Entrevista: Ratos de Porão As influências de cada disco em 35 anos de muito barulho

In Entrevistas

Como eles costumam dizer por aí: “a máquina não para”. É exatamente por isso que resolvemos traçar todo o tempo de estrada do Ratos de Porão de um jeito diferente. Aqui, nossos olhos e ouvidos estavam voltados para as músicas, as bandas e os discos que alimentaram a música extrema do quarteto. A história da banda já foi contada de várias formas, em vários veículos diferentes e por outras tantas vozes. Mas, para quem viveu intensamente, novas histórias não faltam, e a gente ficou bem feliz em conversar com Jão, guitarrista da banda, que entre umas e outras curiosidades, deixou claro a importância do S.O.D no caminho que a banda seguiu na segunda metade dos anos 80, por exemplo.

Dentro da música extrema e sem deixar de lado suas crenças, o RDP sempre bancou suas mudanças. Entre tretas e reviravoltas, e enquanto alguns poucos perdiam tempo chamando os caras de traidores, a banda pensava sempre em qual seria o próximo passo, e assim estava sempre à frente, inovando dentro do seu próprio universo. O RDP é um organismo vivo, criativo e que chega aos 35 anos de idade como um adulto ciente da sua responsabilidade e importância na música, não só do Brasil, mas também do mundo.

Pra ter essa conversa, fomos até o Underdog Meat & Beers. O bar, comandado por Jão, fica no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Entre algumas boas cervejas, a conversa rendeu ótimas histórias sobre as bandas que influenciaram o Ratos de Porão durante esses 35 anos de uma relação honesta com a música.


Sounds Like Us: Bom Jão, a ideia é traçar uma linha do tempo da carreira de vocês falando um pouco sobre o que vocês estavam ouvindo em cada um dos discos que vocês gravaram. Pra começar, o que tava rolando na época do Crucificados Pelo Sistema, o primeiro disco do Ratos de Porão? Lembro de você citar o Teen Idles e aquela galera de Washington DC e do hardcore americano.
Jão:
Sim, o Teen Idles e essa parada que começou a surgir em Washington e no hardcore americano no geral influenciaram muito na época do SUB, que foi no começo da banda. A gente já tinha as referências brasileiras. O Olho Seco era a banda mais rápida. Chegou muita coisa ao mesmo tempo, mas o hardcore americano influenciou muito. A gente era tudo molequinho e se identificava com aquele lance dos americanos. Era meio diferente, não era um visual tão carregado como o punk inglês ou finlandês.

Sounds: E chegava como pra vocês?
Jão: Cara, chegava muita coisa por correio que o Fabião [do Olho Seco] lá da Punk Rock [loja de discos] recebia. Ele fazia uma coletâneas de fita e a gente todo sábado comprava uma lá.


Sounds: Era complicado e demorado pra essas coisas chegarem aqui, né?
Jão: Demorava meses. Você mandava alguma coisa aqui do Brasil pro americano. Ia demorar um mês e meio pra chegar lá. Um dia ele “ah, vou mandar alguma coisa”. Quer dizer, demorava seis meses pra descobrir uma banda.

Sounds: O SUB é a primeira vez de vocês dentro de um estúdio, certo?
Jão: Sim, o primeiro. Inclusive agora saiu um SUB aí que tem a gravação inédita que tava perdida. Porque a gente já tinha gravado, mas na época tinha que mandar a letra pra censura e aí censuraram umas coisas lá. Tem três músicas diferentes do que foi a primeira gravação, em que todo mundo era cabaço. Chegamos no estúdio e ela é meio travada, meio limpinha. Aí a gente falou “cara, não ficou bom, vamos voltar pro estúdio e regravar”. Aí regravamos o SUB, que é o que saiu naquela época porque a fita tinha sumido. Tinha música que na primeira gravação não tinha, tipo “Parasita”, “Não Podemos Falar”, “Realidades da Guerra”, que são essas músicas mais porrada que a gente tava fazendo justamente por causa dessas influências americanas. Um lance mais porrada, mas não rápido tipo Discharge, que também na época era uma puta novidade… Exploited, GBH, sem contar os finlandeses, que aí também já é um caso à parte na história.


Sounds: Como chegavam as bandas finlandesas pra vocês?
Jão:
O Fabião fazia umas fitas que ele chamava de Lançamento 1, Lançamento 2. Eu lembro que era o Lançamento 6, que pra mim, pro Betinho, pros caras dessa época era um clássico porque apareceu tudo de uma vez. Tipo Kaaos, Rattus, Terveet Kädet, Lama, então a gente ficava “caralho, de onde que é essa porra!”. A gente não tinha informação: “que porra de língua é essa que esse cara tá cantando”.

Sounds: Tem um papo de que era parecido com o português.
Jão:
E a gente fazia umas versões de umas coisas em português, cara. Tipo de zueira, os cara cantando muito louco. Porque parece que tem um lance sonoro.

Sounds: E nessa fase é o que você pode dizer que era o que vocês mais estavam ouvindo?
Jão: É. Quando começou a piar finlandês pra cacete já tinha essas paradas tipo Discharge. O que a gente conhecia deles eram os compactos. Era antes do Why, né. Pô, quando apareceu esse disco, foi tipo “caralho, malandro!”. Foi a época que o João Gordo entrou na banda. Aí eu fui pra batera e o Betinho saiu da banda. Foi a época em que a gente começou a mudar. No Crucificados Pelo Sistema já tinha influência de Discharge, de finlandês pra cacete, que era o que a gente ouvia pra caralho na época.


Sounds: Já no Descanse em Paz, o metal ainda não tava muito presente, mas já tinha um certo direcionamento pra esse caminho?
Jão: Já tinha um esboço daquilo que a gente tava ouvindo na época. O Discharge virou metal, eu na época torci o bico, falei “filhos da puta, heavy metal, que traíra”. English Dogs…

Sounds: Tinha o Mad Punx (English Dogs), um pouco antes disso, né.
Jão: Sim. E na minha época de punk a gente não ouvia muito o English Dogs punk. Eu não ouvia, pelo menos.

Sounds: A gente foi conhecer no …To the End of the Earth.
Jão: É, lindo isso, puta que pariu. Eu acho foda até hoje e era uma influência fudida daquilo que eu queria fazer tecnicamente na guitarra e não conseguia. Era punk brasileiro, né [ele faz som imitando riff de três acordes como se fosse guitarra]. Porque assim, entre o Crucificados e o Descanse em Paz, teve um tempo, saiu até aquele do Lira Paulistana [split com o Cólera]. Isso foi uma debandada geral, porque assim, chegou uma época que o Mingau desapareceu. Não teve show de lançamento do Crucificados, não teve porra nenhuma. Ele sumiu e virou new wave. Então ele só andava com os Ira, com esse pessoal, e aí nós “ah, pau no cu dele”. Aí o Gordo sumiu, virou heavy metal. Aí ficamos eu e o Jabá. A gente falou “e aí, vamos acabar a banda, montar uma outra, chamar um baterista”, aí nisso o Betinho tava lá e a gente “Betinho, e aí? Vamos manter viva a história?”. Só que nessa época a gente não tinha mais nada. Na época do SUB era um ensainho tosco, mas a gente tinha uma bateria, um amplificador de guitarra, ligava o baixo. Na época pós Crucificados Pelo Sistema a gente não tinha mais nada, como eu fui pra batera, tinha vendido guitarra. Só tinha nós três e pedia emprestado.


Sounds: Quem era a galera que ajudava?
Jão: Inocentes, o Cólera… ajudava pra cacete. A gente chegava no show só nós [risos]. Sem instrumento, sem porra nenhuma.

Sounds: Tem no Guidable um lance bem foda que é uma hora que você fala que gostaria de passar uma mensagem de união. Uma banda punk/hardcore levando letras mais realistas para o público metal que tinha muito o contexto mais fantasioso no conteúdo das letras, né?
Jão: Cara, essa era a parte do metal que mais me incomodava. Eu era punk, quando falavam em heavy metal pra mim eu já pensava “ah, aqueles caras com a espada de não sei o que lá…”. Porque eu pensava isso mesmo. Meu inglês era uma bosta, eu olhava aquilo e parecia capa do gibi do Conan, não passava muito da realidade. Então, quando o Discharge virou metal, foi um insulto fudido. Aí apareceram os primeiros do Metallica, Exodus, Slayer e aí começa a fazer mais sentido.

Sounds: Você acha que, de certa forma, como você citou o Slayer, Metallica, Exodus, diria que esses caras influenciaram vocês a mudar um pouco o jeito de compor para o RDP? Vocês estavam ouvindo essas bandas?

Jão: Pra caralho! Depois do Descanse em Paz a gente tava bem metaleiro. Quando rolou aquele lance de “traidor”, eu fiquei puto. Cresceu o cabelo e o metal me trouxe uma vontade de aprender a tocar, entender melhor a guitarra e comecei a estudar pra cacete. Não o estudo de escola, mas comecei a pegar umas escalas, nego me dava umas explicações, peguei umas aulas e em casa tocava pra cacete.


Sounds: Tem a ver com a amizade de vocês com o Sepultura, nessa fase?
Jão: Tem a ver com S.O.D pra caralho. Porque aí já e aquele lance [imita bateria tocando rápido]. Puta sonoridade agressiva, né.

Sounds: O Vivendo Cada Dia Mais Sujo e Agressivo é 87, certo? E aí já tem o Crossover , do D.R.I, o Money Talks, do Cryptic Slaughter, e coisas do Excel que já vinham fortalecendo o crossover.
Jão: Sim.

Sounds: E é um disco um pouco à frente pra época. Você também acha isso?
Jão:
Porra, era um bagulho que ninguém tava fazendo. O Ratos sempre esteve na vanguarda de umas paradas. Desde o SUB, ninguém fazia aquela porra. Quem tinha influência de coisa mais rápida, tipo o Olho Seco, era um lance mais Discharge.


Sounds: O Armagedom também tinha.
Jão: Também, mas era um pouco mais crust. Não era muito do hardcore americano que nem era a pegada do Ratos no SUB, por exemplo.

Sounds: E vocês foram fazendo uma sequência de discos com pouco intervalo. Um ano e já mudava a sonoridade. Dá impressão de que vocês terminavam de gravar e já estavam ouvindo outras coisas, que seriam refletidas em um próximo disco.
Jão: As coisas aconteciam meio rápido nessa época aí, né. Juventude, você tá mais intenso ali. Os discos do Ratos são gravados um com cada selo. Parece puta né, meu [risos]. Até pra ter controle dessas coisas é complicado. Quando apareceu a oportunidade de gravar em Minas [Vivendo Cada Dia Mais Sujo e Agressivo foi gravado em Minas Gerais], era a gente pela primeira vez viajando juntos. A gente só tinha o disco pra pensar. Não é igual você gravar o disco aqui em um estúdio de Pinheiros, que você sai de casa, pega um ônibus, vai e volta. Foi legal, todas as bandas da Cogumelo [gravadora mineira] gravavam lá. Os caras já eram uns metaleiros que sabiam tirar o som de umas mesas analógicas e tal. O Descanse em Paz mesmo a gente gravou aqui, na Alves Guimarães [Pinheiros]. Trouxeram um cara e diziam “eh, ele trabalhou em Manhatan”.  Aí chegou um gordinho com uma cara de metido, a gente ligou dois pedais lá e ele falou “que porra é essa? Vocês acham que a gente vai gravar assim?”. Eu falei “pô, tenho certeza de que a gente vai gravar assim. Vai embora que a gente vai gravar sem você” [risos].


Sounds: Você acha que a força do Ratos de Porão vem desse lance de vocês defenderem fazer as coisas do jeito de vocês?
Jão: O Ratos nunca deixou produtor metido a besta, esses Liminha da vida, vir e falar o que a gente ia ter que fazer. Tinha até uma história engraçada, que nos anos 90, a gente tinha tudo fama de junk que ia nos hotéis e quebrava tudo, usava droga. Era mais ou menos isso, mas nem tanto. É meio lendário também, até porque como a gente sempre andava com droga em cima, a gente não ficava fazendo arruaça. Aí o cara da Roadrunner chamou o Gordo, que já era apresentador de MTV, e falou “você sabe que o estilo que o Ratos toca, hoje em dia, tá em baixa. Tem Raimundos, tem o Green Day”. Daí a gente até montou uma nova banda, que era João Gordo da MTV e seus Raimundos Green Day [RISOS]. Vamo montar essa banda aí que vai estourar, cara [risos]. O cara queria que a gente fizesse um lance meio Green Day, Raimundos, porque era o que tava pegando no meio dos anos 90. Mais aí já pulei os anos aí. Voltando, na época do Cada Dia, começou a ter mais shows, a gente começou a tocar no meio metal, acontecia umas paradas, tipo os caras cantando o seu refrão, a gente ficava “porra, que foda!”. Ao mesmo tempo aconteceram umas paradas estranhas. A primeira vez que a gente tocou em Brasília, pô, a gente é punk de SP, né. A gente se acostumou a correntada, facada, então a gente não tinha essa parada de banda. A gente chegou no lugar do show, era um circo, tipo o Circo Voador mesmo, e começou a tocar uma sirene do tipo A BANDA CHEGOU! Aí um monte de gente meteu a cara nos vidros do carro em que a gente tava. “Que que tá acontecendo aqui, caralho???”. A gente já tava querendo socar o motorista, “filho da puta, a gente quer descer”. Aí o cara falou, “não desce que vai ser pior”. Nesse show já tinha uma mistura. Careca querendo bater na gente, os punks chamando a gente de traidor e os metaleiro batendo cabeça. Pô, a gente que ajudou a criar essa porra de punk e aí vem um filho da puta dizer que sou traidor porque eu não fico robotizado, fazendo o que todo mundo tá fazendo. Foi aí que eu fiquei meio metaleiro mesmo. Cabelo crescendo, só camiseta do Black Sabbath.

Sounds: E aí chega no Brasil. Até aquilo que você falou de ficar estudando mais, nesse disco, isso dá um belo salto.
Jão: Já dá uma saltada boa. E a gente tem uma teoria. Na época que a gente começou a compor o Brasil, caíram umas latas de maconha no mar. Daí a gente descolou umas latas né [risos]. E a gente tem uma teoria de que saiu aquele monte de base por causa daquele fumo da lata lá [risos]. A gente ficava ensaiando e fumando aquela porra.

Sounds: Muita gente considera, mas você acha que esse foi o ápice de vocês?
Jão:
O Brasil é legal porque tem uma história. A capa e o disco têm um conceito, eu diria, e porra, foi um puta desafio gravar. A gente foi pra Berlim, com produtor que tinha gravado Voivod, Tankard, e a gente “caralho”. Não convivíamos muito bem com esse lance de cobrança, contrato e ter que lidar com uns puta babaca de gravadora. A gente ia gravar em Berlim, mas falamos “pô, vamos lá pra Amsterdã”. A gente ia fumar maconha lá, aí já passaríamos na Roadrunner, pediríamos dinheiro pros caras, porque a gente ia precisar comer, e aí a gente ia pra Berlim, saca [risos].


Sounds: O plano perfeito (risos). Foi a primeira vez que você viajou pra gringa?
Jão: Foi. E logo Amsterdã, puta choque cultural fudido, a gente da periferia já caindo lá. Cara, a gente nos coffe shop rolava umas bombas gigantes, empesteava de fumaça e os gringo tudo fumando baseadinho, tudo certinho e a gente COF COF [ele tosse pra imitar a banda fumando]. E era engraçado porque a gente era assim, meio bicho do mato, cara que veio do punk e começou a ter banda, tocar, gravar e, de repente, começou a ganhar grana, mas não graaaaana.

Sounds: Como foi receber seu primeiro cheque?

Jão: Cara, com o Crucificados pelo Sistema era aquela história. Colava no Fabião: “e aí, vendeu uns discos?”. Aí ele “vendi, vou fazer um cheque e você passa aí”. Aí ia lá buscar. Era legal, Aí quando veio a Eldorado era uma grana de venda. Chegava a grana e a gente “pô, que bom, chegou” [risos].

Sounds: O Sepultura tava na Roadrunner, vocês com a Eldorado. Aí vem o Anarkophobia, que também é um disco assumidamente bem metal. Tave alguém da banda que queria conduzir mais vocês pro lado mais metal mesmo?
Jão: Em que sentido?

Sounds: Como se vocês quisessem fazer um lance mais metal ainda. Porque o Brasil, apesar de ter alguns resquícios disso, ainda é mais pro crossover, né.
Jão: No Anarkophobia a gente queria um disco metalzão mesmo. Todos os quatro. A gente ouvia metal pra caralho.


Sounds: Alguma banda em específico chamava mais atenção e serviu de referência forte pra vocês nesse disco?
Jão:
Cara, era uma junção de influências do metal, tipo o primeiro do Testament, o Vio-lence, Slayer com Reign in Blood, que é foda até hoje, depois veio o South of Heaven e não sei, tinha umas músicas gigantes no Anarkophobia. Quando a gente via as músicas estavam com quatro ou cinco minutos. A gente não falava “vamos fazer uma música de cinco minutos”. A gente começou a viajar lá aí alguém dizia “toca mais uma vez essa base”. É interessante, do Brasil pro Anarkophobia, o prazo é de um ano.

Sounds: É o que ela falou, o espaço entre um disco e outro é curto.
Jão: Até pela intensidade de como as coisas rolavam. Por exemplo, gente gravou o Brasil, acho que na metade de 89, quando a gente voltou de Berlim, já voltamos fazendo umas músicas. Uma época a gente se trancou em um estúdio no sítio do cara que era sogro do Spagheti, aqui perto, em Parelheiros. Ficamos lá no meio do mato inventando música. A gente parava pra comer, fumar um beck e voltava. Saímos de lá com o disco quase pronto. A produção do disco é mó legal também.


Sounds: Você teve que reaprender as músicas? Porque hoje tem “Morte ao Rei” no set list, por exemplo.
Jão: Hoje as músicas têm uma dinâmica um pouco diferente. Na época era uma outra guitarra, então tinha outro som, mesmo. Fiquei com uma Yamaha um tempo, e a Les Paul eu tô com ela desde 95, sei lá. E cara, pra mim também chegou uma época que foi mó doidera, né. Na fase do Ao Vivo, eu fumava crack, tava um bagulho já meio foda, pesado, e começou a dar umas tretas. Lógico, começa a conviver muito junto, bando de louco, aí dava treta. O Jabá despirocou uma época. Aí eu sumi de SP e falei “pedra eu não vou fumar mais”. Fiquei na casa de um tio numa praia lá, com violão, e o Jabá continuou na loucura. Quando eu voltei, a gente já tava compondo o Just Another Crime… In Massacreland. E o Jabá desaparecia. Até o Waltão, que gravou o baixo no disco, era porteiro lá no Quorum onde a gente ensaiava. O Jabá nunca aparecia, e o Waltão ia lá e ficava tocando uns The Clash com a gente, Peter Frampton. E aí depois deu uma treta que aí o Gordo e o Boka falaram: “você e o Jabá que montaram a banda, se você achar que ele tem que continuar na banda, nós dois vamos sair, velho. A gente não pode tirar o Jabá. O cara nunca aparece e quando aparece vem muito louco”. Aí eu tive a triste missão de tirar o cara da banda, tá ligado. Foi uma merda, fiquei sem conversar com o Jabá, tipo, dez anos.

Sounds: Você acha que esse clima reflete no Just Another Crime… ?
Jão: Tem uma demo, que a gente tinha gravado com o Jabá, que tem seis músicas, saiu até no No Money, No English. As músicas são com ele e são diferentes. Na época a gente já tava meio grunge. A gente ouvia Nirvana, Soundgarden e Helmet, que é a banda dos anos 90 que eu acho bem marcante e influenciou pra caralho em coisas de guitarra.

Sounds: Então, a gente ia chegar nisso. A primeira audição do Just Another Crime, que já começa com “Money”, uma música diferentona, acho que muita gente foi entender esse disco bem depois. Tinha uns riffs modernos, a caixa da batera esticadona estilo Helmet. Tinha também “Quando ci vuole, ci vuole!” e “Suposicollor”, que eram mais parecidas com a vibe do RDP.
Jão:
É, porque quando o Jabá saiu, no mesmo dia, a gente já começou a transformar as músicas e a tirar as bases que lembravam o cara. É muito reflexo do que a gente tava escutando, mesmo. A demo mesmo, as músicas são diferentes. A gente tirou as bases dele.


Sounds: Foi um tipo de ruptura, né?
Jão: Sim, eu acho que é o disco mais mal visto do Ratos, mas assim, se fosse outra banda aí nego até ia falar bem.

Sounds: Talvez mais por não entender aquela possibilidade de abrangência. Você acha que hoje o povo entende?
Jão:
Na época eu fiquei feliz com a gravação do disco. É meio o que eu queria fazer também, porque na época do Anarkophobia começou a ficar muito metal extremo e eu cheguei à conclusão de que eu não tava me divertindo muito. Eu ficava balançando o cabelo ali, mas cara, era um bagulho muito milimétrico e que se alguém fizesse alguma merda, ia dar aquela cagada monstro. Então acho que depois daquele lance, bagulho com pedra, Jabá saiu da banda, o lance pegou um outro rumo. Deu uma aliviada naquela paranoia de tudo – não que a gente era uns careta, nada disso, mas puta, ninguém ficava fumando pedra oito horas por dia, então o bagulho começou a fluir. Deu uma soltada necessária porque depois do Anarkophobia a gente ficou “putz, será que esgotou as bases?”. Nesse ano a gente só fez seis músicas e não conseguia sair daquilo. A gente tocava as mesmas seis e ia fumar pedra. Isso ali antes de o Jabá sair. Eu tava me sentindo um inútil fudido, fora um monte de problema, família, namorada, financeiro. Sei lá, eu encaro o Just Another Crime… como uma vitória. Eu saí daquela merda e tô vivo, tá ligado?.

Sounds: É legal isso porque, enquanto boa parte dos fãs encara esse disco como algo estranho ou fora do que se pudesse imaginar, você enxerga como uma vitória. Isso é do caralho.
Jão
: Né? Porque eu não posso adivinhar o que nego tá esperando, se for isso eu vou ficar louco e não vou agradar a todos. Então é melhor eu seguir aquilo que eu imagino que seja a direção.

Sounds: É legal que vocês compuseram somando influências que as pessoas talvez nunca imaginariam e vocês bancaram isso.
Jão: É isso e acabou!

Sounds: Porque hoje, nos anos 2000, você consegue falar que ouve metal, punk, hardcore e Carreta Furacão, mas lá atrás não era muito isso.
Jão:
(risos) Sim, isso.


Sounds: E aí desemboca no maravilhoso e arregaço que é o Carniceria Tropical, né?
Jão: Aí já tem um certo hiato ali e saiu o Walter, que a gente colocou ele ali por comodidade. O Boka sempre torceu o bico, porque como ele era o que chegou depois, quando era os três tios da velha guarda ele falou “meu, vocês tiraram o cara e botaram esse otário aí, vocês tão maluco”(risos). Um dia o Waltão mergulhou igual ao Pateta e o Boka “vai toma no cu, o cara mergulhou igual ao Pateta!” (RISOS). Foi muito foda.

Sounds: Lá no Just Another Crime, tinha o lance mais industrialzão mesmo. No Carniceria Tropical já é um lance mais violento, sujão.
Jão: Da minha parte tem umas transições assim. Na época do Feijoada a gente começou a tirar aquele monte de punk, não que tenha influenciado no Carniceria Tropical, mas meio que deu mais uma soltada. Deu uma “desmetalzada”. Foi quando eu ganhei a Les Paul. Eu coloquei os captadores ativos, minha Yamaha tinha quebrado. Quebrou o braço no meio. Eu dei uma bica num amplificador no meio de um show e caiu em cima dela. Em 96, época em que nasceu minha primeira filha, eu cortei o cabelo. Foi uma época de transição, não tinha mais guitarra com alavanca, aboli os pedais. Nego tava cagando e andando pra Ratos de Porão, mano. Nego queria ver Raimundos. Uma época a gente foi embora pra Espanha, ficamos dois meses tocando em tudo quanto é lugar. Eu tinha comprado uma Kombi pra trampar, filho pra criar e comecei a fazer transporte de lance de banda, de transportadora também, que me dava liberdade de viajar pra tocar, não tinha vínculo de trampo.

Sounds: Os lances mais dissonantes de guita ganham mais espaço nessa época?
Jão:
Cara, os bagulhos mais dissonantes, tudo mesmo, começou lá no Voivod. Eu ouvi muito aquele disco, o “Dimension Hatröss”. Foi moldando a partir daí e eu consegui um estilo mais próprio de guitarra. Eu cortei o cabelo, peguei uma guita grandona e move your ass, saca [risos]. E também eu já tava com uma experiência como guitarrista. Não era como no Anarkophobia, que era tudo mais travado, fazia riff pra cacete. Isso foi legal pra mim, comecei a me divertir mais, suar e pular e tal, e isso é influência americana também, Rich Kids on LSD. Teve uma época, eu e o Gordo, a gente fala isso até hoje, eu não conhecia Rich Kids e o Renato, que era empresário da gente, quando eu tava em Amsterdam ele falou “mano, ouve essa banda que é fudida!”. E tinha uma banda de reggae abrindo e nós “porra, você traz a gente pra ver isso mano?”. Aí chegaram uns maninhos com visual estranho, uns macacãozinho e nós, “puta, que saco”. Cara, o show dos caras foi foda. Os caras muito loucos, mó energia, foi um lance impactante de presença de palco. Foi um puta arregaço. Então, acho que pode parecer babaca, mas o lance de ter cortado o cabelo ajudou isso aí. O Ratos continuou fazendo discos diferentes.


Sounds: O Onisciente Coletivo é um disco de que você gosta?
Jão: Eu gosto de alguma coisa ali. Eu acho um disco preguiçoso.

Sounds: Porque é outro disco que ninguém fala muito, né?
Jão: É um disco engraçado. O disco foi pro limbo, né. Century Media, o bagulho não existe. A gente vai relançar essa porra de algum jeito. Outro formato, outra cor, sei lá. Mas tem umas músicas boas ali, cara. Tem coisa bem legal que representa o lance do Ratos. Tem uma coisa né meu, no Carniceria Tropical a gente ouvia uns Wolfpack e começou a aparecer Disrupt, um crust mais elaborado do que aquele de duas frasezinhas, volta pro refrão, e tudo isso foi influência na época. No Onisciente Coletivo sei lá o que eu tava ouvindo na época. E aquele disco tem muita coisa que só eu o Boka que fizemos. O Gordo já tava trampando na MTV, a gente marcava ensaio e ia só eu o Boka. O Fralda nunca foi muito de compor, e aí ficava eu e o Boka fazendo as músicas. O Gordo, apesar de não saber tocar, sabe compor. Ele faz uma base assim [faz gesto com a boca] e tal, e a gente vai achando um senso daquilo que ele faz com a boca. Mas não é um disco que eu ache ruim.


Sounds: E o Homem Inimigo do Homem? É um disco legal, tem uns poucos blasts ali…
Jão:
Sim, um pouquinho. Cara, é um disco que eu tenho um pouco de pé atrás com ele em algumas coisas ali, outras eu acho um pouco preguiçosas da minha parte, não gosto muito da gravação, do resultado final. Acho que tem umas quatro músicas bem legais ali. Composição legal que a gente fez na época, não gosto muito de umas letras, do encaixe vocal, de uns solos. Eu acho que era mais complexo do que a gente pensava e tinha que ter ensaiado mais. Ter dado uma lapidada melhor.

Sounds: Tinha uma ideia inicial pro disco?
Jão: Cara, não sei onde nego leu esse lance, em algum livro, Homem Inimigo do Homem, aquela capa de colagem é legal, eu gosto, então o Lado A é legal, o Lado B eu acho que dá uma pesada.

Sounds: E a relação da banda, assim, como é que vocês estavam?
Jão: Puta cara, era meio complicado. Eu namorava com uma mina do Rio de Janeiro, cada um tinha sua vida, então nos ensaios ia um e não ia o outro.


Sounds: Vocês têm ainda aquele lance de brodagem dentro da banda? Colar um na casa do outro…
Jão: Cara, o Boka mora longe. Mas é claro que se eu for descer pra Santos eu vou falar “e aí Boka, qual é?”. O Gordo eu não vejo tanto assim. Acho que cada um tem um rolê diferente. Acho que naquela época que a gente vivia junto pra tudo, Descanse em Paz, Vivendo Cada Dia Mais Sujo e Agressivo, Brasil e Anarkophobia, a gente vivia tudo muito junto, por isso que uma hora implodiu. Eu acho que o convívio do Ratos é bem diferente um do outro, é legal pra caralho. Por exemplo, eu e o Juninho nunca vamos sentar num bar e tomar uma cerveja ou fazer um churrasco, mas papo de som é o que a gente mais tem, assim, nego é tudo fissurado em comprar vinil, né. Então nossa turnê gira em torno disso, de ver banda e comprar disco. E dentro disso a gente tem uma visão de boa, até porque os caras são tudo mais coroa e isso é bom, porque nego fica muito grudado, em balada direto por aí, já teria implodido e acho. Então nosso rolê é o Ratos de Porão, a gente se tromba às vezes por aí quando tem show de alguma banda que todos gostam.

Sounds: O Século Sinistro é um pouco resposta disso, você não acha?
Jão: Do Século Sinistro eu gosto, viu mano. Ele é meio com raiva, tipo, tô velho, tá doendo meu joelho (risos).

Sounds: É quase um reencontro de vocês como banda mesmo.
Jão: É um disco legal. A gente tem mó dificuldade pra ensaiar. Nosso shows são nossos ensaios. A gente faz uma lista e toca ela durante um ano, um ano e pouco. É bom que dá uma segurança e você sabe que neguinho não vai fazer umas puta cagada na música e tal. É meio solto, é livre. Como show eu acho essa formação a melhor. Tem o disco ao vivo lá de 92, é um puta disco, é um puta show, mas não era uma apresentação tão solta como a dessa formação aqui.

Sounds: No Ao Vivo dá pra sentir vocês mais “travados”, mais focados…
Jão:
É bicudo, é bicudo.

Sounds: Isso, talvez essa seja a melhor definição. E hoje é mais um lance de segurança em tocar aquilo que corre no DNA de vocês com a energia que só vocês sabem que a banda tem.
Jão: A gente é mais solto, sem dúvida. A experiência de show, disco, deixou a gente assim. Fora que essa é a formação mais longa.

Sounds: Cara, você tem o Jão lá da periferia, punk e você tem o Jão hoje, que tem um bar e ainda mantém o RDP fiel ao barulho e entre uma das melhores bandas de punk/hardcore do mundo. O que passa pela sua cabeça quando você para pra pensar em toda essa trajetória? Você imaginou que ia gravar tantos discos e chegar até aqui?
Jão: Cara, a trajetória do Ratos é um bagulho que a gente sempre comemora porque como essa porra tá durando todo esse tempo? Porque assim, a gente veio da gerção No Future, eu e o Gordo. Nem se vivia por 35 anos, ainda mais TER uma banda por 35 anos, né (RISOS). Teve uma época em que a gente era tudo umas bombas-relógio, que podia morrer a qualquer momento. O Gordo com a obesidade, louco pra caralho, podia ter tido um piripaque e morrido, sacou? Com quanta gente não rola isso? Então, a gente tem 35 anos completados esse ano, é tempo.


Sounds: E é tempo com criatividade.
Jão:
É, o Século Sinistro é bem legal, a gente saiu de alma lavada do estúdio.

Sounds: Family Mob, né?
Jão: É. O clima da gravação foi bom, analógico, fitona, o estúdio é mó aconchegante, mó quintalzinho bom ,e como a gente tem problema pra ensaiar, esse disco foi composto meio de forma fragmentada. Vinha o Juninho e o Boka lá com uns esqueletos da música quase completa. Tem música que é minha, tem música que somos eu e o Gordo.

Sounds: É o disco mais “banda”, em termos de composição? Mais todo mundo e menos vocês e o Gordo?
Jão: Os discos mais velhos éramos eu e o Gordo o básico da composição. Mas como era punk, a gente não fazia esses lances de Lennon e McCartney (risos). A gente punha lá: música Ratos de Porão. Ou letra, que a maioria é do Gordo e quando era minha tinha lá, letra: Jão. Isso na época pré-Boka, né. Porque ele é um cara que compões bastante também. O cara chega junto. No Just Another Crime… In Massacreland o Boka já não compunha muito, no Carniceria Tropical sim. Aí a época do Fralda ficava eu, Gordo e Boka. O Juninho é um cara que compõe pra cacete também. Ele tá na banda faz tempo, ele tem o espírito do que é a banda. O cara não foi da época junk maior do Ratos, o que é uma época boa.

Sounds: No Século Sinistro qual era a trilha?
Jão:
Puta cara, eu já cheguei num lance de que eu gosto de música do século passado. Porra, aí eu acabo escutando o Slayer novo, o Napalm Death novo, o Corrosion of Conformity novo. Acho que tô ficando velho. E agora com esse bar eu tô escutando folk pra caralho, música dos anos 50 e 60. Eu acho que a gente tava inspirado pra compor no Século Sinistro. Hoje em dia a gente escuta tanta coisa… no mundo de hoje a informação é tão grande e a velocidade é tanta que você escuta um monte de coisa e não escuta nada. Na minha época de punk comprar um disco era caro e quando alguém chegava com um Ramones novo parecia uma pajelança [RISOS]. Era um monte de punk em volta da vitrola ouvindo a porra do Ramones e põe de um lado, põe de outro e volta. Hoje em dia é tudo muito fragmentado. O próprio hardcore tem 500 segmentos diferentes e ninguém se encontra por aí. Na minha época era diferente, quantos punks tinham em São Paulo, 300? Mas os 300 iam para todos os lugares, então se tinha show tinha no mínimo 300, né (risos).

Sounds: Boa. É isso então. Valeu, Jão!
Jão: Pô, obrigado vocês, passar a limpo toda discografia aí. Preciso ouvir Ratos, cara, vou colocar uns CDs no carro [risos].