Entrevista: Desalmado Caio Augusttus comenta faixa a faixa o novo disco da banda

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Foto: Diego Cagnato

Alguns discos já nascem grandiosos e não encontramos maneira melhor de iniciar essa matéria do que colocando Save Us From Ourselves, o novo álbum do Desalmado, nesse panteão.

Save Us From Ourselves parece ter vindo pra confirmar que poucos são os pontos na linha do tempo de uma banda em que ela pode de fato ser agraciada pela plenitude de criar um registro tão fiel ao momento que ela vive. E esse parece ser o caso do Desalmado.

O novo disco mostra uma banda que alcançou o lugar mais alto na sua criatividade e vive um casamento harmonioso entre os momentos pessoal, musical, emocional, profissional e a dedicação de cada um dos envolvidos – Caio Augusttus (vocal), Estevam Romera (guitarra), Bruno Teixeira (baixo) e Ricardo Nützmann (bateria) – na concepção desse trabalho. Save Us From Ourselves é, até aqui, o melhor da história de uma banda que a gente acompanha há muitos anos. Desde os tempos em que se chamavam El Fuego, lá no início dos anos 2000, para sermos mais exatos.

Por essas e outras, dizer que o Desalmado está preso ao grind seria raso demais. Ao death metal? Tharsh? Crossover? Punk? Também não seria justo. O leque criativo aqui é maior. O Desalmado pertence à música extrema assim como ela o alimenta.

Hoje a banda parece se colocar como o resultado de diversas possibilidades e da coragem em assumir direcionamentos que cabem na postura e crença. Afinal, música é sobre emoção e isso, aqui, teve de sobra. Caio conversou e ouviu o disco junto com a gente. Ao vivo, sem pauta definida. O que a gente quis foi ouvir o disco e registrar nossas percepções. Apertamos o play e e descobrimos as emoções, explicações e razões de cada uma das músicas que compõem Save Us From Ourselves, um disco cheio de raiva, emoção, urgência e postura. Tá tudo lá. E para isso não há etiqueta que facilite o entendimento. É música. É extrema. É sedenta e amparada pelo momento que a banda vive. Um momento de entrega ao que eles procuraram até aqui e encontraram.

Sounds Like Us: Antes das nossas percepções sobre o disco é importante dizer que o Desalmado é de 2004, certo?
Caio Augustus: Isso, 2004.

Sounds: São quase 14 anos de banda. Se hoje você tivesse que resumir o Desalmado pra quem não sabe nada sobre a banda, como seria? “Nosso momento é…”
Caio: Nosso momento é foda! Save Us From Ourselves é o disco mais maduro da banda. O Desalmado se encontrou. Não que a gente não tivesse uma identidade antes, mas esse é um momento de um salto. Na verdade, é um propósito que a gente definiu desde 2012. O Desalmado vai fazer 14 anos, mas a verdade é que o negócio começou a se moldar certinho a partir de 2012. Eu até lembro, foi quando a gente tocou com o Obituary, em Minas Gerais.

Foto: Marina Melchers

Sounds: E nesse tempo vocês devem ter passado por mudanças pessoais, de ter ouvido coisas diferentes. Como foi isso?
Caio: Bastante. A base é a mesma. Nossa escola é Sepultura, Napalm Death, Slayer, Ratos de Porão. Talvez eu puxe até um pouco mais pro death metal porque minha escola é essa, e o grindcore também. Então eu vejo que não mudou muito nas preferências. A gente teve alguns momentos que saíram um pouco disso. Momentos em que a gente tava ouvindo muito Converge, as bandas da [gravador] Southern Lord, que era uma coisa de “ah, eles são diferentes, vamos tentar fazer umas coisas diferentes…”, o Trap Them…

Sounds: Isso entrou na composição desse disco?
Caio: Não, isso foi em 2013, na época do Estado Escravo [disco anterior ao Save Us...]. A gente ouvia o All Pigs Must Die e falava “pô, aqui tem uma parada nova, talvez musicalmente funcione…”. Foi até interessante essas bandas terem aparecido pra gente,  porque o Estevam acertou a mão em relação a composição, criar atmosferas, um som mais triste… ele tem uma pegada legal nesse sentido. O Bruno também acertou a mão no baixo. Então acho que essas bandas da Southern Lord foram grandes referências pra gente até 2013, porque em 2014 já vem o Estado Escravo, e ele tem uma carga bem grande dessas bandas.

1 – “Privilege Walls”

Sounds: Essa primeira música é um pé na porta e tem alguns dos elementos que compõem a espinha dorsal do som de vocês.
Caio: Quando a gente terminou de compor essa música, eu lembro que os quatro se olharam e foi tipo “CARALHO, que som absurdo!”. Essa foi uma das primeiras músicas que terminamos na composição, e a gente tinha o pensamento de que esse era o som mais extremo e bem construído que fizemos.

Sounds: Mas conforme a gente vai ouvindo aqui, ela parece ainda trazer algumas coisas do disco anterior.
Caio: Ela talvez seja a consolidação das músicas mais extremas do split com o Homicide.

Sounds: Isso. Ela é meio que uma ponte, e talvez por isso faça todo sentido ela ser a música que abre o novo disco.
Caio: Sim. Porque o split já tem nas músicas aquilo que o Desalmado viria a chegar com o Save Us From Ourselves. Tem umas quatro músicas lá que já dá pra perceber. A “Hydra” mesmo é uma porrada.

Sounds: E a letra?
Caio: A letra eu montei em cima daquele pensamento de condomínio. Hoje as pessoas procuram se enclausurar entre muros. Um muro de privilegiados. Então a gente tem uma construção estrutural da sociedade nesse sentido. E ela avança para a criação de mais blocos que vão aumentar esses muros, e eles denunciam certos privilégios. E, pelo menos na sociedade brasileira, a gente precisa diminuir certos privilégios que estão bem longe de ser parte das classes subalternas.

Sounds: Não é um bem comum. É o que o nome mesmo já entrega, são privilégios mesmo.
Caio: É. Privilégio de poucos.

Sounds: E é aquela marcação diária de “você nunca vai entrar aqui”.
Caio: Sim. Essa letra fala de reagir a isso. Enfrentar mesmo os donos desses privilégios. Romper com essas barreiras.

2- It’s Not Your Business

Sounds: Chegamos à famosa “Não é da sua conta”
Caio: (risos).

Sounds: Essa música vocês já tinham soltado antes, né?
Caio: Isso. Soltamos antes da turnê no Nordeste, acho que foi em outubro.

Sounds: Ela tem um pique mais Ratos de Porão, crust/crossover.
Caio: A ideia era ser isso mesmo. Era pra ser bem porrada mesmo. Ela nasceu calcada no d-beat, e numa virada que eu particularmente piro: depois que ela sai do d-beat, a gente conseguiu remontar muito o lance do hardcore mais thrash. Foi proposital mesmo.

Sounds: E com quem vocês estão falando nessa letra?
Caio: Cara, esse é o disco mais político da banda. Não que os outros não sejam, mas ele talvez seja o resultado de tudo o que tá acontecendo hoje no Brasil e no mundo.

Sounds: Mas você acha que ele é o mais político na sua essência ou ele se torna necessariamente político porque terá uma reverberação maior pelo momento que o país está passando?
Caio: Ele é o resultado disso. Essa música, basicamente, trata daquilo que eu nem considero minoria, é maioria na verdade. As mulheres, os negros…

Sounds: Minoria é o que alguns falam para que essas maiorias se sintam reduzidas, menores.
Caio: É. Essa música trata sobre por que minorias querem pautar, dentro do Estado, a condição de maiorias que já são invisíveis e sofrem um preconceito estrutural. A ideia é que essa letra fosse uma espécie de voz dessa galera, porque sou afrodescendente. Eu vivi com minha mãe dizendo que, se eu fosse sair de casa, que saísse com a carteira de trabalho, pois se eu tomasse uma geral, tinha que mostrar que era trabalhador. Mas, para além da experiência pessoal, a gente tá vendo aí hoje a questão da PEC sobre o aborto, onde meia dúzia de deputados conservadores querem pautar o corpo da mulher. Tá errado. Essas pautas têm que ser discutidas com a mulher e não decididas por meia dúzia de homens. Todo mundo sabe que se o homem pudesse engravidar, o aborto seria legalizado. Essa música trata de uma reação contra essa minoria que quer pautar o corpo da mulher, manter essa estrutura racista e negar direitos a homossexuais que são legítimos e que o Estado precisa regulamentar. “It’s Not Your Business” vem disso.

3- “Save Us From Ourselves”

Sounds: Essa talvez seja a melhor e a mais diferente do disco, você concorda?
Caio: Sim.

Sounds: Esses tambores primais são uma homenagem à cultura negra? Foi gravado pelo Thiago Sonho [baterista da banda do Mano Brown], né?
Caio: Isso, ele que gravou. Esse lance da percussão foi uma ideia minha e do Bruno.

Foto: Marina Melchers

Sounds: E usar percussão especialmente nessa faixa, que dá nome ao disco, foi proposital ou o nome do disco veio depois?
Caio: O nome do disco aconteceu depois, mas ele já foi direcionado direto pra essa música. Esse é o som mais emocional do disco. Ele tem uma carga emocional absurda, tanto pela construção musical, como letra e arranjos.

Sounds: Já dá pra sentir isso desde esse começo mesmo. Vem a percussão, depois um riff dissonante e a hora que entra a parte rápida ela parece mais raivosa até mesmo que as outras partes rápidas do disco.
Caio: Lembro que quando eu tava gravando, o Hugo Silva [co-produtor] disse: “cara, essa música foi a que você conseguiu extrair mais raiva do seu vocal”. E foi de propósito. Esse foi o último som. A gente terminou com ela.

Sounds: Vocês passam por isso, de a última música ser sempre a melhor?
Caio: Sim, essa música em específico mesmo. Teve um tratamento especial. Pra mim, esse era “o som” desde que a gente começou a compor.

Sounds: Sim, a métrica de voz é animal.
Caio: Essa música mostra o que é o disco. A gente decidiu sair de algumas amarras do estilo e quis fazer algo fiel ao que a gente ouve, sem se prender a nada. Lá atrás, com o Sonho, a gente já tinha música com um lance tribal. A “Humanos” por exemplo, tinha uma batida feita por ele que era completamente diferente. A ideia de chamá-lo pra gravar esse som é justamente porque ele conseguiria dar aquela camada que a música pedia. Tanto é que a gente tem ensaiado sem a percussão e sentimos muita falta porque o tribal preencheu o som de um jeito muito brutal.

Sounds: E essa parte [entre 3:19 e 4:13]? É como se vocês juntassem Unleashed, Sepultura e Neurosis.
Caio: Exatamente. É isso! Eu sinto a mesma coisa.

Sounds: E nos shows vai rolar com percussão?
Caio: Talvez no dia 13 de fevereiro, na Dissenso, a gente tente fazer isso com o Sonho ao vivo.

4- “Black Blood”

Sounds: Essa você acha que já fala por si?
Caio: Esse disco é muito pessoal. A parte das letras foi onde eu consegui falar de muitos temas que pra mim são bem corriqueiros. “Black Blood” é um dos sons mais punk. É um dos que mais gosto e fala do genocídio… não sei se essa é palavra… talvez genocídio histórico. Mas fala da matança dos pretos periféricos.

Sounds: Não só pessoalmente, mas da matança da cultura negra, talvez.
Caio: Sim.

Sounds: A Daniela Arbex (autora do livro O Holocausto Brasileiro) está levantando esses números inclusive. E configurando como genocídio mesmo.
Caio: Tem um debate que é muito mais do campo intelectual e acadêmico com relação ao termo genocídio. Mas a gente tem um dado empírico, concreto, que nas periferias se mata muito mais pessoas negras do que brancas, e essa letra fala disso. É uma crítica direta ao Estado, aos principais agentes dele, e de ter orgulho desse sangue preto. Esse som termina com uma frase muito famosa do James Brown, que vou revelar aqui. Ela diz “say it loud, black and proud”. Ela termina com essa referência porque o James Brown foi muito importante para o movimento negro dos EUA. Esse som é muito hardcore. A gente ouve muito Nailbomb, e o Estevam ouve umas bandas de hardcore também. Ela me lembra algumas coisas do Sepultura de quando eles flertam com punk. Até Ratos de Porão mesmo. Ela é radical mesmo. Piro nesse som.

Foto: Paula Maria

Sounds: Hoje, quando se vai criticar algo, sempre aparece o lance do “ai, que chato”. Mas a música é um jeito de veicular certas mensagens sem essa barreira. Você se sente veiculando esses pensamentos pela música, principalmente nesse disco?
Caio: Quem me tem nas redes deve ficar de saco cheio (risos). As pessoas não têm muita paciência de discutir temas que são caros à elas.

Sounds: É que a música pode ser um meio de fugir do algoritmo e transmitir mensagens não só para quem pensa como você.
Caio: Apesar de bem crítica, a mensagem desse disco é positiva. PMA [Positive Mental Attitude] mesmo. Uma reivindicação de reação. Não é um disco de lamentação. Save Us From Ourselves é musical pra caralho, mas ao mesmo tempo ele tem uma força lírica brutal e positiva.

5- “Blessed By Money”

Caio: Essa tem bastante Napalm Death e Entombed. O Estevam conseguiu uma levada bem legal e o Alemão acompanhou bem na bateria.

Sounds: Tem bastante groove.
Caio: Nesse disco a gente pegou pesado com relação a bateria. A gente queria que o Alemão conseguisse flutuar pra um outro campo. Ele é muito bom. Executa umas coisas que muita gente não consegue, mas muitas vezes ficava travado no thrash metal. Aí a gente descarregou nele uma série de álbuns, como o Wolverine Blues, do Entombed; e o Swansong, do Carcass, pra ele entender a batera com groove tocando pesado. Ele absorveu isso muito bem e conseguimos o resultado que a gente queria. Eu procurei muito groove nesse disco. Desde o fim de 2016 isso já tava na minha cabeça: “Preciso ter um disco musical. Agressivo, mas tem que ter harmonia e melodia, e precisa ter a bateria como carro-chefe”.

Sounds: No campo vocal a gente acha que esse é o seu melhor trabalho.
Caio: Acho que pelo fato de ser inglês, foi onde eu encontrei minha voz.

Sounds: Ou pelo fato de ser um disco pessoal, como você tinha dito antes.
Caio: É. Eu tenho que agradecer ao Hugo e ao Estevam. Foram dois caras que me perturbaram com relação ao vocal. A gente percebeu isso no “Blessed By Money”. Eu tava gravando e o Estevam e o Hugo falaram que eu tinha feito alguma coisa diferente no vocal. Eu tava achando meio Max Cavalera demais e sempre tive medo de soar igual porque ele é a minha maior referência de vocal. Aí eles falaram pra continuar nessa toada. Aí eu regravei alguns vocais. No meio da gravação a gente teve a ideia de deixar o vocal alternando os timbres. Eu fiquei meio encafifado com isso, de ficar flutuando muito entre timbres, mas aí decidi ouvir outros discos pra ver se tinham essa mesma viagem. E tinham! Se você pegar discos do Dismember, o vocal difere propositalmente. Então me senti seguro pra fazer outro tipo de vocal. Regravei três sons: deixei os mais punks/crossover no timbre mais fechado e as outras tratei de diferenciar mesmo.

Foto: Marina Melchers

Sounds: Dá pra dizer que esse novo disco é bem inaugural para o Desalmado? Flutuações no vocal, groove, dissonâncias, músicas mais emocionais…
Caio: Na verdade ele vem mostrar o que a gente vem perseguindo nos últimos anos. Ao vivo, muita gente já vinha comentando que a gente estava em um novo estágio. Aí, quando entramos no estúdio, conseguimos captar todo esse estágio que culminou no disco. O Family Mob Studios ajudou muito ao fazer com que a gente respirasse um ambiente de música, pra gente entender o que era, se cobrar. A gente se sentia moleque mesmo, só que uns moleques que aprenderam a tocar. E o Estevam colocou umas camadas de guitarra muito legal.

6- “Bridges to a New Dawn”

Sounds: Esse começo remete muito ao Napalm Death da década de 90 , né?
Caio: Já me falaram isso. Essa é a preferida do Estevam. Ele fez tudo com muito carinho e não admitia erro. Tudo tinha que sair perfeitamente. Vocal, bateria…

Sounds: As gravações foram ao vivo? Porque parece que tá todo mundo na mesma sala.
Caio: Tudo separado. Durante um ano, e tudo separado. Quando tinha uma brecha no estúdio a gente gravava.

Sounds: E tiveram muitas captações da mesma música?
Caio: Deu trabalho. O Hugo pegou muito no pé e foi tudo muito detalhado. Eu tava até vendo um documentário do Foo Fighters [Back and Forth] que mostra a banda na casa do Dave Grohl, reescrevendo letra e dizendo que tal trecho não tava bom, precisava refazer. Eu vi o Desalmado ali. Foi o que aconteceu com a gente.

Sounds: Olha só, que legal isso.
Caio: Tipo: “isso aqui não tá legal, tá mó bosta”. Aí um ficava puto com o outro… teve momento em que eu me estressei, me senti um merda, do tipo “eu não consigo”, o Alemão também.

Sounds: Foi um disco de cobrança pesada.
Caio: Foi. Talvez o único que não tenha tido tanto isso foi o Estevam porque ele resolveu bem as guitarras. Ele só mandava umas gravações do tipo “o que você acha? ”. Pro restante da banda foi penoso.

Sounds: Mas dá pra ver no resultado o tanto que é bom você levar todo mundo a um nível mais alto.
Caio: Eu tinha motivação pra isso, desde quando a gente voltou da turnê na Europa. Lembro da estarmos indo pra Florianópolis tocar e aí sentei no embarque e falei “E aí, depois que a gente voltar, vamos compor ou não? Eu quero compor um disco foda”. Aí teve umas férias da banda e quando a gente voltou, entrou de cabeça. Quem foi fundamental na parte musical, de trazer todo mundo junto, foi o Estevam. Eu talvez tenha sido a parte do “vamo aí”. O Bruno veio junto, Alemão também, mas quem puxou todo mundo pra dentro mesmo foi o Estevam.

7 – “Corrosion”

Sounds: Essa foi o primeiro single, né?
Caio: Foi.

Sounds: Esse começo parece que vocês aceleraram o Sacred Reich e temperaram com Nasum.
Caio: Pra esse som, a gente quis trazer uma parada fora do blast beat tradicional, mas que ainda fosse blast beat. O Converge faz muito isso e a gente resolveu inserir como um elemento do Desalmado mesmo.

Sounds: Blast beat de cúpula mesmo.
Caio: Isso.

8 – “Binary Collapse”

Sounds: O início dessa música tem aquele groove do hardcore de Nova York, mas voltado para o metal mesmo e não tanto para o hardcore.
Caio: Essa eu acho que é uma das melhores baterias do Alemão.

Sounds: De execução?
Caio: De tudo. Criatividade. Tem umas viradas muito louca, umas quebradas, groove… vai pra tudo quanto é lado.

Foto: Ah! foto

Sounds: Chama atenção a frase “Erase your face, delete yourself / Shut down illusion, turn off mind function”.
Caio: É, esse som fala basicamente disso. Ele é isso.

Sounds: E isso nos parece muito o resumo daquilo que falamos antes, de o disco ser um chamado pra ação uma positiva falando de coisas não tão felizes.
Caio: A gente tem um problema hoje. A internet é o principal meio de comunicação do mundo, mas o que era um território mais livre e neutro sofre um problema porque se tornou um grande monopólio de grandes empresas. Empresas que se tornaram grandes, passaram a monopolizar esse espaço e romperam com o conceito de neutralidade da rede. Não que exista um filtro, mas os algoritmos, o modo de cada programa operar, conduz as pessoas e formam pensamentos. Esses dias eu li um termo que foi muito bom, que dizia que o formato da internet atual talvez seja a melhor forma de lobotomia que já foi desenvolvida. Achei interessante isso.

O grande problema da internet de hoje é que ela não dá ao usuário a permissão para que ele faça as suas escolhas. Você pode até fazer, mas estamos meio que numa situação como a televisão. Você tá recebendo informações e processando isso a todo momento. E a TV não oferece o estímulo de reconhecimento de opinião, uma coisa pessoal. Fora uma outra questão que é a de se colocar em um estado de comparação contínuo. São pessoas comparando vidas. Hoje, as empresas do Mark Zuckerberg têm o poder de conduzir pessoas e determinar pensamentos. É um problema geopolítico também. A letra trata disso. As empresas ficam nos EUA e a gente teve casos e mais casos de espionagem que foram delatados pelo Edward Snowden. Cada celular que tá circulando por aí pode estar com uma vulnerabilidade de segurança e pode estar sendo acessado. Pelo ponto de vista prático, a questão de privacidade hoje deixou de existir.

Sounds: Pensando na questão da distribuição, que vai ser limitada pelo Facebook, o não acesso a conteúdos diversificados porque um algoritmo está fazendo o filtro pode ocorrer também com a música. Se esse algoritmo funciona pelas palavras e likes, cada um ouve o que tem relação com o que já é ouvido. E isso ocorre justamente num momento em que a gente poderia fazer um mapa estético com acesso a vários estilos de música. Isso também é um prejuízo.
Caio: Essa mudança prática vai depender dos próprios usuários. O grande problema é que esses usuários já adotaram um comportamento viciado, no sentido de relação com a plataforma. Por exemplo, eu tenho o hábito de baixar discos ainda e depois buscá-los. Mas muita gente prefere pagar um serviço X e isso acaba criando um comportamento viciado,  levando as pessoas a terem os seus pensamentos determinados de acordo com essa plataforma X.


9 – “Exist and Resist”

Sounds: Chegamos à última faixa. Essa foi uma música pensada pra encerrar o disco?
Caio: Foi. É a mensagem do disco mesmo. PMA total.

Sounds: E é legal que você faz uma brincadeira com o grau de importância da mensagem: “Exist, Resist / Resist, exist”.
Caio: Isso.

Sounds: É um Descartes lutador… resisto, logo existo.
Caio: Risos. É, esses dias eu tava numa discussão onde se dizia “ah, o metal não deve ser político”… “a esquerda e a direita estão estragando o metal”. A questão é que todo mundo é político.

Sounds: O metal é feito por pessoas e pessoas têm posicionamentos. O problema é que isso nunca foi muito declarado, e aí, quando você descobre que músicos têm uma posição mais combativa, como no punk, por exemplo, surge uma necessidade de se posicionar. O metal só começou a falar da real mesmo quando aparece o thrash, no início da década de 80, e isso virou um movimento. O Metallica vestiu calça jeans e camiseta e foi pro palco. Antes a gente tinha um metal maquiado, não só na estética, mas no conteúdo também.
Caio: Sim, total. Essa música é o ponto final do disco e é bem clara nesse sentido. No mundo de hoje tem aflorado a questão das pessoas mostrarem o que pensam e isso é importante. Eu sou a favor da crítica e de não censurar qualquer tipo de opinião. Claro, eu não vou tolerar o discurso de ódio porque ele fala em massacrar o que não gosta e isso já acontece. Esse tipo de discurso tem que ser criticado. A grande questão dessa música é fazer resistência a tudo isso, porque querendo ou não, o estado em que a gente vive é majoritariamente conservador. É de uma direita que procura esmagar toda uma parcela da sociedade contrária a ela. Na verdade, os movimentos que existem são de resistência. Então, quando você pensa num movimento de sentido revolucionário, ele é mais uma resistência um pouco maior. Não quer dizer que ele vá ser vitorioso. “Exist and Resist” vai nesse sentido. De fazer com que essas pessoas que fazem parte dessa resistência não desistam. Porque não é fácil. Muita gente desiste. Essa música é um dos sons em que o Hugo teve um papel fundamental também, porque eu tava seguindo uma mesma linha no vocal e ele me ajudou muito. O Leo, do Surra, fez o discurso final e foi exatamente como eu imaginei.

Sounds:. É um discurso de raiva convocatória. Soa mais catártico que odioso. É uma agressividade viva ali nas palavras.
Caio: É isso. Tem muita gente que quer atrelar o Desalmado a um movimento partidário. Aí tem um problema. Ninguém faz parte de partido nenhum. Nós somos uma banda com uma consciência política atuante e bem construída e, ainda assim, com suas limitações porque são quatro pessoas diferentes. Talvez eu seja o mais atuante, sempre estudando, no debate e tudo mais. Só que ali tem outras três pessoas que pensam um pouco diferente. Então tem algumas críticas de algumas pessoas que falam que “ah, mas tem que ser só o som e tal…”. Sim, tem que ser o som, mas essas quatro pessoas têm algo em comum. A gente quer externar as nossas indignações pra tentar formatar uma sociedade um pouco melhor. Não é a sociedade perfeita porque as pessoas têm muito essa mania de buscar a perfeição. A gente quer é diminuir as disparidades.

Sounds: A utopia do Thomas Moore.
Caio: É, a gente quer ser parte de algo. É o que nos motiva. O Desalmado não obedece a nenhum espectro de determinado partido, mas a gente tem consciência de que fazemos parte de uma luta.

Sounds: Lembrando ali dos tempos de El Fuego (pré-Desalmado), quando vocês gravaram a primeira demo, primeira vez no estúdio, o que você sonhava e esperava conquistar com a banda? Como esse disco novo se encaixa nisso? É que nos chamou a atenção quando você diz que essa música é um ponto final. Depois dele, qual vai ser o ponto de continuação dessa história?
Caio: Quando gravei a primeira demo, tinha certeza de que teria uma banda pra estar em cima dela e ralar mesmo. Eu sempre levei um lema a sério: sou fiel ao metal extremo e morte aos posers [risos]. Eu nunca fui atrás de fama. Tem muito disso na música, de você ter que ser melhor do que alguém. Eu sempre tive o objetivo de conseguir lançar discos bons e, talvez um dia, conseguir fazer um puta disco bom, mas teria que ralar muito. Eu sempre soube que ia depender de vários fatores. Muita insistência, de abrir mão de uma série de coisas, e que não ia ser da noite para o dia.

Sounds: E você conquistou o que você sonhava?
Caio: Ainda falta uma parada que se rolar vai ser legal pra caramba: ter uma gravadora que distribua nosso disco e faça nosso som chegar em vários lugares. Isso é uma coisa que a gente quer e ainda falta. Mas fizemos duas turnês gringas, que era uma coisa que no começo a gente nem pensava. Eu lembro, em 2011, a gente andando lá nas ruas da Europa e falando “putz, quando a gente ia imaginar que estaríamos aqui tocando?”. Depois da turnê a gente voltou, gravou o Estado Escravo, e não tínhamos ideia de lançar em formato físico. A gente não tinha grana pra isso. Aí, trocando ideia com os caras do Subcut, eles falaram para fazermos um catadão de selo e distribuidoras. Aí a gente foi conversar. Nem tínhamos noção de que a galera respeitava nosso som, e  descobrimos que tem um pessoal que respeita muito o Desalmado. Os selos aceitaram e conseguimos lançar físico. Todo mundo elogiou. Quando a gente pegou o CD na mão, foi tipo “nossa, nunca imaginei isso”.

O primeiro CD do Desalmado, que é o S/T, até rolou de sair pela Greyhaze, que foi a primeira gravadora que apareceu e quis lançar, mas tem um problema. A gente perdeu a primeira gravação e ela era infinitamente melhor do que a que saiu oficialmente. Muita gente gosta muito desse disco, mas a gente é traumatizado com ele. A primeira versão, pra mim, é infinitamente melhor. Tava tudo pronto, mas perderam o backup [gravação] da mesa. Aí pra gravar de novo foi preciso ir pra Minas Gerais, com o Jean [Dollabela, do Family Mob] emprestando o estúdio… Foi tudo muito picado. A gente nunca teve um processo facilitado. Só fomos ter isso no Family Mob pra fazer o Estado Escravo. E pra vocês verem, eu pulei o Desalmado S/T, que foi o nosso primeiro lançamento físico. Mas foi no Estado Escravo que “putz, temos um disco!”. Tem um processo ruim aí. Todo mundo gosta e pra gente tem um problema.

Sounds: Geralmente não coincide, né? A percepção de fã com quem gravou de fato.
Caio: É, muita gente pira. Pra mim é só “legal”. Se fosse a primeira versão eu ia falar “porra, legal mesmo!”. Eu lembro do Fabio, vocal do Paura, me mandando um vídeo dele ouvindo o disco. Eles estavam em turnê na Europa ouvindo uma versão da “Todos Vão Morrer” porque, na época, o batera que gravou nosso disco tocava no Paura.

Sounds: O Henrique?
Caio: Isso. Eles na van ouvindo o disco e eu lembro de pensar “caralho, isso tá bom!”. Essa história é foda.

Sounds: E agora? Vocês estão em tour com o Besta, de Portugal, né? Tem mais shows por aqui ou fora?
Caio: A gente tinha planos de ir para o Japão em maio, tava tudo armado, mas por uma questão de grana não vai rolar. Tem questão de visto também. A ideia é ir no início de 2019 pra Europa, mas pra isso a gente precisa sentir que o disco vai ter uma boa repercussão por lá. Eu acredito que isso vá rolar porque tem dois contatos de selos de Portugal querendo lançar o Save Us From Ourselves. E aí a probabilidade é ir pra lá ano que vem.

Foto: Marina Melchers