Vinicius Castro
O Redd Kross nasceu em uma época em que o faça você mesmo era de fato uma construção diária e um posicionamento dentro do punk. Antes disso, os irmãos Jeff e Steven McDonald, ainda no ensino fundamental, montaram uma banda chamada The Tourists. Mas, segundo o livro American Hardcore, logo tiveram que renunciar ao nome por conta de um grupo homônimo que tinha em sua formação dois ícones da new wave: Annie Lennox e David Stewart, a dupla que mais tarde viria a formar o Eurythmics.
Jeff e Steven batizaram a banda de Red Cross e mal sabiam que logo viria uma segunda renúncia. Isso porque a organização humanitária Red Cross acionou os garotos e ele tiveram que renomear o grupo novamente. Dessa vez, mudaram apenas a grafia, e assim nascia o Redd Kross.


O primeiro registro, o famoso EP Red Cross, é de 1980. À época, a banda ainda tinha em sua formação Greg Hetson, que pouco depois iria para o Circle Jerks e hoje faz parte do Bad Religon; e Ron Reyes, um dos vocalistas que passaram pelo Black Flag. Mas a relação entre as duas bandas ia um pouco além. Ambas compartilharam um espaço de ensaio e Dez Cadena, membro do Black Flag, também tocou no Redd Kross por um curto período, para fazer apenas alguns shows quando a banda também contava com outro personagem do cenário hardcore, Chet Leher, do Wasted Youth.
O Redd Kross foi formado no fim dos anos 70, em Hawthorne, California, conhecida também como a cidade do Beach Boys, o que talvez explique a intimidade que os irmãos McDonald tem junto às melodias doces e cativantes que costuram as composições da banda.
Se a gente tivesse que envelopar a sonoridade do Redd Kross, diríamos que ela se relaciona com o power pop e o punk subsidiados pela cultura pop e os programas de TV meio “sessão da tarde”. Tudo isso remonta diretamente a canções pop, curtas e com melodias fortes, refrãos pegajosos e ganchos que te fazem querer cantar alto e acreditar no amanhã. Badfinger, Kinks, Beatles, Mott the Hoople, Alice Cooper Band, Cheap Trick, Slade são alguns nomes que ajudam a localizar a sonoridade do Redd Kross. Mas cabem mais clássicos nesse caldeirão. E um sintoma muito legal da sonoridade da banda aparece em uma fala de Steven McDonald, em entrevista para Luiz Mazetto, publicada no Scream & Yell (leia aqui). Steven conta que tinha por volta de 6 anos quando ouviu Hunky Dory, do David Bowie. O disco, apresentado pelo seu irmão Jeff, vez ou outra ressoa em músicas como “Pay For Love” ou “Peach Kelli Pop”, por exemplo.
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Ainda que tudo gire em torno de um mesmo universo, a discografia do Redd Kross acaba sendo cheia de nuances por conta das diversas fases e buscas que a banda foi desenhando no decorrer da carreira. A formação da banda em meio ao punk, os discos lançados em meio ao grunge, a entrada em um grande selo, o hiato, a volta. A história é rica. E foi cada pedacinho desse contexto que ajudou o Redd Kross a sobreviver à sua maneira, chegando hoje aos mais de 40 anos de carreira sendo uma banda única e, por isso, tão querida e cultuada ao longo dessas mais de quatro décadas.
Neste fim de junho, a banda se apresenta em São Paulo, junto com o Twinpines e o Alphawhores, dentro do festival de documentário, In-Edit. Um show certamente imperdível. Vamos à discografia?
Born Innocent
“Cellulite City”
(1982)
Pra entender a fase punk do Redd Kross é importante entender também um pouco sobre a região onde eles conviveram com o movimento. Grande parte aconteceu no Creative Craft Center, apelidado de The Church, que ficava em Hermosa Beach, California. No The Church viviam (literalmente) membros do Black Flag e do The Last. Além disso, o lugar era meio que um ponto de encontro onde as bandas das proximidades, como Minuteman, Descendents e Saccharine Trust, ensaiavam, conviviam e passavam o tempo. O Redd Kross era parte desse cenário, mas logo perde o interesse. Steven chegou a falar que em 1982 eles resolveram não cortar mais os cabelos para se afastarem do hardcore. Porém, antes dessa decisão de “jovens revolucionários”, Born Innocent já soava como uma banda punk, mas não nos moldes de seus pares, e sim dialogando com o que havia antes, nos anos 70. E, embora muitas publicações atribuam que o acesso melódico do Redd Kross surgiria em Neurotica, em Born Innocent já é possível ouvir algo dessa linguagem em “Charlie”, por exemplo. Mas, a ideia aqui é escolher apenas uma faixa. Portanto, vamos de “Cellulite City” e o seu aceno ao New York Dolls com um refrão que lembra o bridge de “Nothing to Loose”, do Kiss.
Neurotica
“Pink Peace of Piece”
(1987)
Uma conhecida cena do filme 24 Hour Party People retrata um show do Sex Pistols em Manchester, no ano de 1976, para contextualizar que algumas das bandas mais importantes da música foram formadas depois que seus integrantes assistiram a essa apresentação. Talvez dê pra traçar um paralelo com a vez que o Redd Kross esteve em Seattle, nos anos 80. Se na Inglaterra, integrantes do Buzzcocks, The Fall e Joy Division foram impactados pelos Pistols, na cidade estadunidense, nomes que fariam parte do Pearl Jam, Soundgarden e Mudhoney, assistiram ao show do Redd Kross no berço daquilo que seria chamado de grunge. Era a turnê de Neurotica, disco que, segundo Jonathan Poneman, cofundador da gravadora Sub Pop, foi o álbum que mudou a vida dele e a de muita gente na cena de Seattle. De fato, há em Neurotica faixas como “Frosted Flake”, que tem uma certa proximidade com o Nirvana de Incesticide. Ou “Jesus, Jeanie, and George Harrison”, que nos leva a andamentos praticados pelo Mudhoney.
Uma curiosidade é que a produção de Neurotica é assinada por Tommy Erdelyi, que, na verdade é Tommy Ramone, baterista dos Ramones.
Por tudo que o envolve, Neurotica é um disco cult. Nele, o destaque fica por conta de “Peach Kelli Pop”, onde o Redd Kross encontra um caminho mais bem definido que eles iriam aperfeiçoar em gravações seguintes.
Third Eye
“1976”
(1990)
Em uma entrevista de 1982, publicada no livro We Got the Power, Jeff pergunta ao entrevistador se ele conhece Suzi Quatro e logo em seguida comenta que eles estavam tocando algumas músicas da banda. Pulando para 1990, em Third Eye é onde essa relação parece próxima. Músicas como “Bubblegum Factory” ou “Annie’s Gone” têm algo de Suzi Quatro em suas estruturas, mas com uma sonoridade pop sob alguma rebarba da década de 80. Vale lembrar que dois anos depois eles gravariam “How Much More?”, do disco de estreia das Go Go’s, Beauty and the Beat (1981).
Além de ser o primeiro em uma grande gravadora, a Atlantic, e de trazer Sofia Coppola na foto da capa, Third Eye foi marcado por outras peculiaridades. Uma delas foi o clima estranho entre a banda e o produtor, Michael Vail Blum. “Ele queria um som meio Andy Summers (Police), e a gente queria algo mais Pete Townshend do Live at Leeds!’”, comentou Steven em entrevista para o TapeOp. Ou seja, além de Suzi Quatro, eles estavam mesmo olhando para os anos 70, buscando algo das guitarras do The Who.
Entre as faixas, “1976”, que teve vídeo dirigido por Roman Coppola, é uma música divertidíssima. Ainda que o efeito de wah-wah soe excessivo, isso não compromete a qualidade da música. Muita gente achou que a faixa tinha a participação especial de Paul Stanley, mas não. É só o guitarrista Robert Hecker emulando o timbre do vocalista do Kiss mesmo.
Phaseshifter
“Monolith”
(1993)
“O Redd Kross certamente lançou o disco da vida deles”. O trecho é parte de uma matéria de 1994, da revista Metal Maniacs, ambiente um tanto inóspito para uma banda como eles. Em meio a habituês como Entombed e Sepultura, o texto chamava a atenção para a falta de bandas formadas por “lendas do rock” que fossem descoladas e relevantes, espaço que, segundo a matéria, estava sendo preenchido pelo Redd Kross à época.
Phaseshifter é um clássico. E o quanto eles avançaram em termos de produção e captação em estúdio é algo gritante em termos de qualidade. A sonoridade aqui é consistente e mais pesada se comparada a discos anteriores. E isso, na época, teve um impacto imediato em toda uma geração atingida pelo fenômeno Nevermind.
O Redd Kross realizou diversos ensaios antes de entrar em estúdio e o resultado disso é latente em Phaseshifter. Um registro recheado de riffs incríveis, gigantescos, onde a banda soa confortável. É o registro mais famoso deles e “Jimmy’s Fantasy” é um marco nessa história toda.
O vídeo da música foi altamente veiculado na MTV Brasil e trazia o ator e skatista Jason Lee. O single de “Lady In The Front Row” (que riff maravilhoso!) também ganhou vídeo em alta rotação na emissora. Ambas poderiam ser nossas escolhas, mas o problema bom aqui é que Phaseshifter é tão significativo que as preferências se alternam de tempos em tempos. No momento, é de “Monolith”, e a sua quase-melancolia beatleniana, o pódio da vez. “Sometimes, all I want is the sunshine…”. Coisa linda!
Show World
“One Chord Progression”
(1997)
Em um texto bem legal do Quietus sobre um show do Redd Kross de 2024, ocorrido em Londres, Michael Hann questiona essa coisa de que a banda teria feito muito mais sucesso se não fosse a gravadora ou a imprensa ou seja lá qual outra força imposta pela lei da física. E aí temos um ponto. É interessante como essa é uma questão que tem muito mais relação com o nosso desejo do “se” do que com a real observação de que, no mundo de hoje (e no de ontem), talvez não existisse espaço para que uma banda como o Redd Kross pudesse experimentar o tal sucesso, ainda que a definição disso seja subjetiva.
Jeff, Steven e sua turma sempre fizeram músicas com uma leveza que anda de mãos dadas com uma liberdade criativa que não caberia no formato mainstream. E aqui afirmamos isso sem qualquer juízo de valor, se isso era, de fato, intencional. O ponto é que, em retrospecto, essa é uma leitura cabível.
A fase entre Phaseshifter e Show World foi onde a banda mais se aproximou do sucesso. Na verdade, foi quando o rock alternativo alcançou o Redd Kross. Eles sempre fizeram o que fizeram. A diferença foi que, nos anos 90, mais pessoas se relacionaram com o rock alternativo e o Redd Kross estava nesse cenário.
Ainda sobre a publicação do Quietus, o autor escreve que o Redd Kross é excessivo: “Colorido demais, descarado demais, bobo demais”. Entre as faixas de Show World, “One Chord Progression” é a que responde frontalmente a isso: Uma música incrível. De uma banda divertida. Demais!
Researching the Blues
“Stay Away from Downtown”
(2012)
A cada lançamento o Redd Kross trouxe uma coleção de hits que não foram hits. Em Researching the Blues não foi diferente. Enquanto o disco acontece, você tem a impressão de que aquelas músicas parecem já terem nascido prontas.
O disco foi gravado depois de um hiato de 15 anos que, honestamente, fez muito bem pra banda; o Redd Kross soa realmente renovado.
“Stay Away from Downtown” é a minha preferida do álbum. Ela capta a energia e a extroversão da banda, além de deixar claro o poder que uma boa música do Redd Kross tem de melhorar o seu dia. “Uglier” também é incrível. Uma aula de power pop com um dos riffs marcantes, desses que você passa o dia cantarolando. “Dracula’s Daughter” é lindamente bucólica. “Choose to Play” evoca linhas vocais típica dos Beatles com uma ponte linda para o refrão (repare).
Researching the Blues é um dos preferidos. É desses que começam, terminam e você fica com a sensação de que tudo passou rápido demais. Importante. Deixamos registrado aqui os nossos agradecimentos a Laura Ballance e Mac McCaughan por lançarem, via Merge Records, o disco da volta triunfal do Redd Kross. A gente sabe que Phaseshifter é um clássico e que Neurotica é influente. Mas, por favor, se você deixou Researching the Blues passar, é hora de corrigir esse tremendo vacilo.
Beyond the Door
“Ice Cream (Strange and Pleasing)”
(2019)
Beyond the Door é o disco mais hard rock do Redd Kross. E, por hard rock, leia-se composições mais “pra cima”, com riffs de guitarra calcado nos fundamentos básicos do rock, e leads que nos remetem diretamente a nomes como Slade, por exemplo. Todo esse cenário ganha destaque já na primeira faixa, o puro suco de Kiss dos anos 70. Reparem como o riff de “The Party” lembra coisas como “Watchin You”. E falando em hard rock, na faixa título a banda joga luz sobre aquele groove especial de nomes como T-Rex.
Que o Redd Kross é uma salada de referências dentro do espectro punk-rock-bubblegum e aquela dose de Beatles aqui e ali, você já sabe. É sobre esse recorte beatleniano que escolho “Ice Cream (Strange and Pleasing)” como a representante desse álbum. O motivo é simples e super parcial. A gente adora o Magical Mystery Tour e, além de ser um boa música, a quinta faixa de Beyond the Door tem algo de “I Am The Walrus” que conquistou nosso coração.
Redd Album
“I’ll Take Your Word For It”
(2024)
O melhor registro da banda depois de Phaseshifter. O interessante aqui é que o Redd Kross retoma, sem qualquer resquício de nostalgia, a sua própria linguagem e faz com que tudo nesse disco gire em torno do que eles fazem de melhor, mas com uma sonoridade atual. Aliás, é importante registrar que quem assina a produção é Josh Klinghoffer, guitarrista que já tocou com o Red Hot Chilli Peppers e PJ Harvey.
O registro tem momentos incríveis e curiosos, como “Emmanuel Insane” (parente muito próxima de “Annette’s Got the Hits”), “Candy Coloured Catastrophe”, “The Mais Attraction” e “I’ll Take Your Word For It”. Essa última é, hoje, a nossa preferida. Nela o Redd Kross destaca sua assinatura por meio de uma melodia sedutora e um refrão que é um verdadeiro achado em termos de construção vocal. Lembrando que fazer o simples pode até ser fácil. Mas criar o simples não é.
A banda parecia estar, de fato, inspirada com a energia lá em cima e o brilho de “I’ll Take Your Word For It” é que ela funciona, assim como grande parte do disco, como um antidepressivo poderoso para um dia modorrento.










