Ruído Subterrâneo III

In Bandas, Especiais
Vinicius Castro

Mais uma edição do nosso especial Ruído Subterrâneo com uma lista especial trazendo algumas bandas que vem fazendo bonito no nosso underground. Tem punk, black metal, screamo, noise experimental e muito mais.

Se você buscar não cair na mesmice e quer ficar por dentro dos bons sons que andam ressoando na nossa música subterrânea, aqui é o seu lugar. Leia em alto volume e compartilhe. A nossa ideia aqui é espalhar essas bandas por aí para que mais pessoas possam conhecer cada uma delas.

lento, distante

A faixa que inaugura o disco traz um tom confessional que comunica o clima que vamos encontra a partir dali: “Só sou solidão...” Na música seguinte, “Saudades”, Sandy Iketani (voz) canta: “não vai voltar… não vai voltar…”. As construções ajudam a jogar luz sobre o encontro das palavras com as imagens, e isso é um dos grandes lances de Tecendo Ficções. A banda, formada em Belém (PA), esbarra no dreampop e no shoegaze, dialogando com o indie e revelando um recorte bem legal de nomes que vem apostando em um sotaque mais brasileiro na hora de delinear sonoridades como, no caso, o dreampop.

ANTI-CORPOS

O Anti-Corpos é um nome muito conhecido da nossa música subterrânea. Formada no início dos anos 2000, hoje conta com Adriessa (baixo/voz), Helena (bateria) e Irem (guitarra/voz). O trio, residente na Alemanha, lançou no ano passado Backlash, disco que mantém os pilares éticos e sonoros do punk, porém amplia suas referências junto a uma carga emocional a flor da pele que amarra muito bem as faixas. Backlash é também cheio de raiva, com um instrumental coeso e bem captado em sua produção. Feminismo, lutas pelas causas de pessoas minorizadas pelo sistema, diversidade, e política são temas urgentes tratados nesse baita registro sob uma avalanche de peso, groove e intensidade.

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KOMBI

Texturas, ruídos, drones, loopings e experimentos de diversas intenções em convergência com uma sonoridade que, a princípio, pode parecer somente barulho, mas não. É música em estado ruidosamente primitivo. O projeto Kombi, idealizado por João Kombi (Test), toma o ruído e a melodia como ponto de partida em composições que usam a gramática do experimental/ eletrônico para dar forma a sentimentos e provocar sensações diversas. Afinal, o que seria da arte sem a provocação? Entre nuances e possibilidades de modulações, em Alimento a Dor, Kombi encara o ruído como um estilo musical assim como podemos fazer com o samba, o jazz ou o rock, com sua própria linguagem.

RENEGADES OF PUNK

Vindo de Aracaju (SE), em 2025 o Renegades of Punk lançou o elogiado Gravidade. Formada por Daniela Rodrigues (guitarra e voz), Ivo Delmondes (bateria e voz) e João Mario (baixo, synth e voz), a banda traz letras urgentes e uma sonoridade redondíssima, conectada com o punk/pós-punk que, por aqui, nos lembrou a fase Machine Gun Etiquette, do The Damned, e bandas como The Gun Club e Futuro. Se essa é a sua praia, pode seguramente mergulhar com os ouvidos bem atentos. Gravidade foi mixado e masterizado por Fernando Sanches (El Rocha), uma junção que funcionou muito bem e trazer para superfície o bom balanço entre composição, execução e captação que existe no disco.

NEGATIVE SUMMER

Black metal e grindcore calcados na velha escola da virada da década de 80 para a de 90, quando os fundamentos dessas sonoridades giravam em torno de uma forma rudimentar de prática. O Negative Summer segue por essa cartilha de linguagem crua, riffs cortantes e blast beat primitivo, do jeito que a gente gosta. A banda, formada no Ceará por Charles (bateria), Elton (guitarra) e James (vocal), informa que suas referências giram entre clássicos como Worship Him (Samael), Fallen Angel of Doom (Blasphemy), Transilvanian Hunger (Darkthrone), por exemplo. Ainda assim, o que se ouve em Impossível não sentir nojo da sua cara, de 2026, é brutalidade com sotaque brasileiro, que pode se relacionar com quem guarda saudades de discos definidores como Rotting (Sarcófago) ou The Unholy One (Expulser). E isso diz muito sobre uma forma única e extrema de uma sonoridade impossível de gringo emular.

TRÁGICO

O Trágico, formado por Fernando (vocal), Amanda (baixo), Fejones (guitarra) e Déda (bateria), traz o d-beat de nomes como Discharge e uma certa crueza do Disorder ou mesmo dos primeiros registros do Varukers, de músicas como “Governments to Blame”. Mas, ainda que algumas referências venham de fora, o Trágico soa, principalmente em seu mais recente disco, Futuro Miserável, como o legítimo punk brasileiro embebido na rispidez de bandas como Psykóze e Inocentes da fase Miséria e Fome. Pra gente aqui, o destaque do novo álbum fica com “Quando Garotos Ricos Brincam de Guerra” (A dor é real/ A fome é real/ A morte é real quando garotos ricos brincam de guerra). Punk!

H.ISS

O estrago, no melhor dos sentidos, causado pelo incrível Bless the Martyr and Kiss the Child, do Norma Jean, é uma realidade. E nessa conta podemos colocar os efeitos causados pelo Poison the Well, Fear Before the March of Flames, entre outras. O metalcore do começo dos anos 2000 rendeu boas bandas antes que a sonoridade, como toda novidade, caísse em um ambiente sem grandes novidades. O H.ISS, de Uberlândia (MG), evidencia a contrapartida e oferece um certo refresco nesse terreno. Riffs dissonantes, vocais gritados, e baixo e bateria com a energia lá em cima dão conta de composições que equilibram momentos caóticos e de melodias que, por vezes, nos lembraram The Bled. Olhos e ouvidos atentos. Além do EP do ano passado, o H.ISS lançou recentemente seu disco completo, This Exhaustation Is Not Ours, um registro que promete fazer muito barulho no decorrer de 2026.

A///PLAGUE

Black metal anarquista e obscuro. O A///Plague combina riffs criativos, dobras melódicas e andamentos que variam entre a velocidade e o peso cadenciado, estrutura presente na geração do black metal do início da década de 90. Como diferencial, o A///Plague opta por uma produção mais atualizada, algo que vai agradar muito quem simpatiza com nomes como Wolves in the Throne Room, Panopticon ou mesmo com a escola finlandesa, algo perto do Zhrine, por exemplo. Além da belíssima arte gráfica, An Exit in Darkness é também um grande exemplar no amplo cardápio da nossa música extrema. 

DE CARNE E FLOR

O De Carne e Flor poderia facilmente dividir o palco com bandas do screamo como o The Red Scare, do post hardcore dos anos 2000 (algo de Alexisonfire caberia aqui), ou com nome mais intensos como o Amenra, por exemplo. Essa amplitude, que traz uma abordagem onde as composições estão sempre com as emoções à flor da pele, junto a uma maneira bem elaborada de construir as letras faz com que o Em Teus Olhos Vejo Fendas seja um registro cheio de boas referências, dores e expurgos distribuídos em músicas cativantes que sonorizam, como escreve a banda, “um conjunto de fendas” e “alguns feixes de luz”.