos do Catharsis.
André: Aí, no meio do show, acho que do AYF na época, alguém percebeu que aquele mesmo cara tava tirando foto meio que escondido. Foram falar com ele e o cara disse que era da polícia. Do nada o cara sacou a arma e deu um tiro pro alto, mano. Aí a gente descobriu que o Governo de São Paulo tinha criado uma divisão especial pra monitorar e prender torcida organizada, punk, skinhead. Era época de protestos contra o G8, assim e tinha rolado aquela treta do Edson Néris, o adestrador de cães que foi morto na Praça da República por uns nazis.

Os caras iam, fotografavam as pessoas e a gente descobriu que a Verdurada tava sendo monitorada. Provavelmente alguém avisou. Aí rolou isso aí. A gente fez um outro cartaz em outro festival que era com o texto “O que nosso amigo de bigode estaria fazendo em um show de hardcore?” e tinha um Charles Bronson no meio do público [risos].

Sounds: E era o mesmo cara que perguntou do Arbex?
André: Eu acho que era o mesmo cara. Mas isso era uma outra época, diferente do Stand of Living.
Papa: Eu acho que esse lance político no hardcore veio de novo depois do Catharsis, cara. Pra mim, depois disso.
André: Eu acho que ainda tem essa filosofia, o problema é que o público mudou muito, cara.

Sounds: Vocês acham que é um público que não está muito interessado mais nessa parte da discussão?
André: A gente conversa pra caralho sobre isso. O público mudou, porque nessa época as pessoas participavam do Coletivo da Verdurada falando do CMI. Chamavam pra protesto, era muito politizado. As pessoas se diziam anarquistas. Às vezes era uma coisa mais de identidade estética do que anarquistas. O país mudou mesmo, né. Veio o governo Lula, e alguns anarquistas foram trabalhar no governo. Aí a gente fez, há uns cinco ou sete anos, uma Verdurada lá no puteiro, no centro, como chama? Ego Club.


Sounds: É o que tocou o RVIVR?
André: É. Fizemos uma palestra sobre a política além do voto. Chamamos o Rodrigo, baterista do Ordinária Hit, pra falar que além de votar tem outras coisas que você pode fazer como ação direta, autogestão e outras coisas. Eu lembro que um cara citando Lênin falou “as massas têm que se organizar, têm que ter uma liderança”. Cara, me deu um clique. Ele tava falando de liderança e que o Estado tinha que controlar e tal. Aí eu comecei a perceber que o público é outro. Há 15 anos, a política parecia que tava meio descolada da nossa vida. Fazer música, estar na Verdurada, era uma outra forma de fazer política. Hoje a política tá dentro da nossa vida.
Helder: Acho que tem a ver com a reprodução do discurso. Lá atrás talvez os discursos fossem mais “originais”, bem entre aspas mesmo. E aí, no decorrer do tempo, começaram a comprar certos discursos, esses que tem hoje por aí. Na moral, pensar dá trabalho. Então é mais fácil ver o que um falou, o outro falou e você toma sua posição.
André: Então, o que você tem? Uma cena que é rolê. A gente falou “vamos voltar a ser político”. Não é que a Verdurada vai salvar o mundo.

Papa: Mas ela muda pessoas, mano. Ela me mudou lá em 95 ou 98. Cara, meu pai e minha mãe eram de direita. Pobre de direita. Votavam no Maluf e eu acreditava que essa era a solução nos meus 16 anos de idade. Aí eu conheci o Dedé, conheci os caras do B Cap, e fui ver outra realidade. Porque não tinha o que temos hoje, de dar um click aqui e ver o que tá acontecendo. Eu fui colar numa favela, conhecer os caras. Conheci o Helder num bairro de perifa, tipo terrão. A casa dele tava sempre em construção. Tem até a história clássica que a mãe dele que fez a gente tirar terra do barranco pra fazer um estúdio pra gente lá. Duas semanas depois…
Helder: Virou lavanderia. Ié iééééé!!!! (RISOS).
Papa: Dois dias tirando terra, até dormi na casa dele. Quando vi, era uma lavanderia.
Helder: Mas assim, quando a gente fala “estúdio”, eram quatro paredes pra abafar o som.
Papa: Caixinha pequena pra guita, outra pro baixo e para o vocal era uma caixa podre.
André: Mas era um momento importante. Eu peguei muito material nessa época. Zapatismo.
Papa: Teve uma fase que a gente achou que era zapatista (risos).
André: E não tinha internet, cara. Tinha um pessoal que falava “ah, tem um negócio que chama internet que já tem página sobre SxE”. Eu fui ter computador em 97. Tinha máquina de escrever em casa e eu não era hipster. Porra, eu usava pra fazer trabalho de escola.
Papa: Eu acho que a Verdurada ainda tem que recuperar a importância que tinha. Não é só culpa dela. Tem falhas como toda organização. Você tá lá num coletivo e ninguém pensa igual, normal. Ainda mais com bagulho de celular e computador. Você não tem mais aquele lance de sentar, olho no olho, trocar ideia, pensar junto.

Sounds: Sem querer soar saudosista, mas antes tinha um ritual que ia além da música. Você organizava shows e saía com junto pra colar cartaz, por exemplo. Você convivia mais.
André: Acho que hoje, o público é outra coisa. Miado, ninguém agita, mano.
Papa: Acaba o show e os caras não batem palma. Já acho uma merda bater palma.
Helder: Eu já sou mais xiita. Cruzou os braços na frente do palco eu já acho desrespeito. Eu tava lá no lançamento do disco do Questions. Sem querer me vi cruzando os braços. Mano, descruzei na hora [risos].
Papa: Quer ver uma história engraçada, esse show aqui ó.


Papa: O Nitrominds já era uma banda velha.

Sounds: Isso aí é 97 ou 98 né?
André: O Echoplex era uma banda que tocava o Maurício Takara (?)
Papa: Os caras já eram meio Helmet nessa hora. A gente foi a primeira banda, som rápido, era o que a molecada queria. Aí entrou o Echoplex, músicas de 5 minutos, aquela imensidão, fudido o show. Aí um cara gritou “toca Sick of it All!”. Aí o maluco foi no microfone e falou “Já passamos dessa fase”. [risos] Tipo, brutalmente arrogante, mas legal o que o cara fez. Meu show é esse aqui, gostou ou não é isso. Aí entrou o Nitrominds. Maaaaano. Era um outro vocal ainda.
André: Não era o André.
Papa: Não, era um careca, o André tocava guitarra só. Os pulinhos ensaiados. Era tipo melódico, não sei, o show tava esquisito, o vocal não combinava. Mas, musicalmente falando, eles eram muito bons. Na real mesmo? Os moleques cansaram no nosso show, aí veio o Echoplex e jogou um balde nos moleques. O Nitrominds era brinde. No meio do show, o vocal falou “ei, vamo agitar aí, vocês tão tudo parado nessa porra”. E tinha um pagode do outro lado da rua do Alternative. Aí o cara falou assim “o pagode ali deve tá mais legal”. Aí gritaram na plateia “ae, vamo pro pagode” e o pico ficou vazio, mano [risos].

Sounds: Vocês sentem que o público era mais engajado naquela época?
Papa: Politicamente ou na cena?

Sounds: Nos shows, de prestar atenção. Porque a gente conversa muito sobre isso. A gente fala que, apesar de ter uma oferta muito grande, a galera reclama sempre “a cerveja tá cara, é longe”. Só que a gente vai em muitos shows gratuitos que são do lado do metrô e não enche.
Papa: Se eu chego no show e tem um moleque com a camiseta do System of a Down eu já falo “da hora, o show vai ser foda!” [risos].  Se eu chego e tem gente com a camiseta do Rites of Spring, como na Verdurada lá, ninguém vai se mexer. Trezentas pessoas que ficava distante da gente, tipo daqui na minha cozinha.
Helder: Cara, fala em metros porra, ninguém conhece sua cozinha (RISOS).
Papa: Sei lá, 5 metros [risos].

Sounds: O que vocês trouxeram do Stand of Living pra vida de hoje?
Papa: A banda chamava Padrão de Vida.
André: Tá errado.
Papa: É, era Standard. Aí o Dedé falou, vamos por Stand. Eu não sei por quê.
André: Nem eu.
Papa: Mas é exatamente o que a banda me deu. A base e o padrão pra seguir. Cara, eu poderia ser igual meu pai e minha mãe, ser hoje um cara que poderia achar o Bolsonaro um cara da hora. Acho que se meu pai e minha mãe tivessem vivos, não seriam tão idiotas a ponto de gostar. Mas minha mãe morreu achando que o Maluf era foda e meu pai também. Então, ter banda, entrar no punk e conhecer o SxE me mudou totalmente. O Helder também mudou pra caralho. Nessa época, a mãe e o pai dele eram totalmente de direita. Tipo, mano, a gente batia de frente direto. O cara foi estudar na USP,  Sociologia.
Heleder: Letras, caralho!
Papa: Letras, desculpa [RISOS].
Helder: Mas é que tem a ver. Eu convivi com os cara da História, Geografia, Sociais, Filosofia.

Sounds: Ajuda a abrir o leque.
Helder: Mas abriu de uma maneira absurda. Hoje eu ainda não tenho noção. Eu ainda tô buscando isso, os caminhos. O impacto é brutal.
Papa: Se você pensar, se não fosse o Stand (risos)… A gente era amigo de bairro e eu não gostava do Dedé, mas era idiota o motivo. Em 92, ele passava assim, aquele jeitinho meio skatista calhorda, cabelinho crescendo, e as minas piravam nele. E tinha uma amiga nossa que sempre falava do Dedé e tal, a Deise. E eu falava “esse seu amigo aí é mó zé ruela, não troca ideia com ninguém, não cumprimenta!”. Aí eu fui descobrir que ele tinha uma banda, o Natimortus, que era ele, o Bento do Poeira Zine e o Luciano, que tocou no Doi Cod.

Sounds: Nossa, o Doi Cod.
Papa: Aí eu sabia que eles tinham banda, comecei a acompanhar, peguei fita e culminou com o disco do Urban Dance Squad (RISOS), que só o Dedé tinha na época. Eu falei “Rogério, será que aquele seu camarada empresta o cd pra eu gravar?” Ele disse “Ah, acho que sim”. Ele emprestaria, mas o Dedé é outra pessoa. Eu falei “Aí, você empresta o cd pra mim?”. Ele falou “nem empresto” (risos). Aí eu “porra, seu amigo é mó cuzão, mó arrogante”. Nossa, fiquei um ano odiando o Dedé. Até que a gente sentou um dia, fomos nuns shows juntos, trocamos ideia e tal e ficamos amigos. Por causa dele eu virei essa pessoa.
André: Por causa do Urban Dance Squad.


Papa: Por causa do cd do Urban Dance Squad eu quase perdi tudo (risos). Mas é o que você perguntou. Se não fosse isso, seríamos pessoas diferentes.
André: Olha, eu vou chorar cara, eu sinto muita falta de ter banda. Eu não sei se eu teria banda hoje. Eu voltei a gravar e quero continuar gravando, fazer show sozinho porque eu acho que é legal, um som meio eletrônico. Mas faz muita falta ter banda. Sinto falta pra caralho.
Papa: Eu nunca parei de ter banda.
André: Aí é que tá, com quem eu vou tocar? Tem que ter confiança, gostar um do outro, porque é um casamento. Essa coisa legal de não ter separação de público. Eu sinto falta da ENERGIA.
Papa: Depois disso, montei o Bandanos. Eu entrei no Questions em 2001, toquei até 2002 e saí. Voltei em 2004 pro Questions, toquei até 2007 e, nesse meio tempo, eu montei o Bandanos que dura até hoje, cara.

Sounds: Eu lembro que o Bandanos era pra ser um projeto.
Papa: É, quando o Ruy saiu e o Cris veio cantar, virou uma banda séria. Esse ano a gente vai fazer 30 shows. O ano passado a gente fez 60.
Sounds: Quantos anos vocês tinham quando começaram o Stand of Living?
André: 19 ou 20.
Papa: A gente não falou muito do Pedro, né? Ele é um cara foda. Tocou com a gente até 98 porque virou anarco, ficou louco e depois virou crente. Tocou no Constrito. E mano, se hoje é difícil montar uma banda SxE, imagina na época?
Helder: Eu nunca tinha ouvido falar desses caras aí com X na mão mano [risos].
Papa: O Pedro foi importante porque ele conheceu uma galera SxE que não era envolvida com a cena hardcore. Então ele trouxe isso pra gente. Era o Pierre, do Resistir a Situação. O Marcelo, do Constrito, conheci através dele. Ele conseguiu meio que inserir a gente nesse caminho do hardcore sem ser da panela. Ele que fez esse elo e meio que desencanou depois. A gente encontrou ele no Orkut, virou missionário e perguntou se a gente ainda tava nessa de rock [risos].


Sounds: Por que não estaria? (risos).
André: Hoje eu sou historiador, trabalho com coletivos, artistas, mas em todo lugar que eu vou, falo que tudo o que eu faço hoje é por conta da Verdurada e do Faça Você Mesmo. Tudo veio de lá. Quando eu tentava escrever as letras era muita coisa pessoal, que eu viva em casa. Meu relacionamento em família era uma merda. E tocar não era um escape, era um jeito de pegar sua raiva e transmitir pra outro lugar.
Papa: Minha mãe adorava, apoiava. Meu pai era sambista partido-alto, pra ele sempre foi um bagulho barulhento, não entendia o que a gente fazia, mas apoiava. Quando eu fui pra uma turnê europeia em 2007, com o Questions, eu liguei de lá pro meu pai e ele chorou, cara. Porque era tudo o que ele queria fazer e não conseguiu. Meu pai morreu tentando enfiar um samba na Rosas de Ouro. Ele apoiava, mas lógico que, na mente dele, um dia isso ia passar. Minha mãe já achava que eu ia fazer isso sempre. Ela era de uma escola mais hippie. E justamente esse lance de “ah, um dia você vai desencanar” era o que me fazia ir além. Outra coisa importante. O Cris entrou em 98, tocou baixo, ficou até 99. Foi tocar no Parental Advisory. Ele colocou a gente em contato com uma cena de Sorocaba. Ele era bem político, fazia zines. Ele tocou com a gente no Stand um ano. Essa demo que nunca saiu era com ele.