Entrevista: Henry Rollins Ícone do punk e do Black Flag, Henry fala de carreira, política e futuro

In Entrevistas

Foto: Melanie Levi

O fato de ser uma presença constante em discos, livros, biografias, documentários, programas musicais e entrevistas em rádio, TV e internet até dá a impressão de que não haveria mais novidade sobre Henry Rollins. Mas taí um cara que não cessa de surpreender e de reafirmar o porquê de sua assiduidade no raio-x do rock mundial. Henry tem muito o que dizer, seja como comentarista de sua própria época, sujeito aos erros de qualquer pessoa que faça um comentário crítico, seja como alguém que se define um mero trabalhador.

À parte sua entrada na história como a letra e a voz mais emblemáticas e furiosas do Black Flag, Henry tem outras credenciais que o distanciam do anonimato. O começo como roadie do Teen Idles (uma das primeiras bandas de Ian MacKaye, do Minor Threat), em Washington, D.C., já apontava para alguém que queria ter voz própria. E foi assim com a banda State of Alert, ou S.O.A, onde Henry – então Henry Garfield – pôde descarregar sua fúria hardcore. Antes de integrar o Black Flag, foi um fã, que teve a oportunidade de cantar com a banda amada em um show em Nova York e, assim, despertar a admiração de Greg Ginn, Chuck Dukowski e Dez Cadena. Henry chegou a perguntar ao amigo Ian se ele deveria aceitar o convite de tocar no Black Flag. O desfecho desta história é conhecido e por aqui ficamos felizes com o apoio amigo, ainda que a trajetória da banda tenha sido tão tumultuada quanto fundamental – a década de 80, o metal, o hardcore, o grunge e o pós-rock não seriam os mesmos sem o Black Flag. Já a década de 90 trouxe ao mundo a Rollins Band, onde o peso e o experimentalismo eram ainda mais proeminentes. A banda chegou a se apresentar no Brasil, deixando memórias não muito amigáveis para Henry, como vocês poderão ver na entrevista.

Tingido como um cara explosivo e sem papas na língua, Henry nos surpreendeu com respostas afetuosas, sujeitadas ao trabalho e à humildade. O trabalho, aliás, é um grande motor de vida para ele, que atualmente se divide capitaneando e respondendo a entrevistas, atuando e fazendo performances de spoken word. Na entrevista, ficou nítido o comprometimento dele com as atividades nas quais escolhe se engajar, todas abordadas como um trabalho a ser cumprido. É clara também a rejeição a um inimigo, semelhante ao Reagan combatido em 1980: um intolerante, segregacionista e incômodo Donald Trump.

Henry Rollins e Greg Ginn em show do Black Flag em 1982. Foto: Frank Mullen/WireImage

Sounds Like Us: Oi, Henry! Nosso muito obrigado por esta entrevista. Como foi seu primeiro contato com a música?
Henry Rollins: Eu ouvia as músicas que minha mãe colocava. Miles Davis, Bartok, Miriam Makeba, tudo bem eclético. Eu tinha alguns discos dos Beatles, mas comecei a ouvir o que minha mãe ouvia e meio que adotei tudo aquilo para minha vida. Aos 11 anos, eu gostava do Doors, Hendrix e Janis Joplin. E a partir dali, comecei a comprar os discos das músicas que ouvia no rádio, como Led Zeppelin.

Sounds: Quais as lembranças do primeiro disco que você ouviu? E se escutasse esse disco hoje, qual sensação você acha que ele traria?
Henry: Eu só me lembro de gostar mais de discos do que de pessoas. Ainda é assim. Uma das coisas muito interessantes sobre música é que as canções não se modificam, mesmo que você mude. Você pode ouvir uma música 20 anos depois e ela continua sendo um verdadeiro ponto de referência porque está exatamente como era antes – enquanto que você, por outro lado, mudou bastante. O que penso ao ouvir música antiga é que uma das poucas coisas que acertei na vida foi ter continuado com meus discos.

“Basicamente fui uma pessoa muito sortuda. Eu literalmente estava no lugar certo, na hora certa. E sou extremamente grato a isso. Era mais sorte do que talento ou qualquer outra coisa”

Henry Garfield em show do S.O.A em 1981. Foto: Susie Josephson/Reprodução “Banned in DC”/Sounds Like Us

Sounds: A música te permitiu expressar quais sentimentos?
Henry: A música me mantém em contato com minha sobrevivência. É fácil ficar desanimado, então é bom ter muita música por perto.

Sounds: Quais as músicas mais irritantes que você já ouviu na vida?
Henry: Muitas das músicas bregas dos anos 80 foram difíceis de digerir na época, e hoje estão ainda mais repugnantes.

Sounds: Como foi o processo de ser roadie do Teen Idles [banda de Ian MacKaye, amigo de infância de Henry] e se tornar O CARA em evidência?
Henry: Basicamente fui uma pessoa muito sortuda. Eu literalmente estava no lugar certo, na hora certa. E sou extremamente grato a isso. Era mais sorte do que talento ou qualquer outra coisa, então é difícil para mim pensar em minha vida como algo maior do que isso. Tem sido uma existência interessante, certamente. Fui reconhecido por mais da metade da minha vida, então as coisas têm sido tudo, menos normais. Sou grato às pessoas que dedicam o tempo delas para apreciar algo meu. Respeitar esta dedicação é o que me mantém na linha. É tudo de que preciso para continuar.

A primeira demo do S.O.A, de 1980. Foto: Sounds Like Us

Sounds: Quais suas lembranças favoritas de quando era um roqueiro anônimo?
Henry: Lembro da simplicidade relativa das coisas, mas isso também tem a ver com ser jovem. Acho que é disto que muitas pessoas sentem falta quando ficam mais velhas. Elas não eram tão apegadas às coisas como os adultos tendem a ser. Penso como uma pessoa anônima. Uso roupas simples e tento não chamar a atenção. Tenho que trabalhar nisso. Considero as coisas que faço um trabalho, como é o trabalho de qualquer pessoa. Não sou um artista, então tento viver como sempre vivi, que é com simplicidade e focado no meu trabalho.

Sounds: Quais características suas, pessoais e profissionais, lhe dão mais orgulho?
Henry: Não tenho interesse algum por orgulho. Posso entender o que fiz e faço como dever, disciplina e intensidade, mas não como orgulho.

Foto: Sounds Like Us

Sounds: O Rollins Band parece uma banda em que você parecia ter umas coisas engasgadas para dizer. Era isso mesmo?
Henry: Não acho que tenha dito qualquer coisa chocante. Talvez algumas pessoas não consigam lidar com algumas das coisas que falei, mas acho que isso diz mais sobre elas do que sobre mim. Esta pode ser uma impressão bastante correta para vocês, mas não enxergo assim.

“Aprendi algumas coisas no trabalho regular que eu fazia antes da banda, mas foi só depois de entrar no Black Flag que o trabalho de verdade começou. Foi daqueles anos que tirei minha abordagem para tudo na vida”

Sounds: Existe algo em você ou em suas bandas que tenha sido injustiçado ou que mereça que a outra versão da história seja conhecida?
Henry: Não que eu saiba.

O Black Flag da esquerda para a direita: Henry, Greg Ginn, Kira Roessler e Bill Stevenson. Foto: Naomi Petersen

Sounds: O que o Black Flag somou na sua vida e o que subtraiu?
Henry: Aprendi muito naqueles anos, de maneira que eles influenciam o jeito como faço minhas coisas hoje em dia. Era uma banda que demandava bastante trabalho. E esta é a única maneira que conheço de lidar com as coisas. Aprendi algumas coisas no trabalho regular que eu fazia antes da banda, mas foi só depois de entrar no Black Flag que o trabalho de verdade começou. Foi daqueles anos que tirei minha abordagem para tudo na vida. Não sei se a banda me tirou alguma coisa. Eu me sinto muito sortudo por tudo que apareceu em meu caminho.

Sounds: O que é o hardcore para você? Você acha que algum dia o hardcore vai “sair de você”?
Henry: Honestamente, este não é um termo que eu use. Eu associo esta palavra a todas aquelas bandas tocando no CBGB’s com suas botas Doc Martens e patches de bandeira americana nas jaquetas. Não é algo de que eu queira fazer parte.

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Quando você canta, parece estar em um preparativo para a batalha, para um confronto. Quais causas te levaram para a linha de frente de uma batalha e quais levariam hoje?
Henry: Sempre abordei a música como um conflito e uma confrontação, então eu preparava meu espírito para isso. Nunca foi sobre unidade ou qualquer outra merda feliz. Eu queria abalar o público com minha música. Pra mim, é disso que se trata, é o que sempre foi. Nunca me considerei um músico. Atualmente estou engajado em múltiplos conflitos. Com um homem de negócios fracassado na Presidência e milhões de babacas o adorando, sei bem que tipo de trabalho preciso desempenhar.

Sounds: Você sempre foi um cara muito engajado. Com que pessoas, movimentos sociais ou situações políticas você se identifica?
Henry: Estou alinhado com qualquer grupo que esteja sendo oprimido e contrário a toda organização opressora. Simples assim.

“Na Los Angeles na década de 80, de repente apareceu heroína barata em todos os lugares. Vários punks se viciaram e muitos morreram. Isso não aconteceu por acaso. Foi uma operação pensada, e que funcionou”

Foto: Sounds Like Us

Sounds: Vivendo o que você viveu com o Reagan [presidente Ronald Reagan], você acha que o momento político foi um combustível para a rica safra de bandas em DC e LA nos anos 80? E o cenário político atual? Você acredita que o momento atual tem ligação com o fato de as bandas ainda usarem vocês, nos anos 80, como referência?
Henry: Acho que Reagan e Thatcher fizeram alterações substanciais em seus respectivos países que ainda podem ser sentidas hoje. Acho que Reagan validou a homofobia, o ódio ao público LGBT e aos pobres. No que diz respeito a ficar furioso com alguma coisa, havia muito o que escolher. Quanto a como serão as reações ao Trump, acho que vai haver movimentos contra, e não só na música. Acredito que a internet será uma peça-chave, senão o componente principal para a rejeição de Trump.

Sounds: Quando você se envolveu com a música, a situação política, social e econômica da época te afetou de alguma maneira?
Henry:
Afetou, mas não em um sentido tradicional. Nunca compus uma música com o nome de um presidente. Sempre escrevi sobre o que eu estava vivendo e o que eu via, de forma que eu pudesse ser sempre verdadeiro. Tenho certeza de que aqueles sentimentos e atitudes algumas vezes eram influenciados por mecanismos políticos, mas não de maneira evidente. Por exemplo, na Los Angeles na década de 80, de repente apareceu heroína barata em todos os lugares. Vários punks se viciaram e muitos morreram. Isso não aconteceu por acaso. Foi uma operação pensada, e que funcionou. Nunca escrevi uma música sobre o assunto, mas certamente abordei a frustração e o horror diante disso.

Foto: Jim Saah

Sounds: O Trump triunfou aí nos EUA. Aqui no Brasil, políticos com projetos baseados na intolerância também têm conseguido cada vez mais apoio. Na Europa, temos lido sobre a ascensão de partidos e projetos de extrema direita. Como você vê essa ascensão da intolerância como política pública em várias partes do mundo?
Henry: Quando o eleitorado é mal informado e levado a acreditar que tem inimigos para quem podem apontar o dedo e acusar de serem a causa das dificuldades da vida, é isso que você recebe de volta. Os “inimigos” são os gays, os mexicanos etc. É intolerância fomentada pela ignorância, sendo que o fato real é que o mundo está mudando rapidamente devido a uma miríade de fatores, como mudanças climáticas, globalização, alianças alteradas etc. Se você amedronta a população, não espere que as pessoas ajam de forma decente. Elas passam a pensar apenas nelas mesmas, e quando isso começa, elas passam a justificam qualquer comportamento ou atitude.

“Acredito que a internet será uma peça-chave, senão o componente principal para a rejeição de Trump”

Henry em show da Rollins Band. Foto: Pelle Sten

Sounds: Quando você atua, você tem um intermediário entre você e a arte, que é a tela. Nos shows é tudo visceral, um contato direto com o público. O que te levou a atuar? Isso tem alguma relação com a possibilidade de ter um contato indireto com o público?
Henry: Pra mim, isso é um trabalho, então vou fazê-lo. Como disse antes, não sou um artista. Quando se está no palco, você está com o público e ele é parte da sua entrega. Já quando se atua, há outros atores e eles lhe falam sobre como você está atuando; então, acho que ambas as atividades são similares de certa forma. Atuar pode ser extraordinariamente visceral. Pelo menos pra mim, acho bem mais difícil do que fazer música. Quando você atua, o público é a última coisa em que você pensa. Naquele momento, você está tentando manter as coisas reais.

Sounds: Quais suas lembranças da passagem do Rollins Band pelo Brasil?
Henry: Tocamos e o público simplesmente assistiu. Não pareciam tão interessados em nós.