Vinicius Castro
Na segunda metade dos anos 80, algumas bandas como R.E.M, The Connells, Drivin’ ‘n’ Cryin’, Hüsker Dü, Replacements e Pixies estabeleceram parte das fundações do que se costumava chamar de college rock, sonoridade que foi popularizada pelas rádios universitárias americanas.
Na virada para a década de 90, novos nomes foram ganhando espaço e criando uma gramática influenciada por essas bandas. Entre eles estava o Nirvana, que em 1991, com o lançamento de Nevermind, conquistou todas as galáxias possíveis, fazendo com que a indústria sanguessuga saísse a caça pelo próximo “teen spirit” ou tentasse encaixotar a sonoridade de bandas já consagradas ao tal rock alternativo daqueles dias. Walter Schreifels diz que o Quicksand foi afetado por isso, mas que eles estavam mais perto de ser o próximo Helmet do que o próximo Nirvana. Já Pete Stahl, do Scream, disse pra gente em uma entrevista recente que testemunhar o que eles faziam se tornar uma mercadoria foi algo complexo. Fato é que a história se encarregou de colocar em segundo plano as bandas que tentaram pegar carona no som de Seattle.
Ainda que aquele cenário oferecesse uma enxurrada de pastiches com a alta exposição do rock alternativo, algumas ótimas bandas ganharam espaço. Entre elas, uma que estava fora do circuito alternativo americano, mas que fazia um barulho e tanto: O Daisy Chainsaw, formado em Londres, em 1989, por KatieJane Garside (vocal) e Crispin Gray (guitarra), além de Richard Adams (baixo) e Vince Johnson (bateria).
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O Daisy Chainsaw durou pouco, até 1995, e ainda hoje é lembrada por ter estourado com apenas um single, a incrível “Love Your Money”, lançada em 1992.
A faixa fez um sucesso considerável. Foi presença cativa em praticamente todas as baladas da época, além de marcar presença na MTV Brasil e nas rádios que buscavam ir além do Dire Straits em suas programações diárias.
“Love Your Money” é parte de Eleventeen, disco de estreia lançado em 1992 pelo selo de Derek Birkett, baixista da banda punk anarquista inglesa Flux of Pink Indians. O álbum abre com a íntima e cativante “I Fell Insane”, onde os vocais de Katie chamam a atenção, lembrando os timbres e formas de Lydia Lunch e Kat Bjelland (Babes In Toyland) em meio a uma sonoridade ruidosa com riffs interessantíssimos e linhas de baixo afundadas em distorções rasgadas — um lugar até comum, porém aqui com um molho especial.
O single teve muito mais sucesso do que o álbum, o que é uma pena porque Eleventeen é ótimo! É curioso como, ainda hoje, se você apertar o play e subir o volume, vai perceber que ele tem o espírito de seu tempo, mas funciona muito bem nos dias atuais, sem soar defasado.
“Love Your Money” tem refrão forte, mixagem alta e barulhenta sobre os riffs de Crispin Gray que, em certa medida, conversam com a linearidade do industrial — algo que encontra parceria perfeita no vocal de Katie. Ela, de forma sarcástica, impõe um tom agressivo sem precisar apelar exclusivamente para os berros.
Para além do registro em estúdio, a intensidade da banda e de Katie era percebida nos palcos. Em entrevista para o site Please Kill Me, a vocalista explica que não se reconhecia quando estava no palco. “É um lugar muito catalisador e eu não nasci para isso. Tem a adrenalina e o terror daquele ‘subir para o vazio’ que criam um estado alterado em mim, então eu não me reconheço”. Para o Guardian, Charlotte Richardson Andrews escreveu sobre uma determinada apresentação e a forma como Katie se debatia pelo palco descalça e com seus vestidos rasgados. Ela descreve sua performance como “um borrão possesso e gritante de cabelos enfeitados com flores e joelhos cobertos de sujeira”. Na mesma matéria a autora diz que Katie teria sido uma influência para a estética usada por Kat Bjelland, do Babes in Toyland, e para Courtney Love, do Hole. Love, aliás, fez elogios a Katie, dizendo que ela era como “uma das primeiras verdadeiras riot grrrls”.
“Love Your Money” ressalta também um certa ironia crítica quando Katie canta o trecho “Shape your image and we’ll all be greedy / Sign right here, and we’ll all be wealthy”. Isso porque a faixa é uma tiração de sarro com as gravadoras.
Além de “Love Your Money”, há pequenos momentos mais calmos, como na ótima “Hope Your Dreams Come True” e em “Natural Man”, que conversam mais com o que Katie vem fazendo no Ruby Throat; em contrapartida, há momentos mais estridentes, como acontece em “Lovely Ugly Brutal World”.
Fato é que Eleventeen era algo longe do que as gravadoras queriam na época e, ainda hoje, soa como um disco do submundo. Sujo, fora do padrão e dono de um barulho intransigente, feito por uma banda que parecia saber que aquele barulho talvez durasse pouco. Talvez por isso Eleventeen seja tão intenso e vertiginoso.



