Deconstruction

In Bandas, Discos

Foto: Chris Cuffaro

Vinicius Castro

O Deconstruction foi uma banda formada na década de 90, pouco depois da primeira dissolução do Jane’s Addiction, e que contava com Dave Navarro (guitarra) e Eric Avery (baixo/vocal). A princípio, a ideia era que o trio ainda tivesse Stephen Perkins na bateria. Ou seja, seria o Jane’s Addiction sem Perry Farrell. Mas a coisa não deu certo, e no meio de toda confusão, Stephen preferiu seguir ao lado de Perry no Porno For Pyros. Mas isso é outra história.

Depois de alguns dias revisitando o único disco do Deconstruction, de 1993, a questão que acendeu por aqui foi: “Por que essa banda é tão pouco celebrada?”. Claro, essa não é uma questão unânime. Houve, e ainda há, quem traga esse disco para as rodas de conversas. Mas ainda assim, é pouco. Deconstruction quase nunca é lembrado quando o assunto é o rock produzido na década de 90.

A resposta remete a alguns fatos: Não houve turnê do disco, e isso provavelmente se deve ao clima tenso vivido por David e Eric durante o processo de encerramento das atividades do Jane’s Addiction. Apesar de ser lançado pela American Records, de Rick Rubbin, e de ter a distribuição de grandes selos, o disco teve pouco trabalho de divulgação. Apenas um clipe (veja abaixo) foi produzido, mas a MTV deu pouquíssima atenção pro Deconstruction, numa época em que marcar presença na music television era um pilar importantíssimo para a exposição de uma banda ou disco.


Para além dos argumentos trazidos até aqui, a sonoridade elaborada do Deconstruction foi, sem dúvida, um dos principais destaques, mas também uma peça chave de sua condenação. Algo irônico, diga-se, já que os anos 90 foram tempos famintos por sonoridades que propusessem algo além do óbvio. Só que o disco autointitulado do Deconstruction era além do óbvio demais para época. E pra mim, em um primeiro momento.

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Em 1994, o rock alternativo era parte dos nossos dias. Um ano antes o Nirvana e o L7 haviam tocado no Hollywood Rock, com o estádio do Morumbi (SP) completamente lotado. No outro extremo, a minha fascinação pelo death metal ocupava um importante espaço nos meus dias.

No meio disso tudo, em uma locadora de CDs (pois é, isso existia), aluguei três CDs por indicação: Concrete Blonde (Mexican Moon), Australia Crawl (Crawl File) e o Deconstruction. Pirei no Concrete Blonde! “Heal It Up” tocou muito nas rádios rock do Brasil e isso dava uma certa vantagem à banda liderada pela voz peculiar de Johnette Napolitano. Os outros dois títulos eu deixei de lado. Mas, como diz o mestre Gil: “Tempo rei, oh tempo rei”. E aqui estou, depois de algumas décadas, dedicando algumas linhas á celebração desse belo e único registro.


Não levou muito tempo. Creio que ali pelo final dos anos 90 o Deconstruction já havia me conquistado e hoje eu consigo entender ainda melhor o pouco interesse da minha primeira audição.

O álbum é uma avalanche de corajosas novidades pra época. Tão fresco que me pareceu perdido. Tão elaborado que eu não estava pronto pra ele. Tão lindo que a minha urgência adolescente-death-metal não pôde captar (hoje é difícil ouvir “L.A Song” sem me emocionar). E claro, a imprensa “vender” o Deconstruction como uma espécie de funk-O-metalzzz foi parte da minha desconexão com o disco.

Em retrospecto, acho interessante pensar em como deve ter sido para Dave e Eric seguirem em frente depois da perfeição que atende pelo nome de Ritual de lo Habitual, um disco que influenciou uma infinidade de bandas nos anos 90, continua influenciando algumas outras, e que ajudou a definir o conceito de rock alternativo. Não foi o Nirvana! Bandas como Meat Puppets e R.E.M fizeram parte de toda a história inicial, embora a primeira fosse mais cancioneira e a segunda mais próxima ao chamado college rock. Não que isso seja uma verdade absoluta, mesmo porque o absolutismo não cabe muito na arte, mas a síntese do que eu entendia por rock alternativo, sem dúvida, veio a partir de dois importantes vetores: o Sonic Youth e o Jane’s Addiction.

Foto: Chris Cuffaro


Deconstruction, o álbum, começa com a já citada “L.A Song” e, desde então, deixa claro toda amplitude que vamos encontrar dali em diante. Gosto muito de como Aaron Clow definiu o disco ao escrever sobre ele: exploratório.

Segundo Eric Avery, a ideia do nome Deconstruction faz referência aos arquitetos e pensadores pós-modernos que buscavam definir as coisas não por aquilo que elas eram efetivamente, mas sim pelo que estava ao lado delas. “Eu queria tentar emparelhar partes musicais aparentemente sem relação e ver que tipo de música seria produzida”, conta Eric.

A quarta faixa é uma linda e instrumental homenagem à filha de Michael, previamente chamada de “San Francisco”. Quando Eric e Dave souberam da gravidez da esposa do baterista, a música foi rebatizada de “Beverly’s Unborn”, até que mais tarde, depois do nascimento do bebê, ganhou o nome de “Iris”.

“Iris” é a primeira composição do que viria a ser o Deconstruction. Era tocada em jam’s sessions ainda nos tempos em que Dave e Erick faziam parte do Jane’s Addiction. Aqui você pode ouvir uma dessas ocasiões, durante uma passagem de som, em 1989.

Liricamente, o Deconstruction se entrega aos encantos da California. Além do nome inicial de “Iris” (“San Francisco) e de “LA Song”, “Hope” segue pelo mesmo universo, mencionando o calçadão de Santa Monica enquanto “Big Sur” faz lembrar o trajeto das curvas de dualidades californianas: sonho e frustração; beleza e decadência; acolhimento e repulsa.

“Dirge” é o momento mais Killing Joke do disco, o que é de se esperar, já que a banda sempre foi uma grande influência comum entre Dave e Eric. “Fire in the Hole” conta com os vocais peculiares de Gibby Haynes, do Butthole Surfers, e poderia ser descrita como uma face mais sombria de um Helmet em tempos de Aftertaste. “One” é uma das mais bonitas, ainda que seu início não dê pistas de pra onde ela nos leva. Tem algo de Shudder to Think nela, não pela complexidade do grupo de Washington, mas pelas melodias que ela apresenta.

Com frases de guitarra cantaroláveis, e de execução perfeita por parte de Dave Navarro, é com “America” que o disco começa a caminhar para o final. Novamente o climão Killing Joke está presente, porém, aqui, mais voltado ao período de Pandemonium, coincidentemente lançado também em 1994.

“Sleepyhead” é a faixa que mais se parece com algo que o Jane’s Addiction poderia ter gravado pós Ritual de lo Habitual, enquanto a trinca final, “Wait For history”, “That It’s All” e “Kilo”, encerra o álbum voltando ao que o Deconstruction apresentou no início do disco.


Deconstruction poderia facilmente conviver na mesma prateleira de grandes discos do mesmo período em que foi lançado. Mas, talvez essa seja uma obra capturada pelo significado da própria motivação que sustenta o seu nome. Reservada a contar com nosso mergulho, dedicação e compreensão de que a intenção de Eric Avery deu certo. A ideia de emparelhar músicas aparentemente sem relação transformou esse registro único em um disco incrível.