Morbid Angel: ‘Domination’

In Bandas, Discos
Vinicius Castro

Segundo o próprio Jeff Becerra contou, o Possessed, formado em 1983, já se definia como uma banda de death metal. Pouco tempo depois, eles lançaram a demo tape de intitulada Death Metal, considerada por muitos o marco zero do estilo.

O Possessed, junto com o Hellhammer, Mantas, Slaughter, Master e alguns outros nomes menos celebrados, ofereceram boa parte do insumo para o estilo, marcando o início de uma rica safra dentro da chamada música extrema. Dentre as alguns nomes que beberam nessa fonte inicial do death metal, estava o Morbid Angel.

Avançamos então para 1990. Época das primeiras eleições diretas o Brasil. Nossa moeda estava prestes a passar de Cruzado Novo para Cruzeiro, a TV transmitia a guerra pelo petróleo na região do Golfo e, no meio de todo esse caos, um compacto, lindo e com tiragem limitada, raro ainda hoje em dia. Das 666 cópias lançadas, uma delas pertencia a um amigo que se correspondia com bandas e gravadoras dá época.

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Era tudo via carta e o escambo era simples. Enviávamos o material daqui e as bandas ou selos devolviam com materiais como demos, EPs, revistas, flyers, adesivos, bottons e todo tipo de coisa que pudesse dar conta da nossa fome voraz por materiais das bandas que vinham agitando, e muito, o submundo do metal.

Morbid Angel / Slaughter Lord foi lançado entre 1989 e 1990, em vinil vermelho, com duas faixas que eram saboreadas por horas. O lado do Slaughter Lord tinha duas músicas tiradas da demo Taste of Blood. O do Morbid Angel trazia duas faixas de um show realizado em 88.

A partir daí, o Morbid Angel passou a ser uma das prediletas da casa e por conta disso, nada mais justo que celebrar o aniversário de Domination, quarto álbum na discografia de uma das bandas mais importantes do death metal, lançado em 95, e que já traz Erik Rutan, ex-Ripping Corpse, tocando teclado e guitarra.

Domination é uma evolução natural dos 2 primeirosTalvez um pouco preocupado com uma produção mais minuciosa e comprimida, afinal, já era a época da alta dos CDs.

Em termos musicais, Domination tem seu grau de ferocidade, no entendo um pouco mais controlada da que sentimos em Altars of Madness. É também um disco que consegue trazer um pouco do lado dinâmico e oblíquo de Blessed are the Sick, esbarrando em experimentos nas construções das músicas sem se afastar da agressividade e da técnica, ativos que deixariam essas linhas redundantes caso usássemos o espaço seguinte para abordar esses dois pilares constantes na discografia do Morbid Angel. Mas, é importante frisar: Pete Sandoval estava na sua melhor forma. Trey Azagthoth avançou na construção de riffs atonais, e David Vincent aprimorou ainda mais suas linhas de baixo e voz.

Domination também é conduzido por solos mais melódicos, mesmo aqueles que parecem acontecer em meio a momentos mais ruidosos. Algumas estruturas remetem ao heavy metal clássico, o que não é ruim, afinal, é um disco que mostra como o Morbid Angel é uma banda altamente versátil.

Sabe quando você escuta uma música nova de uma banda de que você gosta e a sua primeira reação é: “Vishhh”? Pois é, essa talvez seja a explicação mais assertiva. A música em questão é “Dominate”. Altamente veloz e dona de um peso descomunal. A sequência traz “Where the Slime Live” e “Eyes to See, Ears to Hear”. Uma trinca perfeita para abrir o disco, com passagens quebradas e velocidades alternadas, como é de costume nas composições do guitarrista e fundador da banda, Trey Azagthoth. É muito interessante como essas três músicas conseguem criar um diálogo complementar entre elas. Chega a ser estranho ouvi-las separadamente.

“This Means War” é uma típica estrutura death metal. Uma boa música, mas sem grandes novidades pra quem já é íntimo da banda. Porém, logo em seguida, acontece a genial “Caesar’s Palace”. Uma composição forte, mais arrastada e de um bom gosto empolgante nos riffs e no trabalho de bateria. Ouvir “Caesar’s Palace” é reafirmar o lugar do Morbid Angel no topo da escala das bandas extremas. Guardada as devidas proporções, “Caesar’s Palace” lembra um pouco o ambiente criado em “God of Emptiness”, do disco anterior.

Depois disso, o interlúdio “Dreaming” emenda com “Inquisition (Burn With Me)” e “Hatework”, de quem é a missão de encerrar o disco sob o clima que um grande álbum merece. Grandioso e a toque de caixa.

Depois de Domination, David Vincent deixou a banda para seguir um direcionamento musical e criativo que, se analisarmos, já estava presente em faixas como “Hatework”, que aponta para o caminho controverso que a banda adotaria no disco que marcaria a volta do baixista/ vocalista tempos depois. Mas isso já é outra história.

Domination também foi um disco importante para o vocalista do Desalmado, Caio Augustus e para o guitarrista e vocalista do Fossilization e Jupiterian, V. Convidamos os dois para contar um pouco mais da relação de cada um com esse clássico da música extrema mundial.

É uma das maiores obras-primas do death metal. Pra mim está no TOP 5 da banda. Sou suspeito a falar de Morbid Angel, porque defendo os álbuns que a maioria odeia, exceto o ultimo, que é indefensável. Esse disco é a afirmação do David Vincent e seu lado Danzig. Cheio de pose, camisas abertas, vocal bem definido, melodias mil, cabelo esvoaçante e muita ginga rockeira. A cafonice machona de David abrilhanta o álbum e ele se torna disco de cabeceira do lounge de hard rock da casa de Satã. Foi fundamental para que eu ouvisse álbuns mais lentos, elaborados, roqueiros e aceitasse capas profundamente descoladas. É aquele baque que fã extremo precisa levar de sua banda preferida.
(Caio Augustus – vocalista Desalmado).

Recentemente eu vi uma entrevista do Trey da época do Formulas… onde ele comenta sobre o quanto ele detesta o Domination. Desde o processo de composição das letras do David Vincent até a produção “estéril” e “industrial” que foram demais pro gosto dele. Entendo o sentimento, o At the Gates também odeia o The Red in The Sky is Ours, mas os dois discos marcaram minha vida e não consigo ver pelo aspecto técnico. Não importa quanto argumento contra os caras tenham, tem muito sentimento envolvido.Lembro da primeira vez que ouvi o Domination, lá pra 1997. A dobradinha de “Dominate”/ “Where the Slime Live” foram definitivamente a base para como eu faço e penso música hoje. Seja rápida ou lenta, tá tudo ali, resumido em duas músicas. É uma aula e guia para qualquer estilo dentro da música extrema.
(V – vocalista/ guitarrista Fossilization e Jupiterian).