Nirvana Os discos e o impacto que a banda teve na nossa e na sua vida

In Bandas, Discos

Certas presenças são sensíveis, mesmo quando não estão. É tipo aquela falta que cala por poucos segundos até que a vida grite em refrãos roucos e esteticamente desafinados. Mas, pensando bem, o que é a vida senão uma eterna procura por afinações? E nessa procura o Nirvana sempre trilhou uma estrada delimitada por uma paisagem de beleza explosiva. Poucos discos e muito, mas muito estrago – no bom sentido.

Há quase 30 anos, quando Kurt Cobain se juntou ao amigo Krist Novoselic, ambos tomaram emprestado um PA da tia de Cobain e um gravador de quatro canais. Era o início de um enraizamento de ética derivada do punk e da urgência adolescente. Novoselic certa vez disse que o cara mais punk e antiautoridade que ele já havia conhecido era Cobain. Um cara cheio de inquietos porquês, pronto para contaminar o mundo e se fazer ouvir aos gritos.

Chad Channing, Krist Novoselic e Kurt Cobain na época de Belach
Chad Channing, Krist Novoselic e Kurt Cobain na época de Bleach

Dezenas de músicas do Nirvana ainda hoje funcionam como contorno a lembranças envernizadas por um sentimento particular a cada um de nós. É comum que 10 entre 11 pessoas vivas nesse planeta, e que viveram os anos 90, contarem com certeza aritmética onde, quando, a que horas, minutos e segundos estavam quando ouviram “Come As You Are”, a primeira vez que viram o clipe de “Smells Like Teen Spirit” na TV ou quando ouviram outras não tão conhecidas, mas igualmente impactantes como “Sliver”, “School” e “Territorial Pissings”. Uma combustão de pop clássico amplificado pela distorção violenta da guitarra de Cobain, o baixo delineador de Novoselic e o peso preciso e forte da bateria de Dave Grohl, o quinto baterista da banda. Isso mesmo, o quinto. A gente até poderia dizer que Grohl estava no lugar certo, na hora certa, mas ele já vinha da cena punk/hardcore de Washington DC. Tocou bateria no Scream e passou pelo Mission Impossible, duas bandas bem conhecidas por lá.

Na arte, independente de por onde se manifesta, talvez nada seja mais valioso do que quando a incorporamos. Ela se torna seu despertar, evoluir ou respirar, e o Nirvana conseguiu isso. Eles sacudiram de vez a órbita de um sistema que vinha morno e precisando de algo novo, mesmo que isso já viesse ocorrendo na cultura underground aqui e lá nos EUA. Na superfície isso não era muito claro, então era preciso mais acordes, distorções e alguns gritos. Foi o que aconteceu.

Um dos ensaios da banda (foto: acervo Sounds Like Us)
Um dos ensaios da banda (foto retirada do encarte de Bleach)

No meio de todo o sucesso, Kurt Cobain nunca se mostrou à vontade em ser porta voz de toda uma geração, mas isso acabou acontecendo. Mesmo porque este é um estágio que não basta perseguir e muito menos calcular; isso simplesmente acontece. A geração elege quem vai portar ou não tal voz.

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Bleach (1989)

Danny Goldberg, da gravadora Gold Mountain, conta na sua biografia que Kurt Cobain tinha uma mística poderosa que o deixava sem fôlego. Tem muito disso, daquele poder que você não pede para ter e simplesmente é agraciado por tal dom. Cobain transparecia ser do tipo que poderia estar no palco e na plateia e se mostrar pertencente a ambos. Ele fez bom uso desse dom, somando uma raiva contida à sua eloquência criativa para dar vida a Bleach, o primeiro registro da banda, lançado em 89.

Bleach foi gravado em apenas três dias, pela quantia de aproximadamente U$ 600. Se fôssemos defini-lo em poucas palavras, diríamos que é um disco destemidamente cheio de vida, como a juventude deve ser. Isso imprime de forma nítida todo o senso de urgência de Bleach. Nada ali é pouco. Tudo é muito intenso, com muita vontade e uma certa desobediência musicada que ia contra o status quo da indústria daquele tempo.

Lançado em 89, muitos de nós só fomos ouvir esse disco depois do lançamento do seu sucessor Nevermind e, de certa forma, para algumas pessoas, aquilo soou meio “errado”. Não tinha o polimento de Nevermind, mas quem se propôs a exercitar a noção de localização em tempo e espaço, com certeza viu muita beleza nos riffs incômodos de “Blew”. Nas letras, músicas como “School” usam a voz de Cobain como instrumento para exclamar “No recess” e expelem toda e qualquer víscera em “Negative Creep” enquanto ele berra I’m a negative creep and I’m stoned (eu sou um verme negativo e estou chapado).

Livro da edição comemorativa de Bleach (2009)
Livro da edição comemorativa de Bleach (2009)

Bleach também ressalta a genialidade de Cobain em criar canções puras, simples e pop. “About a Girl” é um exemplo claro disso e em uma de suas explicações, Cobain disse ter escutado Meet the Beatles por horas e horas seguidas antes de escrever essa música dedicada à sua namorada da época. O gosto pelo pop criou entre Cobain e os refrãos uma proximidade fraternal que durou por toda a vida da banda. “Love Buzz”, um cover dos suecos do Shocking Blue, foi o primeiro single do disco e da banda. Grande música, daquelas em que o autor original parece desaparecer tamanha propriedade com que o Nirvana executava a música.

Cobain dizia que Bleach era um disco lento e unidimensional de propósito, para se encaixar na estética da Sub Pop. Para nós, é uma obra livre, de musicalidade bruta e uma raiva desassossegada correspondente à sua época, classe e lugar, que prova que para o Nirvana o meio era a mensagem. Bleach foi um disco de estreia que disse muito sobre o que viria a ser o som da banda que, poucos anos depois do lançamento desse primeiro registro, iria conquistar de vez o mundo todo.

Nevermind (1991)
Nevermind (1991)

Pensando hoje, quem diria que aquela banda estava prestes a carimbar de vez seu nome no mundo da música? Quem diria também que um dia você ouviria a mesma banda que compôs Bleach tocando em rádios populares e até como som ambiente em lojas de departamento como uma C&A ou Renner da vida?

Dentro do espectro que o Nirvana representa, Nevermind é um claro resultado de suas referências. Tem muito de Pixies na estrutura, muito de Sonic Youth na integridade, reflexos do punk e um nítido namoro com o pop de bandas como o Abba, citada por eles algumas vezes. Falando em Sonic Youth, muito se deve a eles o fato do Nirvana ter assinado com a Geffen para o lançamento de Nevermind. Mark Kates, que na época era diretor de promoções na gravadora, conta que quando eles fecharam com o Sonic Youth, Kim Gordon colou nele e disse: “a próxima banda com quem você deveria assinar é o Nirvana”. Com a moral lá em cima, claro, o cara escutou os conselhos da moça e em abril de 91 eles fecharam o acordo.

Quando entrou em estúdio, Kurt Cobain disse que queria um disco pesado. O peso está lá e as raízes de Nevermind são íntegras, mas o disco estava fadado a ser resumido por alguns que só enxergavam os singles e por uma imprensa urubu que massacrou e usou a imagem da banda até o último instante.

Sessão de fotos Nevermind
Sessão de fotos do Nevermind

Nevermind atropelou o que vinha pela frente e mandou um verdadeiro foda-se na cara do hard rock que vinha dominando as paradas com o sucesso do Guns n’ Roses, das paradas pop que entulhavam nossos ouvidos com Michael Bolton, Richard Marx, Mariah Carey e até do rei do pop Michel Jackson, que perdeu a coroa e entregou o trono para Nevermind quando este apresentou ao mundo uma música de contexto aparentemente sem sentido e que viria a ser um grito coletivo e ensurdecedor: “Smells Like Teen Spirit”, a música que redefiniu toda uma geração. Redefiniu também o modo de Kurt Cobain lidar com toda aquela explosão de sucesso que viria a partir de então. Talvez esse seja o ponto crucial. A partir dali, e até o fim de seus dias, Cobain brigava com ele mesmo para procurar aquele sentido intenso e genuíno que o fez chegar até aquele ponto.

Cópia de um dos rascunhos da letra de Smells Like Teen Spirit (Cobain Unseen, Charles R. Cross - 2008)
Rascunho da letra de “Smells Like Teen Spirit” (retirado do livro Cobain Unseen, de Charles R. Cross)

A primeira vez que eu, você, nós vimos o clipe de “Smells Like Teen Spirit” na MTV, foi algo aterrorizantemente bom. Com uma letra previamente sem sentido, a mensagem era transmitida por vias sensoriais onde palavras seriam de pouca utilidade em tentar traduzir o que foi aquilo. O riff chamando a entrada massacrante da bateria e a dinâmica ansiosa que previa uma explosão de energia acumulada por anos e anos eram uma experiência sensorial completa e um convite à liberdade e aos gritos por algo extremamente fresco, jovem e honesto.

Mas Nevermind era mais que isso. Contrário ao seu antecessor, este foi gravado pela bagatela de aproximadamente U$ 135 mil, sob os cuidados de Butch Vig, que foi o produtor escolhido pela banda. Antes da decisão, eles também estavam de olho em Scott Litt, produtor do R.E.M, banda de que Cobain gostava muito. A história conta que Vig ficou descontrolado, andando de um lado para outro dentro do estúdio no dia em que ouviu os ensaios e os primeiros acordes de “Smells Like Teen Spirit”. E não foi só ele. Ian MacKaye (Dischord / Fugazi / Minor Threat / The Evens) conta que, em uma das visitas à gravadora Dischord, Grohl mostrou para Ian uma fita com as mixagens iniciais de “Smels Like Teen Spirit”, que ouviu e disse: “Cara, que música legal. Vai fazer muito sucesso”. Mais uma vez, Ian tinha razão.

Krist Novoselic, Kurt Cobain e Dave Grohl
Krist Novoselic, Kurt Cobain e Dave Grohl

Engana-se quem reduziu sua experiência musical a apenas o single de sucesso que abre o disco, porque Nevermind vai muito, mas muito além. “Come As You Are” também era hit certo. “Breed” vinha forte, com vocais postos sobre riffs dissonantes e aquele cheiro de que ao vivo seria uma arma letal. “Lithium”, que era pra ser o primeiro single do disco, e “Polly” eram outros dois grandes hits e fecham o Lado A com maestria. Sobre o Lado B? Bom, esse era tão incrível quanto o lado anterior. “Territorial Pissings” traz de volta a urgência punk seguida por “Drain You”, que sempre esteve entre as preferidas de Kurt. Ele dizia que era uma música tão boa quanto “Smells Like Teen Spirit” e que ele não se cansava de tocá-la porque ela não sufocou os ouvidos do público como “… Teen Spirit”. “Longe Act”, “Stay Away”, “On A Plain” é uma trinca de alta qualidade e realmente passa a impressão de uma tríade com começo, meio e fim pra quem ouve. O disco finaliza com a calma, porém tensa e melancólica, “Something in the Way”. Nevermind mais parece uma coletânea de hits que talvez nem tenham nascido com essa pretensão, mas afinal, é também disso que são feitos os grandes discos.

Curiosidade número um: em um dos seus belos artigos, Michael Azerrad reforçou a falta de entendimento de parte do público sobre as mensagens nas letras de Cobain. A gente concorda e vai além: isso fez com que muita gente desse de ombros achando que eram um amontoado de palavras sem sentido. Por exemplo, “Territorial Pissings” é uma música anti-americano-machão e foi usada em um jogo de futebol americano (risos). “Smells Like Teen Spirit” também é cheia de ironias, mas se a gente for mais longe, a letra de “In Bloom” é ainda mais clara, direta e contextualiza um pouco melhor a mensagem: He’s the one who likes all our pretty songs / And he likes to sing along / And he likes to shoot his gun / But he knows not what it means (ele  é o cara que gosta de todas as nossas canções bonitas / e adora cantar junto / e adora atirar / mas não entende o que elas querem dizer).

Curiosidade número dois. Quando Cobain mostrou o riff de “…Teen Spirit”, Novoselic achou aquilo ridículo. Cobain então fez a banda tocar aquilo por várias e várias vezes. Dave Grohl também conta em sua biografia que a princípio não tinha achado “…Teen Spirit” uma graaande coisa. Ele disse que ela era só mais uma entre tantas jams que eles faziam, gravavam e depois perdiam as fitas. A diferença é que “… Teen Spirit” era uma das músicas em que eles sempre voltavam e lembravam como tocar. Talvez por seu riff fácil e dinâmica marcante, era uma música que ficava na cabeça deles e, passados mais de 20 anos, ficou na nossa também.

Incesticide (1992)
Incesticide (1992)

Pode parecer um caça-níquel ou um disco tapa-buraco, e quer saber? Na visão da gravadora poderia até ser, mas para nós, fãs, foi a abertura de um grande baú de intimidade, e isso faz de Incesticide um disco muito mais importante do que ele parece ou da impressão que causou quando foi lançado. O que parece um amontoado de músicas de diferentes épocas no fundo é um artista dividindo com a gente aquilo que ele viveu antes do sucesso. Incesticide é quase um agradecimento generoso que passeia por diferentes estágios da carreira do Nirvana.

O disco resgata coisas antigas que mostram o Nirvana desde a gravação de “Mexican Seafood” para a coletânea Teriyaki Asthma até os dias do lançamento de Incesticide. Traçando essa linha do tempo musical, o que mais fica claro é a sapiência da banda em talhar, martelar e lapidar suas melodias até que elas virem ouro na boca de cada pessoa atingida diretamente no peito pela força de suas canções.

“Hairspray Queen” é uma música da primeira demo da banda. “Sliver” e “Dive” faziam parte do último single deles lançado pela Sub Pop. O disco ainda traz covers do Devo (“Turn Around”), do Vaselines (“Moly’s Lips e “Son Of A Gun”) e a potente – e uma das prediletas da casa – “Aneurysm”. Incesticide veio pra lembrar que o Nirvana já era uma grande banda mesmo antes de atingir o topo com Nevermind pela qualidade de suas músicas, claro, mas também pela assumida liberdade em arriscar, errar e, com isso poder seguir livre dentro da própria criatividade.

Ainda no mesmo ano (92), o Nirvana já era parte do inconsciente cultural e espelho para toda uma geração que fez da banda um modelo de postura. Nas passarelas de moda de todo mundo a camisa de flanela era hype, nos barzinhos daqui a música do Nirvana era tocada em formato banquinho e violão, em lojas de departamento era trilha pra quem ia procurar uma calça rasgada e em rádios brasileiras, algumas músicas eram tocadas até mesmo nas mais populares.

Antes de falar sobre In Utero, é impossível não mencionar o tão esperado show da banda no Hollywood Rock, um festival que rolava no Rio de Janeiro e em São Paulo no início dos anos 90. A gente estava lá no dia 16 de Janeiro de 1993, no Estádio do Morumbi. Era a maior banda do mundo vindo para o Brasil no seu auge, coisa que naquela época era muito raro – muitas vezes, só vinham fazer shows por aqui bandas clássicas como Deep Purple. Era muito difícil uma banda no topo do seu sucesso vir para o Brasil, mas aconteceu e parecia um sonho.

Estádio lotado e, antes do Nirvana, o L7 fez um show maravilhoso, intenso e um ótimo esquenta. Uma das lendas que sempre envolveram Cobain dizia que ele soube que o festival era patrocinado por uma marca de cigarros e que, por isso, ele tinha decidido “boicotar” o show, tocando as músicas bem de qualquer jeito. Esquisito, já que ele era um fumante. Já Grohl conta em sua biografia que Cobain tinha misturado comprimidos com álcool e quase não conseguiu tocar e cantar. Ele balbuciava palavras entre um ranger de dentes e outro. O que os holofotes não mostraram foi que Krist Novoselic saiu do palco por volta de uns 20 ou 30 minutos que, pra quem estava lá, pareceram horas. Depois que ele decidiu voltar, a banda brincou com “Run to the Hills”, do Iron Maiden, “Heartbreaker”, do Led Zeppelin, “We Will Rock You”, do Queen, “Rio” do Duran Duran e algumas outras. Isso sem falar no Flea, do Red Hot Chilli Peppers, que fez o solo de “Smells Like Teen Spirit” tocando trompete.

07A passagem da banda pelo nosso país teve um outro fator ainda mais marcante. Entre o show de São Paulo e do Rio, o Nirvana teve uma semana de folga e decidiu usar esse tempo para lapidar algumas músicas novas em que eles vinham trabalhando. Foram até o estúdio da BMG Ariola e entre os dias 19 e 21 de janeiro gravaram sete novas músicas. Entre elas, “Heart-Shaped Box”, “Scentless Apprentice” (que eles incluíram no set do show em SP e foi inspirada no filme Perfume, de 85), “Milk It”, “Very Ape”, “Moist Vagina”, “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Throhgh the Strip”, e a música que daria o título temporário ao novo disco, “I Hate Myself and I Want to Die”. Mais tarde Cobain chegou a dizer que teria desencanado de dar esse nome ao disco porque as pessoas não entenderiam a ironia. Ainda no mesmo dia, os caras gravaram mais dois covers de “zueira”, uma delas era “Onward Into Countness Battles” (que na biografia de Dave Grohl está escrita da forma errada: “Foward…”) dos suecos Unleashed, banda pioneira do death metal sueco.

In Utero (1993)
In Utero (1993)

No mesmo ano, o impacto do lançamento de In Utero por aqui foi bem intenso. No meio indie, ou dos alternativos, o disco era como aquela respirada profunda de alívio que expirava um ar tranquilo. No meio dos fãs do refrão radiofônico, foi um álbum de poucas amizades, mas mesmo assim, algumas músicas agradaram quem queria cantar junto. Ou seja, os ingredientes que fizeram do Nirvana a grande banda popular que eles haviam se tornado estavam todos lá com uma diferença apenas: In Utero trazia ainda mais angústias, sujeira e ironias. É um disco visceral, no literal da palavra, que traduzia a personalidade de Cobain. Transpira escárnio, é divertidamente estranho e violentamente direto. É um retrato incômodo do estilo de vida pós “Smells Like Teen Spirit”. É um disco cheio de dor e atrito. Como se você arranhasse com força uma parede muito áspera e, mesmo sentindo toda dor e aflição, não parasse de arranhar.

É perceptível que Cobain expurgou todo o desprezo pela sua boa sorte (sob algumas vistas) e despejou alguns demônios registrando tudo isso com uma sinceridade enfurecida. Exemplo desse desprovimento de qualquer forma de casca artística é o início de “Serve the Servents”, que abre o disco e já entrega Teenage angst has paid off well / Now I’m bored and old (a angústia adolescente me serviu muito bem / Agora estou velho e entediado). Ele canta isso de um jeito resmungão que, naquela época, brochou todo e qualquer serumaninho que esperava uma nova “Smells Like Teen Spirit”. Em “Very Ape” ele exclama I’m buried up to my neck in contradictorary lies (Estou enterrado até o pescoço em mentiras contraditórias ou contradicionário, no jogo de palavras que ele criou). Essa viaja de volta para 89 na pegada do Bleach e seu uso e abuso de fuzz.

Entre todas elas, “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle” é a melhor música do disco e talvez uma das melhores da banda, mas a malícia de In Utero está nos detalhes. À primeira vista, eles parecem usar em larga escala o processo de começar as músicas com sussurros e explodirem no refrão como fizeram em Nevermind. Em In Utero isso começa a incomodar o próprio Cobain que em algumas entrevistas chegou a contar sobre uma possível vontade de criar músicas mais intimistas para um futuro disco ou algo que ele pudesse explorar mais, mesmo que soasse psicodélico. Ele dizia admirar o R.E.M também por esses motivos porque era uma banda livre e continuavam soando criativamente bem, com a energia da mesma college band que eram no início. Talvez por isso, em “Pennyroyal Tea” ele chega, intencionalmente ou não, a soar como Michael Stipe entoando a lindíssima “Drive”.

A produção de Steve Albini é preenchida, grave e concentrada em colapsos noise que a banda se especializou em fazer. Mas mesmo sendo lindamente bem feita, a gravadora não gostou e pediu para que Albini refizesse algumas mixes. Em um telefonema, Cobain disse ao produtor que não eram algumas mixes, era praticamente tudo que deveria ser refeito. Isso causou um mal estar na época entre Albini e a gravadora. O fato é que algumas músicas foram retrabalhadas pelo produtor Scott Litt. Em 2013, uma versão de In Utero foi relançada com as mixagens originais de “All Apologies” e “Heart-Shapped Box”.

Rascunho da letra de Dumb (São Francisco - 2014)
Rascunho da letra de “Dumb” (São Francisco – 2014). Acervo Sounds Like Us

Ainda sobre sinceridade, em “Dumb” Cobain diz My heart is broke / But I have some glue / Help me inhale / And mend it with you (Meu coração está partido / Mas tenho um pouco de cola / Me ajude a inalar / E consertá-lo com você) e em um tom que poderia ser narrado por Édipo, “Heart-Shapped Box” diz Throw down your umbilical noose, so I can climb right back (jogue seu cordão umbilical para que eu possa entrar de novo). Visceral, né?

Aí entra “All Apologies”,  que encerra o disco e traduz um pouco essas coisas inexplicáveis da vida que sobrevivem de forma poética no nosso inconsciente. É uma música atordoante, e a repetição de Cobain entoando no final All in all is all we are (afinal é tudo o que nós somos) tornou-se algo emblemático e soa quase como um pedido de aceitação pelo o que ele era em sua essência, sem o recorte do sucesso estrondoso ou na falta de intimidade em se sentir parte daquilo.

MTV Unplugged in New York (1998)
MTV Unplugged in New York (1998)

No mesmo ano do lançamento de In Utero, o Nirvana faz um show acústico para a MTV que acabou virando o disco Unplugged, lançado um ano depois. Honestamente, é bem estranho ouvir Kurt Cobain cantar I swear I don’t have a gun em “Come As You Are” tendo na lembrança a tragédia que viria a acontecer alguns meses depois. Fora “Come As You Are”, a única música de Nevermind a entrar o set list, eles ainda tocaram seis covers. Sim, seis. Três deles eram do Meat Puppets, inclusive com a presença dos mesmos no palco. Se a franquia de sucesso da MTV no início dos anos 90 servia para que bandas como Pearl Jam, Stone Temple Pilots e grandes nomes como Eric Clapton se divertissem dando uma nova roupagem à suas músicas, para o Nirvana aquilo soou como uma diversão sarcástica e, conhecendo o histórico do humor de Cobain, quando o assunto eram as grandes franquias, dava para esperar que esse evento teria uma aura, digamos, diferente.

Dave Grohl, Krist Novoselic, Kurt Cobain e Pat Smear
Dave Grohl, Krist Novoselic, Kurt Cobain e Pat Smear

Em um material bônus, dá pra ouvir Kurt dizer “vocês querem me ver tocar ‘In Bloom’?” E tudo fica por isso mesmo. O clima do álbum é estranhamente soturno, mas isso tem mais relação com a força dos fatos que vieram a acontecer depois. Hoje, esse não é um disco que você consiga ouvir por duas vezes num mesmo dia devido a seus momentos de melancolia reflexiva. É louco pensar que esse é um álbum tão intenso mesmo sem trazer os ruídos, o noise, os gritos e toda aquela energia explosiva que sempre foram a marca da banda.

Unplugged ainda traz “Polly”, “Something in the Way” e um dos momentos mais lindos e dolorosos nas versões de “Jesus Doesn’t Want Me for a Sunbeam”, com Krist no acordeão, e em “Where Did You Sleep Last Night”, do Leadbelly, que como mágica, causa um silêncio fúnebre tamanha entrega na interpretação de Kurt.

Alguns produtores pediram que eles fizessem um bis, mas Kurt se recusou e o bis não aconteceu. Talvez ele não tivesse mais nada para dar.

Outros registros também fazem parte da discografia oficial da banda. Entre eles, dois discos gravados ao vivo: From the Muddy Banks of the Wishkah e Live at Reading. O primeiro foi lançado dois anos depois do fim da banda, em 96. O disco é uma coletânea com registros ao vivo,  gravados entre 89 e 94,  e talvez por essa irregularidade não entrega muito a força que a banda tinha ao vivo. Já Live at Reading, lançado em 2009 junto com um DVD, traz um registro à altura da banda. Na época rolava um boato forte do abuso de drogas por parte de Cobain, que estaria debilitado, e isso levaria a banda a cancelar a apresentação. Para ironizar os tablóides, Cobain entrou no palco de cadeira de rodas, fingindo estar debilitado. Ao tentar se levantar da cadeira, ele cai e rola no chão pra reforçar a atuação e com um set list matador, o Nirvana encerrou as apresentações no palco do Reading Festival com maestria.

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A gente sabe que o Nirvana é uma banda cheia de histórias, boatos, causos, contos, encontros e desencontros, mas aqui, pra gente, vale a música e a importância dessa grande banda e a revitalizada que eles deram na música daquele tempo. Honestamente, nossa única pretensão é prestar uma homenagem sincera com tudo o que ouvimos e sobre as diversas formas que nós dois fomos impactados pelas letras, pelo barulho, pela energia e pela empatia que conectava cada nota a nossas vidas.

Em cada garagem ainda há sintomas desse cometa quando o primeiro acorde de “Smells Like Teen Spirit” é conquistado por alguém que sente a emoção de tocar seu próprio instrumento. Entre outras coisas, nisso Cobain deixou sua marca. Kurt Cobain queria ser considerado o maior compositor do mundo? Sim, segundo Dave Grohl. Mas ele ficava de boa com tudo o que isso envolvia? Não. Essas incertezas sempre permeavam a inquieta personalidade de Cobain que, atingido pela urgência do sucesso e a velocidade dos tempos, foi saqueado pela alta exposição e não teve tempo para si. Era como se ele já se sentisse morto antes de partir e sem tempo para viver o próprio luto.

Certa vez, um motorista de limusine que tinha levado Cobain algumas vezes pela chuvosa Seattle comentou: “Era um rapaz legal. Muito quieto. Mas acho que ele sentia muita dor”. De um lado, a sensibilidade de enxergar. De outro a sensibilidade de se deixar ver.

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