Nirvana – ‘In Utero’ Os shows no Brasil e outras histórias sobre os 25 anos do último disco de estúdio

In Bandas, Discos

“This álbum is dedicated to dead relatives. They are safe warm and full of happy smiles” – Kurt Cobain (Journals – Riverhead books).

O início da década de 90 foi preenchido por tempos tão intensos para o Nirvana que, embora não enxergássemos isso na época, a certeza de um fim na mesma medida era iminente. Buscar o reconhecimento e passar ileso ao gigantesco sucesso eram vetores que dificilmente poderiam conviver em completa paz.

Foram tempos vorazes e de alguns avessos. No chamado grunge, bandas que há cinco ou seis anos tocavam para 200 pessoas passaram a ser cogitadas por grandes festivais e marcas a dividir o palco com medalhões da música. De uma hora pra outra, Seattle virou o lugar mais querido do mundo. Ou melhor, de uma hora pra outra, Seattle virou o mundo.

No Brasil, centenas de novas bandas surgiram, encorajadas pela explosão do rock alternativo. Outras já existiam, e ganharam espaço para espalhar por aí o que vinham fazendo dentro das garagens.

Havia um certo romantismo em ser parte daquilo. Era bom saber que, em todo fim de semana, nos mesmos botecos e inferninhos, você encontraria vários grupos de pessoas conversando antes dos shows e descobrindo mais sobre aquela nova música.

Toda garagem era fértil e a juventude se descobria possível. Finalmente poderíamos criar músicas sem aqueles solos inundados de notas e cabelos esvoaçantes. Estávamos encantados por um recado de poucos acordes e muita, mas muita vida.

Nos EUA, depois de Nevermind, segundo disco do Nirvana, um grupo de jovens e suas bandas até então independentes estava cercado por rios de dinheiro, fama, sucesso, contratos milionários – e eles tinham que lidar com tudo aquilo.

Foto: Divulgação

O sucesso de Nevermind deixou a pergunta: Como seria o próximo disco? Seria possível fazer algo melhor? Será que eles fariam um Nevermind 2 ou arriscariam algo novo?

Mais rápidos que a possibilidade de uma resposta, eles lançaram Incesticidecoletânea com alguns covers e faixas inéditas. Entre as que ainda não haviam sido lançadas oficialmente, duas eram matadoras: “Aneurysm” e “Sliver”, que já havia sido lançada como single em um compacto e agora ganhava clipe para promover a coletânea.

Olhando hoje, para nós, In Utero, terceiro disco do Nirvana, parece ter sido uma busca por um som mais primal. Como título, é traduzido em um grito por visibilidade em um meio onde as atenções estavam voltadas para a banda, mas ninguém enxergava seus integrantes. Para o público, eram heróis. Para a grande indústria, cifrões. Mas e para eles?

In Utero era um nome que dizia muito sobre o estado de Kurt. Um lugar para onde, no meio daquele tumulto todo, faria sentido voltar. Um lugar onde pudesse haver conforto e proteção. E definitivamente, 1993, ano de lançamento do disco, não era esse lugar. Nele o Nirvana viveu 10 anos em 1. Longas turnês, os problemas com drogas, cobranças…

Hollywood Rock, Estádio do Morumbi, em 1993. Foto: Iaskara Florenzano

Hollywood Rock, 16 de janeiro, estádio do Morumbi, São Paulo. Primeira vez da banda no Brasil, e em um misto de deslumbramento com estranheza, vimos uma banda impacientemente explosiva.

No Rio de Janeiro foram 110 mil pessoas, e isso deixou a banda bem nervosa. Eles fizeram um ensaio de última hora antes do show e, como contou Charles B. Cross, na biografia de Kurt, a mistura de remédios com álcool piorou as coisas e fez com que ele travasse uma batalha intensa com os acordes que pareciam escapar de suas intenções.

A banda no banheiro do estádio do Morumbi, um pouco antes do show no Hollywood Rock. Foto: Joe Giron

Ainda sobre o festival, no show de São Paulo, covers dividiram o set list com músicas do Nirvana. Teve “Should I Stay or Should I Go”, do Clash; “Rio”, do Duran Duran; “Season in the Sun”, do Terry Jacks; “Kids in America” , do Kim Wilde; além de uma versão do Queen que, na voz de Kurt, se transformou em “We Will Fuck You”. Teve também uns trechos de Aerosmith e Iron Maiden. Ou seja, quem foi esperando ver um show convencional se decepcionou. Mas entre trancos, barrancos e instrumentos quebrados, não há como negar, foi um dia histórico.

O baixista Krist Novoselic definiu aquele momento como uma “crise mental”, o que também faz sentido. Ainda sobre a bagunça que foram aqueles loucos dias no Brasil, em This is a Call, biografia de Paul Brainnigan sobre Dave Grohl, Ian MacKaye (Minor Threat/Fugazi), que veio para o Brasil como integrante da equipe do L7, disse: “Fui junto e pensava; ‘Hum, isto é o que não deveria ser feito’”.

Foto: Sounds Like Us

O Brasil teve um papel importante na composição de algumas músicas de In Utero. A ideia da banda era gravar umas demos e trabalhar no disco que seria lançado em breve. Isso aconteceu no estúdio da gravadora BMG Ariola, no Rio de Janeiro. O Nirvana gravou sete novas faixas: “Heart-Shaped Box”, “Scentless Apprentice”, “Milk It”, Very Ape”, “Moist Vagina, “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip” e “I Hate Myself and I Want to Die”, além de dois covers zuera do Unleashed, banda de death metal da Suécia.

In Utero iria se chamar I Hate Myself and I Want to Die, frase que percorria os escritos de Kurt. Ele cogitou tão seriamente o nome que chegou a desenhar a capa do disco com uma riqueza de detalhes, tamanha obsessão que ele tinha para imprimir aquele título ao álbum. Desenhou frente e verso em um rascunho com indicações das artes, diagramação dos elementos, e até a posição de cada um dos três na foto da banda. No mesmo esboço, que foi enviado para o produtor, ele também escreveu: “o título é um tanto negativo, mas também é divertido”. O humor de Kurt.

Depois disso, o disco teve um batismo de curto período sob o nome de Verse, Chorus, Verse e, finalmente In Utero.

Steve Albini e o Nirvana.

A banda queria um som cheio, pesado e com uma crueza protagonista. Para isso, convidaram Steve Albini, guitarrista e vocalista do incrível Shellac e do Big Black, do qual Kurt e Dave eram fãs. Kurt chegou até a viajar horas de ônibus para ver o último show do Big Black, em 87.

Depois de finalizado, a gravadora achou o resultado registrado por Albini um tanto cru demais e isso poderia tornar o disco menos acessível. Em entrevista, o produtor chegou a falar ao Chigago Tribune que a “Geffen e a produtora do Nirvana odiaram o disco…”. Ele ainda completou: “Eu não tenho nenhuma esperança de que ele seja lançado”.

Na época isso circulou por várias publicações, inclusive as sensacionalistas. No press-release do disco, Kurt chegou a declarar que “não houve nenhuma pressão da gravadora no sentido de alterar as músicas”. Mas a treta continuou e Kurt fez com que a DGC publicasse um anúncio de página inteira na revista Billboard negando que o disco tinha sido rejeitado por eles. Mesmo assim, a gravadora recorreu a Scott Litt.

É um disco áspero, pesado, sem o mesmo apelo radiofônico de NevermindIn Utero era o Nirvana que queria chocar. Sobre o estado da banda naquela época, Novoselic disse ao site do New Music Express: “Nós apenas fizemos música. Trabalhamos muito bem juntos, rimos, estávamos concentrados, abertos. E isso realmente aparece no álbum…todos estavam focados e lúcidos. Tenho muito orgulho disso, é um disco lindo”.

Em sua biografia, Dave diz que adora In Utero. “Gosto mais dele do que Nevermind porque não houve nada entre a banda e a fita. Nada mesmo. Não ficamos nervosos para fazê-lo. Tínhamos uma coleção de músicas que considerávamos desafiadoras, interessantes, poderosas e lindas. Aquele álbum é o mais puro que poderia ser”, completa o baterista, que finalizou sua parte gravando a bateria de todas as músicas em apenas três dias.

Foto: Divulgação

Liricamente, “Serve the Servents” nos parece ser um retrato sem filtro do cansaço da banda frente ao roquinho convencional que esperavam que eles fizessem. A primeira frase de Kurt já dá indícios de que ele não andava lá muito contente: Teenage angst has paid off well / Now I’m bored and old (A angústia adolescente pagou muito bem / Agora estou velho e entediado).

Sobre “Serve the Servents”, em Journals ele fez uma anotação tão confusa quanto esperada. Ele escreve “Oh Senhor, culpado do ‘sucksess‘, durante os últimos dois anos eu lentamente cheguei à conclusão de que não quero morrer. Eu agora estou mais recluso do que costumava ser… ”

O início de “Scentless Apprentience” não nega a vontade de Dave Grohl em querer chegar perto do groove e da força das batidas de John Bonham, do Led Zeppelin. É uma música forte, barulhenta e que, em sua versão inicial, passava dos 10 minutos de duração. É a única lançada em um disco oficial que carrega a assinatura de Dave e Krist como co-autores.

Dave Grohl durante os ensaios para a gravação do “Live and Loud”, da MTV.

Em Cobain Unseen, outro livro de Charles E. Ross, ele conta que In Utero seria uma volta ao espírito punk. Uma oposição ao approach pop “candy-assed”, nas palavras de Kurt, de Nevermind. Até nos nomes das músicas eles pareceram ter o cuidado de selecionar os que mais poderiam assustar o público: “Moist Vagina”, “Dumb”, “Macro Antibiotic”, “Nine Mounth Media Blackout”, e “Heart-Shaped Coffin”, que depois virou “Heart-Shaped Box” e sua dedicatória apaixonada no verso I wish I could eat your câncer.

Assim como o título do disco, “Heart-Shaped Box” também coloca o foco no nascimento, na morte e na sexualidade. Para o clipe, várias versões foram feitas. No início, Kurt queria de qualquer forma que o escritor William S. Burroughs participasse do vídeo. Chegou a escrever para ele, mas Burroughs recusou o convite. A última versão do clipe é a que conhecemos, com um Jesus bem velho e muito magro, o feto, Kurt encarando a câmera, muita cor, e a menina branca, com chapéu que remete a Klu Klux Klan que no decorrer do clipe fica preto.

O Nirvana durante as filmagens do clipe de “Heart-Shaped Box”. Foto: Divulgação

“Rape Me” causou polêmica. Sua estreia foi em rede nacional, durante o VMA, premiação da MTV americana. A banda tinha planejado tocar a música na íntegra, mas, talvez pelo seu título, a emissora não permitiria tal feito. Tão logo surgiram os primeiros acordes de “Rape Me” a direção da emissora pediu que cortassem e fossem para um intervalo comercial. Não deu tempo. Kurt cantou somente os primeiros versos e logo emendou “Lithium”, que foi tocada na íntegra.

Vale lembrar que os primeiros acordes de “Rape Me” foram intencionalmente baseados em “Smells Like Teen Spirit”, coisa que a gente sempre desconfiou, mas não tínhamos a confirmação disso até o lançamento da biografia de Dave Grohl, onde isso foi dito, ou melhor, escrito.

O momento de Kurt parecia ser família. Ser pai e marido pode ter mudado o jeito dele se expressar em suas letras. Se em Nevermind ele escrevia sobre uma ótica ainda adolescente, falando de sua namorada e amigos, em In Utero a abordagem era mais pessoal, ainda que isso não fosse tão claro.

Em um trecho de uma das nossas músicas prediletas, “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”, a letra diz: I miss the confort in begin sadshe’ll come back as fire and burn all the liars. É Kurt despejando sua raiva contra a forma que a imprensa tratou sua família.

Manuscrito da letra de “Dumb”, exposto em São Francisco. Foto: Sounds Like Us

“Dumb” é de tom fúnebre enquanto Kurt repete Maybe just happy / Think I’m just happy, como se precisasse desse álibi para conseguir se enxergar “just happy”. Depois dela, “Very Ape”, talvez a mais direta do disco, espalha um mar de fuzz com um andamento linear de verso, refrão e verso.

Com “Milk It” o Nirvana deixa claro sua afeição pelo noise rock encabeçado por bandas como Jesus Lizard. É barulhenta, com a bateria captada sob tensão e arremessada de volta ao ouvinte de forma brutal enquanto Kurt berra o verso look on the bright side is suicide. 

Na primeira ouvida, “Pennyroyal Tea” foi uma das faixas que ficaram entre nossas prediletas. Ela foi composta para ser um ato acústico, com andamento próximo ao estilo dos Beatles, de que Kurt tanto gostava. Quando pronta, foi eleita por ele como o possível primeiro single. Faria muito sentido. “Pennyroyal Tea” tem aura radiofônica, é formatada no loud quiet loud, estrutura que o Nirvana tomou emprestado do Pixies.

Foto: Anton Corbijn

A tensa “Radio Friendly Unit Shifter” é, teoricamente, uma resposta a uma matéria da revista Vanity Fair. Depois disso, no início de “Tourette”, traz o sinal do escracho como porto seguro, mas que, no fundo, de seguro não tinha nada. Há no início uma voz que imita um DJ de rádio, que em meio a microfonias apenas diz em tom irônico: Moderate roooock. E então chegamos a uma avalanche de notas simples e forte, que dura pouco mais de um minuto e meio, tempo suficiente para Kurt vomitar uma letra que parece um fluxo de consciência desenfreado.

Com o tempo, “All Apologies” ganhou muito mais força do que quando ouvimos o disco pela primeira vez. Hoje ela soa nostálgica e é quase insuportável ouvi-la em volume baixo. A linha de guitarra do início é hipnotizante e delicada, o que contrasta com a subida do refrão, a tal especialidade nirvanesca. É isso. Se a gente pudesse dizer algo sobre “All Apologies” seria “encontrem o seu próprio volume para que ela funcione e emocione”.

In Utero nos ofereceu memórias incríveis. “Sappy” é outra das músicas prediletas aqui de casa. Na década de 90, o Alternative era uma casa onde rolavam bons shows de bandas do underground paulista e uma trilha sonora de músicas voltadas para o rock alternativo. A primeira vez que ouvimos a gravação mais recente de “Sappy” foi lá, e pensamos: “como que a gente nunca percebeu essa música no disco???”. Simples, ela não estava no disco. Não havia Napster, Audiogalaxy ou Soulseek para nos salvar. Resultado? Sempre que voltávamos ao Alternative, nossa torcida era para que ela tocasse novamente.

“Sappy” aparece na coletânea No Alternative, registrada com o nome de “Verse, Chorus, Verse”. O disco ainda trazia outras grandes bandas como Soundgarden, Bob Mould, Patti Smith e Urge Overkill, só para citar algumas.

Entre outras gravações que não entraram oficialmente no disco, estava “Moist Vagina”, que a princípio teria o sucinto nome de “Moist Vagina, and Then She Blew Him Like He’s Never Been Blown, Brains Stuck All Over the Wall”; ufa! “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip”, que tem a acidez clássica do Nirvana, mas com um tempero que lembra um pouco as coisas do Pavement; e a ótima “Marigold”, cantada por Dave Grohl, que já dava pistas do que viria a ser o Foo Fighters.

“I Hate Myself And Want to Die” também foi gravada nessa época. De uma crueza garageira que caberia perfeitamente em Bleach, foi parte do disco The Beavis and Butt-Head Experience, trilha sonora do programa de mesmo nome lançado também em 1993.

Nos dias que sucederam a perda de Kurt, era compreensível que houvesse questionamentos, dúvidas, e uma coleção de “se”, como “se” isso fosse aquietar nosso coração. Mas o tempo, nesses 25 anos, ainda traz uma vontade imensa de ouvir Nirvana. De mergulhar, e tentar entender cada vez mais uma trajetória de acordes simples, poderosos, e de uma existência complexa.

O fim do Nirvana vai ficar eternamente ligado à morte de Kurt. Mas como disse David Fricke em um de seus textos, cabe a nós, mais do que lamentar o que perdemos, entender o quanto Kurt conseguiu ceder. E oferecer.

Kurt Cobain em Seattle, em 28 de agosto de 1993. Foto: Youri Lenquette.

Quando foi lançado, In Utero estreou em primeiro lugar nas paradas e o Nirvana seguiu para uma turnê americana com Kurt dizendo: “Eu nunca estive mais feliz na minha vida”. Pouco depois, o mesmo Kurt curvaria o corpo em seu violão, sozinho, entregue, cercado por lírios brancos, cantando a já citada “Pennyroyal Tea”, durante a gravação do acústico para a MTV. Na percepção de Fricke, ali ele enfrentou o feio, o amargo, o feliz, o triste, o mau, o bom, e a inconstância que acompanhou parte da sua vida.

Em toda sua honestidade e rispidez, In Utero se despede em um fade out de reticências como se oferecesse diferentes e infinitas descobertas e leituras. Como algo que não acaba. Vivo em um looping que funciona como um abraço de aconchego e compreensão. Afinal, all in all is all we are…

Nirvana
Foto: Richard Bellia