FAR 'Water and Solutions', um dos lindos registros da década de 90

In Bandas, Discos

O FAR é uma dessas bandas da década de 90 que ocupam um canto bem especial na nossa história. E mesmo a memória sendo uma grande criadora de fatos, é curioso como 20 anos depois Water and Solutions, terceiro disco dos californianos, ainda consegue conversar com emoções presentes e que circulam saudosas no espaço entre uma audição e outra.

Na época, mais precisamente em 1998, Water and Solutions foi uma descoberta e tanto. Um álbum recheado de propriedades que transitavam entre o emo, o rock alternativo e melodias deliciosamente pop que juntavam tudo isso de uma forma nada inovadora, mas com uma generosa carga de entrega e veracidade. É daqueles discos que você ouve diversas vezes e não consegue conter a urgência de apresentá-lo para o maior número de pessoas possível.

Foto: Sounds Like Us

O fim da década de 90 foi responsável por levar o rock alternativo para o mainstream, algo que alguns anos antes seria difícil de prever. Era a invasão do rock na grande mídia. Tempo de nomes como Nirvana, L7, Sonic Youth, Ministry, Pearl Jam, Alice In Chains, Soundgarden, Jane’s Addiction, Smashing Pumpkins e tantos outros que ajudaram a definir os contornos da música independente.

1998 foi um ano que ainda sentia os efeitos da ressaca de um tempo sem internet, mas que também viu a chegada do new metal. Antes disso, no início daquela década, o rock alternativo já havia sacudido o mundo e isso, de certa forma, tirou do Far um lugar pra chamar de seu. Water and Solution não era só rock alternativo, nem só emo, muito menos parte do new metal. Em maior ou menor grau, era um pouco de tudo isso. O guitarrista Shaun Lopez chegou a dizer que sempre se espanta com a grande quantidade de bandas que mencionam o Far com uma grande influência porque eles sempre foram vistos como uma banda excluída do que estava acontecendo naqueles dias.

Foto divulgação de Water and Solutions

Mesmo com uma enxurrada de novidades não só na música, como também na maneira de ouvi-la, o fim daquela década era também um período que ainda não havia se despedido totalmente de alguns bons costumes, como o de religiosamente todo mês comprarmos as nossas revistas preferidas.

Foi nutrindo esse bom hábito que, em uma das edições da revista inglesa Kerrang, que costumava trazer alguns destaques em suas resenhas de shows, demos de cara com um texto sobre uma apresentação do Deftones, à época em turnê divulgando seu então recém-lançado Around the Fur. Na ocasião, eram duas as bandas convidadas para abrir a turnê: O Far e o Will Haven, maravilhas por quem a gente caiu de amores logo na primeira ouvida.

O Will Haven, banda da Revelation Records, tradicional selo de hardcore americano e casa de bandas como Youth of Today e Gorilla Biscuits, era arrastado, abrasivo e dono de uma melodia dissonante. Algo que destoava de um selo como a Revelation, é verdade. Mas sobre eles a gente deixa pra falar em uma futura oportunidade.

O Far foi apontado com destaque na resenha da Kerrang. Na época, 1997, eles já vinham incluindo no set list algumas músicas de Water and Solutions, que foi gravado no mesmo ano, mas só seria lançado em 98. Por parte da publicação inglesa, foi só elogios.

Water and Solutions nasceu na era dos CDs. Nele, Jonah Matranga (vocal), Shaun Lopez (guitarra), John Gutenberger (baixo) e Chris Robyn (bateria) conseguiram acertar em cheio. É o Far no auge do entrosamento e sem qualquer tipo de maquiagem. O disco soa vivo. Bateria viva, guitarra com mixagem alta, baixo gordo e vocais extremamente viscerais, seja aos berros ou em melodias à flor da pele.

Vale dizer que, antes disso, eles já haviam lançado outros três discos: Listening Game (1992), Quick (1994) e Tin Cans with Strings to You (1996). Todos com alguns bons momentos, mas nenhum deles tão marcante.

O vocal de Jonah é um dos grandes responsáveis pelos sentimentos que o Far consegue explorar. Ele trafega em letras sobre luz e escuridão, tristeza, amor, raiva, abandono e saudades, mesmo que isso seja uma palavra de tradução insuficiente aos corações americanos. E elas também falam de amor. Jonah parece movido a isso. Em todos os seus estágios, o amor está sempre presente, sem correr o risco de cair em armadilhas simplistas ou piegas, mesmo que este seja um sentimento deliciosamente brega.

Pôster de divulgação de Water and Solutions

Shaun Lopez, que montou o Crosses junto com Chino Moreno (Deftones), é um cara de muito bom gosto em suas linhas de guitarra e a influência melódica do emo em acordes abertos pode ser sentida em “Nestle”, uma de nossas prediletas. Sabe aquela sua parte preferida, da sua música preferida, e que você fica em silêncio esperando chegar? Então: When I started this / I was thinking of my Father / Now a holy ghost / Now see one become the other / One become me I realize. Nestle, I won’t ever let you gooooo. Ainda arrepia.

“Bury White” é uma ótima escolha para abrir o disco. Uma bela amostra do equilíbrio entre melodia e peso, algo inerente ao leque de referências do Far. É quase um Helmet downtempo. Sobre essa faixa, no encarte de uma edição comemorativa do disco, Jonah diz que depois que o produtor do disco, D. Sardy, tinha acabado de mixar a música, ele saiu da sala não acreditando que tinha feito uma coisa tão bela. Ele disse também não saber quem ia gostar daquilo, mas sabia que eles tinham acabado de fazer algo de que teriam orgulho por muito tempo.

Em momentos mais acelerados, mas não menos animadores, Water and Solutions traz a incrível “The System” e “Mother Mary”. Na última Jonah canta Like Elvis, like everyone / We all die, we all live on in photos and paperbacks / if we’re lucky / we’re coming back. Já “The System” entrega algumas mudanças de andamentos que, no contexto geral, agradam muito.

“Really Here” é uma das mais bonitas e faz ponte com a incrível faixa-título que explode em uma dinâmica próxima a algumas coisas que o Helmet fez na fase Aftertaste. É o que acontece também em “Wear It So Well”, que divide com “Water and Aolutions”, a música, um dos momentos mais pesados do disco.

Chegamos à maravilhosa “Man Overboard” e seu andamento que mais parece uma valsa indie, com direito a bridge em coro e refrão pra cantar junto a plenos pulmões. Nela, assim como também em “Another Way Out” e “Waiting For Sunday”, a voz de Jonah é acentuada por uma certa crueza. Tem muito mais garganta, bom gosto e veracidade do que técnica ali. É interessante porque isso, de alguma forma, cria um tipo de proximidade entre o ouvinte e as palavras que constroem toda a narrativa.

Caso que também que ocorre na frágil e sussurrada “In 2 Again”. Jonah parece quebrado. And I worry that everyone but me will be laughing at / Something I didn’t see. Ou ainda em Into another, in too deep / Like bees to flowers, sex to steal / And before ever / Will we be in 2 again? É doído. É Jonah dando ao amor uma imagem desconfortável e solitária.

Entre todas as faixas, a mais, digamos, experimental, na medida de possível, é “Another Way Out”, que junto a “Waiting For Sunday”, são as encarregadas de fechar o disco em grande estilo.

Foto: Divulgação

Water and Solutions é um álbum quente. Não inventa nada, mas oferece um protagonismo a cada uma das faixas. Todas são marcantes. As mais rápidas, mesmo que pareçam comuns, são cativantes dentro do seu universo. As mais lentas são, dentro das possibilidades do estilo, pesadas e de um honestidade necessária nesse tipo de música.

O FAR acabou em 99, mas voltou a gravar em 2010, quanto lançou At Night We Live. Um disco muito esperado, mas que não teve um impacto correspondente à sua espera.

Certa vez, um amigo que morava nos EUA contou que Jonah funcionava como uma espécie de irmão mais velho e conselheiro de uma geração de bandas que se formava em Sacramento e arredores. Um cara muito envolvido com seus amigos e com a música.

Com o fim do FAR em 99, Jonah começou a gravar sozinho umas demos sob o nome de Onelinedrawing. Já em 2000, ele montou o New End Original ao lado de amigos que tocavam no Texas is the Reason, Chamberlain, e lançou dois discos pela Jade Tree. Depois disso ainda teve o Gratitude, uma banda bem legal que vai por um caminho mais pop punk, meio Jimmy Eat World, e em 2005 lançou um disco e depois EPs. Recentemente ele gravou um disco com o Ian Love, guitarra do Rival Schools, em um projeto chamado I Is Another, além do Moral Mazes (2014) e o incrível Camorra (2017), ambos ao lado de ninguém menos que J Robbins (Jawbox, Burning Airlines, Government Issue). Isso sem falar nas inúmeras participações em shows do Deftones. Hoje, Jonah segue sozinho em shows mais intimistas acompanhados do seu violão e da necessidade de se manter próximo à música.

Foto: Divulgação

Shaun Lopez continua produzindo algumas bandas e tocando guitarra ao lado de Chino Moreno, no Crosses. O baixista Johnny Gutenberger gravou com o Two Sheds e o baterista Chris Robyn segue com o Black Map, banda de post-hardcore que em 2018 lançou um novo EP, Trace The Path.

Diante de todo esse histórico e do disco em questão, passados esses 20 anos, o Far segue sendo uma banda que aponta o direcionamento musical do seu tempo, mas sem o reconhecimento simultâneo. Water and Solutions é um acerto e tanto. Um disco influente, cheio de personalidade e, ainda assim, não tão conhecido. Quase cult. E isso já é o suficiente pra gente reviver o mesmo fervor de 20 anos atrás e torcer para que você termine de ler essas linhas e ouça esse grande disco em alto e bom som.